Abaixo o hábito de ler!

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Por Solange Pereira Pinto (escritora, professora e arte-educadora)





A escola da minha filha tem um programa de leitura chamado ciranda do livro. O objetivo é que cada criança pegue uma obra para ler no fim de semana e faça, na apostila encadernada em espiral, uma atividade pré-determinada (desenhar uma passagem, escolher um personagem favorito, ilustrar a idéia principal, fazer um breve resumo etc.).

Imagino que nem todos os alunos façam a tarefa de bom grado. No início a escola tentou uma competição: a criança que pegasse mais livros na biblioteca ganharia um prêmio ao término do período X. Minha filha logo chiou: “mamãe, assim não vale. Tá muito chata essa história de quem lê mais. Tem gente que só pega livrinho fininho e com muita figura pra ler rápido e pegar outro. Eu que escolhi pelo título, por que achei interessante a história, vou perder. O meu livro é muito mais grosso que os outros!”, choramingou.

Tinha ela razão. Vencer a competição era o objetivo das crianças sob o pretexto da escola de formar o hábito da leitura e quiçá cidadãos do futuro. Nesse meio tempo, crítica daqui, chororô acolá, ficou difícil para a professora lidar com a manobra “pedagógica”, deslindada pela pequena estudante.

O projeto competitivo saiu de cena e a apostila em espiral continuou seu trajeto, às sextas-feiras, mochila adentro; só que agora sem a pressão de se ser o primeiro lugar no ranking de “leituras lidas”. Algumas crianças ficaram aliviadas. Alguns pais também. Ufa!

Chegado o dia de mais uma escolha, minha menina, que se chama Ana (Luísa) optou por pegar um livro chamado Ana e Ana, segundo as palavras dela “achei pela capa que podia ser interessante”. E era. Aliás, é!

O livro de Célia Godoy, ilustrado divinamente por Fé, narra a história das gêmeas Ana Carolina e Ana Beatriz, que idênticas na aparência tentavam se distinguir por cores, roupas, adereços, ainda que “por dentro” fossem bem diferentes nos gostos e afinidades com o mundo. Cresceram e cada uma tomou um rumo, até que...

Até que eu parei para pensar se a leitura é um “hábito-ato” possível de se formar em alguém. Sendo professora há algum tempo e exatamente na área de produção de textos, leitura e interpretação, recordei das principais dificuldades e justificativas dos meus alunos quando perguntados sobre o tal, difundido, alardeado: hábito de ler!

Em geral, se apontam desconcentração, sono, preguiça, falta de exemplos familiares, ausência de livros em casa, dificuldade de entendimento, cansaço, visão embaralhada, e, principalmente, falta de tempo! Questionados sobre este último item, respondem: “ah, professora tem muita coisa melhor a fazer do que ler, como ver TV, praticar esportes, sexo, passear, navegar pela internet...”.

“– Mas céus! Vocês não gostam de ler nada?”, re-interrogo.
“– Também não é assim. A gente lê sobre o que gosta ou sobre o que precisa”.

Se tempo é uma questão de prioridade, e nele a gente ocupa primeiro o que dá prazer ou necessita, aonde entra o esforço pedagógico de formar o hábito de ler? Creio que na vala comum.

Diz o companheiro Houaiss que hábito é “maneira usual de ser, fazer, sentir, individual ou coletivamente; costume, regra, modo, maneira permanente ou freqüente, regular ou esperada de agir, sentir, comportar-se; mania”.

Ora, formar o hábito de ler para quê?

Em certa medida, quem tem uma formação escolar considerada razoável (sei lá o que isso significa) lê o que lhe atrai. Jornais, almanaques, cadernos de esporte, revistas semanais, publicações de fofocas etc, estão pelas esquinas e bem amassadas, indicando que mãos e olhos passaram por ali.

E daí?

Nada!

O hábito de ler, melhor formulando, a prática de ler não significa em essência nada. O costume de ler pode ser um desábito de adquirir conhecimento. Entrar no piloto automático da leitura não traz por si só transformação.

Se ler é um dos caminhos para se chegar ao conhecimento de determinado fenômeno, idéia, verdade, ler por ler é no máximo chegar à aquisição de dados brutos e informações superficiais, massificadas, deglutidas por seus autores para todos.

Hoje deveríamos por em pauta, conclamar, não o desgastado hábito de ler, mas sim o hábito de pensar, o hábito de querer saber, o hábito de ser curioso. Se os próprios considerados – pelos professores – não-leitores admitem ler o que lhes interessa, óbvio seria despertar antes a vontade de conhecer. Ler, por hábito, deveria deixar de ser regra de conduta apregoada pelas escolas. Transformar o pensamento e ampliá-lo por desejo, deveria ser a etiqueta.

Ler é mera conseqüência. A causa é querer sair do lugar-comum, voar sem tirar o pé do chão, pensar para existir... Meu hábito maior é “Ser” e por isso eu leio muito. Dessa forma, vou me desabituando de mim para me habituar às minhas releituras...





(Tirinha criada especialmente para este texto por minha amiga Creisi - veja outras tirinhas aqui)

5 comentários:

Iara disse...

"...pensar para existir... Meu hábito maior é “Ser” e por isso eu leio muito..."

Fantástica essa afirmação, Wma.
Já dizia Ruth Rocha ou Ana Maria Machado, que hábito pode ir bem com escovar os dentes, tomar banho, etc, mas não com leitura. Leitura é gosto, é desejo. Creio que quando se deseja algo, ao término, ficam marcas, boas marcas.
Obrigada pelo parecer sobre o Professor Crispim. Logo, logo postarei outra história.

Grande abraço!

Wma Toraya disse...

Oi, Iara!!
Pois é... hábito é uma coisa automática demais para o meu gosto.. hehe... prefiro o tesão, o desejo... e coloque sim outra história, adorei o seu estilo!
bj grande!

Wma Toraya

Iara disse...

Agora que você acrescentou a tirinha, eu pensei mais e cheguei à conclusão de que a escola também tem que, de alguma forma, independente dos que vão gostar da atividade de leitura ou não, oferecê-la. O que não se pode é dar à atividade a dimensão de hábito, obrigação, quando o ideal é, por meio dela, despertar o desejo pela leitura. Para isso, temos que lançar mão de alguns recursos e apresentar os livros aos alunos é um deles. A idéia da competição não me agrada, mas deixar o aluno escolher livros (na medida do possível pois em algumas realidades, nem há o que escolher)e dar a ele um tempo para lê-lo ainda vale, se o que vier após, fruto da criatividade do professor e das condições da escola, cumprir seu papel de envolver o leitor.

Wma Toraya disse...

Oi, Iara!

O difícil, creio, é a criatividade do professor hehe. Anda muito em baixa nestes tempos conteudistas-capitalistas-consumistas. O negócio é quantidade e rapidez. E fica tudo um pouco descontextualizado. As crianças sofrem. Acho sim que os livros devem estar à mostra, ao alcance, assim como eu os tive (na minha casa as estantes de livros eram baixas e o livro nunca foi proibido ou sagrado para crianças). O que eu critico é o hábito por si.
beijos!
obrigda pela nova visita! inté

Iara disse...

É, Wma. Nisso eu concordo com você e, infelizmente, devo acrescentar que não é só o fato de a critivadade do professor ser difícil. Na maiora dos casos, todos somos criativos, mas alguns colegas preferem deixar de lado o senso crítico e apenas executar propostas sugeridas pelas editoras ou, atividades que não requeiram muito desdobramento.
"...Quantidade e rapidez..." nos levam à linearidade e isso nem sempre combina com criatividade. Para alguns, ser criativo dá trabalho. Hehehehehe!
Grande abraço!