Educação por quilo. Ops, por kit!

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Educação por quilo. Ops, por Kit!


Por Solange Pereira Pinto


- Ah, até que está barato. Tem livro didático muito mais caro por aí, ressaltou o vendedor.

- Mas... Ué, livro de primário agora vem em kit?, questionou Luciana.

- Deve ser moda, né dona! Tem kit pra tudo he he.

- Ah, sei. E, me diz uma coisa, professora tem desconto aqui na livraria?

- Tem sim, de 10% em qualquer livro, menos papelaria e livros didáticos.

- Como assim, qualquer livro se não há desconto para livro didático? Quer dizer que eu posso comprar bíblias com desconto, livros de auto-ajuda com desconto, romances com desconto, mas não posso comprar livros escolares com desconto? Eu não estou lhe entendendo...

- São as ordens, dona. Vai querer os kits do 2º ano? Totalizam R$ 212, sem o material de papelaria. Vai levar? Nossos preços são os melhores do mercado. Viu a lista do Procon?


Luciana hesitou, lembrou-se do kit de carnaval - estalinho, lata de espuma e spray para cabelos -, pediu a conta. Relembrou, ainda, do velho kit primeiros socorros do Código de Trânsito que para nada serviu. Aliás, útil foi para engordar bolsos de empresas que o faziam ou daquelas que revendiam. Havia também o kit sexo, drogas e rock n´roll, o kit ressaca, o kit manicure, kit futebol. Por que não o kit escola? E se fosse não fosse mais uma fajuta educação de A a Z como o fraudulento best seller “Medicina Alternativa de A a Z” (com autor fictício e texto duvidoso)?

Apressada, mais uma vez, “ensacolada”, chegou a tempo para a reunião pedagógica. Lá não se discutia o livro didático a ser adotado. Melhor dizendo, lá não se discutia. Luciana ouvia os blábláblás habituais sobre prazos, freqüência, diários, plano de ensino e conteúdo programático. O mesmo terço. E, ela fazia parte do quorum. Não do comum. Do óbvio.

Professora que era, com mania de ler, em casa abriu os “kits didáticos” ("Editora Construir – Sempre perto de você") que acompanhariam sua filha Lana durante 2008. Abriu-se em gargalhadas de pânico: 19 livros da “NOVA Coleção construindo e aprendendo. Melhor custo-benefício. Melhor aprendizado”, negritado em embalagens lacradas com preço tabelado na capa – “Preço final para todo o território nacional R$ 57,00” – contemplando Matemática, Língua Portuguesa, Geografia e História. Mais os três livros do “kit literatura” (vendido na Livraria Arco-Íris com exclusividade - ? -) seriam 22 livros; isso, porque a escola decidiu não “adotar” o kit de ciências, apenas um livro da coleção CTC, e, ainda, faltava o de inglês.

- Aff!, suspirou.

Para não criticar por impulso, resolveu ler cada obra das autoras Maria Eduarda Noronha, Maria Luíza Soares, os três livros de estória de Patrícia Senna, e um livro anônimo ("elaborado pela coordenação pedagógica da editora").

Claro que houve horror!

A mãe aflita sabia que nem um terço daquela papelada colorida merecia atenção e mais, para uma criança de seis ou sete anos, era papel demais e sabedoria de menos. Dinheiro demais, retorno de menos. Kit demais. É. Demais.

- Hum... São importantes os valores humanos, a ética, a moral e os costumes. O que repugna são os livros impregnados de juízos!, retrucou ao ler: “A Rocinha, no Rio de Janeiro, é cenário modificado – para pior – dos cortiços do início do século XX”. Em outra página: “ligue cada imagem à legenda correspondente: construção do muro de Berlim/ Reunião da Otan/ Tanque de guerra”. - Anh? Desentendeu-se.

Luciana arrepiou-se quase como arrepiaria de terror o carro-alegórico da escola de samba, aquele censurado pelos sionistas e radicais de plantão temendo Hitler na avenida e as fantasias de corpos empilheirados de mortos pelo holocausto (em negação à verdade). A Viradouro não virou campeã e os livros da escola de Lana reviraram Luciana ao avesso e ao absurdo.

- Fazer o quê? Hrumpt!

Abriu o livro de estórias do kit chamado “O tempo certo”, de Patrícia Senna (?), e lá dizia: “você deve ser exatamente aquilo que Deus criou, tanto por dentro quanto por fora. O seu tempo hoje é de ser criança. Aproveite-o e confie em Deus”.

Luciana, atônita, desvirou-se do avesso e arregalando os olhos clamou ao santo google: - Quem são essas autoras e essa editora tão competente em vender livros didáticos?

Tchan! Surpresa! Não conseguiu. A Editora Construir, ao que parece, ainda não construiu seu site. A “Multi Marcas Editoriais Ltda”, detentora dos direitos dos livros, com uma página negra na tela. As “escritoras” dos livros sem lattes, nem rastros.

Melhor dizendo, Luciana não achou um currículo ou perfil das autoras. Apenas encontrou a relação dos kits nas listas de materiais de dezenas de escolas espalhadas pelo país e, principalmente, em Brasília.

- Hum-hum. Por quê?

- “Sem dúvida”, bocejou Luciana pensando: “construindo e aprendendo é um nome chamativo, inclusive dado a um programa destinado a operários da construção civil na Bahia”, kit clichê educacional. Ave!

Etiquetou os livros, empilhou-os sobre a mesa da biblioteca de sua casa, passeou as pupilas pelas estantes para se consolar. Lá estava, esmagadinho entre Edgar Morin e Pierre Bourdieu, “Fomos maus alunos” (de Gilberto Dimenstein e Rubem Alves), citado e sublinhado na página 107 “[...] eu sonho o dia em que se criarão faculdades para ensinar a antiga ignorância [...]” (Lichtenberg).

- Eu também!, gritou Luciana. “E que se comece por falar em livros didáticos e suas escolhas”.

"Um curso para se ensinar as ignorâncias", diziam eles.

Nessa ficaram quites.

1 comentários:

Anônimo disse...

Luciana adorei sua postagem, muitos pais não se preocupam
com os livros didáticos adotados pela escola. Muitas vezes os donos de esolas não sabe nem qual ideologia o livro trás e que querem
repassar aos alunos, se embelezam com a quantidade e não com qualidade.