PROFESSOR CRISPIM

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O ofício de professar, para mim, veio justo nos vinte e três. Faculdade foi apenas uma escola grande e se vi diferença entre ela e o colégio onde passei dez anos, foi por conta de alguns poucos professores. Eles, sim, colocaram lá no meu dentro toda a idéia do conhecimento, da pesquisa e de como fazer o aprendido fluir de mim, quando eu estivesse frente a alunos, numa sala de aula que não fosse cenário para um estágio qualquer.

Saí do grande prédio onde se podia cabular aula sem ser repreendido e logo me enfiei na labuta. Comecei com leveza, poucas aulas, mas em ambiente que exigia um certo molejo, uma boa dose de bom humor e mais de aprender do que de propriamente ensinar.

Todos os dias, andava 30 quilômetros numa kombi modelo anos 70, para chegar a um vilarejo da zona rural do município onde moro. Lá, as primeiras experiências com aulas me convidavam a ser falante e correta, em fazer tal e qual o manual da faculdade me ensinara e alunos – alguns mais velhos que eu, longe da escola por anos a fio e outros mais meninos, que freqüentavam o estabelecimento pela merenda e não tanto pelo aprendizado – me olhavam, pensando do que seria capaz aquela criatura cabeluda, carregando uma enorme mochila nas costas e livros e cadernos nas mãos.

Na primeira aula, dividi o quadro, conforme me havia ensinado a professora de Didática e Estrutura do Ensino, escrevi com letra formosa e legível, conforme havia me ensinado a professora de psicologia da educação, falei claro e com boa dicção, conforme havia me ensinado o professor de fonologia e fonética e enchi o quadro de gramática pura conforme havia me ensinado o professor de Língua Portuguesa VIII. Achei tudo de um brilho esplendoroso. Silêncio sepulcral e eu crendo ser isso o indício de um grande sucesso.

Havia um moleque pequenino, mas de idade maior que a maioria dos garotos de sua estatura. Uma cabeça em exagero que ostentava um rosto esquelético, de olhos saltados, os lábios grossos e um largo sorriso, por meio do qual se escancarava, sem pudor algum, um único dente superior, alvo e solitário em meio ao oceano de gengivas. O sujeito me chamou a atenção, pois o par de olhos incrustados naquele rosto serelepe, não me abandonou um segundo sequer e pensei mesmo em um aluno brilhante, capaz de repetir toda a leréia sobre o substantivo e sua classificação com a qual eu havia preenchido todas as quatro partes do quadro milimetricamente riscado de giz colorido (Ah, pobres alunos da minha fase inicial! Perdoem-me, se acharem que eu mereço!).

Terminada a explanação sobre o primeiro assunto – muito interessante e significativo – no meu julgamento e apenas nele, aventei de perguntar se havia dúvida. Não me sentia confortável o bastante para responder a perguntas que porventura brotassem da curiosidade provocada pelo excitante tema por mim apresentado, porém, de acordo com o aprendido no curso de letras, não poderia jamais me esquivar de saber se o que eu havia ensinado fora realmente assimilado. Então, ei-lo levantando-se da carteira e agigantando-se de me meter medo. Quando vi o pequeno, movendo os lábios, logo pensei em desmaiar, sair num arroubo e no outro dia, talvez, explicar com desculpa muito das bem arranjadas, ou simplesmente nunca mais voltar ali. Seus lábios se fecharam na primeira sílaba, veio na seqüência, a próxima e, então, o quadro era irreversível. Ele que tanto me olhara, me dissecara, me colocara indefesa e desprotegida diante de seus fulminantes olhos de jabuticaba bitela, articulou palavra por palavra e eu, suor escorrendo pela testa, pensava se conseguiria responder, pois partindo daquele observador impiedoso, só poderia vir questionamento de muito valor, carga pesada para uma professorinha ainda na casa dos vinte, na sua primeira aula fora do cenário do estágio.

Finalmente, ele destrinçou e daquele conjunto de lábios carnudos e dente solitário, pensei que ouviria ameaçadora questão, porém:

─ Fessora, o que a senhora perguntou?

Uff! Alívio! Pausa para ar novo no pulmão, mas não me deixei enganar. Ele havia ganhado alguns preciosos segundos para dirigir-me pergunta mais escalafobética, aquela que me colocaria frente à minha real ignorância.

─ Como é seu nome? ─ Aproveitei para respirar melhor, ainda que engolisse em seco e fingisse uma tosse totalmente sem procedência.

─ Crispim, fessora.

─ Então, Crispim. Perguntei se alguém tinha alguma dúvida.

─ Eu tenho, fessora.

─ Pois não, pode falar! ─ Ai, meu Deus! Agora, tudo ou nada! Que Crispim me glorificasse ou me fizesse entender de vez que aquele não era mesmo o meu caminho. Quem sabe eu largava mão dessa história, parasse de teimar em ser professora, mesmo praticando o ofício desde a ficção vivida ali pelos oito anos, quando – em tardes fagueiras, debaixo do pé de chuchu, do quintal da casa onde morava – em vez de casinha, eu brincava de escola e minhas pobres bonecas tinham que saber de cor as lições e cumprir todas suas tarefas de copiar do quadro verde o que eu escrevia. No fundo, eu só queria que ele pusesse logo um fim àquela agonia.

─ Fessora, o que é dúvida?

Quase escorri pelo chão, ao desmontar-me feito um saco quando lhe tiram as batatas. A pergunta de Crispim nunca saiu da minha cabeça e até hoje penso no quanto, nesse dia, ele me ensinou.

5 comentários:

Rafael Abreu disse...

Nossa... estou vivendo algo parecido.. nunca quis dar aula... mas fiz biologia... e tudo tah me levando para esse caminho... bom saber q existe vida dentro da sala de aula... rssss abraços!

Iara disse...

Vc nem imagina o quanto, Rafael!
Vida que emociona e faz a gente lamentar, sorrir, vibrar, resmungar, sofrer, alegrar-se, tudo ao mesmo tempo. Ainda vou contar mais histórias e vc preceberá um pouco de tudo isso.
Sucesso pra vc|!!!

Ana disse...

Iara,
A cada momento que passa aprendo mais com você esse ofício. Seja na aula, na internet ou até na academia você é mestra.
Obrigada.
Abraços!

Iara disse...

Ei, Ana
Que mestra que nada! São só experiências e elas devem servir ao menos para nos permitir fazer escolhas. A sala de aula foi uma delas e não me arrependo nenhum um pouco. Logo virão mais histórias!
Obrigada por seu carinho!

Beijos

Wma Toraya disse...

maravilhoso texto! parabéns! bjs