Pede pra Sair!

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Há algo que não se encaixa no céu de dezembro. Espetáculos natalinos, quando presos a um assistencialismo barato, são apenas contemplações. A fonte no Parque do Ibirapuera, as Luzes de Natal e a Avenida Paulista. Nos valores sutilmente agregados: encenações do Banco Real, do Bando Itaú Personalité, prédios para contemplar. Rua Normandia, Casa do Papai Noel, árvores de natal. Chega um e-mail, dois, três. Doações, doações, doações. E algo se perde de janeiro até novembro, por isso não se encaixa.

Há algo que falta no céu de dezembro. E não é um eu, ou um você, ou um nós. E não o é porque, pensando bem, cada um faz a sua parte com a vida que leva, seja para o bem, seja para o mal. Dialética da alegria e da tristeza, da riqueza e da pobreza, dos sins que deixariam de existir se não fossem pelos nãos, e vice-versa. Chega um e-mail, dois, três. Doações de sentimentos e a certeza de um algo que se perde de janeiro até novembro, por isso que falta.

Falta de um tudo, embora exista um tudo que sobra. Falta educação, embora sobre. Falta renda, embora sobre. Faltam alimentos, embora sobrem. Falta água, falta saneamento, faltam medicamentos, embora sobrem. Falta, falta, falta, sobra, sobra, sobra. Tem gente que sobra em boa-vontade e tem gente que falta. E na desproporção do que falta, e do que sobra, os espetáculos natalinos não resolvem, o sistema de cotas não resolve e por aí vai.. Dose-Certa, Bolsa-Família, PAC, Fome-Zero, Bolsa-Escola, Bolsa-Alimentação, Vale-Gás. E no pouco que é muito, dos 340 programas do Governo Federal, alguns nem vêm a cor das verbas que lhes foram destinadas.

Uma voz no fundo do meu ouvido grita o que todos gritam e já sabem de cor: EDUCAÇÃO! E eu cá estou, na tormenta deste céu de dezembro refletindo se solidariedade também se ensina, se isto é educação ou em qual parte dela deveria conter, entre os sinônimos que daí podem decorrer (e dos quais alguns eu não concordo), as ações sociais. Caridosos todos somos com os nossos, com quem nos interessa etc e tal. E com os outros? Indo à beira, quem educa quem, e para que?

Há uma blasfêmia no céu de dezembro. Há um quê no que se diz, e um quê no que se faz que não convence. Escapa pelos inúmeros atos de boa vontade, mas não convencem. Formas egoístas de filantropia, caridade e assistencialismo. Um espetáculo barato feito para o povo ver, e aplaudir. E o povo vê, e o povo aplaude porque espetáculos são bons de ver, e de aplaudir. Eu gosto de ver bons espetáculos, boas estéticas, boas imagens. Contemplações à miúde, descanso para os olhos, e para a alma.

É aí que eu vejo a incoerência de um céu de dezembro. No céu de dezembro há valores arraigados que me parecem incongruentes. Deixam um vazio para os mais contextualizados. Eu própria estou no vazio. E parece difícil sair dele. A universidade que visa lucro é filantrópica. O grupo de Papais e Mamães Noeis do qual participei no último fim de semana feriram a imagem do bom velhinho, mas doaram doações. E só. Fumaram na frente das crianças. E só. Beberam cerveja na frente das crianças. E só.

- Mãe, Papai Noel bebe? Porque se ele pode, eu também posso.

Há algo de nonsense no céu de dezembro.

Pede pra sair! Pede pra sair!

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