Professor ensina beijo brasileiro em universidade no Japão

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Pelo jeito a docência brasileira serve para alguma coisa mais prazerosa, porém ainda existe a dificuldade em aceitar questionamentos...
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Daisuke Onuki, que morou 13 anos no Brasil, é professor da universidade Tokai.

Hoje os brasileiros 'comemoram' o Dia do Beijo

Uma vez por ano o professor Daisuke Onuki dá uma aula inusitada na universidade Tokai, em Kanagawa, perto de Tóquio: ele ensina seus alunos a beijar como os brasileiros. Homem sério, pai de três filhos, Onuki não está para brincadeira. Ela pega as alunas -e os alunos também-, abraça e tasca um beijo no rosto, para demonstrar como fazem os brasileiros para se cumprimentar. Tudo muito profissional. Tudo muito acadêmico. Onuki é professor de relações internacionais da Tokai. Sua especialidade é falar sobre a cooperação entre os países, curso em que ele prepara os estudantes para trabalhar no exterior.

"Decidi começar o curso mostrando as diferenças culturais entre países tão diversos como o Japão, a Alemanha e o Brasil", afirmou o professor ao G1 em bom português, em entrevista por telefone, na qual ficou em evidência seu forte sotaque, mesmo após 13 anos morando entre São Paulo e Fortaleza. E nada melhor do que testarmos os diferentes tipos de cumprimentos (o beijo brasileiro, a reverência japonesa e o aperto de mão europeu) para começar o mergulho nessas culturas."

Agora que você sabe o que faz o professor Onuki, imagine a cena: uma sala de aula com dezenas de jovens japoneses supertímidos e reservados com a missão de se abraçar e se beijar. A brasileira Luciana Trajano já participou desta experiência. "A reação deles é engraçada. Eles ficam dando risadinhas acanhadas e têm dificuldade para se abraçar, como fazemos normalmente no Brasil", conta. Mas a dificuldade aparece dos dois lados, afirma a brasileira. "Na hora de fazer a reverência japonesa eu percebi que isso não é algo natural e fácil como pensava que seria. A falta de jeito deles também era a minha."

Sabedoria japonesa

Sabedor destas dificuldades comportamentais, mestre Onuki explica o conceito por trás de suas aulas na universidade. "Tento expandir o mundo desses alunos. Mostrar outras formas de pensar, agir e se relacionar." Mas e a vergonha dos japoneses ao beijar e a falta de jeito dos brasileiros ao fazer a reverência? "É justamente isso que torna a atividade gostosa. Todos ficam meio assim, alterados, dão risadas como se estivessem sentindo cócegas.

Beijo coletivo

Onuki já deu a aula de beijo, abraço, aperto de mão e reverência para centenas de pessoas, no Brasil, no Japão e na Alemanha. Certa vez tinha 800 alunos na mesma sala. "O número de participantes não interfere. Mas tive dificuldades com os alemães, que são muito questionadores e ficavam perguntando o motivo da atividade. Isso é ruim porque corta o barato e o dinamismo da aula. Já os japoneses são obedientes e, mesmo envergonhados, abraçam e beijam quando eu peço."

A idéia da aula surgiu após Onuki morar no Brasil. Entre 1988 e 2006 ele passou três longas temporadas em São Paulo e Fortaleza, interrompidas por idas e voltas ao Japão. Foi aqui que ele se casou, teve filhos e aprendeu a beijar como os nativos. "Em São Paulo se beija uma vez no rosto para cumprimentar. No Rio, duas, porque os jovens solteiros aproveitam para beijar mais", brinca o professor, ressaltando que os hábitos de um país ainda encontram diferenças regionais.


O jeitinho brasileiro

Onuki explica aos seus alunos que o cumprimento brasileiro estimula o contato físico e o "olho no olho". "Quanto tocamos um no outro, gerando o tal do calor humano, nosso cérebro produz uma substância chamada oxitocina, a mesma que aparece para as mulheres na hora da amamentação. A oxitocina nos deixa calmos, relaxados e confiantes (obs. pelo visto tão confiantes que não precisamos ir atrás de tecnologias e desenvolvimento...) É o oposto da adrenalina, que nos prepara para correr e brigar, por exemplo (e quem já viveu bomba nuclear bem sabe o que é adrenalina...)"

No Japão, conta o professor, "vivemos distantes uns dos outros, e dificilmente tocamos no outro". "Há poucos anos era quase impossível ver jovens se beijando na boca e trocando carícias em público no Japão, mesmo em Tóquio. Hoje em dia ainda é raro, mas já acontece."

A tradição japonesa

A reverência feita pelos japoneses ao se cumprimentarem guarda mais complexidade do que um brasileiro pode pensar. "Ao abaixar a cabeça o japonês está demonstrando humildade em relação ao outro, mas também tentando sentir o outro. É apenas um segundo reclinado, mas significa muito." Veja como o professor descreve a reverência em suas palestras: "Este cumprimento, quando é feito com muita atenção no que se passa, traz uma sensação como se algo dentro de si saísse e se entendesse -provavelmente partindo do topo da cabeça- e fosse flutuando na direção do outro, para sentir o outro."

Em japonês, prossegue Onuki, quando sentimos o outro invisível nós falamos que sentimos o "ki", que ele descreve como "uma função do coração com que percebemos o mundo externo e comprendemos a relação entre o mundo externo e eu -a consciência". E com os olhos fechados fica mais fácil sentir o "ki", diz o professor. Entendeu? Mas para fazer a reverência, na prática, ainda é necessário "reprimir os sentidos comuns", explica Onuki. "Os brasileiros e os alemães não fazem direito: eles levantam a cabeça antes da hora."

O jeitão europeu Por fim, vem o aperto de mão europeu -"firme, muito firme", ensina Onuki. "É uma saudação forte, que demonstra uma espécie de confronto. Olhos nos olhos, um enfrentando e respeitando o outro." Depois de muitas aulas na universidade Tokai, o professor Onuki chegou a uma conclusão: "os japoneses gostam mais do beijo brasileiro do que do aperto de mão alemão."

por Fabio Schivartche - http://g1.globo.com/
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