Aula inaugural sem pirueta? Assim não dá!

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Foto:"Artistas cariocas dançam na bienal de Lyon"

Texto de Solange Pereira Pinto

A primeira aula veio escrita. O professor de sotaque forte começou sua aula lendo a aula. Dizia das boas-vindas ao despreparo estudantil, em geral. Um texto bom. Competente, como diz um amigo. Encantador? Estimulante? Incentivador? Jamais. Texto lido com sotaque numa faculdade particular de semi-periferia é demais. Acredito que ultimamente (ou faz tempo?) alunos gostam de pastores animados. Espetáculos de "Deus". Quanto maior o circo, melhor a aula. Professor sisudo, já era. Sério? Lascou!

“Salta sobre a arquibancada e tomba de nariz, que a moçada vai pedir bis! Que a moçada vai pedir bis!”

A leitura durou uma hora, assim era o combinado. Enquanto isso, a assistência (como o professor chamava a platéia) não assistia. Tinha aluno cochilando. Tinha aluno cochichando. Tinha aluno se coçando. Tinha aluno confabulando. Tinha aluno concordando. Nesse último caso, poucos. A maioria era de pouco caso.

“Rompe a lona, beija as nuvens, tomba de nariz, que os jovens vão pedir bis! Que os jovens vão pedir bis”.

Terminada a apresentação, os aplausos automáticos. A diretora acadêmica encerra a fala e pede aos alunos que se dirijam às salas de aula. Outros aplausos automáticos. Três ou quatro vêm ao meu encontro: “mas professora vai ter aula? ‘Todo mundo’ já foi embora...” Em dias normais, aquele momento, seria o tempo do intervalo. Maneei a cabeça, sorri e disse: “até aula que vem”.

“No intervalo tem cheirim de macarrão e a barriga ronca mais do que um trovão. Quero um prato! Cê tá louco! Quero um pouco! Cê tá chato! Só um pedaço! Cê tá gordo! Eu te mordo! Seu palhaço! Olha o público cansado de esperar, o espetáculo não pode parar”.

Nesse caso, o espetáculo deve parar e “aula que vem” é uma frase muito relativa. Pode ser daqui a pouco ou daqui uma semana, depende da assistência.

“Lona... nuvens...Tomba no hospital / Uma pirueta / Uma cabriola / Uma cambalhota / Não tô bom da bola/ E o pessoal delira... Maxipirulito... Ultravioleta...Bravo, bravo!”

Lá se foi a aula inagural. Na lona. Numa espiadela ouço “esses alunos são mal acostumados. Deveriam aprender a ouvir. Sentar a bunda na cadeira e escutar, prestar atenção. Isso é um absurdo, abuso. Lá na França as aulas são lidas, é o método europeu. Agora, chega aqui,vem um professor-doutor dar uma aula e quase ninguém escuta? Estão mesmo despreparados. Imagine numa conferência se...”

“Salta além da atmosfera e cai onde cair, que a galera morre de rir! Que a galera morre de rir”.

Subi as escadas até a biblioteca pensando no quanto eu era palhaça. Ou, o quanto não sei não ser. Contudo, ao certo, o que eu ainda não sei é sobre a quantidade de piruetas que dou ou quantas vezes caio de nariz. Lembrei de uma colega, na graduação, que passava a aula inteira lixando as unhas. Um dia perguntei que mania era aquela e Fabiana respondeu: “assim eu escuto melhor”. Imaginei quantas vezes cada professor-mestre-doutor injuriou mentalmente àquela aluna. Cada um com seu cada qual. Mas que a aula inaugural merece piruetas, ah! Isso merece.

“Uma pirueta... Duas piruetas... Bravo, bravo... Superpiruetas... Ultrapiruetas... Bravo, bravo”

2 comentários:

Fernanda disse...

E é tão fácil, né? É só mandar por e-mail, a aula inaugural... e cada um com seu cada qual.

neo-orkuteiro disse...

Gostei muito deste blog, verdadeira descoberta.
Deu gosto ler sobre as piruetas e a aula inaugural, com direito ao fundo musical que a memoria fez soar, pelos ouvidos internos.