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Negociata

Eu estou me sentindo um peixe fora d´água no doutorado, e por diversos motivos. De repente eu me olho e não me vejo, o que me causa certa angústia. Quer dizer, meu orientador, por exemplo, nunca leu minha dissertação de mestrado, e eu nem posso ficar puta, de jeito nenhum, porque eu nunca li nada do meu orientador. Empatamos, mas saímos perdendo.



Eu me olho, e cada vez que me vejo, quando me encontro, tenho a certeza de que estou pagando o preço do amor. Um preço alto até, para um amor que virou ódio, ou algo que o valha quando as fichas começam a cair e você se sente diminuído em seus próprios sentimentos, ou ainda quando você se surpreende com você mesmo e descobre existir dentro da sua alma um doce exercício de vingança. Algo que te faz bem, que te faz rir e que te devolve ao prumo do mundo de seu próprio corpo.

E por causa disso, eu e meu orientador empatamos, mas saímos perdendo. Quer dizer, como é que eu poderia me sentir sendo o assunto principal de um diálogo como este aqui de baixo?

- Por que você está tão interessado que ela entre no doutorado? Já comeu?
- Já, e sou apaixonado por ela.

Não sei até que ponto eu retrato a realidade desta conversa, pois eu não estava lá. E é ruim para uma mulher saber que sua vida foi negociada neste nível. Então eu me questiono, todos os dias, o que é que eu estou fazendo com a minha vida?

Conversas de Botequins?

Quando eu passo pela cantina da faculdade, vejo que as pessoas se cutucam, entreolham-se e dizem: é ela. Depois de três anos, retornar tem um gostinho de volta por cima. Pelos corredores vou em passos maduros e com um leve sorriso matreiro. Vou incongruente ou, pelo menos, vou diferente de como eu ia em tempo de graduação ou mestrado. Sorrio para todos, converso com quem está disponível e nesse interesse desinteressado aproveito para ser um texto e criar um enigma. Conversas de botequim, como as que vejo ou as que escuto quando me dizem da minha vida acadêmica. Eu fico espantada com o tanto de gente que a acompanha:

"Eu soube que você entrou no doutorado, parabéns! Ah, e que você conseguiu bolsa do CNPq, que legal, em primeiro, né? Jóia. Seu currículo lattes, eu vi, muito bom mesmo, você merece a bolsa. Alguém me disse que você estava dando aula na universidade, de basquete, nossa, como você consegue dar aulas para 100 alunos ao mesmo tempo? Tem que ser muito competente. Que pena que você não conseguiu fazer doutorado lá em Santa Catarina, eu estava torcendo por você. Aquela que escreveu um texto com o prof. dr. Fulano de Tal era você, né? Você deve ter adorado participar do laboratório dele. Me conta, é mesmo tudo o que dizem? Você saiu mesmo com aquele professor? Pelo tempo que andam dizendo? Você está tão bonita! Nossa, fiquei sabendo da sua história da banca, eu também teria emputecido..."

E que vontade de olhar para uma pessoa desta e dizer: "seu moço, uma cachacinha por favor".

Crítica Leve

A ciência nunca vai entender os problemas brasileiros, ela só pensa em inglês.

Prêmio XIXI de Literatura Científica



Bem posso notar que a comunidade científica quer se auto promover, e a si própria (apenas!). Sim, eu gosto de escrever, o que tenho feito desde a juventude e prêmios literários sempre me interessaram. Então eu fiquei super contente quando eu vi que organizaram um Prêmio de Literatura Científica na minha área, mas logo entristeci diante do regulamento:

Primeiro XI: "A premiação para os trabalhos escolhidos será constituirá de: a) diplomação em sessão no evento; b) chancela da entidade para a publicação em editora."

Um diploma e uma chancela. Quer dizer, qual o valor de um diploma e de uma chancela? O diploma a gente soma no Currículo Lattes, mas os pontos mais importantes são artigos publicados em periódicos internacionais e não um papelzinho dizendo que o manuscrito tal foi selecionado entre tantos. Status talvez, mas é a tal da publicação que é mesmo importante acadêmicamente. Já a chancela...

Segundo XI: "A chancela da entidade pode servir de estímulo para que o autor do trabalho premiado publique o livro em qualquer editora nacional, sendo de responsabilidade do premiado o contato com as editoras."

Tá, até posso concordar que a chancela pode ser uma boa para o status. Mas me parece óbvio que um texto vencedor (o que pressupõe qualidade) não precisa de chancela alguma para ser editado ou para ser interessante. É aí que eu acho que a coisa toda se inverteu neste concurso. O autor gastou horas se dedicando para no final carregar de graça o nome da entidade, além de doar os direitos autorais para a editora. Prefiro concorrer aos 30 mil do Prêmio Jabuti.

E na distração...



No final a gente descobre que as coisas são bem simples (e como!). É como aquela cervejinha que a gente toma fim de tarde com os amigos, de papo pro ar. Lá pelas tantas, uma piadinha para aliviar, distrair, tirar o peso. Desta vez o assunto foi meu ingresso no doutorado, ou a tentativa de.

(amigo) - Um cara de lá disse que o processo seletivo é honesto e muito bem feito.
(eu) - Hum, você não é o primeiro que me diz isso.
(amigo) - Tem análise de currículo e de projeto antes, não tem?
(eu) - Sim, tem uma pontuação de currículo etc e tal. E também sei que tem um cara que estará concorrendo e que tem um currículo melhor que o meu. O projeto eu não sei.
(amigo) - A sua foto deve ser melhor que a do concorrente.
(eu) - É uma baita diferença. Vou de vestido para a entrevista?
(amigo) - Humm, acho que sim!
(eu) - Então amanhã vou sair para comprar um.

Depositário



Há um vazio em mim agora como se eu tivesse ido aos Correios e depositado minha alma. Tá, foram todos os documentos exigidos em ocasião do processo seletivo de ingresso ao doutorado. Mas que sensação horrível esta de colocar a vida nas mãos dos outros. E por Sedex. Que sensação horrível esta de colocar a vida nas mãos dos outros com a dúvida de um sistema que pode não ser honesto, ou melhor, que pode ser político. Ai que saudades do vestibular. E que vontade de acreditar que desta vez pode ser diferente. Mas metade de mim desconfia.

Impacto!

PROFESOR, aqui quem fala é seu aluno mudo!

Frase do dia (2)



- Professora, além de dar aulas você também trabalha?

E da série "produção em massa"...

Tá, hoje foi um bom dia, embora eu tenha madrugado ao acordar às 8 horas. O que é quase um disparate, levando em consideração que, comumente, levanto às 13. Não, eu não durmo tanto quanto se possa imaginar, embora eu não me importasse em durmir o dia todo caso o corpo não latejasse. De repente é só uma questão de costume, sei lá.

Mesmo assim, sonolenta, hoje foi um bom dia porque eu fui dar uma paletra sobre Psicanálise e Esporte. E foi ótimo. Quer dizer, não fosse pelo desejo, teria havido mesmo um disparate porque eu repeti a mesma pelestra três vezes: pra turma da manhã, pra turma da tarde, pra turma da noite. É a famosa produção em série do Ensino Superior. Então, na última palestra (ou repetição), vem o coordenador falando:

- olha, no mínimo eu garanto seu certificado, não sei se te serve pra alguma coisa.
- três, respondi eu: um pra turma da manhã, um com nome diferente pra turma da tarde e outro pra turma da noite.

Quer dizer, eu também acho que não serve pra lá grande coisa, mas se o CNPq anda contabilizando os professores eu é que não vou estar de fora. Nesta corrida maluca lá se vai pouco mais de uma centena de certificados, fora aqueles que eu deveria ter e não peguei. É que depois do décimo, ou do vigésimo, ou sei lá em qual número, a gente releva uma ou outra participação em congresso, até mesmo uma palestra meio nada a ver que a gente dá meio por acaso e por conta dos amigos.

Mas nada disso! Hoje eu quero mesmo é ser contabilizada. Quero colecionar certificados! E eu já sei o que fazer com eles quando eu for dona do meu nariz. Eu vou pegá-los, um por um, e vou grudá-los de modo a fazer um grande mosaico na parede do meu escritório (naquele escritório que um dia eu vou ter naquela casa que um dia eu vou construir quando eu começar a ganhar mais do que 25 reais a hora-aula). Tipo découpage (é que recorta e cola agora tem nome francês). Sim! Vou passar cola, um por um, e vou grudá-los aleatoriamente na parede. Uma galeria, de libertação talvez. Uma instalação artística ou um protesto silencioso, talvez.

Depois eu vou passar um verniz por cima para envelhecer o papel (amarelá-los) e para contrapor ao tom do verde que vai estar na parede. Vai ser legal porque vai dar jogo com os móveis (madeira nobre, ecologicamente extraída da natureza) e com as estantes onde estarão alojados meus livros. E também vai combinar com o painel em macramé (trabalho feito com nós, fios, barbante e cordas) que eu estou imaginando fazer para cobrir a janela e tapar um pouco a luminosidade do sol. Até com a tapeçaria vai combinar, e com a poltrona de leitura, esta feita de couro envelhecido, tingido de vermelho.

Então eu deixarei de ser mais um número, de ser contabilizada.

Minha doce vida de estudante...

Ontem eu estava arrumando meu armário e encontrei meus boletins escolares. Antes de começar, quero dizer que sempre fui uma aluna exemplar, ou seja, nunca repeti de ano o que foi muito bom. Na verdade eu desisti no segundo colegial com a desculpa de que não estava dando para conciliar os estudos com as atividades esportivas. Acabei completando a série no ano seguinte, em outra escola. Foi meio chato imaginar que eu já poderia estar no terceiro ano, e no terceiro ano foi mais chato ainda ver meus amigos indo para a faculdade.

Eu nunca tinha imaginado que algumas características poderiam seguir comigo por tanto tempo. Lá no jardim da infância (1981) a professora anotou um pouco de desatenção e um pouco de displicência (meu Deus, que palavra feia!). Tá, não é nada fácil manter a atenção na escola, sei que vocês vão concordar comigo, mas displicente, eu?, é quase uma injúria. Pelo menos eu gostaria que fosse. Então lá fui eu para pré-escola, acho que só para a professora anotar no meu histórico: "às vezes brinca isolada". Até hoje sou assim, me deixem quieta no meu canto quando eu suplicar por isso, depois passa e tudo bem.

Cheguei no 1º grau (1983) e eu passei a ser medida em valores, não mais em conceitos. Minha nota mais baixa: 8.0, em matemática. A mais alta: 9.8, em Educação Artística. No ano seguinte as notas caíram cerca de meio ponto, um pouquinho mais: 7.4 em Integração Social (talvez eu já quisesse que parte do mundo explodisse) e 9.0 em Educação Artística. Depois mantive os 9.0, mas dei uma escorregadinha no português: 7.0. Daí eu entendi o sistema e no outro ano estudei o suficiente para passar, com todas as notas beirando o 6.5, excessão feita aos 9.0 pontos em Educação Artística, sempre a nota mais alta e sempre me acompanhando com o passar dos anos. Por que eu fui fazer Educação Física? Taí, esta é mesmo uma boa pergunta!

Na média fui indo até a 7ª série, quando peguei meu primeiro exame. História. Passei, mas só depois de decorar (literalmente) o livro didático. No ano seguinte foram cinco matérias de exame: história e as novatas português, inglês, matemática e OSPB (que nem existe mais). Passei em todas! (Eu disse lá no começo que eu sempre fui uma ótima aluna - risos).

Enfim 1990, o primeiro ano do segundo grau e cinco matérias de exame: história (que eu ainda odeio), inglês (que eu ainda tento e não consigo), matemática (que eu adoro), física e biologia (que não fazem nenhuma diferença na minha vida). Passei em história e física, nas outras três fui aprovada pelo conselho de classe (ainda bem que existia um!), o que vem confirmar que, de verdade, eu sempre fui uma ótima aluna, ou, no mínimo não enchia a cabeça dos professores, o que foi perfeito.

Larguei o segundo ano (1991) para fazê-lo por inteiro no ano seguinte, numa escola mais fácil e onde minhas notas ganharam peso. Eu consegui fechar com A de matemática em todos os bimestres e meus novos amigos começaram a me pedir cola. Acho que foi aí que comecei a gostar de estudar, quando comecei a perceber que eu poderia dar certo também fora do esporte ou das aulas de desenho. Nem todo mundo tem a oportunidade de começar de novo. E eu tive mais um ano de barzinho (ops, cursinho) para entender isso. Lembram daquele exame de português? Se tranformou em uma excelente nota no vestibular da UNESP: 9,0.

Tá, eu sempre gostei de escrever, e sempre escrevi do meu jeito. Se as notas servem pra alguma coisa, sinceramente eu não sei. Sei que eu me dediquei na faculdade, e mesmo com muitas dificuldades em biologia, fisiologia, anatomia, cinesiologia, bioquímica consegui terminar o curso com média superior a 7.0, que era o fator que eles levavam em conta para Iniciação Científica e pedido de bolsas de estudo, na famosa análise do histórico escolar.

Esse é o jogo, e nesse jogo a gente pode jogar o suficiente para passar ou a gente se esforça para ser diferente, enfrentando todas as dificuldades latentes, tentando ser melhor do que a gente foi antes e fazendo de novo quando for preciso. Tudo isso só para a gente mostrar nosso valor, mostrar que estamos no jogo sim, e que estamos para vencer e não apenas para cumprir tabela.

Histórias com os mestres...

Tive grandes professores na graduação. Figuras carimbadas e grandes pessoas. Em época de copa do mundo, conto uma passagem com o Professor João Batista Freire, autor de livros como "Educação de Corpo Inteiro", "De Corpo e Alma", "O Jogo: Entre o Riso e o Choro", dentre outros. Hoje nós dividimos a administração da Lista de Discussões sobre Literatura e Esporte no Centro Esportivo Virtual. É João, a lista está meio capengando, precisamos agitá-la!

Mas então, numa discussão sobre jogos de futebol, em época de outra copa do mundo, ele é categórico:

- Se a gente colocar dois televisores, um ao lado do outro, um com um jogo de futebol e o outro passando um jogo de videogame, a gente não tem mais como identificar um e outro.

E olha que naquele tempo ainda não existia o "Winning Eleven". Fico pensando, o que será que o João nos diria hoje?

Na entrega das resenhas...



Para resenhas de 1 parágrafo:
"Professora, escrevi apenas um parágrafo porque não queria encher linguiça!"
- Que poder de síntese, hein?

Para resenhas xerocadas:
"Professora, esqueci de digitar meu nome, colequei à caneta em cima, tudo bem?"
- Que cara de pau, hein?

Para resenhas esquecidas:
"Professora, esqueci o texto em casa, meu computador deu problema, mas eu fiz, posso te trazer samana que vem? Não? Então posso te mandar por e-mail? Não? Ah vai professora, minha vida é mó corrida, eu tenho que trabalhar, vir pra facu, é difícil... não posso ficar de DP!"
- Que coisa, hein?

2º dia - o naufrágio



É, a chuva do primeiro dia continuou até a manhã do meu segundo dia na instituição. Tempestade mesmo. Claro, saí super cedo de casa, não tinha alagamento nem nada. Cheguei na faculdade parecendo um zumbi, quase 50 minutos antes do inicio das aulas. Eu, que odeio acordar cedo, um zumbi num campus deserto. Meia hora depois fui até a sala dos professores, ninguém. Acendi a luz e por lá fiquei. Dez minutos depois encontrei com o coordenador, que também é o responsável pela disciplina que lecionaremos. Às 7:30, inicio da aula ele me disse: "espere a outra professora chegar e vocês juntam os alunos que estiverem por aí e falam alguma coisa". Cumpro ordens. Oito horas e a professora não apareceu. Uns alunos foram me procurar, queriam pintar os bichos. Conversamos um pouco. Oito e meia e nada. Os alunos voltam dizendo que um professor resolveu dar aula pro primeiro ano. Conversamos mais um pouco, como se eu estivesse apenas fazendo sala. Nove horas e nada. O professor do primeiro ano libera os alunos. Nove e meia decido ir até o Recursos Humanos. Na volta, quase dez horas vejo a professora estacionando o carro. Ela me pergunta: "tinha aluno aí?". Dez e pouco vamos todos ao Centro de Convivência tomar um café. Quase uma hora depois estou voltando pra casa me sentindo uma inútil ou como se eu não precisasse acordar tão cedo para um dia como esses. Naufrago em meus próprios pensamentos, aqueles, os éticos.

E você?



É claro que o mundo me consome mais do que à maioria.
Embora eu ainda seja, não quero permanecer um número, uma nota.

Driblando o Currículo Lattes?



Pra quem não sabe, o Currículo Lattes, disponível na Plataforma Lattes no site do CNPq, tornou-se um instrumento importante que vem ganhando força nos últimos anos. Indica (ou mede) a produtividade dos professores do Ensino Superior, em instituições públicas e privadas. De certa forma, esta disponibilidade de dados e a politica do CNPq têm exigido mais dos professores pesquisadores, que passaram a se preocuparem com a quantidade da sua produção acadêmica, tornando o instrumento uma faca de dois gumes. Muito mais a quantidade do que a qualidade do que se publica. Não é difícil encontrar pessoas que fazem pactos e alternam os espaços de autor e co-autor. A conta é simples: se eu tenho 8 amigos, cada um escreve um texto ou artigo científico e, de quebra, coloca como co-autor os outro 7. Ao final do evento e/ou publicação cada um terá em seu currículo lattes 8 textos ou artigos científicos. É simples. É como dizer que 2 e 2 são 4.

Hoje eu estava navegando na plataforma porque é interessante verificar a relação com nossos pares, ou, mais bacana ainda, encontrar pessoas que trabalham com o mesmo assunto que o seu, ter acesso ao que ela publicou, entrar em contato, trocar idéias, enfim. Então, por curiosidade (isso também acontece) entrei no currículo de um professor, meu conhecido, e fui direto verificar como andava a produção acadêmica dele. Vai ver tivesse novidades. E tinha. No ítem capítulo de livros publicados encontrei prefácios, orelhas, apresentações de livros. Professor, vou deixar a dica. Como esse tipo de material não se trata especificamente de capítulos de livros, favor colocá-los no lugar destinado para este fim: "demais tipos de produção bibliográfica"; ou serei capaz de acreditar que o senhor também está mais interessando em quantidade do que qualidade, muito menos em ética. Sejamos honestos!

Dar aulas apenas para quem está interessado... resolve?



Quando digo que pretendo abandonar o ofício docente, sempre escuto as mesmas coisas, de um pensamento conformado, acostumado, o que não é o caso do meu. Não ainda. Já escrevi isso antes e escrevo novamente: os alunos são a razão de ser do professor, e vice-versa. A mim não basta que eu me dedique apenas àqueles que estão interessados. Fingir que dou aulas enquanto os alunos fingem que aprendem não é, por certo, o que eu quero.

Se existe uma porta ...

ONDE ELA ESTÁ?
Quantos micos você já pagou em sala de aula? Micos homéricos, irresistivelmente bizarros? Eu vivo com eles. Outro dia aconteceu uma sucessão destes desencontros formais. Primeiro foi a secretária que esqueceu de me avisar que a turma havia mudado de sala e eu fui pro andar errado, lógico. Depois, foi dentro da sala, já encontrada pelos alunos, instalada e em plena adaptação ao novo ambiente. Certa hora, incomodada com o barulho do corredor, resolvo interromper a aula para fechar a porta. Desço calmamente do tablado que coloca o professor num lugar de irritante superioridade, caminho em direção à porta, que deve estar, provavelmente, do lado de fora. Sem sair totalmente da sala, estico o braço para a esquerda em direção à maçaneta, mas não encontro nada. Olho para a esquerda, mas não vejo nada. Não tem porta, concluo. Retorno à sala com um olhar incrédulo enquanto minha boca pronuncia: "ué, esta sala não tem porta?" Gargalharam. Está do outro lado. Quase sento pra rir.