Tem coisas que me cansam. Em se tratando da universidade, algumas me cansam mais ainda. Então umas pessoas resolveram pautar que doutor é quem tem doutorado. E apenas quem tem doutorado. E o doutor como sinal de respeito, já era? O doutor advogado, o doutor psicólogo, o doutor patrão, o doutor vereador (tem aquele que o valha), o doutor prefeito (tem aquele que o valha), o doutor padeiro e o doutor motorista de carro diante de alguém pedindo esmola, ajuda ou coisa que o valha? Este doutor aí já morreu só porque, para alguns que não teêm mais o que pensar em termos sociais (como se o país não precisasse de boas idéias para problemas mais emergenciais, como o básico saneamento básico), doutor é quem tem doutorado? Não morreu não, e nem vai porque se trata de um doutor de respeito.
Então eu fico meio puta, ou escandalizada, quando eu vejo pesquisadores doutores, cujo título lhe veio por mérito acadêmico - o que impõe um certo respeito, concordo - brigando por causa pouco nobre ao gritarem pelos quatro cantos do mundo que doutor é quem tem doutorado (acadêmico, insitucional, escravizador) como se isso fosse a briga mais importante do mundo, que vai mudar os padrões sociais e coisa e tal. Só que no paradoxo da coisa, doutor que é doutor assim não merece lá tanto respeito porque isso parece revelar apenas uma vaidade e uma insegurança de mercado. Em último caso eu considero que, talvez, possa ser uma luta para que a sociedade respeite a educação, e coisa e tal, mas isso seria muito ingênuo de minha parte, deixando tudo uma coisa meio tosca mesmo, fadada ao "eu é que sou mais e coisa e tal".
Neste foda-se você sem título, sem estar digno de sapiência sobre qualquer tema, esta briga de classes me parece mais uma heresia. Então eu quero deixar bem claro: cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é. Com ou sem título. E nem preciso lembrar aqui os ínumeros títulos de doutor comprados, a falta de responsabilidade e critérios acadêmicos pouco adequados e coisa e tal, né? É, acho que não preciso.
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Pedragogia Universitária
Nesta semana os professores estão de volta às universidades. Oa alunos ainda não. Alunos só para depois do carnaval. Antes, as famosas reuniões pedagógicas, ou como diz minha prima, pedragógicas. Na pauta temas importantíssimos: "o que nós vamos fazer com alunos que atendem celular em sala de aula?" Uma voz ao fundo responde na certeza de seu cargo de coordenação: "registraremos falta para o aluno". Que bonito isso. Ele fala alô e o sistema gera uma falta. Entende-se por sistema o mané do professor que vai parar sua aula para registrar a tal da falta. E se for só mensagem de texto? Meia-falta? Celular no vibracall também conta? Ó meu santinho, perdoe os coordenadores, eles não sabem o que dizem.
E se o aluno atender o celular duas vezes? Vai ficar devendo um curso todo no fim do semestre? Cinco vezes é imperdoável. E para tal repetição: jubilo. Hein? Arregala a coordenação, não podemos perder nossos alunos. Ou melhor, o dinheiro deles, porque aluno é tudo igual e tanto faz. Ok. Ok. Para saldar o problema, os professores - trinta minutos depois - suplicaram em coro: não dá só para colocar um cartazinho dizendo que é proibido uso de celular nas salas de aula?
Mas o estresse chega mesmo com a anarquia da distribuição das aulas durante a semana. E é unânime: aulas na segunda de manhã e sexta à noite é a morte. Ideal para professor é entrar na sala de aula na terça à noite e parar na quinta de manhã. Duas férias por ano. É, assim tá bom. Outra condição que não esta é coisa para novatos, ou para subordinados. Eu posso, então dane-se você. Ulalá! Desta feita, a tortura de início de ano já vem dar na cara logo no primeiro dia daqueles que dividem disciplinas. Porque eu já fiz minha agenda e pronto. Mas e eu? Ora, dane-se você. E por aí vai. Vai é dar nos nervos. Por que você não me consultou? Porque eu sou o coordenador e eu decido. Voilá, perdoe os coordenadores, eles não sabem o que dizem.
E se o aluno atender o celular duas vezes? Vai ficar devendo um curso todo no fim do semestre? Cinco vezes é imperdoável. E para tal repetição: jubilo. Hein? Arregala a coordenação, não podemos perder nossos alunos. Ou melhor, o dinheiro deles, porque aluno é tudo igual e tanto faz. Ok. Ok. Para saldar o problema, os professores - trinta minutos depois - suplicaram em coro: não dá só para colocar um cartazinho dizendo que é proibido uso de celular nas salas de aula?
Mas o estresse chega mesmo com a anarquia da distribuição das aulas durante a semana. E é unânime: aulas na segunda de manhã e sexta à noite é a morte. Ideal para professor é entrar na sala de aula na terça à noite e parar na quinta de manhã. Duas férias por ano. É, assim tá bom. Outra condição que não esta é coisa para novatos, ou para subordinados. Eu posso, então dane-se você. Ulalá! Desta feita, a tortura de início de ano já vem dar na cara logo no primeiro dia daqueles que dividem disciplinas. Porque eu já fiz minha agenda e pronto. Mas e eu? Ora, dane-se você. E por aí vai. Vai é dar nos nervos. Por que você não me consultou? Porque eu sou o coordenador e eu decido. Voilá, perdoe os coordenadores, eles não sabem o que dizem.
Vestimentas
Não é porque eu sou professora de Educação Física que eu vou me vestir de qualquer modo. Eu vou sempre combinando, diz o chefe. A calça branca com listras vermelhas combina com o tênis vermelho de listras brancas e uma camisa pólo com qualquer umas destas cores para quando eu vou para a quadra. Já a sala de aula me exige uma calça que não seja jeans, uma camisa e um casaco para os dias de frio. Os cabelos eu tento arrumar, mas não consigo, ficam sempre uns fiozinhos rebeldes para atormentar. Coisa de mulher? Talvez. Quer dizer, quando o Luxemburgo apareceu de terno e gravata dentro dos gramados todo mundo comentou que ele era marqueteiro etc e tal.
Eu não sou marqueteira nem nada. Também não me afogo em bijouterias, jóias, enfeites de qualquer espécie ou maquiagem. Mas tem ocasião que exige um pouco mais de todo mundo. E às vezes é só para evitar o desconforto. É, ninguém vai de jeans para uma festa de casamento, salvo as crianças. Tá, eu também não estou falando de casamento aqui, mas sei que cuidar um mínimo de nossa imagem nos coloca um pouco adiante. Quando eu vou a um congresso, a um evento científico de qualquer outra área, distante da Educação Física, vejo que as pessoas levam a sério o jeito de se vestir. Palestrante de terno e gravata, gel nos cabelos, botando banca (no bom sentido). E dá gosto de olhar, sentir o que ele tem para nos dizer.
Então eu vou a um evento da Educação Física e o palestrante está de calça rancheira (e não é esta a origem da calça jeans?), uma camisa que geralmente não combina e um casaco de todo dia, meio surrado. Neste caso eu me pergunto se esta pessoa ainda se preocupou com o evento, ou se está lá apenas por estar. Se ela leva a sério sua posição ou se tudo bem, é assim mesmo, ninguém se importa. Pois bem, eu me importo. E nem venham me dizer que a Educação Física é irreverente etc e tal porque qualquer um pode ser irreverente bem vestido ou, no mínimo, vestido adequadamente para a ocasião.
Notem que eu me importo mais ainda quando eu vou a um evento, encontro tal sujeito, que pega o microfone e diz: "eu fiz esta apresentação meio correndo, não tive tempo de revisar, aliás, eu acabei de montá-la tem uns 10 minutos, aqui no jardim, então eu peço desculpas se tiver alguma coisa na apresentação fora de ordem". Não, eu não desculpo.
Eu não sou marqueteira nem nada. Também não me afogo em bijouterias, jóias, enfeites de qualquer espécie ou maquiagem. Mas tem ocasião que exige um pouco mais de todo mundo. E às vezes é só para evitar o desconforto. É, ninguém vai de jeans para uma festa de casamento, salvo as crianças. Tá, eu também não estou falando de casamento aqui, mas sei que cuidar um mínimo de nossa imagem nos coloca um pouco adiante. Quando eu vou a um congresso, a um evento científico de qualquer outra área, distante da Educação Física, vejo que as pessoas levam a sério o jeito de se vestir. Palestrante de terno e gravata, gel nos cabelos, botando banca (no bom sentido). E dá gosto de olhar, sentir o que ele tem para nos dizer.
Então eu vou a um evento da Educação Física e o palestrante está de calça rancheira (e não é esta a origem da calça jeans?), uma camisa que geralmente não combina e um casaco de todo dia, meio surrado. Neste caso eu me pergunto se esta pessoa ainda se preocupou com o evento, ou se está lá apenas por estar. Se ela leva a sério sua posição ou se tudo bem, é assim mesmo, ninguém se importa. Pois bem, eu me importo. E nem venham me dizer que a Educação Física é irreverente etc e tal porque qualquer um pode ser irreverente bem vestido ou, no mínimo, vestido adequadamente para a ocasião.
Notem que eu me importo mais ainda quando eu vou a um evento, encontro tal sujeito, que pega o microfone e diz: "eu fiz esta apresentação meio correndo, não tive tempo de revisar, aliás, eu acabei de montá-la tem uns 10 minutos, aqui no jardim, então eu peço desculpas se tiver alguma coisa na apresentação fora de ordem". Não, eu não desculpo.
E na distração...

No final a gente descobre que as coisas são bem simples (e como!). É como aquela cervejinha que a gente toma fim de tarde com os amigos, de papo pro ar. Lá pelas tantas, uma piadinha para aliviar, distrair, tirar o peso. Desta vez o assunto foi meu ingresso no doutorado, ou a tentativa de.
(amigo) - Um cara de lá disse que o processo seletivo é honesto e muito bem feito.
(eu) - Hum, você não é o primeiro que me diz isso.
(amigo) - Tem análise de currículo e de projeto antes, não tem?
(eu) - Sim, tem uma pontuação de currículo etc e tal. E também sei que tem um cara que estará concorrendo e que tem um currículo melhor que o meu. O projeto eu não sei.
(amigo) - A sua foto deve ser melhor que a do concorrente.
(eu) - É uma baita diferença. Vou de vestido para a entrevista?
(amigo) - Humm, acho que sim!
(eu) - Então amanhã vou sair para comprar um.
E na sala dos professores...

"Os alunos chegam piores cada ano que passa!"
"Reflexo da aprovação automática."
"E pensar que eles serão professores..."
"Do jeito que está fica impossível pensar institucionalmente."
"Daqui uns anos fazer mestrado vai ser o mesmo que graduar-se."
"E vai ser difícil exigir ciência de um país anafalbeto!"
E na coordenação...

Sempre vale pensar os e-mails da coordenação. Porque sempre que eu os leio, tenho a sensação de que as coisas poderiam ser diferentes.
"Diferente do procedimento que vínhamos fazendo até o semestre passado, o aluno, cujo nome não consta da relação do Mapa de Notas da Secretaria, NÃO DEVE TER SUA PROVA CORRIGIDA E SUA NOTA NÃO DEVE SER LANÇADA EM NENHUM MAPA. Neste caso, o Professor deve entregar a avaliação SEM CORREÇÃO à secretaria da unidade. A secretaria deverá verificar a situação de matrícula do aluno. Caso o aluno esteja matriculado, a secretaria deverá devolvera prova para correção e lançamento da nota por parte do professor. Caso o aluno não esteja matriculado, sua avaliação será arquivada, SEM CORREÇÃO, no prontuário."
Sim, estou no lugar de ensinar!
Se a faculdade é particular tem o dono, depois tem o cara de confiança do dono, depois o cara de confiança do cara de confiança do dono e assim até que chegue os alunos, no fm da cadeia. Mas antes do fim estamos nós, os professores, junto com os outros funcionários. Se a faculdade é pública a coisa fica mais complicada porque tem muita burocracia e pouca vontade. Reflete o governo. Reflete a liderança.
Salas de aulas com um palco para o professor dar seu show (e hoje em dia é show mesmo, poque não é difícil encontrar turmas com 90-100 alunos, mais que muito espetáculo por ai), sala dos professores, sala dos coordenadores, sala dos diretores e por ai vai, cada um no seu lugar. Com a preferência de que os alunos não entrem na sala dos professores. É assim em alguns dos lugares onde leciono. Como se fosse possível estabelecer uma distância entre professores e alunos. Afastá-los como se um não dependesse do outro e vice-versa.
Então um dia eu estava lá, no meu canto dentro da sala dos professores, quando vem uma professora do curso de direito (sempre querem pôr os pingos nos is) e me diz:
"querida, não pode ficar aluno aqui dentro!".
"fofa, não sou aluna, sou professora!".
Eu fico mesmo me perguntando: será que as coisas não seriam mais interessantes se fossem menos superficiais? E se eu fosse aluna, qual o problema de eu dividir espaços com os professores?
Salas de aulas com um palco para o professor dar seu show (e hoje em dia é show mesmo, poque não é difícil encontrar turmas com 90-100 alunos, mais que muito espetáculo por ai), sala dos professores, sala dos coordenadores, sala dos diretores e por ai vai, cada um no seu lugar. Com a preferência de que os alunos não entrem na sala dos professores. É assim em alguns dos lugares onde leciono. Como se fosse possível estabelecer uma distância entre professores e alunos. Afastá-los como se um não dependesse do outro e vice-versa.
Então um dia eu estava lá, no meu canto dentro da sala dos professores, quando vem uma professora do curso de direito (sempre querem pôr os pingos nos is) e me diz:
"querida, não pode ficar aluno aqui dentro!".
"fofa, não sou aluna, sou professora!".
Eu fico mesmo me perguntando: será que as coisas não seriam mais interessantes se fossem menos superficiais? E se eu fosse aluna, qual o problema de eu dividir espaços com os professores?
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