Os alunos não são estudantes

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Por: Wilton Carlos de Santana (meu amigo!).

Tenho viajado por algumas cidades brasileiras a convite de universidades. Contratam-me para que eu vá lá, me encontre com os seus alunos e compartilhe idéias sobre futsal e pedagogia do esporte. Na maior parte dos casos trata-se de um curso de extensão, isto é, para alunos de educação física; a outra parte trata-se de um curso de atualização, em nível de especialização, isto é, para alunos que são professores. Tem sido muito boa essa experiência. Tenho a oportunidade de ratificar e de abandonar algumas idéias; os alunos em geral são carinhosos e atentos, envolvem-se com as atividades práticas e realizam anotações. Essas atitudes (de se concentrar, de agir, seja falando e/ou praticando) promovem o diálogo, as trocas, o ensino e o aprendizado de ambos (meu e deles).

Inquieta-me o fato de essa realidade contrastar com outra muito mais próxima de mim: a das minhas aulas cotidianas. Na universidade em que trabalho poucos alunos me dão atenção; poucos perguntam e anotam; poucos lêem o que lhes indico; poucos são carinhosos e atentos; há os que custam a se envolver espontaneamente em aulas práticas; há uma parte que chega atrasada para o início da aula (seja nas duas primeiras ou após o intervalo); há os que, inclusive, respondem à chamada que faço no início de cada aula, se levanta e vai embora. Sempre tenho de chamar a atenção de parte dos meus alunos para que me dêem atenção (seja na sala de aula ou na quadra). Insisto (cada vez menos), para que os meus alunos usem o uniforme quando de aulas práticas que a universidade (e não eu!) lhes obriga a usar.

Pergunto-me o motivo de essas coisas acontecerem. Se acontecesse exclusivamente nas minhas aulas saberia que o problema sou eu. Entretanto, boa parte dos meus colegas se queixa do mesmo.

Talvez as raízes disso estejam num processo educacional de muitos anos. As experiências anteriores ensinaram para boa parte dos nossos alunos a não ser aluna. Falta-lhe postura estudantil. Por conseguinte, trabalhamos com a geração da falta de autonomia. Parte dos meus alunos, para conviver bem, precisa ser vigiada e punida. Com liberdade, responde à chamada e sai da aula, chega atrasada, não participa, não estuda. O sistema de regras de parte dos meus alunos é a de falta de regras (anomia). Por isso, quando sai da sala mais cedo, passa pelos corredores da universidade aos berros e atrapalha os colegas que têm aula; por isso tira nota baixa e joga a responsabilidade no professor; por isso não xeroca o cronograma; por isso não apresenta os trabalhos no dia solicitado; por isso vai para a aula sem uniforme; por isso conversa enquanto falo e quando outros colegas se expressam; por isso não freqüenta a biblioteca; por isso quer negociar a nota final e fugir do exame; por isso procura atalhos para realizar a monografia; por isso cola na prova.

É para parte desses alunos, desinteressada, que trabalho. Entretanto, espero que o curto espaço de tempo compartilhado lhes ensine o que ainda não sabem, isto é, a ser estudantes. Por isso eu critico os que saem da sala mais cedo e passam pelos corredores da universidade aos berros e atrapalham os colegas que têm aula; por isso não assumo a responsabilidade quando tiram nota baixa e querem jogá-la sobre meus ombros; por isso não disponibilizo mais de uma cópia do cronograma para xerox; por isso não aceito seus trabalhos fora do prazo; por isso não deixo fazer aula prática quem está sem uniforme (cada vez menos); por isso lhes chamo a atenção quando conversam uns com os outros enquanto falo e quando seus colegas se expressam; por isso não xeroco o texto que está no livro que está na biblioteca; por isso não negocio a nota final e lhes aplico o exame; por isso não aceito atalhos quando oriento monografias; por isso reprimo a cola.

Boa parte dessas atitudes não me rendeu tapinhas nas costas nesses anos todos de universidade. Não tem problema. Estou acostumado. De outro lado, são essas atitudes que me mantêm interessado em ensinar pedagogia do esporte e praticar educação.

2 comentários:

Anônimo disse...

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mauricio gomespinheiro disse...

Gostei muito dos comentário sobre "Os alunos não são estudantes", muito pertinente para o que é as universidades de hoje em dia, estou em uma idade madura para estudar e um pouco velha para ser estudante, que é de 48 anos, e me sinto a vontade de escrever que você está coberto de razão...o que será destes estudantes na escola...socializar quem...