Avaliação não é ameaça

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"A escola que fazia o estudante aprender para passar nas provas agora
ensina para ela mesma ser aprovada"
Luis Carlos de Menezes

As provas devem servir para acompanhar o processo de aprendizagem do
aluno, e nunca ser temidas como sentenças

Julgamentos e estimativas são sempre necessários. Um simples olhar
avalia uma vaga de estacionamento ou a deselegância de um gesto. Uma
rápida operação mede a pressão arterial ou verifica o saldo bancário.
Somente a análise complexa, no entanto, diagnostica um paciente ou uma
grande organização. Avaliações educacionais, por sua vez, verificam
habilidades de alunos e o desempenho de redes escolares. Os objetivos,
nesse caso, são tão diferentes quanto os de exames médicos que
orientam tratamentos ou de provas para certificar profissionais e
classificar serviços.

As avaliações mais importantes são as que orientam o ensino,
integradas ao processo de aprendizagem, e não simples provas
periódicas. Ao propor uma gincana em que as crianças escrevam bilhetes
anônimos e numerados, com instruções para ações dos colegas, a
professora que acaba de assumir uma turma desenvolve uma boa
socialização enquanto verifica as competências de ler e escrever de
cada um. Atividades desse tipo, da Educação Infantil ao Ensino Médio,
revelam mais do que provas. Porém, o uso delas é tão raro quanto o de
diagnósticos iniciais. O resultado disso é que, às vezes, expectativas
de aprendizagem equivocadas somente são percebidas quando já é tarde
demais.

Quando as turmas são grandes, em vez de levar pilhas de trabalhos para
corrigir (e às pressas, pois a vida é curta), é melhor o professor
instruir os estudantes para que se auto-avaliem em atividades de
classe ou de casa. Sabendo contornar possíveis limitações, a escola
pode orientar as famílias para se tornarem parceiras no processo,
mostrando os objetivos das etapas do ensino e o que será verificado em
provas parciais. As finais ganham a função de confirmar e certificar o
trabalho, mas insucessos põem em questão a própria escola.

A qualidade da Educação deve ser aferida, e as provas gerais têm esse
papel, nem sempre bem interpretado. Classificar escolas lembra "coisa
de mercado" e, como provocação, eu diria que a escola que fazia o
estudante aprender só para tirar boas notas nas provas - como alguém
que cuida da saúde só para passar no exame médico - agora também
ensina para ela mesma ser aprovada.

Avaliações como a Prova Brasil permitem planejar o aperfeiçoamento de
escolas e redes. Já o Exame Nacional do Ensino Médio, o Enem, foi
concebido para que cada jovem, ao fim da Educação Básica, possa
mostrar as competências adquiridas para se expressar, compreender,
intervir, argumentar e propor, mas também pode servir para apontar a
uma escola como está o desempenho médio dos estudantes.

Cabe a esses exames orientar, e nunca "carimbar" uma instituição - e é
bom evitar comparações absolutas entre escolas e professores atuando
em situações diversas. A sociedade e o Estado precisam saber que quem
trabalha em condições difíceis e com público carente está na
trincheira da eqüidade social e do desenvolvimento, sendo assim a
vanguarda - não a retaguarda da Educação.

Em síntese, em quaisquer circunstâncias, avaliações são meio ou
confirmação de nosso trabalho, nunca sua razão de ser. Assim, devem
ser vistas como recursos para aprender e ensinar melhor, nunca temidas
como sentenças, nem pelo aluno nem por nós.

Luis Carlos de Menezes
Físico e educador da Universidade de São Paulo, sabe que a avaliação é
um recurso insubstituível do professor.

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