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Consciência Parda



Ah, eu vou lá na universidade onde estou prestando concurso para o ingresso no doutorado dizer que eu sou afro-descendente. Vou resolver logo o meu problema, vou lá dizer que minha bisavó era preta, meu avô mulato e que esta minha cor parda (que é esta cor sem cor) vem misturada com a branquelisse do meu pai, mas que o pai dele era carvoeiro e que, então, veja bem, combina com os critérios socieconômicos e étnicos-raciais determinados por algumas instituições para critério de seleção de vagas em cotas. É, eu vou lá. Eu vou lá dizer que pra mim assim está bom e que eu prometo tomar mais sol para que não reste dúvidas!

Vestimentas

Não é porque eu sou professora de Educação Física que eu vou me vestir de qualquer modo. Eu vou sempre combinando, diz o chefe. A calça branca com listras vermelhas combina com o tênis vermelho de listras brancas e uma camisa pólo com qualquer umas destas cores para quando eu vou para a quadra. Já a sala de aula me exige uma calça que não seja jeans, uma camisa e um casaco para os dias de frio. Os cabelos eu tento arrumar, mas não consigo, ficam sempre uns fiozinhos rebeldes para atormentar. Coisa de mulher? Talvez. Quer dizer, quando o Luxemburgo apareceu de terno e gravata dentro dos gramados todo mundo comentou que ele era marqueteiro etc e tal.

Eu não sou marqueteira nem nada. Também não me afogo em bijouterias, jóias, enfeites de qualquer espécie ou maquiagem. Mas tem ocasião que exige um pouco mais de todo mundo. E às vezes é só para evitar o desconforto. É, ninguém vai de jeans para uma festa de casamento, salvo as crianças. Tá, eu também não estou falando de casamento aqui, mas sei que cuidar um mínimo de nossa imagem nos coloca um pouco adiante. Quando eu vou a um congresso, a um evento científico de qualquer outra área, distante da Educação Física, vejo que as pessoas levam a sério o jeito de se vestir. Palestrante de terno e gravata, gel nos cabelos, botando banca (no bom sentido). E dá gosto de olhar, sentir o que ele tem para nos dizer.

Então eu vou a um evento da Educação Física e o palestrante está de calça rancheira (e não é esta a origem da calça jeans?), uma camisa que geralmente não combina e um casaco de todo dia, meio surrado. Neste caso eu me pergunto se esta pessoa ainda se preocupou com o evento, ou se está lá apenas por estar. Se ela leva a sério sua posição ou se tudo bem, é assim mesmo, ninguém se importa. Pois bem, eu me importo. E nem venham me dizer que a Educação Física é irreverente etc e tal porque qualquer um pode ser irreverente bem vestido ou, no mínimo, vestido adequadamente para a ocasião.

Notem que eu me importo mais ainda quando eu vou a um evento, encontro tal sujeito, que pega o microfone e diz: "eu fiz esta apresentação meio correndo, não tive tempo de revisar, aliás, eu acabei de montá-la tem uns 10 minutos, aqui no jardim, então eu peço desculpas se tiver alguma coisa na apresentação fora de ordem". Não, eu não desculpo.

E da série "produção em massa"...

Tá, hoje foi um bom dia, embora eu tenha madrugado ao acordar às 8 horas. O que é quase um disparate, levando em consideração que, comumente, levanto às 13. Não, eu não durmo tanto quanto se possa imaginar, embora eu não me importasse em durmir o dia todo caso o corpo não latejasse. De repente é só uma questão de costume, sei lá.

Mesmo assim, sonolenta, hoje foi um bom dia porque eu fui dar uma paletra sobre Psicanálise e Esporte. E foi ótimo. Quer dizer, não fosse pelo desejo, teria havido mesmo um disparate porque eu repeti a mesma pelestra três vezes: pra turma da manhã, pra turma da tarde, pra turma da noite. É a famosa produção em série do Ensino Superior. Então, na última palestra (ou repetição), vem o coordenador falando:

- olha, no mínimo eu garanto seu certificado, não sei se te serve pra alguma coisa.
- três, respondi eu: um pra turma da manhã, um com nome diferente pra turma da tarde e outro pra turma da noite.

Quer dizer, eu também acho que não serve pra lá grande coisa, mas se o CNPq anda contabilizando os professores eu é que não vou estar de fora. Nesta corrida maluca lá se vai pouco mais de uma centena de certificados, fora aqueles que eu deveria ter e não peguei. É que depois do décimo, ou do vigésimo, ou sei lá em qual número, a gente releva uma ou outra participação em congresso, até mesmo uma palestra meio nada a ver que a gente dá meio por acaso e por conta dos amigos.

Mas nada disso! Hoje eu quero mesmo é ser contabilizada. Quero colecionar certificados! E eu já sei o que fazer com eles quando eu for dona do meu nariz. Eu vou pegá-los, um por um, e vou grudá-los de modo a fazer um grande mosaico na parede do meu escritório (naquele escritório que um dia eu vou ter naquela casa que um dia eu vou construir quando eu começar a ganhar mais do que 25 reais a hora-aula). Tipo découpage (é que recorta e cola agora tem nome francês). Sim! Vou passar cola, um por um, e vou grudá-los aleatoriamente na parede. Uma galeria, de libertação talvez. Uma instalação artística ou um protesto silencioso, talvez.

Depois eu vou passar um verniz por cima para envelhecer o papel (amarelá-los) e para contrapor ao tom do verde que vai estar na parede. Vai ser legal porque vai dar jogo com os móveis (madeira nobre, ecologicamente extraída da natureza) e com as estantes onde estarão alojados meus livros. E também vai combinar com o painel em macramé (trabalho feito com nós, fios, barbante e cordas) que eu estou imaginando fazer para cobrir a janela e tapar um pouco a luminosidade do sol. Até com a tapeçaria vai combinar, e com a poltrona de leitura, esta feita de couro envelhecido, tingido de vermelho.

Então eu deixarei de ser mais um número, de ser contabilizada.

Lá e cá



O que eu poderia concluir do Ensino Superior além do fato dele ser visceral e endogâmico nas instituições públicas ou do fato do professor ser um palhaço e o aluno ser a piada do dia nas instituições particulares? Enquanto estas últimas sustetam um capitalismo de massas, as primeiras refletem um sistema político fraudulento. Ambas estão vulneráveis e ambas vivem das relações de poder e a partir de interesses próprios. As duas são vaidosas, pelo menos as pessoas que estão dentro delas. Resta saber como alunos e professores querem participar de tudo isso.

A parte legal

Todo Congresso tem a parte chata, e a parte legal.




Que bons ventos, estes que me deixaram cara a cara com o Prof. Laércio. Que prazer em conhecê-lo e que excelente oportunidade ele está me dando (sim, eu vou correr atrás!). No primeiro dia fomos juntos ao Congresso, depois de uma breve reunião aqui em casa. E lá foi ele me apresentando - aqui e acolá - para uma gente boa demais.

Eu até cheguei a gozar (no sentido psicanalítico do termo) quando o Prof. Antonio, uma simpatia, disse que a psicanálise é diferente da psicologia. E outro cara prazeroso de se conhecer, foi o Puga. O Prof. Puga, um lobista tão pé-de-chinelo quanto eu. Tá, vai. Ele é bem melhor do que eu, devo admitir. E foi gostoso demais andarmos de lá pra cá, de cá pra lá. De vento em popa. Daí apareceu o Guilherme, carioca. Divertido. E fomos para o SESC Pinheiros assistir o Antonio Nobrega. Puxa, que dia maravilhoso este de ontem, obrigada! E ainda teve a Melina, com seu toque especial, com sua vontade de fazer as coisas sairem do lugar. Empolgante!

Teve também meu orientador de mestrado, que delícia reencontrá-lo, que abraço gostoso. De repente eu percebi o quanto eu teria aproveitado melhor o mestrado se o estivesse fazendo hoje, que estou mais madura e um dedinho menos selvagem. Um dedinho só, mas já é um bruta diferença. Daí eu achei que o cara deveria saber disso, então contei. E sei que ele entendeu o tamanho deste agradecimento. Um cara bom demais, que tem uma filhinha linda. E que me ensinou muito com sua paciência e generosidade. Do tamanho de um bonde, a generosidade. Eu fiquei extremamente feliz, primeiro por ele levar ao Congresso o tema da psicanálise e, depois, por ter me citado em sua palestra. Que honra! Pedro, você está no meu coração e eu estou sem palavras. Obrigada por fazer parte da minha vida, por acreditar em mim academicamente (e na importância que isso traz).

Laércio, obrigada por ter dito meu nome no microfone, durante sua fala. Duas vezes num mesmo Congresso? Eba!!! Eu tô ficando famosa, seja lá o que isso represente (meus 5 minutos de fama). Mas que faz um bem danado pro ego, ah, isso faz!

Mais um semestre...



É, o veranico acabou. E com ele, as férias. Um pouco frustrante passar as férias de inverno longe do vinho, do fondue, da sopa na casca do pão italiano, do chocolate quente no alto da Serra da Cantareira ou do filminho debaixo das cobertas.

Na segunda-feira o inverno bateu, chegou com tudo, com chuva inclusive. Bom pro filminho! Mas que nada, sai da frente que as aulas também chegaram, e com tudo. É uma tal de grade horária, dividir turma, quadra, aluno e uma vontade louca de clonar professor porque a instituição, coitada, anda sem verba para contratar gente nova. Telefone, telefone, telefone! No meio da tarde desliguei o celular e no começo da noite lá estava eu no trânsito maluco da av. Ibirapuera, questionando-me se seria melhor eu estar a caminho da Serra, pro chocolate quente e um bom papo de inverno. Encontro programado pro sábado e estão todos convidados!

Antes, porém, eu queria dizer a todos, Benvindos! E vamos em frente, com textos novos, gente nova, gente velha, gente boa de mais! Todos vocês que participam, que escrevem, que comentam, que passam rapidinho só para dar uma olhadinha, todos vocês, gente boa de mais! Só tenho a agradecer e dizer sorrindo, junto a minha taça de vinho, um até breve!

E você?



É claro que o mundo me consome mais do que à maioria.
Embora eu ainda seja, não quero permanecer um número, uma nota.

Avaliação Final IIb



Eu só sei de uma coisa, quer seja no bar ou na sala de aula, quero fazer a diferença. E quero que meus alunos façam a diferença (porque a minha depende da deles!). É por isso que hoje eu choro. Lágrimas, por favor, escorram com esta última mensagem: quero que eles se incomodem por serem a piada do dia.

Trabalho e Tédio - em "A gaia ciência"

Eu brinco com as pessoas dizendo a elas: "Nunca ninguém me perguntou se eu queria trabalhar!". E elas me respondem: "A vida é assim mesmo!". É quando eu tenho a certeza de que alguns conceitos devem ser desconstruídos, ao passo que, para mim, o trabalho tem outro conceito, associado ao prazer, obviamente, para que saia dele a característica de penoso, de doloroso. Outro dia um cara me devolveu a pergunta: "Mas você quer trabalhar?", e eu respondi: "Assim, do jeito que a sociedade capitalista impõe, não!" Daí, como eu esperava, o óbvio apareceu: "Mas como você vai sustentar sua casa então? Os filhos ...". Sim, eu estou cansada dos pensamentos comuns. E, na minha busca por pensamentos diferentes, para novas reflexões, encontrei esta passagem no livro "A gaia ciência" de Nietzsche:

"TRABALHO E TÉDIO - Buscar salário pelo trabalho - nisso quase todos os homens dos países civilizados são iguais; para eles o trabalho é um meio, não um fim em si; e por isso são pouco refinados na escolha do trabalho, desde que proporcione boa renda. Mas existem seres raros, que preferem morrer a trabalhar sem ter prazer no trabalho: são aqueles seletivos, difíceis de satisfazer, aos quais não serve uma boa renda, se o rabalho mesmo não for a maior de todas as rendas. A esta rara espécie de homens pertencem os artistas e contemplativos de todo gênero, mas também os ociosos que passam a vida a caçar, em viagens, em atividades amorosas e aventuras. Todos estes querem o trabalho e a necessidade, enquanto estejam associados ao prazer, e até o mais duro e difícil trabalho, se tiver de ser. De outro modo são de uma resoluta indolência, ainda que ela traga miséria, desonra, perigo para a saúde e a vida. Não é o tédio que eles tanto receiam, mas o trabalho sem prazer; necessitam mesmo de muito tédio para serem bem sucedidos no seu trabalho. Para o pensador e para todos os espíritos inventivos, o tédio é aquela desagradável 'calmaria' da alma, que precede a viagem venturosa e os ventos joviais; ele tem de suportá-la, tem de aguardar em si seu efeito: - é justamente isso o que as naturezas menores não cnseguem obter de si! Afastar o tédio a todo custo é vulgar: assim como é vulgar trabalhar sem prazer. Algo que talvez defina os asiáticos, em relação aos europeus, é fato de serem capazes de uma mais prolongada e mais profunda calma do que estes; mesmo seus narcóticos agem lentamente e exigem paciência, ao contrário da repulsiva rapidez do veneno europeu, o álcool."

Quer dizer, não adianta eu chegar na faculdade e responder ao sistema, pois não sou civilizada. Sou selvagem e não pretendo me domesticar, não academicamente, não por enquanto (o que dói admitir!). Quando eu for obrigada a me prostituir, e o caminho não tiver volta, nunca mais, vocês saberão.