uma palestra em Labúmbia

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UMA PALESTRA EM LABÚMBIA
por Ricardo Régener, estudante de Jornalismo da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo ECA/USP [meu amigo, um cara do qual sou fã!]

Uma hora depois do tempo marcado para o início do evento, o digníssimo orador toma o microfone e anuncia o principiar da palestra da noite na Universidade de Labúmbia:

Excelentíssimo Senhor Professor Doutor Toluste Macabonde, Excelentíssimo Senhor Professor Doutor Emérito Lombardis Zenon, Excelentíssima Senhora Professora Doutora Emérita iupi-iupi-é-pique-é-pique-é-pique Fulgura Falontis (fogos de artifício são soltos no exterior do prédio), Excelentíssimo-e-Resplandecente Professor Doutor Emérito Fundador da Ciência Ludwig Avestrusi. Caros senhores, senhoras, senhoritas e outros ainda menos dignos presentes neste auditório: Boa Noite!

Reunimo-nos nesta noite, sob a magnífica benção do Magnífico Reitor da Magnífica Universidade de Labúmbia, para celebrarmos conjuntamente não nossa humilde comunhão, nem a lua, nem o sol, nem as estrelas do céu, mas as estrelas da terra, com efeito, a Divulgação Cientifíca. Reunimo-nos aqui para reconhecer e reverenciar a labuta árdua de décadas desses titãs que, a preço de horas e horas em seus laboratórios, em ambientes opressores e em conversas inúteis, têm disseminado suas palavras habilidosas e feito a Ciência chegar aos lugares aonde jamais imaginou-se que esta chegaria. Com a autoridade da erudição que me é natural, afirmo-vos que nem mesmo em toda a Grécia Socrática, nem em Tiro e Sidom, nem nas grandes Feiras de Ciências de José Reis, observou-se uma disseminação científica tão eficiente quanto o que temos visto em nossos dias. Levantai vossos olhos para os campos e vede: até mesmo às traças que corroem a madeira é anunciado o conhecimento modificador, e aos ácaros e ratos outrora resignados a posições pouco dignas nessa sociedade científica é dado a conhecer toda a poesia, graça e conhecimento que há em vossas publicações.

No demais, antes de passar a palavra ao palestrante da noite - que por estar encarcerado nas hostis vias públicas dessa Pólis, não conseguira chegar até esse exato momento - a saber, o Nobolíssimo-e-digno-de-louvor Professor Doutor Emeritíssimo-Eterno-e-Supremo Julius Crepique, (agora volte no início da oração para procurar o sujeito), gostaria de finalizar dignamente minha participação nessa palestra: que mais importa? Afinal? Se somos bons como somos, reconhecidamente reconhecidos como reconhecidamente somos, em tudo superiores e muito requisitados por toda a Labúmbia, se até mesmo do túmulo a comunidade científica dobra-se à nossa respeitosa obra. Por que não fazermos pleno usufruto daquele espaço que nos foi confiado nessa reconhecida instituição de ensino? Por que não ocupar-nos com todos os nossos interess.., digo, ideais? Merecemos! Já temos feito um trabalho muito útil para essa gloriosa Instituição. A Mãe Labúmbia precisa recompensar de alguma maneira o ego dos filhos que dão a ela a grandeza que tem, nada fazemos além de alimentar-mo-nos nas tetas maternas. Nada mais a nós importa: nem a ética, nem o respeito, nem o cumprimento da promessa, nem a dignidade, nem a justiça, nem o público, nem a racionalidade, nem a escolha inteligente, tampouco nosso objeto de estudo. Apenas a nossa grandeza, apenas a grandeza do nosso conhecimento, apenas a grandeza da Labúmbia.

Soam os aplausos, o orador emocionado passa a palavra ao palestrante:

Boa noite senhores! Boa palestra.

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Textos sobre Labúmbia (um país fictício criado pelo Prof. José Reis) foram publicados no "Ciência, Poesia e Outros Caminhos", pelo Núcleo José Reis, e podem ser adquiridos por telefone. A Universidade de Labúmbia trata-se de uma sátira ao burocratismo, academicismo e a vaidade na universidade.

1 comentários:

Wma Toraya disse...

brilhante!