5.5.09

CTRL C E CTRL V - copie e cole sem culpa!

Você já deve ter ouvido a polêmica adaptação à frase de Lavoisier: “Nada se cria, tudo se copia”. E que tal essa: “Nada se cria, tudo se baixa”? Pois bem, o assunto é mais delicado do que parece: envolve ética, direitos autorais, pirataria e, em algumas ocasiões, pode até configurar crime instituído por lei.

O problema é que desde o modelo de produção em massa inaugurado por Henry Ford, que revolucionou a indústria automobilística na primeira metade do século XX, ficou difícil distinguir o original da cópia. Desde então o burburinho nunca mais se calou:

- Deixem que se reproduza em série! E viva a democratização da obra de arte! (exalta-se Walter Benjamin, em seu lendário ensaio “A Obra de Arte na Era de sua Reprodutibilidade Técnica”, 1985).

- Sei não... A racionalização da produção é ferramenta e álibi do grande capital. Estamos presenciando a tão insensata queda da “aura”... (lamenta-se Theodor Adorno, em seu artigo intitulado “A Indústria Cultural”, 1986).

Silêncio, por favor. Deixem as conversas paralelas e nos voltemos ao tema central desta aula: “Ctrl C - Ctrl V: por um roubo que é pura criação”. Quem nunca executou o famoso “copia e cola” para um fim bastante justificável que atire a primeira pedra...

Opa!!! Mãos ao alto!!! Peguei você no flagra...

Não se trata de se apropriar deliberadamente de um pensamento alheio. Muito menos de aposentar os neurônios e fazer download de um Google qualquer. Se você faz isso, um “z-e-r-o” bem redondo é o que merece. Existem colas e colas... Umas admissíveis, outras nem tanto. Convenhamos: algumas tantas, mega recomendáveis!!!

A questão é a seguinte: se você se sente um foragido da polícia por apenas operar um Ctrl C - Ctrl V inocente, chega de culpa! E assuma o ato com escrúpulos.

Vamos por partes...




“O Ângelus”, de Jean-François Millet (1859)
“Reminiscência Arqueológica d'O Ângelus
de Millet”, de Salvador Dalí (1935) Você conhece a emblemática fórmula: “Os fins justificam os meios”? Pois então. Se a intenção for das melhores, não há porque abandonar tudo o que já foi patenteado pela humanidade... As informações estão aí, justamente para gerar o novo conhecimento. O segredo está em acionar o radar seletivo sobre as mais diversas redes de dados e se lançar às conexões!

Agora, em qualquer ambiente em que quantidade vale mais que qualidade, há muita porcaria. É natural. Mas não para você, caro inventor, que não vai cair nesta, vai? Intenções maquiavélicas de lado, basta reunir relíquias do conhecimento (copiar mesmo...) e adotar um fim que seja pura criação. Afinal, se estiver atento, vai saber trafegar com precisão pelo fluxo informacional disponível e dele sacar uma obra explicitamente autoral. A digital é sua.

Por um roubo poético

O recurso é semelhante ao de um processo de montagem cinematográfica. Aqui, são capturados e eleitos os melhores planos para a disposição em série. Acopla-se áudio, trilha sonora e efeitos sobre os cortes. Tudo meticulosamente harmonizado. Os encaixes são precisos. Agora, se você acha que a colagem cinematográfica é aleatória, engano seu. Vale aqui um largo repertório de inspirações, cenas que são rigidamente espelhadas, ou melhor, copiadas de obras anteriores. Verdadeiros flagras da grande arte. E nisso, não há mal algum. Desde que se alimente com os próprios polegares a reinvenção.

Pedro Almodóvar que o diga, no livro “Grandes Diretores de Cinema”, de Laurent Tirard: “Tomar emprestado é um equívoco, para mim, só o roubo é plenamente justificável”. Se o cineasta espanhol autorizou, então vamos ao que interessa: é hora de treinar a mão leve! É Ctrl C - Ctrl V, mas façam-no com boa fé.

Os alquimistas estão chegando...

Se você é também um alquimista da criação, chegue mais e teste a sua hipótese. Em primeiro lugar, observe. Investigue. Pesquise. Há diversos sites de busca, bibliotecas virtuais, livros para download... Capture as informações necessárias e as conserve em ambiente fresco e arejado (em qualquer compartimento de sua memória, lógico! Ou... faça uso de breves anotações). Depois, com a ajuda de tubos de ensaios, pipetas, buretas etc., deposite as tais substâncias (= dados coletados) e as deixe reagir. Da captura fiel do que já existe disponível em rede, você cria a sua própria alquimia. Seja implacável, mas imparcial na interpretação dos resultados. O público é o seu medidor... Espectadores, leitores e usuários de todo o planeta! Preparem-se para comprovar a hipótese: digam lá... A invenção é pra lá de autêntica!

Amigos e amigas, façamos a invenção na web! Com classe.

Utilizar-se dos múltiplos estímulos e informações que a Internet lhe oferece para criar uma legítima obra autoral pode ser uma alternativa bastante louvável. Sobretudo, se produzir autenticidades é a sua... Basta domínio técnico, uma boa dose de criatividade e mãos à obra. Destrua paradigmas e esteja aberto a novas tendências. Reinvente-se o tempo inteiro. Assuma como suas, partes de histórias que até então não lhe pertenciam - e construa o seu próprio caminho.

Bom, agora que ensinamos a “roubar”, vamos ao segundo passo do plano: tome as peças de outros e empreste a sua versão crítica à criação! Gerar conhecimento é sua responsabilidade. E não apenas do educador. As novas mídias são participativas, fique ligado.

A voz da experiência: Carlos Nepomuceno

Segundo Carlos Nepomuceno, professor e consultor de planejamento estratégico de informação, o aluno que apenas copia, sem estabelecer uma relação crítica com o que lhe é questionado, talvez não esteja sendo estimulado a interpretar. O estudante reconhece os signos, mas não os seus significados, nem o encaixe entre eles.

- O problema não está na cópia, talvez esta seja uma resposta inteligente para uma pergunta burra. Os alunos não sabem interpretar porque não são estimulados. Essa geração y, a que tem a internet desde que nasceu, tem facilidade de mexer com tecnologia, mas uma incapacidade de trabalhar conceitos consistentes.


Fonte: Conexão Professor

A sala de aula se expandiu, e agora?




Desde Alexandria, o sonho da biblioteca universal faz parte da imaginação ocidental. A ambição de uma biblioteca que reunisse todos os textos e todos os livros levou a uma intensa frustração. Com o texto eletrônico, a biblioteca universal se torna imaginável. E com ela todas as transformações do ensino. Frente ao sucesso do MSN e do Orkut, entre jovens e adultos, como os professores devem se posicionar? Como será a sala de aula do futuro? Se um cidadão do século passado nos fizesse uma visita, ele diria que a sala de aula mudou?

Para o consultor de planejamento estratégico de informação e professor, Carlos Nepomuceno, a resposta seria não. “Tivemos o Paulo Freire e o Anísio Teixeira que tentaram criar uma escola diferenciada. Mas basicamente, a escola é a mesma desde 1700. Os professores veem as novas tendências e dizem que a escola sempre foi isso e não é agora que vai mudar”.




Carlos Nepomuceno
Foto de: Vanor Correia Para contrapor a opinião do consultor, um exemplo prático: você! Bastou digitar www.conexaoprofessor.rj.gov.br para entrar no mundo virtual em que a Secretaria de Estado de Educação do Rio de Janeiro vem investindo para levar informação e ajudar na mudança de comportamento de alunos e professores.

Mas sabemos que ainda não são todos que resolveram aderir aos tempos virtuais. Por isso, professor, compartilhe essa experiência com outros colegas e faça um convite para eles deixarem os conceitos pré-estabelecidos de lado... Para tornar a tecnologia uma ferramenta rotineira nas escolas, a Secretaria de Educação está distribuindo notebooks aos professores e investindo em Laboratórios de Informática. Ah, e fique de olho nos cursos de capacitação que a Secretaria oferece. A ideia não é complicar, e sim facilitar o seu dia a dia em sala de aula.

Mesmo com todas essas iniciativas, especialistas dizem que o meio educativo ainda resiste à tecnologia. E todos querem descobrir o porquê. Para quem usar o argumento de que as redes sociais servem somente para distração, mostraremos uma pesquisa encomendada pela IBM em março. O resultado é que as redes ganharam o ambiente corporativo. De acordo com a pesquisa, 36% dos profissionais pretendem diminuir os custos de TI com o uso de ferramentas colaborativas. Então, por que não procuramos os benefícios que podem ser levados às escolas?

Você, professor, sabe, melhor do que ninguém, que o papel do educador se transformou com as modernidades que a galerinha leva para a sala de aula. Mas isso não é novidade na história da sociedade. Conceitos de tempo e espaço sempre foram agentes de transformação. De acordo como consultor Carlos Nepomuceno, antigamente, o professor era o detentor do conhecimento. Ele estabelecia com o aluno uma relação de poder.

Hoje, o aluno tem a ajuda do Google. Em três segundos, ele encontra um detalhe que o professor não falou. “Na rede digital, o papel dos intermediários se modifica completamente. O professor, o jornalista, o bibliotecário... até o corretor da bolsa. Os usuários têm acesso direto às fontes de informação”, ressalta Nepomuceno. O consultor acredita que o ambiente da rede digital irá transformar a escola. “Acho que estamos começando a construir uma nova escola. E não é porque achamos bacana. E sim porque estudamos a história. Percebemos que a mudança de ambiente informacional necessita de outro tipo de formação das pessoas”.

E sugere. “Os professores têm que começar a criar mecanismos de construção conjunta. Eles e os alunos vão criar um conteúdo juntos e interpretá-lo. Os alunos têm que sair da escola com os conceitos fundamentais apreendidos para entender onde as informações se encaixam”. Com as ferramentas adequadas, o aluno pode ser estimulado pela possibilidade de criar e trocar conhecimentos. Ele pode se tornar um agente participativo no processo de aprendizagem. Algumas opções de ferramenta para isso são os wikis e os blogs.

De maneira simplificada, o Wiki é uma coleção de muitas páginas interligadas. E cada uma delas pode ser visitada e editada por qualquer pessoa. Esse conceito e mecanismo é a base da enciclopédia Wikipedia. Que tal sugerir em sala de aula a criação de um wiki sobre história do Brasil? Ou um livro de Machado de Assis? No final do ano, os alunos teriam a sua própria enciclopédia de estudos.

É claro que o primeiro movimento deve partir dos professores. Ensinar esse conceito de conteúdo colaborativo e depois usar e abusar de suas funcionalidades. Novidades surgem todos os dias, ao ponto delas deixarem de ser novidade com uma velocidade assustadora. Há possibilidade de prever tendências para o futuro? Carlos Nepomuceno responde. “Antigamente, tínhamos o cavalo, as cartas iam para a Europa de navio. Agora, o caos da informação é tamanho que no futuro dependeremos cada vez mais dos robôs. Nos relacionaremos com os agentes inteligentes. E eles irão filtrar as informações que precisamos.”

Pensar em ter uma relação de proximidade com o robô assusta? Então pare e pense no seu dia a dia. É a dica do professor. “Já fazemos isso. Temos anti-spam, por exemplo. Entramos num site e listamos as categorias de notícias que gostaríamos de saber. Ou seja, todo novo ambiente informacional cresce dentro de outro ambiente. O rastro do futuro já pode ser visto hoje”. As paredes das salas de aula começam a ruir, mas ainda restam barreiras que os professores devem vencer. “ Eles devem aprender e usar a web em seu favor”, resume Nepomuceno.

Fonte aqui

11.3.09

Quanto custa rechear o seu currículo lattes

Essa não é uma coluna sobre cultura, é sobre educação. Mas o que tem mais a ver com a cultura do que a educação?

Todo estudante universitário já ouviu falar do Currículo Lattes, todo aspirante a Mestre ou Doutor decerto já fez o seu e àqueles com pretensões acadêmicas é imprescindível atualizar seu Lattes pelo menos duas vezes por ano. O Lattes é critério quase universal para seleções de programas de pós-graduação do Brasil e do exterior, além de ser fundamental nas bancas de contratação de professores universitários em concursos e editais. Mantido pelo CNPq, é uma forma democrática de centralizar as informações acadêmicas de todo país, permitindo aos pesquisadores encontrar colegas de áreas afins e, a quem seleciona, avaliar a produção científica do aspirante à vaga.

Os críticos dizem que o Lattes transforma todo o esforço intelectual dos pesquisadores em quantidade, em números, simplificando e até ridicularizando uma produção eminentemente qualitativa. Ocorre que no final do Lattes há uma tabela informando quantos artigos foram publicados, quantos livros ou capítulos de livros, de quantos congressos o fulano participou. Mas até aí nenhuma novidade, se você começou a ler este texto provavelmente já sabe o que é e como funciona o Currículo Lattes. A novidade é que um bom Lattes tem preço.

Com o crescimento dos cursos de pós-graduação no Brasil e o amadurecimento da Plataforma Lattes, a corrida por "qualificação" tem sido grande, e a lógica quantitativa acaba incentivando a formação de um verdadeiro "mercado acadêmico". Já havia percebido isso ao me inscrever em um congresso, no meu caso o da ABRAPLIP, mas poderia ser de qualquer área e em qualquer lugar. Se você quer que seu trabalho seja apresentado, antes da inscrição deve enviar um resumo e aguardar o aceite. Elaborei o resumo, nas normas que exigiam, e o submeti. Em poucas semanas, um e-mail informa que o trabalho foi aprovado, e o ingênuo aqui fica feliz da vida: vai no site, preenche a ficha de inscrição, imprime o boleto, paga no banco a taxa de cento e poucos reais (há eventos de R$ 300,00, R$ 500,00, e por aí afora, especialmente se você for da área de Medicina ou Direito). No dia da minha apresentação no evento, a surpresa: havia cinco pessoas na sala: um professor e quatro apresentando trabalhos. Público para quê? Discussão para quê? Afinal, dali sairemos com um certificado (enviado por e-mail), um CD-ROM e um número a mais no Lattes!

Evidentemente, a proporção não é um por um, mas tão evidente quanto é que os congressos hoje estão inchados com dezenas de apresentações de trabalhos, e o aceite desses é uma mera formalidade. Um trabalho medíocre será aprovado se não comprometer o evento e o autor lá estará, enquanto um aluno excelente que faça um artigo excelente mas por algum motivo não possa pagar a inscrição, ah, esse não estará lá. Afinal, sai caro um bom Lattes...

Mas vamos além, afinal de contas, poucos dos que se aventuram em cursos de pós-graduação não teriam dinheiro para a inscrição de um evento desses. E a passagem? E o hotel? E férias, para quem não tem bolsa? Sim, porque se você tiver pretensão de dar aula na USP, na UFRJ ou na UFRGS, é bom sua vida acadêmica não ficar restrita a Cacimbinhas, é bom você ter ido aos eventos nacionais mais importantes da sua área, ter contatos, viajar. E não espere algum desconto especial para viagens acadêmicas por parte das companhias aéreas. Muito menos bolsas oferecidas pelos cursos de pós-graduação, a não ser em raríssimos ― e discutíveis ― casos. Afinal, sai caro um bom Lattes...

Infelizmente, não é só isso. Estávamos tão acostumados a participar de congressos e pagar por isso, estamos tão satisfeitos em aproveitar esses eventos para fazer turismo pelo Brasil (ah, claro, ninguém acha que o controle de presença nesses eventos seja muito rigoroso, né?) que nem percebemos o quão injusta é essa lógica do "pagando bem, que mal tem". Quero ir além. De uns tempos para cá, tem se tornado comum no Brasil pagar pela publicação de artigos! Sim, os artigos científicos, tão puros, tão imparciais, tão citados como referência do conhecimento pela mídia, pelos nossos professores, publicá-los também tem um preço, e bem salgado.

Ainda não havia me acontecido isso, mas uma amiga da área da Enfermagem ousou submeter seu artigo de conclusão de curso para a Revista Gaúcha de Enfermagem e, adivinhem, o artigo foi aceito para a publicação com uma condição: ela e as outras duas autoras do artigo deveriam ser assinantes da revista para essa publicação, e, claro, isso tem um custo: R$ 130,00. Cento e trinta! Fiquei pensando se já aconteceu de alguém enviar artigo e ele não ser aceito, afinal cenzinho é cenzinho...

Pensei em reclamar para a UFRGS que uma revista com seu logotipo fizesse esse tipo de coisa, mas a Universidade está em férias. Entrei em contato, então, com a Ouvidoria do Ministério da Ciência e Tecnologia, a fim de denunciar esse tipo de abuso num país e numa universidade que lutam pela inclusão acadêmica de negros e pobres. A resposta, conclusiva, me fez perceber que o Lattes realmente tem preço:

Prezado Marcelo,
A cobrança para publicação de artigos é prática frequente na área internacional, inclusive porque alguns periódicos científicos são bancados pelos próprios autores. A informação, pelos custos que envolve, resulta cara. No Brasil, esta prática ainda não está amplamente disseminada mas já é praticada, principalmente na área médica.
No caso específico, segundo sua informação, o pagamento não é propriamente pelo artigo, mas para que ela se torne sócia da revista. Sugerimos que consulte a política editorial do periódico, que deve estar impressa na própria revista ou no seu site. A política editorial informa quais são os critérios utilizados para seleção e publicação de artigos.
Nada obstante, caso ela não concorde com o critério, pode submeter seu artigo a outros periódicos que não exijam contrapartida financeira. Seguramente na sua área de especialização existem vários em todo o Brasil.
Atenciosamente,
Ouvidoria-Geral do MCT


Indignado, entrei em contato com minha orientadora de graduação, uma professora muito amiga, Doutora em Comunicação. E aí a professora me lembrou de que quando terminou seu Doutorado, recebeu pelo menos cinco cartas a parabenizando e a convidando a publicar seu belíssimo trabalho em livro. Mas, é claro, um livro acadêmico é sempre importante e, afinal, sai caro um bom Lattes. Caro quanto? Cinco mil reais.

Não posso concordar com essa lógica, e me surpreende que entidades como a UNE fiquem mais preocupadas com o preço da passagem de ônibus do que com esse tipo de descalabro. Não é novidade alguma que a seleção para os cursos de pós-graduação passam por critérios pessoais, políticos, nada objetivos, e no momento que se cria uma ferramenta para tornar a escolha um pouco mais democrática, admitiremos que essa ferramenta sirva para privilegiar os estudantes com mais poder aquisitivo? Sem demagogia, dessa forma algum pobre que entrou na universidade pelas cotas ou pelo Pró-Uni conseguirá ingressar em Mestrados e Doutorados a partir desse critério mercantilista?

Para mim, o caso é muito grave. São essas pessoas com Lattes recheados que irão lecionar nas universidades federais e particulares (e há aos borbotões), são elas que irão formar os futuros médicos, advogados, jornalistas, professores? E quais os valores que essa geração acadêmica tem a passar? O valor do "quanto mais, melhor", do "quem pode mais, chora menos"? E essa realidade, todos sabem, se reflete desde o Ensino Fundamental, onde as creches e escolas públicas são cada vez mais abandonadas e as particulares proliferam e profissionalizam-se. Mas aí já é assunto para outra crônica...

Para terminar, quero deixar aqui uma conta rápida ilustrando a grosso modo quanto custa rechear seu Lattes. Aqui não estou contando a vida escolar, apenas acadêmica:

Graduação: 48 mensalidades de R$ 1000,00:
R$ 48.000,00

Mestrado: 24 mensalidades de R$ 1000,00:
R$ 24.000,00

Doutorado: 48 mensalidades de R$ 1000,00:
R$ 48.000,00

Participação em 1 evento nacional por ano (10 anos), com inscrição e passagem:
R$ 10.000,00

Participação em 4 eventos regionais por ano (10 anos), com inscrição de R$ 50,00:
R$ 2.000,00

Pagamento da "assinatura" de 3 revistas científicas da sua área por 10 anos:
R$ 4.500,00

Publicação de um livro com sua dissertação de mestrado e outro com a tese de doutorado:
R$ 10.000,00

Participação de um congresso no exterior, com possibilidade de ficar um mês na Universidade:
R$ 3.000,00

Total, sem levar em conta os juros: R$ 151.000,00

Resumo da ópera: é mais fácil comprar um posto de gasolina do que rechear seu Lattes e dar aula numa boa Universidade Pública. E depois não querem que os professores torçam o nariz para os programas de inclusão...

Marcelo Spalding
Porto Alegre, 5/3/2009
_____________________
Existem ainda outras possibilidades:
Ser amante do chefe/ da chefe do departamento. Sexo também se troca por títulos.
Ser amiga/o ou torcedora do mesmo time, igreja, maçonaria. Afinidade também se troca por títulos.
blablabla....

12.2.09

Curso a distância em Divulgação Cientítica

A Universidade Gama Filho oferece, a partir de abril, o curso de especialização em DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA, com carga horária: 340h a distância + 20h presenciais (em São Paulo).

Contando com corpo docente altamente qualificado, a pós-graduação foi elaborada de forma a atender às necessidades de mercado, considerando os avanços tecnológicos tão marcantes em nossa época.

Estar por dentro do que se passa e, mais ainda, saber como divulgar descobertas, novas tecnologias e a ciência em si mesma são desafios dos profissionais atentos e engajados com os avanços em geral.

De forma semi-presencial (apenas 20h presenciais), o curso possibilita a adesão de alunos em todo Brasil. Para se inscrever basta se conectar aqui, preencher a ficha e seguir os passos orientados.

Não perca esta oportunidade de se informar e reciclar seus conhecimentos com que há de mais atualizado no campo da divulgação científica. Afinal, o século XXI é marcado pela tomada de consciência acerca de nossas atitudes e os reflexos delas para o planeta, para nós mesmos e para as próximas gerações.
Já dizia Albert Einstein "toda a nossa ciência, comparada com a realidade, é primitiva e infantil - e, no entanto, é a coisa mais preciosa que temos."
Aguardamos você!
Um abraço da equipe
_______________________________

Disciplinas

- História e filosofia da ciência
Introdução à divulgação científica
História e filosofia da ciência
Tópicos em ciência
Metodologia da pesquisa

- Divulgação científica
História e filosofia da divulgação científica
Ética em divulgação científica
Tópicos em divulgação científica
Tecnologia da informação na divulgação científica

- Meios de divulgação científica
Documentação e informação em ciências
Jornalismo científico
Ferramentas virtuais: mídias
Ferramentas virtuais: objetos de mídias
Comunicação visual

- Práticas de divulgação científica
Escrita criativa
Escrita crítica
História em quadrinhos
Fotografia digital
Podcast e videocast
Blogs

Corpo Docente
Prof. Ms. André Paulo Corrêa de Carvalho
Prof.ª Ms. Andréa Ramirez
Prof. Ms. Anízio Viana da Silva
Prof. Dr. Armando Luis Serra
Prof. Ms. Carlos Aragão
Prof.ª Dr.ª Cilene Victor
Prof.ª Ms. Fernanda Ramirez
Prof. José Alberto Lovetro (cartunista Jal)
Prof. Dr. Jorge. Rodolfo Lima
Prof. Dr. Laércio Elias Pereira
Prof.ª Dr.ª Moema de Rezende Vergara
Prof. Dr. Rodrigo Marchiori Liegel
Prof.ª Ms. Silvia Araújo da Silva Hermida
Prof.ª Esp. Solange Pereira Pinto
Prof. Esp. Thiago Henrique Santos
Prof. Esp. Thomas M. Simons

Entre outros convidados.
Obs.: Os professores são convidados e não têm vínculo com a Instituição, desenvolvendo temas de suas especialidades.

Investimento
Inscrição
Até 20 dias antes do início do curso: R$ 90,00
Até 07 dias antes do início do curso: R$ 120,00
Matrícula: R$ 265,00
Mensalidade: 18x R$ 265,00*

*Pagamento com desconto até um dia antes da data de vencimento, após permanecerá o valor sem desconto: R$ 275,00.

Obs.: O pagamento da matrícula será no 1º dia de aula e a 1º mensalidade, 30 dias após a matrícula.

Locais
SAO PAULO
25/04/2009
Sábado e domingo, das 8 às 18h, uma vez ao mês.

22.1.09

Grey Literature - Revisores Ad Hoc

Aos que não sabem, estamos (eu e a Solange) elaborando um livro de Planejamento e Escrita Criativa do Trabalho Acadêmico. A pesquisa sobre Grey Literature na internet está me fazendo encontrar coisas interessantes. Ressalto aqui um trecho do artigo Deus e o Diabo no caminho de Woo Suk Hwang de Gilberto R. Cunha:

(...) um trabalho numa revista científica passa por várias etapas.

Começa, depois do recebimento do artigo, com um editor designando os chamados revisores ad hoc, que são especialistas no assunto e analisam a adequação do tema para publicação, o ineditismo das informações, a metodologia empregada, a apresentação e a discussão dos resultados e a pertinência das conclusões.

O problema é que toda a analise se baseia em dados fornecidos pelos autores do estudo, o que possibilita a falsificação de informações.

Não obstante, a necessidade de revisão e avaliação crítica dos resultados de estudos apresentados para publicação em revistas especializadas é algo indiscutível na comunidade científica.

As exceções não servem para generalizar um padrão de comportamento de cientistas (e de quem quer que seja) e nem podem definir a regra.

O sistema de revisão pelos pares ("the peer review system") não pode ser visto como uma panacéia nem está imune a falhas.

Isso pode ser observado em artigos que são publicados em renomadas revistas científicas e que, que, apesar de terem um título interessante, são pobremente escritos, sem qualquer desenvolvimento lógico, deixando mais questionamentos do que propriamente dando respostas.

Além de particularidades como hipóteses mal formuladas ou pobremente testadas, quando não, ignorando (por má fé ou desconhecimento de causa) um pressuposto básico do método científico: a rejeição (nunca a aceitação) das hipóteses que estão sendo experimentalmente avaliadas.

Entre as críticas ao sistema, destacam-se: o processo de escolha dos revisores, o tratamento dados aos trabalhos submetidos por cientistas renomados frente ao que é dispensado aos iniciantes, a lentidão do processo, a preocupação com a possibilidade de plágio de idéias pelos revisores, o favorecimento pelos revisores de manuscritos que estão de acordo com o seu pensamento, a falta de aceitação de idéias não ortodoxas, além da dificuldade de manutenção do anonimato dos autores e dos revisores.

Todavia, apesar do exposto, ainda não se inventou um sistema melhor (ou mais confiável).

A divulgação em revistas que mantém corpo editorial, são internacionalmente indexadas e praticam o "peer review system" é o diferencial de credibilidade das informações cientificas.

Paralelamente, vem ganhando cada vez mais espaço (e importância também), especialmente após o advento da Internet (e suas múltiplias possibilidades de associar texto, som e imagens), o sistema conhecido por "Grey Literature".

Na categoria de "grey literature", em formato eletrônico ou impresso, se enquadram publicações tipo "newsletters" (informativos), "reports", relatórios, anais de eventos, boletins, etc., produzidos tanto por entidades públicas quanto privadas (sem interesse comercial na área editorial, quase sempre).

Os defensores da "grey literature" advogam vantagens como a rapidez de divulgação, a flexibilidade, o surgimento de novos espaços para conteúdos que não se enquadram (em tamanho e formato) nos sistema tradicional, a disseminação de informações para uma audiência maior, etc.

Destaca-se, também, que esse tipo de literatura pode servir para ampliar a compreensão e a visão de determinados assuntos, subsidiando a produção de artigos que serão submetidos para publicação nos veículos convencionais da comunidade científica (nas mais diferentes áreas de interesse).

A "credibilidade" das informações disponíveis no sistema "grey literature", particularmente na Web, exige visão crítica do usuário (vale o mesmo para o "peer review system"; sem qualquer dúvida).

Não se discute: existe espaço (e ambos são importantes) para "peer review system" e "gray literature", na área de divulgação científica.

Há quem vislumbre (o autor deste artigo está entre eles) que o espaço da "grey literature" tenderá a aumentar cada vez mais, pois, no mundo que vivemos, a necessidade de acesso rápido e sem burocracia, pela sociedade de maneira geral, a novas informações, deverá ser cada vez maior.

20.12.08

Suruba acadêmica:

os números Mec, mercado universitário, alunos pífios e os vendedores de monografias

No Brasil, o Ministério da Educação (MEC) deveria se chamar: Mercado da Educação e Consultoria MEC LTDA. Primeiro porque está lotado de consultores criando produtos para manter a máquina inoperante e o Brasil cada vez mais burro, porém mais quantificado. Segundo porque tem muita gente lucrando com isso, como numa empresa.

A crise no setor educacional não impressiona mais. Algumas faculdades estão falindo depois do levante desenfreado de novas empresas educacionais na década de 90. As grandonas comendo as pequenas, como na teoria darwiniana. Na lei mercadológica do século XXI, o dumping mensaleiro chega a ser engraçado com curso de graduação vendido por apenas R$ 199,00 mês ou menos.

O querido MEC com sua exigência IGC (Índice Geral de Cursos ou custos?), também conhecida por "engessei", numérica: x doutores, y mestres, z cadeiras, coloca os mercadinhos educacionais em má situação. Eles contratam e demitem professores a cada visita dos avaliadores. Contratam antes de chegarem os prancheteiros e demitem após o certificado de avaliação emitido. Simples assim e normal em se tratando de mercado capital.

Mas a falência múltipla do sistema é digna de eutanásia. Os alunos agonizantes comprando seus trabalhos acadêmicos ignoram que é possível fazer um projeto de mestrado em parcas horas e um relatório de bolsa de doutorado em poucos dias com todo o apoio do sistema educacional. Os alunos, em geral, ignoram que qualquer porcaria é suficiente. O problema é que nem a “porcaria arrumadinha” nossos alunos são capazes de produzir.

Sabem o que isso significa? Nossos estudantes escrevem e pensam mal demais. Demais demasiadamente demais! Se tivessem a verdadeira competência lingüística dita na LDB para o ensino fundamental e médio, o que vai bem além do certificado que eles já possuem, dariam conta de não ter medo de um trabalho bobo final de curso.

Nossos alunos têm medo porque sabem o quanto são despreparados para o mundo dos livros. Eles sabem que deveriam ser técnicos de alguma coisa e não graduados em tal. Eles sabem que não gostam dos livros e que nem todo mundo tem mesmo a obrigação de gostar de ler e ser pesquisador. Nossos alunos sabem mais ainda: sabem que lhes é imposta à necessidade de um diploma de terceiro grau.

Contudo, os “enfermeiros salvadores” do MEC apontam seus dedos em direção àqueles que ajudam a morte digna da educação fraudulenta.

Que mal há em vender trabalhos acadêmicos aos alunos que compram diplomas de nível superior? Se as faculdades demitem professores às vésperas das férias e os avaliadores do MEC brincam de fazer continhas dois pra lá três pra cá, o que resta aos professores além do lado fraco do sistema?

Se os professores não agüentam mais a dança das cadeiras, a zombaria do salário baixo, a hipocrisia acadêmica, a falta de desejo do aluno em aprender, lhes resta ficar do lado oculto do sujeito, lhes resta a terceira pessoa.

Por outro lado, alguns professores definitivamente trocam suas vocações por outras mais rentáveis, como o padre Marcelo Rossi que abandonou o ofício docente pela benevolente igreja. Outros abrem faculdades e vão pro outro lado do trampo. Uns vão pro MEC sacanear o resto todo.

Dizem que vender diplomas não é ético, assim como dizem também que vender trabalhos acadêmicos não o é. Ocorre que os princípios que motivam uns e outros comportamentos humanos dependem também das normas e dos valores de uma determinada sociedade. E, a nossa, atualmente tem normas de quantidade e valores de mercado. Hoje se procura mão-de-obra diplomada e não mão-de-obra qualificada. Se a qualificação fosse o mais importante teríamos mais cursos técnicos e não essa corrida maluca pelo nível “superior”.

Têm profissionais por ai que não sabem nada, absolutamente nada, daquilo que aprenderam na faculdade e nem por isso estão desempregados ou empregados em suas profissões. Operadores de telemarketing são formados em qualquer coisa. Carimbadores do governo idem. Outro dia uma aluna bancária que terminou administração mal e porcamente revelou: “odeio estudar, mas o banco me obrigou senão não me promoveria”. Imagina que ótima...

Alunos péssimos, ruins e bons passam de ano do mesmo jeito, sabemos. Pegam seus diplomas e vão para suas promoções, aumentos salariais, disputas de vagas. Quem vence? Aquele que tiver melhor rede de relacionamentos. Aquele que tiver amigos melhor colocados em funções para indicar vagas; os de melhor “network” como prega o guru Max Gehringer. “Os mais talentosos nem sempre terão os melhores lugares, isso é ilusão”. É, talvez, uma forma de dissuadir os outros quanto à farsa propagada com roupagem de honestidade, mantida por todos que estão dentro do sistema para, inclusive, se autobeneficiarem do circo todo.

Nessa brincadeira de “educação de qualidade”, fingem donos de faculdades, consultores do MEC, professores, alunos. Talvez, só dois grupos não estejam fingindo: a população analfabeta que deseja entrar na escola imaginando melhoria de vida (até cair a ficha) e aqueles que vendem trabalhos acadêmicos nos murais institucionais (até baixar a polícia).

Nesta ética do mercado o que vale é o vale-tudo de pesos leves, médios e pesados, dependendo do sensu pleiteado, se lato ou stricto.

Não podemos negar que a conduta humana tem se pautado no interesse do indivíduo e da sociedade. A sociedade finge que entra na escola para aprender e o sistema finge o restante. Só não finge quem anuncia “faço monografias e trabalhos acadêmicos”, pois este fará mesmo, basta pagar assim como já se paga pelo diploma. O único problema é que este mercado é negro, ainda que não mais que o outro já corrompido e legalizado.

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Margot Ortog é PHD em Administração e Educação Alternativa por Harvard está cansada da mediocridade disfarçada, e rentável para poucos, que se instalou no Brasil.

24.11.08

BRASIL: Fábrica de maus professores


Entrevista: Eunice Durham para Revista Veja (Edição 26 de novembro de 2008)


Uma das maiores especialistas em ensino superior brasileiro, a antropóloga não tem dúvida: os cursos de pedagogia perpetuam o péssimo ensino nas escolas


por Monica Weinberg



"Os cursos de pedagogia desprezam a prática da sala de aula e supervalorizam teorias supostamente mais nobres. Os alunos saem de lá sem saber ensinar"

Hoje há poucos estudiosos empenhados em produzir pesquisa de bom nível sobre a universidade brasileira. Entre eles, a antropóloga Eunice Durham, 75 anos, vinte dos quais dedicados ao tema, tem o mérito de tratar do assunto com rara objetividade. Seu trabalho representa um avanço, também, porque mostra, com clareza, como as universidades têm relação direta com a má qualidade do ensino oferecido nas escolas do país. Ela diz: "Os cursos de pedagogia são incapazes de formar bons professores". Ex-secretária de política educacional do Ministério da Educação (MEC) no governo Fernando Henrique, Eunice é do Núcleo de Pesquisa de Políticas Públicas, da Universidade de São Paulo – onde ingressou como professora há cinqüenta anos.

Sua pesquisa mostra que as faculdades de pedagogia estão na raiz do mau ensino nas escolas brasileiras. Como?
As faculdades de pedagogia formam professores incapazes de fazer o básico, entrar na sala de aula e ensinar a matéria. Mais grave ainda, muitos desses profissionais revelam limitações elementares: não conseguem escrever sem cometer erros de ortografia simples nem expor conceitos científicos de média complexidade. Chegam aos cursos de pedagogia com deficiências pedestres e saem de lá sem ter se livrado delas. Minha pesquisa aponta as causas. A primeira, sem dúvida, é a mentalidade da universidade, que supervaloriza a teoria e menospreza a prática. Segundo essa corrente acadêmica em vigor, o trabalho concreto em sala de aula é inferior a reflexões supostamente mais nobres.

Essa filosofia é assumida abertamente pelas faculdades de pedagogia?
O objetivo declarado dos cursos é ensinar os candidatos a professor a aplicar conhecimentos filosóficos, antropológicos, históricos e econômicos à educação. Pretensão alheia às necessidades reais das escolas – e absurda diante de estudantes universitários tão pouco escolarizados.


O que, exatamente, se ensina aos futuros professores?
Fiz uma análise detalhada das diretrizes oficiais para os cursos de pedagogia. Ali é possível constatar, com números, o que já se observa na prática. Entre catorze artigos, catorze parágrafos e 38 incisos, apenas dois itens se referem ao trabalho do professor em sala de aula. Esse parece um assunto secundário, menos relevante do que a ideologia atrasada que domina as faculdades de pedagogia.

Como essa ideologia se manifesta?
Por exemplo, na bibliografia adotada nesses cursos, circunscrita a autores da esquerda pedagógica. Eles confundem pensamento crítico com falar mal do governo ou do capitalismo. Não passam de manuais com uma visão simplificada, e por vezes preconceituosa, do mundo. O mesmo tom aparece nos programas dos cursos, que eu ajudo a analisar no Conselho Nacional de Educação. Perdi as contas de quantas vezes estive diante da palavra dialética, que, não há dúvida, a maioria das pessoas inclui sem saber do que se trata. Em vez de aprenderem a dar aula, os aspirantes a professor são expostos a uma coleção de jargões. Tudo precisa ser democrático, participativo, dialógico e, naturalmente, decidido em assembléia.

Quais os efeitos disso na escola?
Quando chegam às escolas para ensinar, muitos dos novatos apenas repetem esses bordões. Eles não sabem nem como começar a executar suas tarefas mais básicas. A situação se agrava com o fato de os professores, de modo geral, não admitirem o óbvio: o ensino no Brasil é ainda tão ruim, em parte, porque eles próprios não estão preparados para desempenhar a função.

Por que os professores são tão pouco autocríticos?
Eles são corporativistas ao extremo. Podem até estar cientes do baixo nível do ensino no país, mas costumam atribuir o fiasco a fatores externos, como o fato de o governo não lhes prover a formação necessária e de eles ganharem pouco. É um cenário preocupante. Os professores se eximem da culpa pelo mau ensino – e, conseqüentemente, da responsabilidade. Nos sindicatos, todo esse corporativismo se exacerba.

Como os sindicatos prejudicam a sala de aula?
Está suficientemente claro que a ação fundamental desses movimentos é garantir direitos corporativos, e não o bom ensino. Entenda-se por isso: lutar por greves, aumentos de salário e faltas ao trabalho sem nenhuma espécie de punição. O absenteísmo dos professores é, afinal, uma das pragas da escola pública brasileira. O índice de ausências é escandaloso. Um professor falta, em média, um mês de trabalho por ano e, o pior, não perde um centavo por isso. Cenário de atraso num país em que é urgente fazer a educação avançar. Combater o corporativismo dos professores e aprimorar os cursos de pedagogia, portanto, são duas medidas essenciais à melhora dos indicadores de ensino.

A senhora estende suas críticas ao restante da universidade pública?
Há dois fenômenos distintos nas instituições públicas. O primeiro é o dos cursos de pós-graduação nas áreas de ciências exatas, que, embora ainda atrás daqueles oferecidos em países desenvolvidos, estão sendo capazes de fazer o que é esperado deles: absorver novos conhecimentos, conseguir aplicá-los e contribuir para sua evolução. Nessas áreas, começa a surgir uma relação mais estreita entre as universidades e o mercado de trabalho. Algo que, segundo já foi suficientemente mensurado, é necessário ao avanço de qualquer país. A outra realidade da universidade pública a que me refiro é a das ciências humanas. Área que hoje, no Brasil, está prejudicada pela ideologia e pelo excesso de críticas vazias. Nada disso contribui para elevar o nível da pesquisa acadêmica.

Um estudo da OCDE (organização que reúne os países mais industrializados) mostra que o custo de um universitário no Brasil está entre os mais altos do mundo – e o país responde por apenas 2% das citações nas melhores revistas científicas. Como a senhora explica essa ineficiência?
Sem dúvida, poderíamos fazer o mesmo, ou mais, sem consumir tanto dinheiro do governo. O problema é que as universidades públicas brasileiras são pessimamente administradas. Sua versão de democracia, profundamente assembleísta, só ajuda a aumentar a burocracia e os gastos públicos. Essa é uma situação que piorou, sobretudo, no período de abertura política, na década de 80, quando, na universidade, democratização se tornou sinônimo de formação de conselhos e multiplicação de instâncias. Na prática, tantas são as alçadas e as exigências burocráticas que, parece inverossímil, um pesquisador com uma boa quantia de dinheiro na mão passa mais tempo envolvido com prestação de contas do que com sua investigação científica. Para agravar a situação, os maus profissionais não podem ser demitidos. Defino a universidade pública como a antítese de uma empresa bem montada.

Muita gente defende a expansão das universidades públicas. E a senhora?
Sou contra. Nos países onde o ensino superior funciona, apenas um grupo reduzido de instituições concentra a maior parte da pesquisa acadêmica, e as demais miram, basicamente, os cursos de graduação. O Brasil, ao contrário, sempre volta à idéia de expandir esse modelo de universidade. É um erro. Estou convicta de que já temos faculdades públicas em número suficiente para atender aqueles alunos que podem de fato vir a se tornar Ph.Ds. ou profissionais altamente qualificados. Estes são, naturalmente, uma minoria. Isso não tem nada a ver com o fato de o Brasil ser uma nação em desenvolvimento. É exatamente assim nos outros países.

As faculdades particulares são uma boa opção para os outros estudantes?
Freqüentemente, não. Aqui vale a pena chamar a atenção para um ponto: os cursos técnicos de ensino superior, ainda desconhecidos da maioria dos brasileiros, formam gente mais capacitada para o mercado de trabalho do que uma faculdade particular de ensino ruim. Esses cursos são mais curtos e menos pretensiosos, mas conseguem algo que muita universidade não faz: preparar para o mercado de trabalho. É estranho como, no meio acadêmico, uma formação voltada para as necessidades das empresas ainda soa como pecado. As universidades dizem, sem nenhum constrangimento, preferir "formar cidadãos". Cabe perguntar: o que o cidadão vai fazer da vida se ele não puder se inserir no mercado de trabalho?

Nos Estados Unidos, cerca de 60% dos alunos freqüentam essas escolas técnicas. No Brasil, são apenas 9%. Por quê?
Sempre houve preconceito no Brasil em relação a qualquer coisa que lembrasse o trabalho manual, caso desses cursos. Vejo, no entanto, uma melhora no conceito que se tem das escolas técnicas, o que se manifesta no aumento da procura. O fato concreto é que elas têm conseguido se adaptar às demandas reais da economia. Daí 95% das pessoas, em média, saírem formadas com emprego garantido. O mercado, afinal, não precisa apenas de pessoas pós-graduadas em letras que sejam peritas em crítica literária ou de estatísticos aptos a desenvolver grandes sistemas. É simples, mas só o Brasil, vítima de certa arrogância, parece ainda não ter entendido a lição.

Faculdades particulares de baixa qualidade são, então, pura perda de tempo?
Essas faculdades têm o foco nos estudantes menos escolarizados – daí serem tão ineficientes. O objetivo número 1 é manter o aluno pagante. Que ninguém espere entrar numa faculdade de mau ensino e concorrer a um bom emprego, porque o mercado brasileiro já sabe discernir as coisas. É notório que tais instituições formam os piores estudantes para se prestar às ocupações mais medíocres. Mas cabe observar que, mesmo mal formados, esses jovens levam vantagem sobre os outros que jamais pisaram numa universidade, ainda que tenham aprendido muito pouco em sala de aula. A lógica é típica de países em desenvolvimento, como o Brasil.

Por que num país em desenvolvimento o diploma universitário, mesmo sendo de um curso ruim, tem tanto valor?
No Brasil, ao contrário do que ocorre em nações mais ricas, o diploma de ensino superior possui um valor independente da qualidade. Quem tem vale mais no mercado. É a realidade de um país onde a maioria dos jovens está ainda fora da universidade e o diploma ganha peso pela raridade. Numa seleção de emprego, entre dois candidatos parecidos, uma empresa vai dar preferência, naturalmente, ao que conseguiu chegar ao ensino superior. Mas é preciso que se repita: eles servirão a uma classe de empregos bem medíocres – jamais estarão na disputa pelas melhores vagas ofertadas no mercado de trabalho.

A tendência é que o mercado se encarregue de eliminar as faculdades ruins?
A experiência mostra que, conforme a população se torna mais escolarizada e o mercado de trabalho mais exigente, as faculdades ruins passam a ser menos procuradas e uma parte delas acaba desaparecendo do mapa. Isso já foi comprovado num levantamento feito com base no antigo Provão. Ao jogar luz nas instituições que haviam acumulado notas vermelhas, o exame contribuiu decisivamente para o seu fracasso. O fato de o MEC intervir num curso que, testado mais de uma vez, não apresente sinais de melhora também é uma medida sensata. O mau ensino, afinal, é um grande desserviço.

A senhora fecharia as faculdades de pedagogia se pudesse?
Acho que elas precisam ser inteiramente reformuladas. Repensadas do zero mesmo. Não é preciso ir tão longe para entender por quê. Basta consultar os rankings internacionais de ensino. Neles, o Brasil chama atenção por uma razão para lá de negativa. Está sempre entre os piores países do mundo em educação.

23.11.08

O fim do mestrado...


Finalmente o que eu penso aparece na voz de quem pode dizer e publicar. Pois, euzinha, pobrezinha, sem nome, sem doutorado, sem mestrado, sem mídia, não posso pensar, né? Afinal, não tenho "autoridade" para raciocinar. Além do mais, o meu nome nem aparece como citação no google scholar. Masssssssss ler eu ainda posso e colar também. Então, leia ai um artigo supimpa heheheh que saiu na Folha de São Paulo hoje.


beijos

soll

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TENDÊNCIAS/DEBATES


por NAOMAR DE ALMEIDA FILHO


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Quais os antecedentes dessa invenção da burocracia acadêmica brasileira? A que fins serviu? Servirá no futuro?
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O fim do mestrado...

...TAL COMO introduzido no Brasil, durante a ditadura militar, parece próximo.
Na atualidade, praticamente todos os países com maior desenvolvimento econômico e social têm mestrado como formação profissional.


Entre nós, o grau universitário chamado mestrado foi instituído em 1965 pelo famoso Parecer Sucupira, que definiu diretrizes para a pós-graduação brasileira. Nesse contexto, o título foi criado como habilitação à docência em nível superior.


Quarenta anos depois, tal definição só existe no Brasil e, em menor escala, em alguns países latino-americanos. Quais são os antecedentes dessa invenção da burocracia acadêmica brasileira? A que fins serviu? Servirá no futuro?


O termo "master", "meister" (daí o tratamento plebeu -"mister"- na língua inglesa), "maître", mestre, em português, tem raízes profissionais. Na Europa medieval, designava o artesão experiente que dominava seu ofício e, autorizado pelas corporações, estava apto a formar aprendizes.


A universidade formava então apenas "doctors", senhores da "doctrina". Só na era moderna começou a titular profissionais. A Reforma Humboldt, instituidora da universidade de pesquisa em 1810, manteve o doutorado como láurea acadêmica maior. Mas acolheu o mestrado como grau acadêmico intermediário, em suplemento à láurea menor, o bacharelado.


A partir do século 20, em toda a América do Norte e nos países da "commonwealth", o título de "master" tanto se refere à formação pré-doutoral quanto implica designação direta da área profissional.


O administrador recebe o título de MBA ["master of business administration"]; o pedagogo, M.Ed. ["master of education"]; o sanitarista, M.P.H. ["master of public health"]; o psicólogo, M.Psychol. ["master in psychology"]; e assim por diante. Exceções são algumas profissões que seguem o padrão da medicina, em que graduação [M.D. -"medical doctor"] é sempre doutorado. E, em muitas universidades, o curso de direito concede grau de J.D. ["juris doctor"].


Na tradição mediterrânea, raiz da universidade brasileira (através de Coimbra e depois pela influência da Sorbonne e das "écoles polytechniques"), o título mestre nunca foi utilizado. Preferia-se licenciado (modelo francês e espanhol) ou bacharel (modelo lusitano).


Com o Processo de Bolonha, a partir de 1999, unifica-se o mestrado como diploma do segundo ciclo na maioria das universidades européias. Em Portugal, Holanda e Suíça, por exemplo, médico é agora mestre em medicina.


Na França, Alemanha e Itália, cursos em complemento às láureas profissionais são igualmente referidos como mestrado.


Neste contexto de crescente internacionalização da universidade, vale a pena continuarmos sucupiranos? Faz sentido manter no Brasil uma exótica licenciatura para ensino superior chamada mestrado? Não seria interessante "masterizar" a formação profissional, com soluções criativas para impasses e limites dos modelos internacionais?


Respostas a essas questões podem ser dadas pelo Reuni, pelo menos no âmbito da rede federal de ensino superior. No plano nacional, a Andifes avança na construção do chamado "Reuni da pós", que deve contemplar ampliação maciça de vagas e propostas de reestruturação dos ciclos pós-profissionais. No plano local, várias universidades desenvolvem modelos de pós-graduação compatíveis internacionalmente.


Assim é que vimos implantando na UFBA o modelo conhecido como Universidade Nova, que, além dos bacharelados interdisciplinares, prevê expansão dos mestrados profissionais (devidamente redesenhados) e equivalência entre essa modalidade e cursos de especialização. No marco legal superado da pós-graduação brasileira, mestres formados no exterior em graduação profissional têm sido oficialmente credenciados por colegiados e câmaras como docentes de nível superior. Haverá certamente reação às mudanças entre os que se beneficiaram do equívoco regulatório.


Mas, para recriar a pós-graduação brasileira, contamos enfim com os órgãos normativos e de coordenação da educação superior. O Conselho Nacional de Educação poderia rever o Parecer Sucupira, e todo o marco legal derivado, à luz das mudanças em curso em praticamente todos os países do mundo desenvolvido. E a Capes, formada por representantes das comunidades acadêmicas, poderia elaborar diretrizes específicas para os mestrados profissionais, fomentando propostas capazes de tornar a universidade brasileira mais integrada às redes internacionais de produção e circulação de ciência, arte e cultura.





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NAOMAR DE ALMEIDA FILHO , 56, doutor em epidemiologia, pesquisador do CNPq, é professor titular do Instituto de Saúde Coletiva e reitor da UFBA (Universidade Federal da Bahia).

1.11.08

Cursos de comunicação, leitura, criatividade, escrita...

Quem nunca sentiu um friozinho no estômago ao ver uma folha em branco e ter literalmente "um branco"? E aquela dificuldade de ordenar as idéias para compor uma redação? Hum... Mas como fazer um resumo de um texto complicado? E se o problema for a diculdade de comunicação oral? Ah... Tem jeito? Tem sim!

Pesquisadora em Comunicação e desenvolvimento humano, a professora e escritora Solange Pereira Pinto tem se dedicado a formular projetos que desenvolvam a capacidade comunicativa dos indivíduos. Elaborando aulas (que ela chama de encontros) personalizadas, Solange tem obtido sucesso com seus alunos.

"Creio que o mais importante hoje seja derrubar os mitos que envolvem a comunicação. Por exemplo, vivemos numa cultura que passa a idéia de que quem não estuda não é inteligente, capaz, ou, ainda, de que quem é intelectual sabe de tudo. E não são verdades... Estamos na sociedade dos 'títulos acadêmicos', dos papéis, das visões estereótipadas, principalmente em Brasília que é uma cidade burocrata. Vivemos em um tempo de celebridades, mitos, ídolos e quem está fora se sente menos. Temos que valorizar outros aspectos da vida. Temos que 'democratizar' a auto-estima coletiva, popular", analisa.


Em seu ateliê colorido e cheio de imagens para desvendar, se abre outro mundo para quem quer se autodesenvolver. Quem quiser conhecer melhor o trabalho dessa educadora é só entrar em contato pelo email
sollpp@gmail.com ou visitar seu blog http://atocomtexto.blogspot.com/




Folder eletrônico, clique nele para ampliar a imagem:


22.10.08

Mestres viram doutores e acabam demitidos em universidades privadas

Eles perdem o cargo porque se tornam mais caros para as escolas

Jorge Félix escreve para o "Valor Econômico":

A falta de mão-de-obra qualificada é uma das maiores ameaças ao
crescimento econômico, segundo alguns economistas, empresas ou mesmo o
governo. O país forma mais de 10 mil doutores por ano. No entanto,
esta elite do meio acadêmico brasileiro, cada vez mais, encontra
dificuldades para arranjar emprego, sobretudo nas universidades,
responsáveis pela preparação de profissionais de ponta, supostamente,
tão exigidos pelo mercado de trabalho.

O problema ocorre, de acordo com o Sindicato dos Docentes de
Instituições de Ensino Superior (Andes), na rede privada, onde as
demissões de professores com doutorado ou livre-docência, nos últimos
cinco anos, são observadas com freqüência, logo após a obtenção do
título acadêmico.

"Quando fui fazer a homologação da rescisão de meu contrato de
trabalho no sindicato, tive uma surpresa: encontrei quatro outros
professores de direito", relata José Cretella Neto, ex-docente da
Universidade Paulista (Unip), a maior do país em número de alunos,
demitido em 2004, meses depois de receber a livre-docência.

"Dois desses colegas tinham obtido o doutorado na USP, como eu. Um
outro, na Universidade Complutense de Madri, Espanha. Finalmente, o
último, na Universidade de Nagoya, no Japão. Perguntei o porquê de
estarmos sendo dispensados e todos me deram a mesma informação:
redução de custos", conta.

Segundo a Lei de Diretrizes e Bases da Educação, as universidades
devem ter um terço do corpo docente formado por mestres ou doutores.
Em geral, esses professores titulados recebem um percentual a mais por
hora/aula. "Como a lei exige de forma vaga, as universidades privadas
preferem ter um terço de mestres e nenhum doutor. Preferem também
especialistas com cursos lato sensu", afirma Cretella.

O professor, no entanto, faz questão de sublinhar que as universidades
cumprem a lei, mas defende que a lei precisa mudar porque "a economia
de custos das universidades para fazer frente à concorrência" está
comprometendo a qualidade do ensino superior.

"Não é a realidade", afirma Hermes Ferreira Figueiredo, presidente do
Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino
Superior do Estado de São Paulo (Semesp) e proprietário da
Universidade Cruzeiro do Sul. "Casos isolados podem dar a impressão de
que há um movimento de demissão, mas isso não é uma rotina no setor",
garante.

Segundo ele, o país está formando mais doutores, as universidades
privadas estão empregando mais titulados, porém, a demanda continua
inferior à oferta desta mão-de-obra. "O número de doutores depende do
programa pedagógico de cada instituição, a universidade é como
qualquer empresa, há uma avaliação de desempenho, não publicou durante
o ano, será dispensado", diz Figueiredo.

O presidente do Andes, Ciro Teixeira Correia, discorda: "A situação é
séria e se dá pelo descontrole do governo sobre o setor privado,
muitos professores estão escondendo o título de doutorado".

De acordo com ele, a solução passa por adaptar o sistema privado às
regras das universidades públicas, onde há o regime de dedicação
exclusiva. "Isso faz toda a diferença na qualidade do ensino. O
professor-horista não tem vínculo com a universidade, esta falta de
comprometimento reduz a produção de pesquisa e sem ela o conhecimento
não avança e o ensino fica pior", acredita.

Figueiredo rebate: "Uma universidade numa cidadezinha de Tiririca da
Serra não tem condição de contratar um doutor por tempo integral para
pesquisar e em nenhum lugar está escrito ou provado que um doutor é
melhor professor do que um profissional com experiência".

Segundo Figueiredo, o mercado de trabalho para doutores é "quase
exclusivo" em universidades e, diante do aumento do número de
titulados, está ocorrendo uma "pressão das corporações" pelo
crescimento de vagas. Para ele, as demissões podem ocorrer por
supressão de cursos, por exemplo.

Somente uma pesquisa detalhada poderia comprovar os motivos reais.
Apesar de afirmar que as demissões têm pouca relação com os custos,
Figueiredo reconhece que a exigência por mais professores titulados
aumenta as despesas: "É fácil falar em ensino mais caro por uma
mensalidade menor, mas esta equação não fecha". Se o motivo das
demissões é de difícil aferição, as conseqüências já foram medidas.

No Índice Geral de Cursos, avaliação das instituições divulgada pelo
Ministério da Educação no início do mês, apenas 4,9% das universidades
privadas receberam notas máximas (4 ou 5), sendo que as maiores do
país ficaram entre as 40 piores na lista de 173 avaliadas.

O Valor consultou o site de várias universidades privadas e constatou
que poucas atendem à portaria 2.864/2005, que obriga a divulgação
nominal do corpo docente de cada curso, indicando a área de
conhecimento, titulação, qualificação profissional e regime de
trabalho (inciso IV).

A maioria dos sites está preocupada em convencer o potencial aluno de
que as instituições oferecem qualificação profissional, ampliando as
chances no mercado de trabalho e nenhuma delas informa o número de
alunos por turma que, em muitos casos, passa de 100, obrigando o
professor a dar aula com microfone como em cursinhos pré-vestibular.

"Isto tudo decorre da falta de fiscalização por parte do governo",
acusa Correia. É justamente essa promessa que faz o Ministério da
Educação em resposta a onda de demissões de doutores: ampliar o cerco
às instituições privadas.

O secretário de Ensino Superior do MEC, Ronaldo Motta, reconhece que o
problema "é sério", mas acredita que será evitável à medida que os
processos de regulação e supervisão tornem-se mais rigorosos, segundo
ele, como tem sido a prática recente.

No caso, o próprio IGC. O índice contempla entre suas variáveis o
corpo docente, quanto à titulação ("valorizando sobremaneira os
doutores") e o regime de trabalho (identificando negativamente a
presença excessiva de horistas).

Como agora a divulgação será anual, Motta garante que a tendência será
de queda na avaliação das instituições com baixo número de doutores.

"Quem agir assim, demitindo seus doutores, será certamente
identificado na avaliação institucional e será penalizado com a
assinatura de um protocolo de compromisso, tal como expresso na Lei
dos Sinaes", diz, referindo-se ao Sistema Nacional de Avaliação da
Educação Superior, criado em 2004. Motta, porém, ressalta que não há
uma regra universal que aponte que todos os professores devam ter
dedicação exclusiva.

No Senado Federal, um projeto-de-lei (PL) começou a tramitar, há um
ano, para obrigar as universidades privadas a estabelecer um corpo
docente formado de, pelo menos, 25% de doutores, 50% de mestres (ou
doutores) e 40% de professores em regime de trabalho em tempo
integral.

A agilidade na tramitação e a aprovação do PL dependem, no entanto, da
vontade do governo de defender a idéia, pois a relatoria estava com um
senador do PT, Siba Machado, suplente da ex-ministra Marina Silva, que
retornou ao cargo.

"A educação superior no Brasil tem dado passos gigantescos nos últimos
anos. Mas são passos capengas", diz Arthur Virgilio Neto (PSDB-AM),
autor do PL. "O número de cursos e alunos aumenta, mas a qualidade
cai. Por que isso ocorre? Pela massificação desacompanhada de rigor na
composição do corpo docente, o que repercute na tímida atuação das
universidades brasileiras no campo das pesquisas. É isso que pretendo
corrigir", justifica o senador. A idéia, porém, foi recebida com
protestos pelas universidades.

Até mesmo instituições que contratam um grande número de professores
titulados, como as PUCs, reagiram à criação desta obrigatoriedade
legal. Segundo o Andes, a concorrência no setor tem empurrado as
universidades tradicionais a adaptarem-se às regras de mercado.

"A aprovação desta lei seria descabida. Não é o Legislativo que deve
dizer quantos doutores tem que ter uma universidade, que não é uma
concessão pública, como os meios de comunicação, que não são obrigados
a contratar só doutores em jornalismo", compara Figueiredo.
(Valor Econômico, 19/9)

Somos todos delinquentes acadêmicos? - parte IV

Efeitos e conseqüências

"O problema é a insistência na produtividade, sem a menor preocupação com a recepção do trabalho. Perdeu-se o equilíbrio entre esses dois elementos - a produção e a recepção" (WATERS, 2006, p. 25).

Os efeitos dessa "corrida maluca" pela produtividade são nefastos e influenciam o cotidiano acadêmico desde a graduação. Logo cedo, os graduandos aprendem a jogar o jogo e percebem a importância de "encostar" na pessoa certa, aquela que abrirá as portas para um possível mestrado.[14] Por experiência concluem que o mais importante não é necessariamente o projeto de pesquisa ou o saber, mas sim conquistar a "proteção" dos mais "produtivos", os que têm o Lattes mais extenso e que ocupam postos chaves no mundo acadêmico. Percebem que para se dar bem na carreira acadêmica precisam aceitar certas práticas e relações nem sempre justas e éticas.

O clientelismo caminha de mãos dadas com a bajulação, a adaptação e a submissão acrítica à linha teórica e ideológica do "protetor". Em lugar de favorecer a autonomia do educando, investe-se na subordinação, na formação de séquitos e de discípulos dispostos a defender a verdade do mestre, mas incapazes de pensar pela própria cabeça. [15] E nem é preciso ser bom aluno no curso, basta apenas se dar bem com o professor "X", ainda que reprove ou se saia mal em outras disciplinas.

Este é também um jogo de mútuas vaidades. Os neófitos miram-se nos exemplos que têm diante de si, aprendem a serem servis e tornam-se catedráticos na arte da dissimulação. O servilismo tende a se aprofundar na medida em que aumenta a concorrência para ingressar na pós-graduação e é reproduzida nesta.

Pressionados pela exigência de mais e mais produtividade, os docentes reproduzem o servilismo na relação com os órgãos superiores. Mutilam-se para atender as normas e regras burocráticas decididas por um grupo seleto de indivíduos, os quais agem como deuses no olimpo e cujas suas decisões são imperativas e moldam a prática cotidiana da maioria. Esta se submete. A perda do senso crítico e submissão à ordem acadêmica talvez representem o efeito mais infausto e preocupante.

As diretrizes emanadas dos órgãos superiores, e acatadas incondicionalmente no campus, favorecem o intelectual especialista. Valoriza-se o saber burocratizado, disciplinado, prisioneiro de fórmulas e padrões tidos como sinônimo do caráter científico. A forma passa a ser mais importante que o conteúdo. O discurso da transdisciplinaridade e multidisciplinaridade, tão em moda por certo período, não suplanta práticas fundadas na especialização. Os próprios critérios de avaliação desses organismos pressupõem consistência na área de pesquisa, ou seja, a constatação de que os pesquisadores se atêm aos mesmos "objetos", por anos, décadas...

Ao anuir com os critérios positivistas da medição matemática do saber, como se este pudesse ser verdadeiramente mensurado, numa clara rendição às áreas do conhecimento acadêmico que priorizam a quantificação e também aos princípios mercadológicos cada vez mais influentes no campus. Acentua-se o "produtivismo". Na medida em que se prioriza a quantidade, compromete-se a qualidade do que é publicado. Claro, há muitos interesses a defender e é melhor não colocá-los em risco. Prevalece a mentalidade burocrática e conformista. É como se dissessem implicitamente que devemos "provar que não somos mentes independentes, que nos submetemos às regras e aos objetivos da alta produtividade", escreve Lindsay Waters (Id., p. 87). A mediocridade caminha de mãos dadas com o conformismo.

O resultado é um ambiente acadêmico cada vez mais estressante e deprimente, povoado por indivíduos conformistas e apegados a interesses particulares e mesquinhos, fechados em feudos e lançados numa corrida desenfreada para conquistar posições, status e recursos materiais. O sonho dourado do sucesso, do reconhecimento dos pares, passa pela aceitação sem resistência ou questionamento da ideologia produtivista. A "Casa de Salomão" imaginada por Francis Bacon tem mais o aspecto de um imenso "cemitério dos vivos".

Concluindo...

Passaram-se cerca de três décadas. Será que a situação denunciada por Maurício Tragtenberg foi superada?[16] Claro, as circunstâncias são outras, a sociedade e a universidade passaram por mutações. Parece-me, entretanto, que as observações de Maurício Tragtenberg permanecem atuais. Mesmo no nível puramente empírico é possível notar situações e atitudes que demonstram a permanência e intensificação dos aspectos que ele identificou como próprios da delinqüência acadêmica. Persistem práticas e atitudes delinqüente e com o agravante de que parecem naturalizadas e aceitas como necessárias e "normais". Perde-se a capacidade de escandalizar-se e encontram-se argumentos racionais para legitimá-las.

Não é fácil resistir à pressão pela adaptação. Vivemos a contradição da obediência à autoridade racional burocrática, às exigências inerentes à sobrevivência pessoal e acadêmica e, simultaneamente, a consciência da necessidade de negar e criticar o campo do qual somos partes. Eis o paradoxo do intelectual que, apesar de tudo, insiste em não se submeter. Nesses momentos, devemos nos mirar no exemplo de intelectuais como Tragtenberg, Bourdieu e Edward W. Said, entre outros, que mostraram a possibilidade de sobrevivermos sem fazer o sacrifício do espírito crítico e da liberdade, ainda que saibamos dos limites e dificuldades. Como escreveu Said (1993, p. 90):

"Em outras palavras, o intelectual propriamente dito não é um funcionário, nem um empregado inteiramente comprometido com os objetivos políticos de um governo, de uma grande corporação ou mesmo de uma associação de profissionais que compartilhem uma opinião comum. Em tais situações as tentações de bloquear o sentido moral, de pensar apenas do ponto de vista da especialização ou de reduzir o ceticismo em prol do conformismo são muito grandes para serem confiáveis. Muitos intelectuais sucumbem por completo a essas tentações e, até certo ponto, todos nós. Ninguém é totalmente auto-suficiente, nem mesmo o mais livre dos espíritos" (grifos nosso).

A exigência da adaptação é forte. Os inadaptados são vistos como um tipo em extinção. No reino do vale tudo na competição por prestígio e vantagens materiais e financeiras, a recusa só pode ser caracterizada como ingenuidade própria dos tolos. Não advogo o auto-isolamento ou uma atitude do tipo "ludista", mas sim a necessidade de manter a lucidez e usar os meios que a própria universidade oferece, e o nosso trabalho intelectual, para combater o poder e as ilusões dos conformistas. O sentido da vida, e do viver, é mais profundo do que as fúteis vaidades e sonhos consumistas que acalentamos. É preciso tirar o véu que encobre a realidade e resistir aos devaneios de uma existência vazia de significados. É possível ser e agir diferente; é necessário resistir aos "inimigos da esperança"!

Somos todos delinquentes acadêmicos? - parte III

A universidade pública é assediada permanentemente por práticas e ideologia mercantis. Tudo se torna mercadoria. A docência por vocação, o amor ao conhecimento e o desprendimento dá lugar ao interesse egoísta enquanto fator direcionador da práxis acadêmica.[11] Predomina a "caça ao tesouro" e deve-se afastar tudo o que atrapalha sua conquista. Os fins que deveriam pautar a ação política-pedagógica e crítica da universidade tornam-se meios para atingir os objetivos particulares e/ou setoriais. O discurso da "universidade pública" torna-se estratégia para efetivá-los. A universidade aparece, então, como um grande bolo em disputa constante entre os grupos que se organizam para abocanhar os melhores pedaços. Quem pode mais, come mais! Dessa forma, os cargos e controle de espaços são fundamentais, em especial aqueles que, por sua natureza, controlam outros cargos a serem preenchidos pelos amigos e pessoas de confiança.

Até mesmo a criação de departamentos, cuja necessidade é duvidosa, se insere nessa lógica. Cada departamento criado gera mais cargos e uma estrutura que consome recursos sociais. Se não houvesse os recursos injetados nesta estrutura, provavelmente nada funcionaria. Quem quer ser chefe, coordenador, diretor, pró-reitor, reitor, etc., sem ganhar nada mais do que o seu salário como servidor? Afinal, desempenham funções importantes e são eleitos para tal. O problema é que quem paga a conta não são eles nem seus eleitores, mas a sociedade. Os defensores da "universidade pública" precisam ser remunerados para defendê-la. Não se trata de culpabilizar, é apenas a lógica do sistema. O óleo que lubrifica suas engrenagens é a moeda, e também o status e as facilidades que se tem ao se ocupar determinadas funções. Você tem a opção de participar ou não, com o bônus ou o ônus inerente à sua decisão.

Na universidade pública cobram-se taxas explícitas e implícitas. Artifícios da norma legal são utilizados para manter cursos de pós-graduação. Tudo dentro da mais perfeita ordem! E quem será insano a ponto de questionar a legalidade de práticas presentes em setores hierarquicamente poderosos na estrutura universitária? Quem terá a ousadia de afirmar que o lícito não é necessariamente ético? No "cemitérios dos vivos" o questionamento dá lugar à vista grossa e à acomodação de interesses. E, afinal, na luta política é preciso manter as portas abertas para possíveis alianças à época das eleições internas.

Neste ambiente, a crítica e a resistência são formas de adaptação. Os "heróis da resistência" podem até manter o discurso crítico e radical, mas terminam por se acomodarem e se conformarem. Os sinceros vivem entre a angústia da observância dos princípios éticos e a negação destes, impostas pelas necessidades práticas e imediatas. Como o Dr. Johannes Georg Faust, personagem da obra de Goethe, devem obedecer ao pacto feito com o demoniáco Mefistófeles.

Ainda sobre o Lattes [12]
Talvez o Lattes seja a melhor expressão do mercado acadêmico em que se tornou a universidade pública. O Lattes tornou-se uma espécie de instituição avalizadora do status acadêmico e foi praticamente sacralizado enquanto referência para decisões que podem afetar a vida docente e discente. Se você não tem Lattes, simplesmente não existe. E não adianta apenas tê-lo, é preciso atualizá-lo. O que está no Lattes é tomado como verdadeiro, e ponto! Não consta do Lattes, não existe![13] Eis como nos forçam à adaptação.

Mas é possível resistir. Há imperativos que não temos como fugir, mas também não precisamos vender a alma àquele cujo nome não deve ser pronunciado. Em outras palavras, nos limites estabelecidos ainda somos senhores das nossas ações. Publicar a qualquer preço, render-se ao "produtivismo" e utilizar-se do vale tudo para "enriquecer o Lattes", pode até gerar resultados que impressionem e nos deixem bem "qualificados" para disputar editais e outras coisas, mas certamente não é ético. A verdade é que as exigências éticas que fazemos aos outros (por exemplo, aos políticos) nem sempre são lembradas quando se trata dos nossos interesses particulares (ainda que travestidos de "interesse público"). Um dos maiores desafios que temos enquanto ser (es) humano (s) é conseguir manter a coerência entre o discurso e a prática. Nenhum de nós está livre de cair em contradição.

Os organismos financiadores e controladores ditam as regras e determinam o que é importante. Somos induzidos à adaptação acrítica, sem questionamento do como e de quem são os que decidem e direcionam os rumos do campo acadêmico. As práticas de mútuo favorecimento, clientelismo são fortalecidas pela necessidade de publicar, de somar pontos, "enriquecer o Lattes" e aumentar a "folha corrida". Estabelecem-se relações de conveniências, pactos de hipocrisias que resguardam interesses recíprocos.

A pressão do Lattes influencia o mercado editorial acadêmico e até estimula plágios, comércio de trabalhos acadêmicos, etc. Hierarquiza-se a produção entre os que têm e os que não têm os recursos para financiar a publicação. Há até revistas que cobram para publicar e isto é visto por muitos como normal e natural. Se você tem money e pode pagar a edição do seu livro, não terá maiores dificuldades em conseguir a chancela de uma editora universitária ou mesmo privada. Há editoras cujo filão consiste basicamente em publicar textos acadêmicos, desde que os autores consigam financiamento. É capitalismo sem risco. Com injeção de dinheiro público, lucra-se antes e depois. E ainda garante-se a felicidade do autor e o seu Lattes.

Diante desta realidade, por que não investir na própria publicação? Livros publicados pelo próprio autor não é quantificado como qualquer outro? Por que submeter-se ao mercado editorial se podemos organizar nossa própria editora e publicarmos? Cooperativas de autores não são novidades, como também não é nova a prática de cotizar-se para financiar a publicação. Em determinadas circunstâncias até pode ser considerado desejável. O problema é quando o objetivo deixa de ser divulgar textos, idéias e trabalhos que não têm espaço no mercado editorial universitário e nas editoras privadas e passa a ser simplesmente "fazer o Lattes", "somar pontos", ser produtivo e ganhar a concorrência dos editais.

Aos que não têm como financiar seus trabalhos resta trilhar a via sacra e esperar até que, se tiver sorte, surja a oportunidade. Em tese, poderá publicar numa editora acadêmica, mas deve ter a paciência para esperar os trâmites burocráticos, os quais podem demorar meses e anos. Há a chance de ver seu livro publicado e deve agradecer aos céus por isso, mas será bem mais rápido e fácil se tiver o dinheiro.

A pressão pela publicação tem o efeito "positivo" de estimular a criatividade e "solidariedade" entre os indivíduos. Organizamo-nos para publicar uma obra, pois sabemos o quanto isso é importante para o coletivo. Pode ocorrer que o coletivo seja prejudicado devido à baixa produtividade dos docentes, com o risco de não ter recursos necessários para os projetos, que a pós-graduação seja inviabilizada e que os alunos não tenham a chance de aprovar seus projetos de pesquisa. Nosso Lattes precisa ser "enriquecido" em prol da coletividade; precisamos mostrar produtividade. Organizemos, então, uma obra com artigos de todos - não importa sobre o quê, nem se será lido. Melhor ainda se tivermos verba para publicar e garantir a chancela da editora.

Somos todos delinquentes acadêmicos? - parte II

Entre a resistência e a adaptação

"Mesmo os intelectuais que são membros vitalícios de uma sociedade podem, por assim dizer, ser divididos em conformados e inconformados. De um lado, há os que pertencem plenamente à sociedade tal como ela é, que crescem nela sem um sentimento esmagador de discordância ou incongruência e que podem ser chamados de consonantes: os que sempre dizem "sim"; e, de outro, os dissonantes, indivíduos em conflito com sua sociedade e, em conseqüência, inconformados e exilados no que se refere aos privilégios, ao poder e às honrarias. O modelo do percurso do intelectual inconformado é mais bem exemplificado na condição de exilado, no fato de nunca se encontrar plenamente adaptado, sentindo-se sempre fora do mundo familiar e da ladainha dos nativos, por assim dizer, predisposto a evitar e até mesmo a ver com maus olhos as armadilhas da acomodação e do bem-estar nacional. Para o intelectual, o exílio nesse sentido metafísico é o desassossego, o movimento, a condição de estar sempre irrequieto e causar inquietação nos outros" (SAID, 2005, p.60, grifos nosso).

O modus vivendi do homo academicus pressiona constantemente para a adaptação. Ainda que tenha consciência crítica do campo acadêmico, são várias as armadilhas presentes no cotidiano. Na verdade, as exigências administrativas, burocráticas e acadêmicas impõem práticas e discursos legitimadores que nos cercam por todos os lados. Estamos sujeitos à lógica da concorrência: somos assalariados, submetidos a regras e normas burocráticas que regem o nosso dia-a-dia. Se, por exemplo, queremos passar de um nível para outro na escala da carreira, devemos apresentar a produção no período e somar o número de pontos exigidos. Se menosprezarmos esse procedimento, teremos prejuízos financeiros acumulados.

A necessidade de "pontuar" transforma a vida acadêmica numa espécie de contabilidade, na qual tudo o que fazemos é quantificado. Portanto, torna-se mais importante somar pontos do que a atividade em si. Publicar um artigo passa a ser muito mais uma necessidade administrativa, na medida em que vale "x" pontos para subir na carreira. A produtividade pressupõe quantidade. Assim, não importa se tem qualidade, a tiragem e onde foi publicado, menos ainda se será lido, mas sim se quem publicou tem os requisitos exigidos para que seja pontuado.[7] Este tipo de pressão favorece práticas nada condizentes com o que se espera de um ponto de vista ético.

Como salienta Waters (2006, p.12), "há um elo causal entre a demanda corporativa pelo aumento da produtividade e o esvaziamento, em todas as publicações, de qualquer significação que não seja gerar números". A linha de montagem fordista-taylorista acadêmica produz coisas sem sentido, cujo principal objetivo é simplesmente atender à demanda por mais e mais "artigos", "livros", etc., dos organismos governamentais e privados que injetam dinheiro nas artérias da universidade. A ânsia por se agraciado pela oferta do "deus Estado" ou o "deus mercado", contribui para a cultura produtivista. Nestas circunstâncias, "o produto é tudo que conta, não sua recepção, não o uso humano. Isso é produção apenas com o valor de um fim em si mesmo e praticamente mais nenhum outro" (Id., p. 42).

A pressão é ainda maior quando se tem em vista as exigências dos órgãos superiores em relação à pós-graduação. Aqui, trata-se da própria sobrevivência dos programas e do status proporcionado pelos vínculos aos mesmos. A necessidade de publicar e de apresentar produtividade, a qualquer preço, é ainda maior. Não é por acaso que nas ciências humanas adota-se uma prática muito comum em outras áreas, a qual consiste em aparecer como co-autor nos artigos dos orientandos. Muitas vezes, a co-autoria não se justifica e uma simples nota de agradecimento no rodapé faria justiça ao orientador, mas isso não conta ponto.[8] Em nome da sobrevivência do programa, e das necessidades docentes, entra-se no reino do vale tudo. Se, por exemplo, reprovar um pós-graduando pode prejudicar a avaliação do programa, então devemos aprová-lo, ainda que nada o justifique. Se você deseja participar tem que jogar o jogo, aceitar as regras e exigências. Há a opção de não participar, mas esta acarreta ônus (como não ter qualquer possibilidade de influência sobre as decisões e na escolha dos candidatos).

Em todas as áreas, a influência dos organismos superiores é determinante. Se você quer ter a mínima chance de ser agraciado com recursos, vencer um edital, etc., deve se submeter. E não basta ser submisso, tem que provar que está à altura do seu gesto, isto é, deve se enquadrar e corresponder às exigências de produtividade. O critério é mercadológico: ganha quem "produziu" mais, não importa a qualidade do que foi "produzido". A injeção de recursos público e privado, num montante talvez sem precedentes, acirra a pressão para que os concorrentes se "qualifiquem" para conquistá-los. Criam-se diferenciações internas, hierarquias mantidas por recursos externos. Os que agraciados terão melhores condições para incorporar alunos a seus projetos e de influenciá-los. Poderão manter a clientela e o fato de terem conquistado esta posição fortalece o status de vencedores. Não faltarão "mariposas" a rondar a luz que irradiam.

O crítico, se alguém ousar fazer esse papel, corre o risco de ser tachado de invejoso e ressentido, sem que se atente para o simples fato de que não aceitou jogar o jogo[9], isto é, fazer parte da concorrência. No mercado universitário, quem não se adapta está condenado a viver apenas do seu próprio salário e a não ter recursos, ainda que tenha projetos merecedores. Claro, a culpa é dele próprio. Os editais e as oportunidades são para todos e ninguém é culpado por ele não disputar. Se não está apto para a concorrência, problema dele. Será lembrado quando se tratar de atividades que não têm remuneração extra. E se alguém lhe oferece algo que envolva ganho extra e ele recusa em nome de princípios, será, na hipótese condescendente, considerado ingênuo ou chamado ironicamente de "franciscano" dos tempos modernos. Deve ser algum problema psicológico que a filosofia tomista explica, ou simplesmente bobeira.

Cada vez mais as relações na universidade são intermediadas pelas leis do mercado. Os projetos para os pobres, movimentos sociais, etc., tornam-se formas de ganhar dinheiro. Os governos, estadual e federal, injetam recursos que geram resultados duvidosos e paliativos para os que, em tese, são os destinatários. É preciso conhecer o "caminho das pedras", saber onde estão e disputar as verbas (é preciso até mesmo reuniões que orientem, em nome da "competência" e "excelência" da instituição).[10] "Ser solidário", "cumprir uma função social", "engajar-se", virou meio de vida (e com a aura de "militância intelectual").

A estrutura universitária é irrigada com uma fonte que também representa renda extra. Isso é feito de maneira legal, com a aprovação e complacência dos departamentos e outros níveis decisórios no campus. Estabelece-se o pacto, tácito ou explícito, pelo qual "A" não cria problemas para a aprovação do projeto de "B" e vice-versa. E não importa como são articulados e manipulados os procedimentos para sua aprovação. Estamos no reino do vale tudo!

Somos todos delinquentes acadêmicos? - parte I

Somos todos delinqüentes acadêmicos?
Antonio Ozaí da Silva*

Será que eu falei
O que ninguém ouvia?
Será que eu escutei
O que ninguém dizia?
Eu não vou me adaptar
Me adaptar...
(Titãs)

"Como foi que chegamos a departamentos cheios de acadêmicos infantilizados?"
"A sabedoria de hoje diz: não formule grandes questões; não pergunte por que as coisas são como são"
"Gente demais acredita hoje que o trabalho intelectual diz respeito apenas a postos e promoções"
"Enquanto aceitarmos esse sistema, permaneceremos dentro da baleia"[1]
(Lindsay Waters, 2006, p.36, 53, 81 e 83

À guisa de alerta!
Ao contrário do que poderíamos imaginar, o homo academicus é muito suscetível à crítica. No ambiente universitário ardem as chamas das doutas vaidades e a racionalidade dita científica mascara sentimentos mesquinhos. Entre nós, os intelectuais, o narcisismo tende a ser acentuado e talvez isto contribua para compreendermos os melindres observáveis em nosso meio. Vaidade das vaidades![2]
A necessidade de distinção[3] não algo restrito ao egocentrismo individual, mas uma necessidade inerente ao campo acadêmico. [4] Não se trata, portanto, de identificar e condenar os pecadores, mas de analisar os pecados - e todos estamos sujeitos a cometê-los. Estas reflexões, bem claro, não se dirigem nem é uma peça acusatória a qualquer indivíduo em especial. Se a carapuça servir e encontre quem a vista, a culpa não é minha. O objeto, contudo, é o campo acadêmico; o objetivo é analisá-lo numa perspectiva crítica, com a esperança de contribuir para a auto-análise coletiva.
Maurício Tragtenberg
Em 1978, no I Seminário de Educação Brasileira, realizado em Campinas (SP), Maurício Tragtenberg falou sobre a "delinqüência acadêmica". O jornalista Laerte Ziggiati registrou:
"Porém, no meio de muita discussão teórica, houve um momento em que grande parte do público presente explodiu em aplausos. Foi quando encerrou sua comunicação o professor Maurício Tragtenberg, da Faculdade de Educação da Unicamp e da Escola de Administração de Empresas de São Paulo (FGV). Maurício Tragtenberg, com sua longa experiência, rasgou o verbo e com grande coragem deu um retrato fiel e ao mesmo tempo sombrio da situação crítica da Universidade brasileira." [5]
Tragtenberg, então, chamava a atenção de que a universidade não é neutra, mas sim uma instituição que expressa interesses e as contradições inerentes à sociedade. A universidade, porém, tende a obscurecer esse caráter pela afirmação da ideologia de um saber aparentemente neutro, que seria "objetivo" e "científico" e estaria acima dos antagonismos sociais. [6] Ele enfatiza o caráter classista da universidade. O saber legitimado no campus não é um saber ingênuo, desprovido da influência das relações de poder. Sua estrutura burocrática e autoritária fortalece a ordem e o poder, influencia o corpo docente e discente e é referência para a práxis no campus. Tanto professores quanto alunos reproduzem-na cotidianamente, dentro e fora da sala de aula.
Na universidade predomina o especialista. Ela produz uma espécie de taylorismo intelectual, com a divisão do conhecimento em disciplinas estanques e a instrumentalização do saber aplicado a fins empresariais e militares. Dessa forma, a universidade submeteu-se à racionalidade capitalista, transformando-se numa instituição tecnocrática. Sua função é formar os que contribuirão para a manutenção da ordem, fundada no despotismo nos locais de trabalho e no controle político e social abrangendo toda a sociedade. Seus institutos de pesquisa,
"cria[m] aqueles que deformam os dados econômicos em detrimento dos assalariados; nas suas escolas de direito, forma[m] os aplicadores de legislação de exceção; nas escolas de medicina, aqueles que irão convertê-la numa medicina do capital ou utilizá-la repressivamente contra os deserdados do sistema. Em suma, trata-se de um "complô de bela almas" recheadas de títulos acadêmicos, de doutorismo substituindo o bacharelismo, de uma nova pedantocracia, da produção de um saber a serviço do poder, seja ele de que espécie for" (TRAGTENBERG, 1990, p.11).
A universidade reproduz os valores predominantes na sociedade pela seleção e transmissão de conhecimentos legitimados institucionalmente; sua estrutura e pedagogia burocrática contribuem para a formação de indivíduos submissos, servis e desprendidos de qualquer preocupação de crítica social - mesmo nos chamados "cursos críticos". Em suma, a universidade tende a se desincumbir de qualquer função crítica. Tragtenberg, com ironia, argumenta que quem deseje levar a sério o lema kantiano "Ouse conhecer", terá que realizá-lo fora do campus: "Se os estudantes procuram conhecer os espíritos audazes de nossa época, é fora da universidade que irão encontrá-los" (Id., p. 13).
Estamos, assim, diante de uma universidade que produz intelectuais sem compromisso ético e social; intelectuais desresponsabilizados diante da realidade social que os cerca, cuja vinculação com o mundo real se dá pelos interesses econômicos e políticos individuais e corporativos. São especialistas voltados para os seus respectivos "feudos", à cata de financiamentos e recursos materiais que lhes proporcionem status, conforto e as condições para uma boa vida. Não importam as fontes dos recursos e nem as finalidades sociais do conhecimento produzido, mas sim conseguí-los. Muitas vezes, tais práticas são encobertas pela retórica do "público". "Em nome do "serviço à comunidade", a intelectualidade se tornou cúmplice do genocídio, espionagem, engano e todo tipo de corrupção dominante, quando domina a "razão de Estado" em detrimento do povo", enfatizou Tragtenberg. (Id., p.14-15).
Na disputa dos interesses individuais e corporativos, camuflados sob o discurso da "universidade pública", "interesse público", "bem-comum", etc., os fins justificam os meios. Prevalece "a política de "panelas acadêmicas" de corredor universitário e a publicação a qualquer preço de um texto qualquer", os quais "se constituem no metro para medir o sucesso universitário". Neste universo, "a maioria dos congressos acadêmicos serve de "mercado humano", onde entram em contato pessoas e cargos acadêmicos a serem preenchidos, parecidos aos encontros entre gerentes de hotel, em que se trocam informações sobre inovações técnicas, revê-se velhos amigos e se estabelecem contatos comerciais" (Id., p. 15). Eis a delinqüência acadêmica!

É faculdade mas parece colégio

Isto é - 13/8/2008

Imaturidade emocional e despreparado intelectual dos alunos fazem as
universidades se comportarem como escolas

Na faculdade, notas, faltas e trabalhos são vigiados pelos pais

Alunos chegam atrasados, conversam durante a aula e colam na prova.
Educadores, por sua vez, distribuem advertências, expulsam de classe,
ligam para os familiares e agendam reuniões de pais e mestres. Há
cinco anos, relações nesse nível, envolvendo professores, estudantes e
seus respectivos responsáveis, eram exclusividade do ensino médio.
Hoje, no entanto, esse é o tom em muitas faculdades privadas Brasil
afora. E não é apenas a falta de preparo emocional que leva o clima de
colegial para os corredores da faculdade. Os calouros chegam com
déficit de aprendizado e várias instituições têm oferecido disciplinas
como português, matemática e informática com conteúdo do ensino médio.
Situações como essas mostram que a universidade está deixando de
trazer consigo a simbologia de rito de passagem da adolescência para a
vida adulta e se transformando numa continuação do colégio.

"Percebemos que os alunos chegam cada vez mais jovens, imaturos e com
problemas de formação básica", atesta a professora Vera Lúcia
Stivaletti, pró-reitora de graduação da Universidade Metodista de São
Paulo. Com a chegada desse "novo jovem", a educadora adaptou a
instituição. Desde 2007 ela recebe pais para visitas guiadas ao campus
e oferece aulas de português, matemática, informática e biologia. A
resposta tem sido positiva. "Quando minha mãe veio para a reunião,
meus colegas disseram que eu deveria ficar com vergonha. Mas eu acho
legal", confessa Gabriela Schiovan, 17 anos, aluna de psicologia. Sua
mãe, Sandra, 47, monitora as notas da filha. "É preciso complementar a
faculdade", considera.

BÊ-Á-BÁ Curso superior ensina aluno a ler, escrever e fazer contas
Em instituições como a Escola Superior de Propaganda e Marketing
(ESPM), em São Paulo, a participação paterna é incentivada antes mesmo
do vestibular. Há seis anos ela organiza o "ESPM Experience", um dia
voltado para o debate de cursos e mercado de trabalho. "Depois que os
alunos são aprovados, organizamos reuniões com os pais e professores",
diz Alexandre Gracioso, diretor nacional de graduação da ESPM. Lá e na
Fundação Educacional Inaciana, em São Bernardo (SP), os pais são
bem-vindos inclusive no dia do vestibular. Enquanto os alunos fazem a
prova, eles vivenciam uma "inclusão acadêmica", com visita monitorada,
palestras sobre o curso, carreira e mercado de trabalho. "Tentamos
mostrar que aqui tratamos o aluno como um futuro profissional", diz
Rivana Marino, vice-reitora de Extensão e Atividades Comunitárias. Mas
essa participação tem limites. "Muitos pais ligam para saber de notas,
mas acho isso prejudicial para os filhos", diz Gracioso, da ESPM.

Ao mesmo tempo que lidam com a imaturidade emocional, as universidades
enfrentam o problema do despreparo intelectual. Grande parte dos
alunos de primeiro ano chega ao ensino superior sem condições de
aprender as novas disciplinas. O problema atinge principalmente jovens
vindos de escolas públicas que vão para faculdades privadas
inauguradas na última década. De 1997 a 2003, o ensino superior
privado no País viveu um boom. Nesse período, o total de novos alunos
cresceu 150% - de 392 mil para 1 milhão. Migraram para essas novas
instituições jovens que não pontuavam em universidades públicas ou
particulares de tradição. A solução foi criar, em caráter obrigatório
e extracurricular, aulas com conteúdo de ensino médio. Na prática,
transferiuse para o curso superior o problema da péssima formação do
aluno.

A Faculdade Alfacastelo, em São Paulo, abriu as portas em 2000 e há
três anos dá aulas de nivelamento, como é chamado esse reforço.
Durante o primeiro ano, os calouros chegam 50 minutos antes para
aprender gramática, interpretação de texto e matemática. "Vejo
problemas básicos, como alunos que não sabem regra de três", diz Celso
Britto, diretor institucional. O Centro Universitário Celso Lisboa, no
Rio, também investe no resgate de disciplinas do ensino médio. Segundo
Bruno Corrêa, coordenador de vestibular, as aulas, que ocorrem desde o
início de 2007, reduziram o índice de trancamento dos cursos. "As
desistências atingiam 30% das matrículas do primeiro para o segundo
período", conta. O secretário de Educação Superior do Ministério da
Educação, Ronaldo Mota, reconhece a má qualidade do ensino no País e
apóia essas iniciativas. "Sei de casos em que o déficit de ensino foi
superado", afirma. Vale lembrar: oferecer aulas de nivelamento (ou
adaptação pedagógica) conta pontos para as instituições que as
oferecem em avaliações do Ministério da Educação e Cultura (MEC).

O piso salarial dos professores

Editorial - O Estado de S. Paulo - 8/8/2008

A pressão de Estados e municípios contra a lei que instituiu o piso
salarial nacional de R$ 950 para o magistério público surtiu efeito.
Apesar de a ter sancionado há três semanas, o presidente Lula decidiu
solicitar à Advocacia-Geral da União um parecer sobre sua
constitucionalidade. Na realidade, o órgão fora ouvido quando o
projeto subiu para sanção presidencial, mas essa foi a brecha jurídica
encontrada pelo Palácio do Planalto para ganhar tempo e tentar fechar
um acordo com os governadores.

O piso salarial unificado para os professores da rede pública de
ensino básico é uma antiga reivindicação da categoria. Em 1994,
chegou-se a firmar um acordo com o governo do então presidente Itamar
Franco - que, no entanto, não foi implementado.

A medida sempre contou com o endosso dos especialistas em pedagogia e
a nova tentativa de convertê-la em lei surgiu em 2007, por iniciativa
do senador Cristovam Buarque (PDT-DF), com apoio do ministro da
Educação, Fernando Haddad. A lei aprovada pelo Senado, na última
sessão antes do recesso de julho, determinou que os R$ 950 comecem a
ser pagos gradativamente a partir de 2009 e concedeu aos Estados e
municípios o prazo de três anos para a aplicação integral do piso, que
será corrigido anualmente com base no Índice Nacional de Preços ao
Consumidor (INPC).

O problema é que, durante sua tramitação no Congresso, o projeto
sofreu várias alterações, por pressões corporativas de entidades de
trabalhadores do setor educacional. Uma das emendas impôs o pagamento
dos R$ 950 a todos os professores aposentados - uma medida onerosa,
que carece de qualquer justificativa pedagógica. Outra, estabeleceu
que 33% da jornada de trabalho de 40 horas semanais dos professores
sejam reservadas para atividades extraclasse, como planejamento e
preparação de aulas. Hoje, esse porcentual oscila entre 20% e 25%.
Além disso, o projeto excluiu do cálculo do piso salarial unificado as
gratificações funcionais do professorado, como qüinqüênios e sexta
parte.

Foram essas alterações que levaram prefeitos e governadores a declarar
guerra contra a lei. Eles alegam que a imposição de 33% da jornada de
trabalho para atividades extraclasse os obrigará a contratar grande
número de professores. No Rio Grande do Sul, seriam necessários 27,4
mil docentes, além dos 83 mil em atividade. São Paulo, que já tem 243
mil professores, teria de contratar outros 80 mil. E Minas, com 160
mil professores, teria de contratar mais 16 mil. A estimativa do
Conselho Nacional de Secretários da Educação, com base em dados de 14
Estados, é de que a cada quatro docentes será preciso contratar um
novo, inflando a folha de pagamento.

Para a entidade, essa medida, conjugada com a extensão do piso
nacional a aposentados e pensionistas, levará os Estados a
ultrapassarem o teto de gastos com pessoal fixado pela Lei de
Responsabilidade Fiscal, que limita em 49% da receita corrente líquida
estadual a despesa total com funcionários do Poder Executivo. Com a
nova lei, os gastos de alguns Estados com a folha de pagamento do
magistério, como Minas Gerais e Rio Grande do Sul, podem crescer até
50%. Em 2007, pelo menos oito Estados - Acre, Alagoas, Goiás, Minas,
Pará, Paraíba, Piauí e Rio Grande do Norte - encerraram o exercício
fiscal com despesas de pessoal próximas do limite.

Os governadores também criticam a obrigatoriedade de reajuste anual do
piso, alegando que a imposição da medida por lei federal é uma
ingerência indevida da União nas relações contratuais de cada Estado
com o magistério. E reclamam da utilização do INPC como indexador,
pois esse indicador poderá produzir desequilíbrios orçamentários, se a
inflação crescer mais do que a receita.

Para tentar derrubar a lei, alguns governadores ameaçaram recorrer ao
STF, enquanto outros levaram suas queixas diretamente ao Palácio do
Planalto. Diante de tanta pressão, Lula mostrou que aceitará uma
negociação. A idéia é conceder o piso só aos docentes ativos e revogar
as medidas que inflam a folha de pagamento sem melhorar a qualidade de
ensino.

Avaliação não é ameaça

"A escola que fazia o estudante aprender para passar nas provas agora
ensina para ela mesma ser aprovada"
Luis Carlos de Menezes

As provas devem servir para acompanhar o processo de aprendizagem do
aluno, e nunca ser temidas como sentenças

Julgamentos e estimativas são sempre necessários. Um simples olhar
avalia uma vaga de estacionamento ou a deselegância de um gesto. Uma
rápida operação mede a pressão arterial ou verifica o saldo bancário.
Somente a análise complexa, no entanto, diagnostica um paciente ou uma
grande organização. Avaliações educacionais, por sua vez, verificam
habilidades de alunos e o desempenho de redes escolares. Os objetivos,
nesse caso, são tão diferentes quanto os de exames médicos que
orientam tratamentos ou de provas para certificar profissionais e
classificar serviços.

As avaliações mais importantes são as que orientam o ensino,
integradas ao processo de aprendizagem, e não simples provas
periódicas. Ao propor uma gincana em que as crianças escrevam bilhetes
anônimos e numerados, com instruções para ações dos colegas, a
professora que acaba de assumir uma turma desenvolve uma boa
socialização enquanto verifica as competências de ler e escrever de
cada um. Atividades desse tipo, da Educação Infantil ao Ensino Médio,
revelam mais do que provas. Porém, o uso delas é tão raro quanto o de
diagnósticos iniciais. O resultado disso é que, às vezes, expectativas
de aprendizagem equivocadas somente são percebidas quando já é tarde
demais.

Quando as turmas são grandes, em vez de levar pilhas de trabalhos para
corrigir (e às pressas, pois a vida é curta), é melhor o professor
instruir os estudantes para que se auto-avaliem em atividades de
classe ou de casa. Sabendo contornar possíveis limitações, a escola
pode orientar as famílias para se tornarem parceiras no processo,
mostrando os objetivos das etapas do ensino e o que será verificado em
provas parciais. As finais ganham a função de confirmar e certificar o
trabalho, mas insucessos põem em questão a própria escola.

A qualidade da Educação deve ser aferida, e as provas gerais têm esse
papel, nem sempre bem interpretado. Classificar escolas lembra "coisa
de mercado" e, como provocação, eu diria que a escola que fazia o
estudante aprender só para tirar boas notas nas provas - como alguém
que cuida da saúde só para passar no exame médico - agora também
ensina para ela mesma ser aprovada.

Avaliações como a Prova Brasil permitem planejar o aperfeiçoamento de
escolas e redes. Já o Exame Nacional do Ensino Médio, o Enem, foi
concebido para que cada jovem, ao fim da Educação Básica, possa
mostrar as competências adquiridas para se expressar, compreender,
intervir, argumentar e propor, mas também pode servir para apontar a
uma escola como está o desempenho médio dos estudantes.

Cabe a esses exames orientar, e nunca "carimbar" uma instituição - e é
bom evitar comparações absolutas entre escolas e professores atuando
em situações diversas. A sociedade e o Estado precisam saber que quem
trabalha em condições difíceis e com público carente está na
trincheira da eqüidade social e do desenvolvimento, sendo assim a
vanguarda - não a retaguarda da Educação.

Em síntese, em quaisquer circunstâncias, avaliações são meio ou
confirmação de nosso trabalho, nunca sua razão de ser. Assim, devem
ser vistas como recursos para aprender e ensinar melhor, nunca temidas
como sentenças, nem pelo aluno nem por nós.

Luis Carlos de Menezes
Físico e educador da Universidade de São Paulo, sabe que a avaliação é
um recurso insubstituível do professor.

21.10.08

Assim caminha a educação...


Relato de uma Professora:

Semana passada comprei um produto que custou R$ 1,58. Dei à balconista R$ 2,00 e peguei na minha bolsa 8 centavos, para evitar receber ainda mais moedas. A balconista pegou o dinheiro e ficou olhando para a máquina registradora, aparentemente sem saber o que fazer. Tentei explicar que ela tinha que me dar 50 centavos de troco, mas ela não se convenceu e chamou o gerente para ajudá-la. Ficou com lágrimas nos olhos enquanto o gerente tentava explicar e ela aparentemente continuava sem entender.

Por que estou contando isso?

Porque me dei conta da evolução do ensino de matemática desde 1950, que foi assim:

1. Ensino de matemática em 1950:
Um cortador de lenha vende um carro de lenha por R$ 100,00. O custo de produção desse carro de lenha é igual a 4/5 do preço de venda. Qual é o lucro?

2. Ensino de matemática em 1970:
Um cortador de lenha vende um carro de lenha por R$ 100,00. O custo de produção desse carro de lenha é igual a 4/5 do preço de venda ou R$ 80,00.
Qual é o lucro?

3. Ensino de matemática em 1980:
Um cortador de lenha vende um carro de lenha por R$ 100,00. O custo de produção desse carro de lenha é R$ 80,00. Qual é o lucro?

4. Ensino de matemática em 1990:
Um cortador de lenha vende um carro de lenha por R$ 100,00. O custo de produção desse carro de lenha é R$ 80,00. Escolha a resposta certa, que indica o lucro:
( )R$ 20,00 ( )R$40,00 ( )R$60,00 ( )R$80,00 ( )R$100,00

5. Ensino de matemática em 2000:
Um cortador de lenha vende um carro de lenha por R$ 100,00. O custo de produção desse carro de lenha é R$ 80,00. O lucro é de R$ 20,00. Está certo?
( )SIM ( ) NÃO

6. Ensino de matemática nos dias atuais:
Um cortador de lenha vende um carro de lenha por R$100,00. O custo de produção é R$ 80,00. Se você souber ler coloque um X no R$ 20,00.
( )R$ 20,00 ( )R$40,00 ( )R$60,00 ( )R$80,00 ( )R$100,00
________________________

15.10.08

Ensinar e aprender...



Demais não é o suficiente:
a arte do essencial
Por uma aprendizagem integral




Arte e texto

por Solange Pereira Pinto
Brasília, 30 de junho de 2008




A pós-modernidade é conhecida pelo consumo, pela superficialidade, pela rapidez, pelo “descartável”. É, sem dúvida, uma época marcada pelos excessos. Muitas plásticas, muita obesidade, muita informação, muito trabalho, muito estresse, muitos acessos... Mas como pode uma civilização, como a atual, marcada por tão elevadas quantidades carecer? Podemos indagar: como perceber que o “demais” nem sempre é o suficiente?

A humanidade ao longo de sua existência tem passado por auges e declínios dos povos, hoje chamados de nações, bem como tem se questionado sobre os motivos pelos quais ora se está em um patamar, ora em outro. Por outro lado, individualmente, interroga-se como encontrar respostas para os sofrimentos e as necessidades. As soluções, nem sempre fáceis de alcançar, em geral, reúnem alguns traços que podem ser comuns àqueles que se superaram, sejam como coletividade ou como cidadãos. Percebe-se que, nos vários tipos de conquistas que se deram, destacam-se: a inteligência, a consciência, o conhecimento e o esforço.

Perscruta-se que foi necessário ao homem libertar sua inteligência, esforçar-se e buscar o conhecimento para que pudesse ascender graus evolutivos. O pensamento, a ética, a moral, os valores, os princípios, a cultura, o desenvolvimento humano são frutos de seres que se esmeraram, e se esmeram, em manter livre o uso da razão e da consciência para darem a si e aos semelhantes condições dignas para traçar um destino nobre, espiritualmente elevado, favorável ao crescimento e à aprendizagem consciente.

No entanto, ao se ler os jornais e as revistas, ao se ouvir os noticiários da TV e do rádio, as pessoas se deparam com números e atrás deles cegamente correm; sejam eles os números da balança a indicar uns quilos a mais, sejam os números da conta bancária a refletir um gasto extra, sejam os números da última estatística educacional a mostrar a quantidade de escolas com notas superiores ou inferiores ao que se deve ser, ou outra quantidade qualquer. Vão dessa forma se tornando pesos mortos, massas de manobras, com pouca, ou quase nenhuma, atuação sociopolítica.

Envoltas em números, muitas almas são sufocadas e se sentem perdidas nesse mar informacional, que deveria mais servir ao despertar e menos ao aprisionamento dos indivíduos no calabouço da ignorância.

Todavia, há solução e se faz premente apresentá-la. Seria tal como apontar saída de emergência em um cinema lotado em caso de incêndio. Lá estão as pessoas vidradas em mais uma cena de aventura e a fumaça lhes corre pelo nariz, e, ainda assim, não a percebem. A porta que se abre não apenas as livra do sufoco; ela as liberta para o ar puro. É necessário que se encontre um rumo, além de que se adentre a sabedoria. Mas como fazê-los?

Transcendendo!

O conhecimento que adquirimos no mundo deve servir para alcançar a sabedoria e promover transformação. É pelo internalizado “saber” que o homem aperfeiçoar-se-á atuando com percepção moral e juízo elevado de valor. E, ao se desenvolver, com senso crítico, será exemplo inspirador de outros que assim busquem com vontade sobreviver às penúrias que devem suportar na vida.

Pelo estudo, pela leitura, pela palavra, pela escrita, pela educação dirigida que os seres humanos devem se orientar – não somente para aprender a satisfazer às necessidades da vida, mas, também, para resolver o que a vida lhes apresentar – visando atingir uma meta que lhes conduza ao caminho dessa tal Sabedoria .

Essa virtude tão requisitada e enigmática é deveras uma arte. Bem assim o são os atos de ensinar e aprender. Só se pode ensinar o que se sabe, não é óbvio? Ocorre que, ensinar, no sentido daquilo que transcende e modifica em prol da sabedoria, envolve meandros poucos discutidos pelo senso comum. Ensinar enseja observação, assimilação verdadeira, exemplo, escuta, consciência, humildade, generosidade. É um ato de iluminação real, ilustração.

A arte de aprender está do mesmo lado da moeda, ainda que aparentemente oposto, expressando as capacidades de bondade, elevação, caráter e vocação, dentre outras características, as quais somos capazes de estabelecer num plano que a natureza prima pelo aperfeiçoamento e evolução espiritual.

Essas inquietudes e necessidades do que se chama “espiritual” se manifestam. Os livros vêm e vão na tentativa de encontrar as chaves libertadoras das saídas. Em consonância, ensinar exige sabedoria, paciência, abnegação, novamente vocação...

Destarte, é pelo autoconhecimento, é pelo adentrar em umbrais da vida e das próprias sombras, é pelo movimento de auto-superação, é pelo descobrimento consciente dos agentes causais, é pelo entendimento das nuanças da alma, é pela transcendência da esfera comum, é pela consciência de si e do outro, é pelo conhecimento da mecânica do pensamento, é pela evolução consciente, é pelo discernimento, enfim é pela arte de aprender e pela arte de ensinar por “todo” que o nosso espírito se tempera e segue um novo e elevado destino.

Assim, é pelo essencial que o homem deve se guiar, pois muitas vezes há demais e não é suficiente. É preciso propagar a vontade de aprender. Ou, de outra maneira, haverá muita gente sufocada de “informações”, entretanto carente de conhecimento, porque é por meio da capacidade de estudo estimulado e consciente que se engrandecem os seres e se transformam as civilizações. É mediante a superação intrínseca que nos tornamos mais aptos a chegar ao pensamento supremo que encarna a vida universal.

Finalmente, vale ressaltar que “a arte de ensinar encontra sua máxima expressão na alma daqueles cuja vontade de aprender se faz possível. Assim como o bem que recebem e os saberes com os quais se instruem se completam e efetivam a realidade para o seu aperfeiçoamento integral”. É na busca incessante do essencial que se desperta para a consciência, e estando sempre alerta que: demais nem sempre é suficiente.

22.9.08

Deu na Veja, só falta dar no ensino...




Por Solange Pereira Pinto



Para grande parte da população urbana, domingo é dia de igreja, Veja, TV e futebol, não necessariamente nesta ordem. Ontem (21/09/2008), junto às notícias da crise americana, veio na revista uma matéria especial sobre o instigante escritor Machado de Assis que não freqüentou universidade, mas é ícone da nossa literatura.

Sabemos que a Veja é a revista semanal mais lida no Brasil. É falada e comentada, quase como centro do universo, nas escolas do país, principalmente faculdades. É tida como um meio de comunicação para se ler antes de fazer provas de concurso na área de conhecimentos gerais (!?). Ou seja, a Veja é para a maioria dos brasileiros “letrados” a maior fonte de informações.

Então, quando eu li na Veja o texto “Quem entendeu a nova avaliação do ensino?”, pensei: finalmente alguém para falar diretamente dos insumos e outras quantidades absurdas que têm virado moda por aqui. Cláudio Moura e Castro foi no x (certo da questão) e apropriadamente mostrou como índices podem não fazer qualquer sentido, principalmente quando se fala em educação.

Em certa altura ele disse: “finalmente, há o terceiro elemento, o Índice de Insumos. Trata-se de uma lista de descrições do processo de ensino, incluindo o número de doutores, docentes em tempo integral e outros. Pensemos no famoso Guia Michelin, que dá estrelas aos restaurantes franceses. O visitador vai anônimo ao restaurante e atribui estrelas se a comida e o ambiente forem muito bons. Jamais ocorreria pôr ou tirar estrelas por conta da marca do fogão, dos horários dos cozinheiros ou do número de livros de culinária disponíveis. Depois que a comida foi provada, nada disso interessa - exceto para algum consultor da área. Para escolher um restaurante, só interessam as estrelas, refletindo a qualidade da sua mesa. A avaliação da excelência de um curso é como as estrelas do Michelin. Para o público, conhecidos os resultados, os meios ou processos se tornam irrelevantes. Se o aluno aprendeu, não interessa como nem com quem - a não ser aos especialistas”.

Não preciso dizer mais nada... Agora me resta a esperança... Se deu na Veja, ainda que em apenas um artigo (muito bom por sinal), que dê agora também na cabeça dos brasileiros a reflexão: nem todo número informa, esclarece ou representa de fato a realidade. Qualidade não é quantidade. Veja abaixo o artigo comentado.










Quem entendeu a nova avaliação do ensino?





"Louvemos a coragem do MEC de gerar e divulgar avaliações. Mas parece inapropriado entregar ao público uma medida tão confusa"

Um médico que ficasse sabendo que seu paciente tem 88 batidas cardíacas por minuto, 39 graus de febre e um índice de 380 de colesterol teria os elementos iniciais para fazer um diagnóstico. Imaginemos agora que somássemos esses três índices e mostrássemos apenas o total. Seria um número sem sentido.


É tal espécie de soma que o MEC acaba de fazer, com o seu novo indicador de qualidade dos cursos superiores, o Conceito Preliminar de Avaliação. Ao somar três indicadores, deixa o público igualzinho ao médico do parágrafo acima. Pior, junta conceitos individualmente pouco conhecidos. Como o professor Simon Schwartzman havia partido antes na empreitada de entender essa química, juntei-me a ele na preparação do presente ensaio.


O primeiro número levantado pelo MEC é baseado em prova aplicada a uma amostra de alunos de cada curso. É o Enade (a nova versão do Provão), que mede quanto os alunos sabem ao se formar. É um conceito tão simples e poderoso quanto o resultado de um jogo de futebol. Só que não podemos comparar profissões, como faz o MEC, pois a dificuldade das provas não é a mesma. Se o Grêmio ganhou do Cruzeiro, isso não significa que é melhor do que o Real Madrid que perdeu do Chelsea.


Ademais, o MEC introduziu um complicador. Soma aos resultados da prova aplicada aos formandos a nota dos calouros na mesma prova. Ou seja, premia o curso superior que atrai os melhores alunos (a maioria deles oriunda de escolas médias privadas). Portanto, soma a contribuição do curso superior à do médio. Em uma pesquisa de que participei, 80% do resultado do Provão se devia à qualidade dos alunos aprovados no vestibular. Assim sendo, ele favorece as universidades públicas, pois sendo gratuitas atraem os melhores candidatos.



O segundo ingrediente do teste é o Índice de Diferença de Desempenho (IDD). O Enade mostra quais cursos produzem os melhores alunos. Contudo, um desempenho excelente pode resultar apenas de haver recebido alunos mais bem preparados. Em contraste, o IDD mede a contribuição líquida do curso superior. A idéia é boa. Em termos simplificados, calouros e formandos fazem a mesma prova. Subtraindo das notas dos formandos a nota dos calouros, captura-se o conhecimento que o curso "adicionou" aos alunos. Portanto, mede a capacidade do curso para puxar os alunos para cima, ainda que não consigam atingir níveis altos. É o que faltava na avaliação. Exemplo: na Farmácia temos uma escola com 5 no Enade e 2 no IDD. Temos outra com 2 no Enade e 5 no IDD. Embora a média seja a mesma, esconde mundos diferentes. A primeira forma os melhores profissionais, porque recruta bem, mas ensina pouco. A segunda produz alunos medíocres, mas oferece muito a eles. Cada indicador tem seu uso.


Finalmente, há o terceiro elemento, o Índice de Insumos. Trata-se de uma lista de descrições do processo de ensino, incluindo o número de doutores, docentes em tempo integral e outros. Pensemos no famoso Guia Michelin, que dá estrelas aos restaurantes franceses. O visitador vai anônimo ao restaurante e atribui estrelas se a comida e o ambiente forem muito bons. Jamais ocorreria pôr ou tirar estrelas por conta da marca do fogão, dos horários dos cozinheiros ou do número de livros de culinária disponíveis. Depois que a comida foi provada, nada disso interessa - exceto para algum consultor da área. Para escolher um restaurante, só interessam as estrelas, refletindo a qualidade da sua mesa. A avaliação da excelência de um curso é como as estrelas do Michelin. Para o público, conhecidos os resultados, os meios ou processos se tornam irrelevantes. Se o aluno aprendeu, não interessa como nem com quem - a não ser aos especialistas.


Mas há outras tolices. Um curso de filosofia em que todos os professores são doutores em tempo integral pode ser ótimo. Mas seria medíocre um curso de engenharia, arquitetura ou direito em que isso acontecesse, pois as profissões estariam sendo ensinadas por quem não as pratica. Esse curso ganha pontos pelo perfil dos docentes, justamente quando deveria perdê-los. Há outros desacertos técnicos que não cabe aqui comentar. Mas, como dito, a falha mais lastimável é a decisão de somar três indicadores que mal sabemos como interpretar individualmente. Louvemos a coragem do MEC de gerar e divulgar avaliações. Mas nos parece inapropriado entregar ao público uma medida tão confusa.


Claudio de Moura Castro é economista (claudio&moura&castro@cmcastro.com.br)

Data: 21/09/2008
Veículo: VEJA
Editoria: SEÇÕES
Assunto principal: ENSINO SUPERIOR MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO

13.9.08

Abaixo o hábito de ler!

Por Solange Pereira Pinto (escritora, professora e arte-educadora)





A escola da minha filha tem um programa de leitura chamado ciranda do livro. O objetivo é que cada criança pegue uma obra para ler no fim de semana e faça, na apostila encadernada em espiral, uma atividade pré-determinada (desenhar uma passagem, escolher um personagem favorito, ilustrar a idéia principal, fazer um breve resumo etc.).

Imagino que nem todos os alunos façam a tarefa de bom grado. No início a escola tentou uma competição: a criança que pegasse mais livros na biblioteca ganharia um prêmio ao término do período X. Minha filha logo chiou: “mamãe, assim não vale. Tá muito chata essa história de quem lê mais. Tem gente que só pega livrinho fininho e com muita figura pra ler rápido e pegar outro. Eu que escolhi pelo título, por que achei interessante a história, vou perder. O meu livro é muito mais grosso que os outros!”, choramingou.

Tinha ela razão. Vencer a competição era o objetivo das crianças sob o pretexto da escola de formar o hábito da leitura e quiçá cidadãos do futuro. Nesse meio tempo, crítica daqui, chororô acolá, ficou difícil para a professora lidar com a manobra “pedagógica”, deslindada pela pequena estudante.

O projeto competitivo saiu de cena e a apostila em espiral continuou seu trajeto, às sextas-feiras, mochila adentro; só que agora sem a pressão de se ser o primeiro lugar no ranking de “leituras lidas”. Algumas crianças ficaram aliviadas. Alguns pais também. Ufa!

Chegado o dia de mais uma escolha, minha menina, que se chama Ana (Luísa) optou por pegar um livro chamado Ana e Ana, segundo as palavras dela “achei pela capa que podia ser interessante”. E era. Aliás, é!

O livro de Célia Godoy, ilustrado divinamente por Fé, narra a história das gêmeas Ana Carolina e Ana Beatriz, que idênticas na aparência tentavam se distinguir por cores, roupas, adereços, ainda que “por dentro” fossem bem diferentes nos gostos e afinidades com o mundo. Cresceram e cada uma tomou um rumo, até que...

Até que eu parei para pensar se a leitura é um “hábito-ato” possível de se formar em alguém. Sendo professora há algum tempo e exatamente na área de produção de textos, leitura e interpretação, recordei das principais dificuldades e justificativas dos meus alunos quando perguntados sobre o tal, difundido, alardeado: hábito de ler!

Em geral, se apontam desconcentração, sono, preguiça, falta de exemplos familiares, ausência de livros em casa, dificuldade de entendimento, cansaço, visão embaralhada, e, principalmente, falta de tempo! Questionados sobre este último item, respondem: “ah, professora tem muita coisa melhor a fazer do que ler, como ver TV, praticar esportes, sexo, passear, navegar pela internet...”.

“– Mas céus! Vocês não gostam de ler nada?”, re-interrogo.
“– Também não é assim. A gente lê sobre o que gosta ou sobre o que precisa”.

Se tempo é uma questão de prioridade, e nele a gente ocupa primeiro o que dá prazer ou necessita, aonde entra o esforço pedagógico de formar o hábito de ler? Creio que na vala comum.

Diz o companheiro Houaiss que hábito é “maneira usual de ser, fazer, sentir, individual ou coletivamente; costume, regra, modo, maneira permanente ou freqüente, regular ou esperada de agir, sentir, comportar-se; mania”.

Ora, formar o hábito de ler para quê?

Em certa medida, quem tem uma formação escolar considerada razoável (sei lá o que isso significa) lê o que lhe atrai. Jornais, almanaques, cadernos de esporte, revistas semanais, publicações de fofocas etc, estão pelas esquinas e bem amassadas, indicando que mãos e olhos passaram por ali.

E daí?

Nada!

O hábito de ler, melhor formulando, a prática de ler não significa em essência nada. O costume de ler pode ser um desábito de adquirir conhecimento. Entrar no piloto automático da leitura não traz por si só transformação.

Se ler é um dos caminhos para se chegar ao conhecimento de determinado fenômeno, idéia, verdade, ler por ler é no máximo chegar à aquisição de dados brutos e informações superficiais, massificadas, deglutidas por seus autores para todos.

Hoje deveríamos por em pauta, conclamar, não o desgastado hábito de ler, mas sim o hábito de pensar, o hábito de querer saber, o hábito de ser curioso. Se os próprios considerados – pelos professores – não-leitores admitem ler o que lhes interessa, óbvio seria despertar antes a vontade de conhecer. Ler, por hábito, deveria deixar de ser regra de conduta apregoada pelas escolas. Transformar o pensamento e ampliá-lo por desejo, deveria ser a etiqueta.

Ler é mera conseqüência. A causa é querer sair do lugar-comum, voar sem tirar o pé do chão, pensar para existir... Meu hábito maior é “Ser” e por isso eu leio muito. Dessa forma, vou me desabituando de mim para me habituar às minhas releituras...





(Tirinha criada especialmente para este texto por minha amiga Creisi - veja outras tirinhas aqui)

25.8.08

Estudos sobre Educação Superior

O Discurso Liberal e a Expansão do Ensino Superior no Brasil

A política oficial para a Educação Superior dos últimos anos caracterizou-se pela expressiva expansão do número de alunos, por meio do aumento do número de instituições particulares de ensino e das vagas por elas ofertadas. Este crescimento resultou da produção e "marketing" de um discurso liberal, em economia e política, para a educação superior, durante o período FHC.

Este artigo, publicado em 2003, na Revista de Conjuntura do Conselho Regional de Economia do DF, estuda a expansão do ensino superior privado e as ideologias que a legitimaram.
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Avaliação da Pesquisa e da Pós-graduação no Plano Nacional de Educação (PNE) - 2006

Em 2004 George Zarur realizou a avaliação da pesquisa e da pós-graduação frente aos objetivos e metas traçados pelo PNE.m 2006realizaoutra avaliação sobre o mesmo tema, com novos dados disponíveis.
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Avaliação do Plano Nacional de Educação - Ensino de Graduação

Em 2000 foi aprovado pelo Congresso Nacional o Plano Nacional de Educação (PNE). A lei que o aprovava previa sua avaliação no quarto ano de vigência. Dando conseqüência a este dispositivo legal, o então Presidente da Comissão de Educação da Câmara dos Deputados, Deputado Carlos Abicalil fez apresentar na Conferência Nacional de Educação, realizada em fevereiro de 2004, em Brasília, volume de autoria da Área de Educação da Consultoria Legislativa da Câmara dos Deputados, contendo a avaliação do PNE. Coube ao autor, George de Cerqueira Leite Zarur, então Coordenador da Área de Educação da Consultoria Legislativa, a coordenação do estudo e da publicação do volume, bem como a redação de dois capítulos, na qualidade de Consultor Legislativo encarregado da Educação Superior,Ciência e Tecnologia. Aqui é apresentado o artigo sobre ensino de graduação.
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Avaliação do Plano Nacional de Educação - Ensino de Pós-Graduação

Em 2000 foi aprovado pelo Congresso Nacional o Plano Nacional de Educação (PNE). A lei que o aprovavaprevia sua avaliação no quarto ano de vigência do Plano. Dando conseqüência a este dispositivo legal, o então Presidente da Comissão de Educação da Câmara dos Deputados, Deputado Carlos Abicalil fez apresentar na Conferência Nacional de Educação, realizada em fevereiro de 2004, em Brasília, volume de autoria da Área de Educação da Consultoria Legislativa da Câmara dos Deputados, contendo a avaliação do PNE. Coube ao autor, George Zarur, então Coordenador da Área de Educação da Consultoria Legislativa, a coordenação do estudo e da publicação do volume, bem como a redação de dois capítulos, na qualidade de Consultor Legislativo encarregado da Educação Superior,Ciência e Tecnologia. Aqui é apresentado o artigo sobre ensino de pós-graduação
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Autonomia Universitária: Para onde vai a universidade brasileira

Este artigo, publicado em 1999, na revista HUMANIDADES da Universidade de Brasília descreve a luta travada no âmbito do Congresso Nacional em torno da autonomia universitária e das forças políticas nela envolvida. Demonstra como a luta por um significado, no caso, o conceito de autonomia, tem profundas implicações pois vai gerar diferentes conseqüências jurídicas nas ações governamentais, beneficiando determinados interesses em detrimento de outros. Retrata um importante momento da história da universidade brasileira, no período de 1995 a 1999.
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23.8.08

INTRODUÇÃO À EDUCAÇÃO À DISTÂNCIA

Tem algum tempo, pouco, que passei a me interessar pelo ensino à distância. Escolhi a palavra ensino em detrimento da palavra educação. Ainda elaboro pensamentos a cerca das múltiplas possibilidades educacionais ou “educadoras”. Vai entre aspas porque, de acordo com algumas pesquisas, o significante é dado em aspecto restrito, destinado à capacitação. Esta distinção é, de fato, uma particularidade minha. Sei que outros autores já navegaram tentando ponderar o assunto, mas eu ainda tenho dúvidas, visto que minha tendência, em relação ao ensino, está, junto com outros fatores, em associá-lo ao acumulo de informações, que eu acho, corresponde ao papel social do saber levado à distância. Sei que esta é uma discussão ampla, que não terá fim com estas linhas e, talvez, apresente uma opção funcional, em termos de alcance.

Dos tópicos discutidos nos fóruns, onde percebo que muitas mensagens foram postadas a esmo, as dúvidas que me inquietam até o presente momento estão em relação à objetividade e praticidade do ensino à distância. Acho que com este aperto do curso, em uma semana, muitos assuntos de ordem prática acabaram ficando para segundo plano. Nem eu tive tempo de debater sobre a estrutura do ambiente virtual, sobre a questão dos tutores, dos atores e das personagens.

Tem algum tempo que freqüento cursos a distancia, participando de diversos tipos de ambientes e de concepções. Fiz cursos desde mecânica de automóveis até cursos de negócios, estes últimos pelo ambiente do Sebrae. Ainda tive oportunidade de participar de um curso de especialização e capacitação docente em outra instituição de ensino superior. Dada esta experiência e esta diversidade de cenários e, também, minha busca em colher elementos em que meu próprio espaço virtual se constitua e vá para além da troca de e-mails, percebo, inclusive com este curso, que a questão do ensino à distância gira em torno da informação, e esta gera conhecimento para aqueles que são capazes ou desejam operá-las. Daí que entram minhas considerações a cerca da certificação e do sistema de avaliação. Este, no meu modo de pensar, deve ser rígido mesmo estando suscetível que outra pessoa faça login para um aluno ou que haja o plágio. As formas ainda são questionáveis, mas o risco é válido na medida em que os certificados incluem trabalhadores na sociedade, quando os certificados geram aumento de renda.

Já em relação às novas tecnologias, aos novos métodos de ensino, acredito que serão uma freqüente no ensino à distância como são no ensino presencial. Ambos estão em freqüente mudança ou a mudança é vista sempre como uma possibilidade imediata, dados os diagnósticos anteriores, avaliadas as necessidades.

Não tenho dúvidas que a eficiência de um processo de ensino e aprendizagem gira em torno de relações transferências, e foi o que tentei contribuir nos tópicos que participei. Acredito que tanto o ensino à distância quanto o ensino presencial devem deixar o saber emergir do aluno, para que estes se tornem sujeitos do processo, e não objetos, aquele que tudo escuta, mas aquele que também é escutado. O detalhe que considero importante é que esta escuta tem que ser individual. Mensagens jogadas (por colegas, professores, tutores), no sentido de mostrar-se presente não é suficiente neste sentido, porque não foram estabelecidos significantes e o que está sendo escrito se perde por aí além.

Acho que em ambos os casos, no ensino presencial e no ensino a distância, o desafio está em estabelecer este processo transferencial em que o professor devolve ao aluno o significado do que ele disse, que é um processo muito diferente do professor dizer/escrever alguma coisa, o aluno escutar/ler, o aluno escrever/falar e o professor escutar/ler. Para isso dou o nome de interação, mas a construção do saber está além é subjetiva, precisa ser, de fato, reconhecida, para que uma folha como esta tenha razão de sua existência.

23.6.08

PROFESSOR CRISPIM

O ofício de professar, para mim, veio justo nos vinte e três. Faculdade foi apenas uma escola grande e se vi diferença entre ela e o colégio onde passei dez anos, foi por conta de alguns poucos professores. Eles, sim, colocaram lá no meu dentro toda a idéia do conhecimento, da pesquisa e de como fazer o aprendido fluir de mim, quando eu estivesse frente a alunos, numa sala de aula que não fosse cenário para um estágio qualquer.

Saí do grande prédio onde se podia cabular aula sem ser repreendido e logo me enfiei na labuta. Comecei com leveza, poucas aulas, mas em ambiente que exigia um certo molejo, uma boa dose de bom humor e mais de aprender do que de propriamente ensinar.

Todos os dias, andava 30 quilômetros numa kombi modelo anos 70, para chegar a um vilarejo da zona rural do município onde moro. Lá, as primeiras experiências com aulas me convidavam a ser falante e correta, em fazer tal e qual o manual da faculdade me ensinara e alunos – alguns mais velhos que eu, longe da escola por anos a fio e outros mais meninos, que freqüentavam o estabelecimento pela merenda e não tanto pelo aprendizado – me olhavam, pensando do que seria capaz aquela criatura cabeluda, carregando uma enorme mochila nas costas e livros e cadernos nas mãos.

Na primeira aula, dividi o quadro, conforme me havia ensinado a professora de Didática e Estrutura do Ensino, escrevi com letra formosa e legível, conforme havia me ensinado a professora de psicologia da educação, falei claro e com boa dicção, conforme havia me ensinado o professor de fonologia e fonética e enchi o quadro de gramática pura conforme havia me ensinado o professor de Língua Portuguesa VIII. Achei tudo de um brilho esplendoroso. Silêncio sepulcral e eu crendo ser isso o indício de um grande sucesso.

Havia um moleque pequenino, mas de idade maior que a maioria dos garotos de sua estatura. Uma cabeça em exagero que ostentava um rosto esquelético, de olhos saltados, os lábios grossos e um largo sorriso, por meio do qual se escancarava, sem pudor algum, um único dente superior, alvo e solitário em meio ao oceano de gengivas. O sujeito me chamou a atenção, pois o par de olhos incrustados naquele rosto serelepe, não me abandonou um segundo sequer e pensei mesmo em um aluno brilhante, capaz de repetir toda a leréia sobre o substantivo e sua classificação com a qual eu havia preenchido todas as quatro partes do quadro milimetricamente riscado de giz colorido (Ah, pobres alunos da minha fase inicial! Perdoem-me, se acharem que eu mereço!).

Terminada a explanação sobre o primeiro assunto – muito interessante e significativo – no meu julgamento e apenas nele, aventei de perguntar se havia dúvida. Não me sentia confortável o bastante para responder a perguntas que porventura brotassem da curiosidade provocada pelo excitante tema por mim apresentado, porém, de acordo com o aprendido no curso de letras, não poderia jamais me esquivar de saber se o que eu havia ensinado fora realmente assimilado. Então, ei-lo levantando-se da carteira e agigantando-se de me meter medo. Quando vi o pequeno, movendo os lábios, logo pensei em desmaiar, sair num arroubo e no outro dia, talvez, explicar com desculpa muito das bem arranjadas, ou simplesmente nunca mais voltar ali. Seus lábios se fecharam na primeira sílaba, veio na seqüência, a próxima e, então, o quadro era irreversível. Ele que tanto me olhara, me dissecara, me colocara indefesa e desprotegida diante de seus fulminantes olhos de jabuticaba bitela, articulou palavra por palavra e eu, suor escorrendo pela testa, pensava se conseguiria responder, pois partindo daquele observador impiedoso, só poderia vir questionamento de muito valor, carga pesada para uma professorinha ainda na casa dos vinte, na sua primeira aula fora do cenário do estágio.

Finalmente, ele destrinçou e daquele conjunto de lábios carnudos e dente solitário, pensei que ouviria ameaçadora questão, porém:

─ Fessora, o que a senhora perguntou?

Uff! Alívio! Pausa para ar novo no pulmão, mas não me deixei enganar. Ele havia ganhado alguns preciosos segundos para dirigir-me pergunta mais escalafobética, aquela que me colocaria frente à minha real ignorância.

─ Como é seu nome? ─ Aproveitei para respirar melhor, ainda que engolisse em seco e fingisse uma tosse totalmente sem procedência.

─ Crispim, fessora.

─ Então, Crispim. Perguntei se alguém tinha alguma dúvida.

─ Eu tenho, fessora.

─ Pois não, pode falar! ─ Ai, meu Deus! Agora, tudo ou nada! Que Crispim me glorificasse ou me fizesse entender de vez que aquele não era mesmo o meu caminho. Quem sabe eu largava mão dessa história, parasse de teimar em ser professora, mesmo praticando o ofício desde a ficção vivida ali pelos oito anos, quando – em tardes fagueiras, debaixo do pé de chuchu, do quintal da casa onde morava – em vez de casinha, eu brincava de escola e minhas pobres bonecas tinham que saber de cor as lições e cumprir todas suas tarefas de copiar do quadro verde o que eu escrevia. No fundo, eu só queria que ele pusesse logo um fim àquela agonia.

─ Fessora, o que é dúvida?

Quase escorri pelo chão, ao desmontar-me feito um saco quando lhe tiram as batatas. A pergunta de Crispim nunca saiu da minha cabeça e até hoje penso no quanto, nesse dia, ele me ensinou.

Escola voluntária


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9.6.08

Há possibilidades se vemos as possibilidades










Um aula pode ser um café, pode ser o café, pode ser uma mistura de cafés... Como é a sua aula? Rala? Forte demais? Intragável? Doce? Melada demais? Ao ponto? Seu cardápio é variado? Ou sempre o café amarga?

Animação cultural, uma nova metodologia?

Máscara africana

"Eu sou o espaço onde a Cultura e a Educação são valorizadas em conjunto e vistas como alternativa para a construção de uma autonomia-cidadã.

Sempre existi na mente e no coração de quem ama a arte e a VIDA. Não sou a "arte engajada" (!) nem a "arte encastelada" (!). Sou a ARTE e todas suas MISTURAS! Busco ser autêntico ... mas o q é isso? Acho q busco apenas a honestidade em minha arte, q ela expresse sentimentos, que ela promova a auto-estima, que ela mostre q cada pessoa é singular e, ao mesmo tempo, q ela seja capaz de ligar, costurar, criar "pontes", AGREGAR ... nas diferenças, claro! A arte como "ferramenta" na construção da esfera pública, de cidadãos, pessoas q acreditam q fazem a diferença no mundo, q não são
apenas número, entende? Sei lá ... número ... um a + na fila ... pessoas q acreditam q são pessoas e não topam tudo ... "mesmo qd. o mundo diz não ...". Mas, às vezes, esqueço ... queria q pudessem me lembrar ... esqueço quem sou ...

Minha maior preocupação é a infância e a juventude ... (não só, claro ...). Mas, aqui no Brasil, eu nasci "colado" à escola ... quero dizer, com esse nome, desse modo, nasci no início dos anos 1980 ... num projeto maior de Educação em Tempo Integral, de Darcy Ribeiro, nos CIEPs, no Estado do Rio de Janeiro.

Ah ... não nego minhas raízes!
Mas ... eu amadureci ... meu "pai" já se foi, né? Não quero julgar ... quero ser EU. Nem conto ... já apanhei muiiiiito! Mas não gosto de ser "vítima" na vida! Li Sartre (Qual é? Eu leio o q tiver q ler ... sou do povo sim! Mas quem disse q isso eu posso e aquilo eu não posso?). Mas é por aí q o cara fala: q o q importa não é o q a vida fez com vc, mas o q vc fez com a VIDA! Então, eu estou me reinventando aqui, nesse espaço ... quem sabe consigo ... porque ninguém se reinventa sozinho ... quero + é encontrar meus irmãos ... meus primos ... meus amigos ... meus adversários. Sim ... a crítica é necessária para a mudança ...

O q eu acho da escola de um modo geral? Pergunta para uma criança ...

Acho q está faltando essa junção: educação e cultura ... tem q fazer "ponte" com a vida real ... dar aos alunos o direito à criatividade ... sem q algum deles ache q é "burro" ... ah ... na ARTE não dá mesmo para falar em pessoas inteligentes e pessoas "burras" (aliás, nunca entendi pq. esse adjetivo ... quem disse q o burro é "burro"???). Eu acho q os profissionais de educação devem incentivar + seus alunos a perguntar, a se expressar ... e se isso é mais fácil qd. começa com a pintura, com o grafite, com a música, com o teatro, com a mímica, então, a arte é para isso! Vai ajudar tudo ... qd. o menino e a menina forem aprender matemática, português, geografia ...

Crianças e jovens com auto-estima e que sabem se expressar na escola não precisarão fazer uso da violência ... nem vão querer abandonar a escola ... apesar da vida ser dura, muito dura ... para a maioria deles ...

Aqui, eu estou lutando por mim ( e pelo q amo)! Pq. poucas pessoas me conhecem ou sabem do meu potencial para somar à educação de qualidade em nosso país. São poucos os animadores culturais hoje ... vcs sabem, nunca chegamos existir como "profissão" e queremos isto! Tb. tenho q ter meus direitos respeitados. Luto por dignidade! Mas, repito, tb. luto pela minha IDENTIDADE. Eu tenho uma história ... não é assim não ... eu sou um artista e sou um educador. Eu estou estudando ... eu não acho q nasci sabendo ... mas eu não quero esquecer as minhas origens não ... eu nasci da cultura popular ... das manifestações artísticas locais ... isso é muito sério para mim. Como me reinventar hoje? Ah ... isso eu ainda não sei bem ... pq. são muitos os desafios ...

Quem sou eu? Como VC me vê?

Pois é ... sejam todos bem vindos a esse verdadeiro espaço de Cultura, Educação, Luta, Sonhos e Realizações!

Cultura é auto-estima!!

Auto-estima é condição cidadã!!

Ps: este espaço é de quem valoriza a cultura e a educação, de quem é cidadão ... é da gente ..."


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4.6.08

E agora, José?


Será que a festa acabou para o grupo de estudos? Aquele que negocia autoria em trabalhos acadêmicos? A onda por e-mail continua:

Mail 1
Olá! Estou enviando 2 resumos ampliados para o congresso. Caso aceitos, qual a indexação na publicação no livro digital do evento? Obrigado!


Mail 2

Prezado, seus trabalhos são bem-vindos. No entanto, a organização do evento gostaria de informar que, conforme os critérios atualmente vigentes da CAPES, trabalhos em eventos não são avaliados pelo sistema Qualis, sejam eles publicados em formato de resumo, resumo ampliado ou na íntegra. Att.


E agora, José? E agora, José?
Infelizmente os Pesquisadores de Chocolate não entenderam o que é ciência e para quê se faz. Blá!

25.5.08

Anunciada


Em breve eu chego, pessoal!

Atendendo o mui honroso convite de Fernanda, postarei por aqui alguns cafés quentinhos com quitanda da boa.

Pera só um poquim que a mineira já evem co os trem!!!!

beijim procês

23.5.08

AACC's: Boas ou Ruins?


As AACC ou Atividades Acadêmicas Culturais Complementares, de acordo com a legislação vigente: LDB 1996, Resoluções 18 e 19 de fevereiro de 2002, Pareceres do Ministério da Educação e do Conselho Nacional de Educação de 2004 e 2005, constituem aquelas que propiciam conhecimento relevante para o processo de ensino/aprendizagem na área específica do curso, com base nos critérios de interdisciplinaridade e de flexibilização curricular, contribuindo para a formação complementar profissional e cidadã do aluno. A carga horária mínima é de 200 horas (em 5 módulos de 40 horas cada) e valem atividades extra-curriculares como idas ao cinema, teatros, palestras, congressos, eventos relacionados e por ai vai. Cada curso de ensino superior determina como estas horas serão creditadas. E o tipo de comprovação aceita:

* ingressos, fotografias, certificados ou declarações de participação, presença, etc.

E depois o aluno entrega um listamento destas atividades e uma breve ata, ou resumo. Bom ou ruim? Tudo parece mesmo ser uma faca de dois gumes. A proposta é interessante, faz o aluno sair em busca do conehcimento e o torna mais participativo. Ruim é a parte do eu finjo que aprendo enquanto você finge que ensina. Aí não dá. Gera medidas como esta, do Centro Cultural São Paulo, notificada recentemente:


AVISO

A partir de 1º de junho de 2008 não será mais fornecido o carimbo e o comprovante de visita a estudantes nos espaços expositivos.

Desde março de 2007 o Centro Cultural São Paulo fornece para o público comprovantes de visita às exposições. No entanto, este procedimento não atestou uma participação efetiva em atividades culturais. Considerando que o comprovante de uma visita pode valer por até cinco horas de estágio e que, na grande maioria das vezes, a duração da visita não chega a cinco minutos, decidimos abolir os certificados e carimbos por acreditar que essa prática atua na contramão dos objetivos de uma ação educativa responsável. Portanto, o CCSP informa que a Ação Cultural e Educativa, a partir de 1º de junho de 2008, não fornecerá mais a estudantes o carimbo e o comprovante de visita aos espaços expositivos.

Em contrapartida, informamos que continuará sendo fornecido o comprovante aos estudantes que o solicitarem quando participarem de visitas monitoradas previamente agendadas. Também serão oferecidos certificados de participação em cursos e workshops, com inscrições prévias. Clique aqui para mais informações sobre as visitas monitoradas.


Me engana que eu gosto? Não no Centro Cultural. Louvável!

15.5.08

uma palestra em Labúmbia

UMA PALESTRA EM LABÚMBIA
por Ricardo Régener, estudante de Jornalismo da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo ECA/USP [meu amigo, um cara do qual sou fã!]

Uma hora depois do tempo marcado para o início do evento, o digníssimo orador toma o microfone e anuncia o principiar da palestra da noite na Universidade de Labúmbia:

Excelentíssimo Senhor Professor Doutor Toluste Macabonde, Excelentíssimo Senhor Professor Doutor Emérito Lombardis Zenon, Excelentíssima Senhora Professora Doutora Emérita iupi-iupi-é-pique-é-pique-é-pique Fulgura Falontis (fogos de artifício são soltos no exterior do prédio), Excelentíssimo-e-Resplandecente Professor Doutor Emérito Fundador da Ciência Ludwig Avestrusi. Caros senhores, senhoras, senhoritas e outros ainda menos dignos presentes neste auditório: Boa Noite!

Reunimo-nos nesta noite, sob a magnífica benção do Magnífico Reitor da Magnífica Universidade de Labúmbia, para celebrarmos conjuntamente não nossa humilde comunhão, nem a lua, nem o sol, nem as estrelas do céu, mas as estrelas da terra, com efeito, a Divulgação Cientifíca. Reunimo-nos aqui para reconhecer e reverenciar a labuta árdua de décadas desses titãs que, a preço de horas e horas em seus laboratórios, em ambientes opressores e em conversas inúteis, têm disseminado suas palavras habilidosas e feito a Ciência chegar aos lugares aonde jamais imaginou-se que esta chegaria. Com a autoridade da erudição que me é natural, afirmo-vos que nem mesmo em toda a Grécia Socrática, nem em Tiro e Sidom, nem nas grandes Feiras de Ciências de José Reis, observou-se uma disseminação científica tão eficiente quanto o que temos visto em nossos dias. Levantai vossos olhos para os campos e vede: até mesmo às traças que corroem a madeira é anunciado o conhecimento modificador, e aos ácaros e ratos outrora resignados a posições pouco dignas nessa sociedade científica é dado a conhecer toda a poesia, graça e conhecimento que há em vossas publicações.

No demais, antes de passar a palavra ao palestrante da noite - que por estar encarcerado nas hostis vias públicas dessa Pólis, não conseguira chegar até esse exato momento - a saber, o Nobolíssimo-e-digno-de-louvor Professor Doutor Emeritíssimo-Eterno-e-Supremo Julius Crepique, (agora volte no início da oração para procurar o sujeito), gostaria de finalizar dignamente minha participação nessa palestra: que mais importa? Afinal? Se somos bons como somos, reconhecidamente reconhecidos como reconhecidamente somos, em tudo superiores e muito requisitados por toda a Labúmbia, se até mesmo do túmulo a comunidade científica dobra-se à nossa respeitosa obra. Por que não fazermos pleno usufruto daquele espaço que nos foi confiado nessa reconhecida instituição de ensino? Por que não ocupar-nos com todos os nossos interess.., digo, ideais? Merecemos! Já temos feito um trabalho muito útil para essa gloriosa Instituição. A Mãe Labúmbia precisa recompensar de alguma maneira o ego dos filhos que dão a ela a grandeza que tem, nada fazemos além de alimentar-mo-nos nas tetas maternas. Nada mais a nós importa: nem a ética, nem o respeito, nem o cumprimento da promessa, nem a dignidade, nem a justiça, nem o público, nem a racionalidade, nem a escolha inteligente, tampouco nosso objeto de estudo. Apenas a nossa grandeza, apenas a grandeza do nosso conhecimento, apenas a grandeza da Labúmbia.

Soam os aplausos, o orador emocionado passa a palavra ao palestrante:

Boa noite senhores! Boa palestra.

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Textos sobre Labúmbia (um país fictício criado pelo Prof. José Reis) foram publicados no "Ciência, Poesia e Outros Caminhos", pelo Núcleo José Reis, e podem ser adquiridos por telefone. A Universidade de Labúmbia trata-se de uma sátira ao burocratismo, academicismo e a vaidade na universidade.

13.5.08

a banca

A BANCA (dos escritos antigos)


Para aqueles que pensam em entrar num mestrado, num doutorado ou prestar um concurso público vai a dica de que nem sempre a competência é a alma do negócio. E se por um acaso você não puder ser o dono da banca (geralmente é ele quem dá as cartas, marcadas?), seja, no mínimo, seu melhor amigo. Prostitua-se academicamente, se assim for necessário. Não é tão cruel se você pensar na perspectiva dos interesses, que sempre são subjetivos e, portanto, inexplicavelmente válidos. Mas, se você não concorda, vire a banca pois, de fato, não se trata de um jogo de azar.

Quando se presta um concurso o que a gente quer (ou deveria) é abafar a banca, ou seja, causar admiração, e pelo talento. E tem muita gente por aí que, ao contrário, vai botar a maior banca: vão tentar vangloriarem-se por suas qualidades ou bens pessoais, por sua posição, seu status. Ou então preferirão causar admiração pela beleza, as mulheres principalmente, e com o sublime intuito sedutor de levar os homens à banca rota. O inverso também existe, mas o golpe da barriga, este ainda é insuperável, dá às mulheres um certo poder estarrecedor e é bom que se esclareça, o lugar do poder é assim mesmo: autocrático e subjetivo.

Mas se estamos falando de concurso, a democracia, de fato, deveria sobrepor-se. E está representada pela própria idéia de se constituir uma banca de avaliação. Uma banca pressupõe que um grupo de pessoas supostamente qualificadas e eticamente comprometidas.

No entanto, sempre que se quer pensar em democracia, criam-se bancas em nome do compromisso ético. Trata-se de um conjunto de pessoas que têm como função avaliar uma situação ou representá-la considerando outros pontos de vista. Mas a banca examinadora, um grupo de pessoas supostamente qualificadas e eticamente comprometidas, está lá para exercer um papel democrático, pois tratam do conjunto das idéias e opiniões daqueles que a compõem, nem que o parecer final tenha sido pelo voto, representando a maioria. Sem exercer este papel a banca perde respeitabilidade, vide o exemplo do Poder Público. Nestes casos a banca não passa de uma mesa, um tampo sobre cavaletes, grande e de qualidade inferior. Quer dizer, neste caso nem a mesa é uma simples mesa, existem aqueles que a compõem e a mesa volta ao seu lugar de banca. ele pode ser diferente. Basta que se construa uma outra banca, um conjunto de poderes a tomar decisões de causas discutidas e avaliadas, para que se torne democrático.

Garantem a participação de todos, Mas tem gente que não bota banca, mas que também não tem opinião formada ou, pior, não compreende o sistema em que está inserido e as decisões passam a ser subjetivas antes de serem democráticas. Eu também já fiz isso por diversas vezes e sei que vou continuar por mais algumas outras tantas. Não tem como fugir porque a banca ela está sempre lá. Está no jornaleiro, no mobiliário e no jogo de cartas. Eu escolhi o caminho mais difícil, preferi quebrar a banca.

12.5.08

Universidade pública – o mito do elitismo

Universidade pública – o mito do elitismo
Carlos Henrique de Brito Cruz


Há no Brasil 5,8 milhões pessoas com diploma universitário – 2 milhões a mais que em 1991. São poucas, muito poucas, especialmente numa época em que o conhecimento se tornou o principal motor do desenvolvimento. No documento Gasto Social do Governo Central: 2001 e 2002, o Ministério da Fazenda praticamente deplorava os recursos investidos no ensino superior público. Ali se afirma que “a canalização de grande parte do orçamento da educação para o financiamento das instituições federais de ensino superior reduz o montante de recursos disponível para os demais estágios da educação”. Por fim, o documento condena a universidade pública por servir “aos 10% mais ricos”.

O documento tem semelhança com um outro, de abril de 1991, Proposta de uma Nova Política para o EnsinoSuperior. O governo da época buscava dar curso à idéia de que a universidade pública servia basicamente aos ricos; portanto, deveria ser paga pelos alunos durante o curso, ou o governo, seu financiador, ser ressarcido pelos formandos. O que se pretendia então era retirar o Estado do financiamento do ensino superior público.

Nos dois casos se procura debitar à universidade pública o ônus da desigualdade educacional. Ignorando a contribuição decisiva da universidade pública para o desenvolvimento da Nação – na tecnologia, na ciência, na cultura e nas artes –, os técnicos da Fazenda incluem na conta da educação superior o pagamento das aposentadorias e os elevados dispêndios com os hospitais universitários, essenciais para o funcionamento do sistema público de saúde. É um erro usar tais cifras para estabelecer comparações internacionais, como se fez no referido documento, pois não há país que inclua aposentadorias e gastos com saúde em despesas com educação.

É severamente míope o argumento apresentado nesses documentos, ao supor que a função social da universidade seja somente beneficiar aqueles que a freqüentam. Os motivos que têm levado as sociedades, desde o ano 1000, a criar boa educação superior em universidades nada têm que ver com a riqueza ou pobreza dos alunos que as freqüentam. Têm, sim, que ver com a necessidade, essencial para o desenvolvimento das nações, de qualificar pessoas com os níveis mais elevados de educação. Pessoas capazes de trabalhar com o conhecimento humano, que dão lugar a novas descobertas e usam as já feitas para criar bem-estar e desenvolvimento. A universidade não serve “aos 10% mais ricos” – serve ao Brasil. Até hoje não houve nação que alcançasse o status de “desenvolvida” sem contar com lideranças intelectuais assim formadas.

Para que boas universidades possam formar as lideranças intelectuais é preciso que garantam um ambiente aberto e acolhedor da diversidade – é assim que os jovens podem aprender mais e melhor e desenvolver ao máximo suas capacidades intelectuais. Por isso é que, do próprio ponto de vista de seu desenvolvimento acadêmico e da educação que se pretende dar aos estudantes, boas universidades devem buscar constantemente mais inclusão e mais diversidade em seus câmpus. Nada a ver com as planilhas da Fazenda e tudo a ver com valor acadêmico.

Se o que está em questão é inclusão social e diversidade, as universidades públicas demonstram resultados importantes – que poderiam ser ainda mais significativos se o Estado brasileiro lhes desse mais apoio. Levantamentos do Inep e do IBGE permitem verificar que é nas universidades públicas que os porcentuais de estudantes com renda familiar menor são mais expressivos. Nas universidades privadas predominam alunos de renda maior.

Na Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílios (Pnad) realizada pelo IBGE em 2002, verifica-se que nas universidades públicas brasileiras 38% dos alunos vêm de famílias com renda per capita inferior a dois salários mínimos. Nas universidades privadas essa faixa de renda abrange apenas 24% do alunado. Na faixa abaixo de um salário mínimo, a incidência na universidade pública é mais que duas vezes maior do que nas instituições privadas. A situação se inverte na faixa de renda acima de dez salários mínimos: nas instituições privadas se encontram 9,5% dos alunos e nas universidades públicas, apenas 5,4%.

O quadro de maior inclusão nas instituições públicas se repete para a diversidade étnica. Segundo a mesma Pnad, no ensino superior público 28% dos estudantes se declararam pretos ou pardos (categorias do IBGE); no ensino superior privado, o porcentual cai para 15%, praticamente a metade.

Na Unicamp, uma das universidades brasileiras mais seletivas do ponto de vista acadêmico, aproximadamente um terço dos estudantes admitidos a cada ano fez toda a sua vida escolar em escolas públicas, proporção muito semelhante à que se encontra entre os inscritos ao vestibular. O vestibular da Unicamp não discrimina o estudante da escola pública, não apenas porque privilegia a capacidade de pensar sobre a capacidade de reter informações, mas também porque essa universidade, nos últimos 15 anos, dobrou o número total de vagas que oferece, em especial pela criação de 19 cursos noturnos. Multiplicou-se por dez a oferta de vagas nesse período de estudos.

Qualquer estratégia nacional para aumentar a inclusão e a diversidade no ensino superior precisará privilegiar a expansão do ensino superior público e gratuito. Mais ainda, precisará privilegiar os cursos noturnos, pois é evidente a maior presença, nestes, de pobres, pretos e pardos. Tal estratégia vencerá também na qualidade: o Brasil acostumou-se a ver, ano após ano, no Provão, a presença de melhores indicadores de qualidade no ensino superior público, seja nas notas obtidas pelos estudantes, seja na qualificação do corpo docente ou nas condições de infra-estrutura dos cursos.

Em nenhum país é o ensino superior privado com fins lucrativos que atende, com qualidade, um número relevante de estudantes. São as boas universidades públicas, como as do Estado de São Paulo, e várias outras que existem no Brasil, que fazem isso. O governo federal parece achar que boa educação superior custa muito caro. Esperemos que não pretenda levar-nos a experimentar o superior custo da ignorância.

■ Carlos Henrique de Brito Cruz, físico e engenheiro de eletrônica, reitor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), foi presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp)

9.5.08

Cairá o Rei? Pró-reitor diz que não está nem aí, hein?

Pró-reitor da unigranrio disse não se importar com o vestibular. E se pra ele, e outros como ele, tanto faz, quem é responsável pela qualidade do Ensino Superior Particular num sistema onde o MEC dá autonomia para que estas instituições cuidem de si?

Pra que serve um reitor? E um pró-reitor?

O reitor é aquele que rege, governa, administra ou dirige alguma coisa, no caso do Ensino Superior, uma universidade ou certas corporações escolares. Já o pró-reitor é o homem que está antes do reitor e assume algumas legalidades em termos de distribuição de algumas funções. Pode-se dizer que se trata de um filtro ante a reitoria, mas não diminui a legitimidade do cargo.

Em "Cai o Rei de Ouros, Cai o Rei de Paus: os estudantes chacoalham o sistema", alertei para o fato de que, nos últimos tempos, alguns estudantes têm derrubado alguns grandes personagens do Ensino Superior atual, geralmente envolvidos em escândalos, corrupção ou por terem dito algo que lhe fugia à competência, fatos caracterizados por menosprezo, preconceito e irresponsabilidade.

Nesta matéria do Fantástico, o pró-reitor admite: “Mesmo não estudando para o vestibular, você pode fazer esta prova até no chute. Eu, por exemplo, que estou defasado, posso fazer 25 pontos”, e completa quando o repórter pergunta qual é a nota mínima de corte, por exemplo, num curso como administração: “Eu não me preocupo com isso. Olhando nos seus olhos: eu não me preocupo com isso. Eu não preciso disso. Eu não valorizo isso”.

Ao se pensar nas denúncias da matéria exibida:

- 5 milhões de candidatos para o Ensino Superior;
- 2, 5 milhões de vagas disponíveis, sendo 300 mil em Universidades Públicas;
- 80% dos universitários estão na rede particular de ensino;
- 100 faculdades, em média, surgem por ano na rede particular, o que aumenta a concorrência;

fica claro, como diz o educador Zacarias Gama, que “esse sistema particular se inchou e precisa de alunos como condição de sobrevivência. Ele começa a usar estratégias de mercado no sentido de ter o aluno que ele precisa com o potencial de pagar a mensalidade, com potencial de comprar as coisas que existem dentro dos seus shoppings, menos interessado talvez no seu mérito acadêmico, na reflexão que o aluno é capaz de fazer. Então, é um grande mercado de diplomas”.

Desta feita, há uma banalização dos vestibulares o que implica em levar para o Ensino Superior alunos despreparados e descontextualizados. Então eu pergunto: também haverá mobilização destes estudantes, quer dizer, dos estudantes que são alunos da unigranrio e, portanto, submetidos à fala do pró-reitor, para derrubá-lo? Cairá o rei? Tomarão a reitoria? Fica a dúvida...


Em tempo fantástico, o professor!

Domingo, 04/05/2008, no Fantástico:

Um professor estava no auge da carreira, aos 47 anos e com três filhos ainda crianças. Ele descobriu um câncer maligno e deu uma aula de vida que se tornou um sucesso.

7.5.08

Entre a autoria e a culpa?

No post abaixo eu reproduzi alguns e-mails do grupo de estudos. Eticamente questionáveis, inclusive. A questão ainda é esta, sobre a autoria, ou os autores de papers científicos. E se alguém ainda tinha esperanças de que a cabeça no travesseiro e uma noite mal dormida desse conta do recado e os envolvidos esquecessem a idéia de jirico que tiveram, este alguém se enganou. O máximo que uma noite mal dormida conseguiu fazer com esse bando sem noção foi por outra conta, a de justificar a imbecilidade para os organizadores do congresso. Acompanhe:

E-mail 1: “Olá pessoal! Estou escrevendo o resumo para o Congresso e estou em dúvida e queria a sugestão de vcs. Na introdução escrevi sobre o que se trata o texto, resumidamente, de onde, método, objetivo. Finalizei da seguinte forma: ‘Este estudo faz parte da proposta de dissertação de mestrado em bla bla blá na área de blé blé blé, que está atualmente em fase de finalização, realizada na bló bló bló. Seu conteúdo também é discutido por um grupo de estudos na área blé blé blé e suas relações sociais, mediado pelo professor orientador deste pesquisador e tendo como participantes seus demais orientandos. Desta forma todo texto produzido passa pelo crivo do grupo o que proporciona críticas e sugestões para a sua construção, justificando-se a co-autoria de seus integrantes.’ Vcs acham que é necessário justificar todos os nomes dos co-autores. Achei que sim pq se colocasse apenas como dissertação, caberia na lógica, apenas o meu nome e do orientador, não é? Fico no aguardo de suas sugestões, ok? Fiquem com Deus!”

E-mail 2: Nossa bibi, não sei se é a melhor escolha, mas dentro das razões levantadas concordo com o que você fez para não ficar estranho (mais em cima do muro impossível né?). Eu manteria tal justificativa. Talvez possamos colocar em todos uma menção ao grupo de estudos pelo menos nos painéis (ainda que não estejamos oficializados como um grupo) consulto a opinião de todos também. Abraço.”

Em tempo, o orientador, na leva de e-mails anteriores anunciou por uma porta-voz de que, então, o nome dele deveria constar como último da lista em cada um dos trabalhos. Não no meu, bebé! Estou fora, sacou? Quanta vergonha, quanta vergonha!

6.5.08

Papers de Mel e Pesquisadores de Chocolate

Ah, pois eu então lhe digo porque tanto me incomoda estar onde estou. Para os desavisados, a idéia de montar este blog foi por conta de um processo seletivo para o ingresso ao doutorado, nos idos de 2005. Então eu escrevi A Banca, e questionei a ética da coisa. A história rendeu, um professor, em negociata, tomou as dores, estava certo de que eu deveria passar por cima de todas as desavenças e então fazer doutorado, porque meu lugar era no doutorado e coisa e tal. Em parte eu concordava, eu passei quase três anos tentando encontrar uma vaga de doutorado que fosse a minha cara e não achei. Nem aqui, nem fora do país. É que no doutorado, por mais autonomia que o estudante tenha em relação ao seu orientador, tem muitas coisas entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia. São contratos escusos, e a ética é facilmente confrontada. Seja aqui, seja ali.

Não faço muito segredo de que, então, não estou onde eu gostaria de estar. O primeiro detalhe é que fiz o projeto de doutorado para ser orientada por um professor, e me restou outro. É aí que os problemas surgem, pelo preço que cada um resolve pagar, seja pela endogamia acadêmica, seja pelas relações das quais se espera ganhar com o outro.

Também já falei aqui sobre a engodamia dos livros, criticando as correntes de autores. Já falei dos sustos que levei no grupo de estudos e já passou um bocado de tempo de tudo isso. Mas, então, a coisa se repete, sempre repete (e foi um dos motivos de eu ter encerrado este blog em outra ocasião). A coisa se repete e eu fico com vergonha alheia.

Querendo ou não querendo, quando eu disse sim à orientação de doutorado eu aceitei o jogo. Pelo menos o jogo da instituição que me abrigou. E para ir mais além, sou bolsista do CNPq. Mais institucional do que isso, só pegando mais verbas na reitoria de pós, o que não vai acontecer tão cedo porque estou querendo me manter à distância.

Eu sei que não sou uma pessoa 100% ética, ou apenas já cansei de lutar contra algumas coisas. Mas tem coisa que não dá para não ser ética. O fato é que eu estou passada com a negociação via e-mail que está acontecendo com meu grupo de estudos (do qual faço questão de me ausentar, pela cretinice dos acontecimentos vigentes por lá). Agora resolveram fazer uma lista (exceção feita ao meu nome, ainda bem) de todos participantes. A idéia é simples e não é novidade no meio acadêmico. Para cada resumo que um dos participantes enviar para uns dos congressos de maior prestígio na área – já questionado por mim – acrescenta-se todos os outros nomes do grupo de estudos, criando-se uma rede. Um pesquisador de chocolate acaba fazendo apenas um trabalho e ganhando outros 5, ou 6, ou 7, dependendo do número de integrantes escusos e complacentes do tipo “me add que eu te add”. [Parênteses: esta minha comparação com o mundo internetês é injusta. Na internet, um sistema de redes, há muito mais instrumentos de combater esse tipo de ação para que sites e blogs subam seu page rank do que sonha o mundo acadêmico, uma questão de seriedade].

Meus ombros suportam o mundo, mas não suportam pesquisadores vagabundos. Por isso não carrego nomes sem sentido, apenas de gente competente e que, de fato, contribuiu para o estudo. Mas nessa corrida papers de mel, promovida pelas instituições regulamentadoras (que eu apoio, já disse em outras ocasiões) têm contribuído para o outro lado da moeda deixando a coisa um pouco à deriva. Talvez seja a hora deste sistema acompanhar os esforços das redes sérias que se criam pela internet. Com ela, os jovens aprendem que sozinho não se ganha o mundo, nem com fraudulências. É que na internet os mecanismos de buscas e ranqueamento de sites e blogs já rastream e punem que faz uso de links como uma rede para ganhar acessos, dentre outras coisinhas a mais.

Navegando e aprendendo.

Abaixo a troca de e-mails dos Pesquisadores de Chocolate em busca de Papaers de Mel:

E-mail 1: Olá pessoal, vcs irão mandar resumos para o congresso em Porto Alegre? O que vcs acham de cada um fazer um e colocar os nomes dos outros no trabalho, pois dessa forma (como fazem em outros institutos) todos terão mais publicações e também, não sei se todos poderão ir até o congresso para apresentar ou expor. Abraço.

E-mail 2: Olá pessoal! Eu concordo plenamente. Pretendo fazer um resumo ampliado. Vamos ver se consigo. Fiquem com Deus.

E-mail 3: Concordo!

E-mail 4: Bom, se todos estamos de acordo, faremos o seguinte, cada um envie organize um resumo e coloque o nome de todos. Só para confirmar os nomes completos são esses: Beltrano de Tal [este é o orientador dos alunos, inclusive o meu, que vergonha! Me digas com que andas, professor, que te direi quem és], Fulano de Tal, Cicrano de Tal, Lá lá lá de Tal, Li li li, Ló ló ló. Não sei se alguém mais vai mandar (Lê lê lê de Tal? Lu lu lu? Tan tan tan?) Lembrando que cada autor pode ter até 6 trabalhos, Abraço a todos.

E-mail 5: e cada trabalho pode ter 6 autores.

Rá! Fizeram as contas? Em uma tacada só, o pesquisador de chocolate pode, de 6 trabalhos, ter bem uns 30 papers de mel. Rá! Quanta vergonha! Quanta vergonha!

Cai o Rei de Ouros, Cai o Rei de Paus: os estudantes chacoalham o sistema!

Cai o Rei de Ouros, Cai o Rei de Paus: os estudantes chacoalham o sistema!
por Fernanda Ramirez

Cai, não fica nada.

Nos últimos tempos tem-se visto uma movimentação dos Estudantes do Ensino Superior em franca manifestação país adentro. Primeiro foram os estudantes da USP, em maio do ano passado, que tomaram conta do prédio da reitoria. Estavam contra os decretos do Governador José Serra anunciados em janeiro de 2007 (dentre outras coisas, os decretos proibiam por tempo indeterminado a contratação de professores e funcionários para a instituição; impediam que as universidades usassem a verba sem autorização do secretário da Educação Superior e tiravam a autonomia universitária). Cai, não fica nada!

Depois foi a vez dos brasilienses da UnB que tomaram sua reitoria. Queriam a saída imediata do reitor Thimothy Mulholland, do vice Edgar Mamiya e de todas as fundações envolvidas em processos de corrupção. O estopim, em abril de 2008, foram os gastos superfaturados do reitor e sua lixeira de 1000 reais. Em janeiro deste ano, surgiram diversas denúncias de corrupção envolvendo a atual gestão da reitoria da UnB, envolvendo desvio de verbas por meio da FINATEC para uso privado do reitor. O Ministério Publico abriu inquérito e nas investigações descobriu mais irregularidades envolvendo a FUB e a FUNSAUDE. O grupo que estava à frente da reitoria desde 1998 já esteve envolvido também em outros escândalos como o do Centro de Seleção e de Promoção de Eventos (CESPE), o da Casa do Estudante (CEU) e o da própria eleição da atual gestão. Vale lembrar que desde 1996 após o decreto do Governo FHC, a UnB não tinha eleições paritárias para reitor, outra exigência dos estudantes. Cai, não fica nada!

Nesta semana, os donos da bola foram os estudantes e os professores da Universidade Federal da Bahia. É que o infeliz do coordenador do curso de Medicina, Antônio Dantas, declarou que a baixa no rendimento dos alunos no ENADE (Exame Nacional de Desempenho, do MEC) se deu devido ao fato dos baianos terem QI inferior ao restante do país. Hein? Nos dias de hoje é bom que se proteja ou cai, não fica nada!

É claro que a imprensa distorce fatos e é capaz de dizer grandes mentiras contando apenas verdades e não se sabe ao certo em que contexto o coordenador do curso disse tal blasfêmia. A pesquisa acadêmica e os papers também permitem esta falácia, na medida em que o pesquisador manipula os dados e publica apenas aqueles que lhe interessam. Para os acadêmicos há revisão por pares e coisa e tal dentre os inúmeros indexadores de pesquisa mundo afora. Para os cursos superiores há o ENADE e o fato histórico de que os alunos das universidades públicas têm uma tendência a boicotar o exame, porque não estão de acordo. Esta poderia ser uma das explicações para o baixo desempenho dos alunos da Bahia, segundo Arquimedes Ciloni, presidente da Andifes (associação que representa os reitores das universidades federais).

Independente do acontecido, este fato traz à baila novamente a legalidade de exames como o ENADE e outros instrumentos que regulam os cursos superiores. Há uma tendência da população em rejeitar números e índices, principalmente no tocante à educação. É que então, os números não seriam capazes de dizer como, de fato, a coisa funciona. Números são números, não provariam a qualidade do ensino. Mas trazem deduções lógicas. São indicadores essenciais de repasse financeiro e, convenhamos, deixar a educação ao-deus-dará não faz sentido. Pode ser pouco, pode ser insuficiente, pode ser inadequado, pode um monte de coisas, mas não se pode negar que é necessário haver agentes reguladores, principalmente em se tratando de universidade pública, que deve explicações à nação.

Desta forma, eu concordo com Naomar de Almeida, reitor da Universidade Federal da Bahia, que declarou em entrevista para a televisão que, de certa forma, o boicote dos estudantes ao exame nacional é um erro. No entanto, de outro lado há algo de positivo. O boicote é uma das formas dos estudantes se declararem insatisfeitos com o sistema e é o jeito que eles encontraram para “pedir” melhorias, coisa que também é muito válida, como a invasão nas reitorias ou esta última manifestação pública que resultou na renuncia do coordenador do curso de medicina do cargo.

Em conjunto, o que estes acontecimentos mostram é que os estudantes sempre estiveram com a faca e o queijo na mão. Basta que façam uso deles, pelas razões certas ou pelas razões erradas, para que o sistema chacoalhe. Então, que caiam os reis e que se questione a canção: “nos dias de hoje, não lhes dê motivo, porque na verdade, eu te quero vivo”.

1.5.08

Gravidez e Drogas nas Avaliações Britânicas

Enquanto aqui no Brasil a luta é pela diminuição da evasão escolar e do trabalho infantil, dentre outras coisas, na Inglaterra, caso seja aprovado, as escolas serão avaliadas pela taxa de gravidez e pelo consumo de drogas. Além disso, essas instituições britânicas terão que guardar os registros criminais e os níveis de obesidade dos estudantes. Lá eles acreditam que as escolas britanicas deveriam ser responsabilizadas por o que acontece com os estudantes quando eles deixam as escolas, aqui o que justifica as ações são os números para inglês ver. É que os países subdesenvolvidos têm que prestar conta para as Nações Unidas, erradicar a taxa de anafalbetismo.

25.4.08

Caiu na orientação, é peixe!


Tá, eu não sou a melhor aluna, nem a melhor pesquisadora, nem a melhor acadêmica, nem a melhor articulista, nem a melhor professora do mundo. Eu sou uma mulher que se multiplica em várias outras, como tantas que existem. Mas também não sou daquelas que só pensam nos seus esmaltes, nos seus lábios gloss e em alisar os cabelos. Então, tem coisa na endogamia (leia-se putaria) acadêmica que só termina de me descabelar:



(na reunião de orientação)

- Ei, você não imprimiu?
- Não, vamos ver na tela.
- Você leu? Porque eu prefiro discutir direto.
- Não, quero ler com você.
- Bom, deixa eu por uma cadeira para me sentar mais perto da tela...
- Se quiser sentar no colo do orientador, não tem problema.

Tem, tem problema sim senhor. Aliás, isso tá ficando com problemas demais. Ora!

 
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