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Caiu na orientação, é peixe!


Tá, eu não sou a melhor aluna, nem a melhor pesquisadora, nem a melhor acadêmica, nem a melhor articulista, nem a melhor professora do mundo. Eu sou uma mulher que se multiplica em várias outras, como tantas que existem. Mas também não sou daquelas que só pensam nos seus esmaltes, nos seus lábios gloss e em alisar os cabelos. Então, tem coisa na endogamia (leia-se putaria) acadêmica que só termina de me descabelar:


(na reunião de orientação)

- Ei, você não imprimiu?
- Não, vamos ver na tela.
- Você leu? Porque eu prefiro discutir direto.
- Não, quero ler com você.
- Bom, deixa eu por uma cadeira para me sentar mais perto da tela...
- Se quiser sentar no colo do orientador, não tem problema.

Tem, tem problema sim senhor. Aliás, isso tá ficando com problemas demais. Ora!

Me dando (a) conta!



Como não estou no Congresso da Faculdade, hoje eu me torno oficialmente uma aluna de doutorado rebelde.

Estou contrariando o e-mail do orientador
(“todo aluno deve enviar trabalho ao congresso da faculdade”),

as normas da coordenação
(“todo aluno com bolsa deve obrigatoriamente participar dos eventos promovidos pela faculdade”)

e as expectativas do ex-amante
(com tanta ausência, só a mulher dele pode respirar em paz).

Negociata

Eu estou me sentindo um peixe fora d´água no doutorado, e por diversos motivos. De repente eu me olho e não me vejo, o que me causa certa angústia. Quer dizer, meu orientador, por exemplo, nunca leu minha dissertação de mestrado, e eu nem posso ficar puta, de jeito nenhum, porque eu nunca li nada do meu orientador. Empatamos, mas saímos perdendo.



Eu me olho, e cada vez que me vejo, quando me encontro, tenho a certeza de que estou pagando o preço do amor. Um preço alto até, para um amor que virou ódio, ou algo que o valha quando as fichas começam a cair e você se sente diminuído em seus próprios sentimentos, ou ainda quando você se surpreende com você mesmo e descobre existir dentro da sua alma um doce exercício de vingança. Algo que te faz bem, que te faz rir e que te devolve ao prumo do mundo de seu próprio corpo.

E por causa disso, eu e meu orientador empatamos, mas saímos perdendo. Quer dizer, como é que eu poderia me sentir sendo o assunto principal de um diálogo como este aqui de baixo?

- Por que você está tão interessado que ela entre no doutorado? Já comeu?
- Já, e sou apaixonado por ela.

Não sei até que ponto eu retrato a realidade desta conversa, pois eu não estava lá. E é ruim para uma mulher saber que sua vida foi negociada neste nível. Então eu me questiono, todos os dias, o que é que eu estou fazendo com a minha vida?

Conversas de Botequins?

Quando eu passo pela cantina da faculdade, vejo que as pessoas se cutucam, entreolham-se e dizem: é ela. Depois de três anos, retornar tem um gostinho de volta por cima. Pelos corredores vou em passos maduros e com um leve sorriso matreiro. Vou incongruente ou, pelo menos, vou diferente de como eu ia em tempo de graduação ou mestrado. Sorrio para todos, converso com quem está disponível e nesse interesse desinteressado aproveito para ser um texto e criar um enigma. Conversas de botequim, como as que vejo ou as que escuto quando me dizem da minha vida acadêmica. Eu fico espantada com o tanto de gente que a acompanha:

"Eu soube que você entrou no doutorado, parabéns! Ah, e que você conseguiu bolsa do CNPq, que legal, em primeiro, né? Jóia. Seu currículo lattes, eu vi, muito bom mesmo, você merece a bolsa. Alguém me disse que você estava dando aula na universidade, de basquete, nossa, como você consegue dar aulas para 100 alunos ao mesmo tempo? Tem que ser muito competente. Que pena que você não conseguiu fazer doutorado lá em Santa Catarina, eu estava torcendo por você. Aquela que escreveu um texto com o prof. dr. Fulano de Tal era você, né? Você deve ter adorado participar do laboratório dele. Me conta, é mesmo tudo o que dizem? Você saiu mesmo com aquele professor? Pelo tempo que andam dizendo? Você está tão bonita! Nossa, fiquei sabendo da sua história da banca, eu também teria emputecido..."

E que vontade de olhar para uma pessoa desta e dizer: "seu moço, uma cachacinha por favor".

É para parir uma tese, e não um filho!



As pessoas têm me dito que sou radical, que tenho criticado demais as alunas de pós-graduação que geram seus filhotes no meio do processo ou que escolhem fazer um mestrado ou doutorado justamente para aproveitar a bolsa e o "tempo livre" para, enfim, cuidarem dos seus rebentos em paz. Eu sou mulher, tenho 30 anos e, claro, a idéia de ter um filho é uma constante na minha vida. Também é óbvio que esta idéia de aproveitar os benefícios do sistema de pós-graduação, com suas bolsas de estudos, faz presente em minha mente. Está presente mas eu não concordo, embora muitas vezes eu pense seriamente em chutar o pau da barraca porque, já que o sistema é assim, é muito mais interessante eu ter os tais dos filhotes. Mas, contrariando esta linha de raciocínio, eu decidi parir uma tese antes de parir um filho. Eu decidi me dedicar a parir uma tese porque se eu tivesse parindo um filho eu certamente estaria me dedicando a ele de corpo, alma e mamas. Enxoval, fraldas, mamadeiras e chupetas para serem esterelizadas, cólicas e choros que iriam me roubar o dia e que eu iria adorar. E, com tudo isso, dane-se a porra da tese de doutorado (ou de mestrado). E dane-se porque o sistema foi feito para passar mesmo - sim, por conta da endogamia (como eu adorei esta palavra!) -, e não seria na minha vez que me reprovariam.

Acho que há uma grande diferença entre escrever uma tese de doutorado (ou de mestrado) e de querer ter um filho, ops!, um título de doutor (ou de mestre). Politicamente, nesta hora, é claro que eu sou forçada a pensar no país, na podridão do seu sistema educacional e o que depende dele. Quer dizer, alguém tem dúvidas de que uma reforma política no país deveria começar por uma reforma na educação? Que o país deveria investir em uma população pensadora e crítica para que ele cresça? Mas o que acontece é o contrário. Recentemente o governo cortou as verbas para o Ensino Superior. E recentemente o governo votou aumento nos próprios salários. Mesmo que os fatos tenham acontecido em governos diferentes não se tem como negar haver alguma coisa de errada no reino da Brasilândia. Tá, e o que tem as mulheres grávidas que se apossam de vagas públicas da pós-graduação? Tudo! E neste pacote pode-se incluir outros tipos de alunos, homens e mulheres, igualmente sem tempo e com outros interesses. Alunos que fazem cursos de pós-graduação apenas visando a bolsa e esta para lhe servir com outros propósitos não vão, sequer, fazer a pesquisa que eles próprios gostariam de terem feito. Porque com outras prioridades, em vez de se ir fazer a pesquisa nos cafundós do judas, onde, de verdade, poderia ser retratada uma realidade específica, vai-se na biblioteca mais próxima e numa comunidade parecida (bem pertinho de preferência) que lhe possa trazer um indicador aproximado e deduzir logicamente o que acontece lá nos cafundós. E eu poderia citar aqui centenas de estudos com esse tipo de "fatos" não tão precisamente descritos porque a própria metodologia de pesquisa dá margem para que isso aconteça. Então, com outras prioridades, pode-se ir trocando tudo, e esquecendo algumas coisas também pois, de fato, quem é que se importaria que um estudo acadêmico não tenha sido concluído por um projeto piloto e que, portanto, os dados podem apresentar erros? Afinal, eu relatei os dados que eu colhi, e esta foi a minha pesquisa, e pronto.

Então, quando me dizem que sou radical por isto ou por aquilo, em termos de responsabilidades acadêmicas, e porque tem um monte de gente na fila que as têm, assino aqui e para todo mundo ver que, sim, eu sou radical, mas só porque eu tenho uma pequena esperança de que, num futuro próximo, as coisas possam ser diferentes e as pessoas que fazem (ou farão) seus estudos de pós-graduação possam ser reconhecidas por fazerem a diferença.

Corre Cotia - Doutorado com sua Tia

Às vezes eu fico pensando porque as pessoas saem correndo desembestadas atrás de títulos acadêmicos, se a área acadêmica não tem a ver com elas. Isso significa que, obviamente, o trabalho de dissertação ou tese não será necessariamente um trabalho de dissertação ou tese, porque faltará seriedade. A pressa é inimiga da perfeição. É um ditado que persiste e persistirá. Eu fico boba de ver teses de doutorados tão fracas e uma consensualidade da banca acadêmica montada para aprovar porque, veja bem, reprovar compromete mais a instituição do que o aluno.

Outro dia eu estava esperando um amigo, um destes professores doutores de médio-grande porte, terminar uma banca de qualificação de doutorado, que deveria durar umas duas horas mas que levou bem umas cinco. Ele saiu sozinho da sala e eu estranhei. Perguntei porque estava demorando tanto e a resposta: "ah, Fê, o trabalho está muito ruim. Eu disse que por mim reprovaria, mas prazo do cara está estourando e se a gente reprova a faculdade perde pontos na avaliação da Capes.". E é claro que não se pode perder pontos tão preciosos porque é mesmo uma corrida maluca.

No dia seguinte encontrei o cara que fora submetido a esta banca e, curiosa, quis saber a versão dele para a demora na sua qualificação: "ah, Fê, é assim mesmo, eles encanam com umas coisinhas bobas, mas no final eles sempre passam a gente!". Noooossssaaaaa, muito sábio este ser, jesuis! Só de pensar que este fulano é doutor me irrita. O problema é que isso não é um caso isolado. Um dia, alguém disse que é possível se fazer um doutorado em apenas dois anos e este ficou estabelecido como tempo mínimo. Tá, eu concordo que um aluno genial faz uma tese de doutorado em seis meses se ele quiser. Um aluno genial, Albert Einstein talvez. Não um Zé Mané atrás de um título. Este, em dois anos, dando aulas na faculdade, fazendo um bico aqui outro ali para sobreviver, fará mesmo um trabalho meia-boca.

Outra banca (de um conhecido) com este meu amigo professor: "Fê, minha vontade era de reprovar, muito fraco o trabalho dele para um doutorado. O cara nem fez estudo piloto.". É, academicamente a universidade está um lixo. Eu já suspeitava disso na graduação. Quando eu fiz minha monografia, disseram que era uma dissertação de mestrado. Eu levei um susto. Quando eu fiz minha dissertação de mestrado, disseram que era uma tese de doutorado. Eu levei um susto ainda maior. Eu demorei dois anos para entrar no doutorado porque eu tive que deixar meu projeto mais fácil para que alguém topasse me orientar. É cruel ouvir em ocasião de entrevista que "seu projeto é muito bom, mas é tão difícil como sua dissertação". Afinal, não era de doutorado de que tratávamos?

Mas o mundo acadêmico é endogâmico. Lembram? Professores se acasalam com professoras e geram professorinhos. É claro que meu amigo professor doutor não pode reprovar alunos porque ele se encontra numa sinuca de bico, como diria meu avô. O mundo acadêmico é uma grande família e os professores têm que ajudar e não complicar. Tenho uma colega que é surpreendente. Se formou na graduação, casou no ano seguinte, entrou no mestrado, pariu e ficou com a bolsa pra cuidar do bebê. Terminou o mestrado, entrou no doutorado, pariu e ficou com a bolsa para cuidar do bebê. Mas também, tudo tão fácil quando você escolhe a banca certa. É a vida...

E na distração...



No final a gente descobre que as coisas são bem simples (e como!). É como aquela cervejinha que a gente toma fim de tarde com os amigos, de papo pro ar. Lá pelas tantas, uma piadinha para aliviar, distrair, tirar o peso. Desta vez o assunto foi meu ingresso no doutorado, ou a tentativa de.

(amigo) - Um cara de lá disse que o processo seletivo é honesto e muito bem feito.
(eu) - Hum, você não é o primeiro que me diz isso.
(amigo) - Tem análise de currículo e de projeto antes, não tem?
(eu) - Sim, tem uma pontuação de currículo etc e tal. E também sei que tem um cara que estará concorrendo e que tem um currículo melhor que o meu. O projeto eu não sei.
(amigo) - A sua foto deve ser melhor que a do concorrente.
(eu) - É uma baita diferença. Vou de vestido para a entrevista?
(amigo) - Humm, acho que sim!
(eu) - Então amanhã vou sair para comprar um.

Como entrar na Pós-Graduação?

Sempre tem aluno me pedindo ajuda para entrar no mestrado, ou querendo entender como é o processo que vai até o pós-doutorado ou aquele que caminha para a livre-docência. Tá, chegamos num ponto importante: mestrado, doutorado e pós-doutorado é pra quem quer seguir carreira acadêmica. Isto significa que se você quer trabalhar fora da universidade faça uma especialização e esqueça este "post" aqui, que não lhe será mais útil.

Também é importante assinalar que não é necessário fazer especialização para entrar no mestrado, embora isso ajude. Dando nome aos bois, a especialização é a tal da pós-graduação lato-sensu e o mestrado e o doutorado pertencem à uma pós-graduação chamada stricto-sensu e é por isso que uma coisa não tem a ver com outra. E também é importante dizer que tem muito curso de doutorado, cursos legalizados diga-se em passagem, em que se consegue acesso mesmo sem ter feito um mestrado anteriormente (e é claro que este sempre ajuda). Mas, resumindo, cada programa de pós-graduação cria suas próprias regras. Basta saber se queremos aceitá-las ou não. Ainda é preciso salientar que estas regras, muitas vezes, mudam ao deus-dará e é bom a gente sempre ficar esperto.

Então depois do mestrado, depois do doutorado e depois do pós-doutorado (ou mesmo sem esse, ou mesmo antes desse, não sei direito), depois de tudo isso os professores ainda poderão prestar um concurso (que eu não sei bem como funciona) para se tornarem docentes livres (de quê eu também ainda não descobri, porque tem o CNPq, a CAPES, o MEC, um monte de gente controlando a vida dos professores). E só para já assinar aquilo que não sei, também não sei se é possível ser livre-docente fora da universidade pública ou se há um critério especifico que define quais cursos em quais universidades podem oferecer tais concursos.

Ok, vamos ao que interessa. Se você já se graduou e está um tempo fora da universidade, trabalhando feito um camelo e sem tempo, eu recomendo que entre primeiro em um bom curso de especialização na sua área de interesse, e que este seja oferecido por alguma universidade pública que tenha um programa de mestrado, óbvio. Isso o aproximará dos professores e te fará conhecido. Não se esqueça de que para fazer mestrado ou doutorado você precisará achar um professor orientador DOUTOR (então eu não estou nessa!) que tenha uma linha de pesquisa da qual você gosta e que tenha a ver com você, e é por isso que é importante você traçar um bom plano antes de se aventurar em qualquer pós-graduação. Note que traçar um bom plano significa você escolher freqüentar os locais acadêmicos que tenham a ver com o que você pretende estudar.

Agora suponha que você tem certeza de que quer ser professor universitário e decidiu investir na carreira ainda na graduação, ou pelo menos toma esta como uma possibilidade assim que se formar. Quer dizer, suponha que você, que não é bobo nem nada, resolveu pular a etapa da especialização já que ela ajuda mas não é pré-requisito para o mestrado. E também suponha que você tem tempo disponível porque, além de freqüentar o seu curso de graduação você terá que se desdobrar em 2 e passar a freqüentar previamente o local que você escolheu para fazer seu mestrado. Claro que ajuda muito se você já estiver fazendo graduação no lugar em que escolheu para fazer a pós-graduação. Neste último caso, os professores já te conhecem e já sabem mais ou menos que pito você toca. O problema é que qualquer deslise seu na graduação pode lhe custar a pós. Já aqueles que fazem ou fizeram uma graduação em outro lugar (cujos deslises prévios deixarão de importar, a não ser que tenha sido algo extremamente grotesco e este algo tenha proporcionalmente ganhado o ambiente acadêmico) terão que percorrer um caminho mais longo para provarem, e a custa de muito esforço, que serão bons orientandos no futuro, que serão os melhores.

É claro que tem uma parte do processo seletivo que é documental, publicada em edital e tudo o mais. Daí cada programa de pós-graduação estabelece seus critérios. Quer dizer, tem programa em que o candidato tem que apresentar proficiência em inglês logo de cara. Têm outros que não. Têm programas que aceitam qualquer idioma estrangeiro, têm outros que não. Tem programa (a maioria) que exige de você uma prova de conhecimentos gerais (e aí fica mais fácil para quem fez graduação na mesma universidade porque este já sabe mais ou menos o que os professores - aqueles que vão corrigir a prova - pensam e também porque já leram a maioria dos livros que são indicados na bibliografia - sim, existe uma bilbiografia que deve ser estudada para que se possa fazer tal prova e cujos livros selecionados, coincidência ou não, são aqueles que os professores usam de referência nas suas aulas para a graduação, o que incluem os livros em eles próprios são os autores, claro). De qualquer forma, todos os programas pedem um currículo e um projeto de pesquisa nestas etapas classificatórias.

O fato é que se você conseguir passar por tudo isso, pela prova de língua estrangeira, pela prova de conhecimentos gerais, pelo currículo e pelo projeto de pesquisa, você ainda terá que enfrentar uma tal de uma entrevista com uma banca de professores prontos para te testar e saber qual é a sua. É quando você pode se queimar de vez e ficar sem a tão sonhada vaga. Mas eu sei que, com você, vai ser diferente. Pelo menos é o que eu espero!

Depositário



Há um vazio em mim agora como se eu tivesse ido aos Correios e depositado minha alma. Tá, foram todos os documentos exigidos em ocasião do processo seletivo de ingresso ao doutorado. Mas que sensação horrível esta de colocar a vida nas mãos dos outros. E por Sedex. Que sensação horrível esta de colocar a vida nas mãos dos outros com a dúvida de um sistema que pode não ser honesto, ou melhor, que pode ser político. Ai que saudades do vestibular. E que vontade de acreditar que desta vez pode ser diferente. Mas metade de mim desconfia.

Frase do dia (2)



- Professora, além de dar aulas você também trabalha?

Lá e cá



O que eu poderia concluir do Ensino Superior além do fato dele ser visceral e endogâmico nas instituições públicas ou do fato do professor ser um palhaço e o aluno ser a piada do dia nas instituições particulares? Enquanto estas últimas sustetam um capitalismo de massas, as primeiras refletem um sistema político fraudulento. Ambas estão vulneráveis e ambas vivem das relações de poder e a partir de interesses próprios. As duas são vaidosas, pelo menos as pessoas que estão dentro delas. Resta saber como alunos e professores querem participar de tudo isso.

A parte chata



Talvez eu devesse ter escrito este post ontem, com as emoções à flor-da-pele. É que agora eu pareço mais seca do que emotiva. O olhar paralisado, distante. E já esqueci parte do conteúdo da conversa que vou relatar, restando apenas aquilo que me marcou, que pegou forte no meu peito e que me fez chorar. Por conta disso posso ser injusta ao mostrar apenas um lado da moeda, o meu. Mas este blog é público. Está aberto para que esta outra pessoa se coloque do outro lado, o que iria ser legal demais. Maduro. Interessante.

E na velha história sobre a banca (ver post clicando aqui) ...

Toca o celular. 8:30. Manhã de sexta-feira, uns dois meses atrás. É o tal do professor dizendo que havia chegado a hora de conversarmos. Sim, assim que possível. Desculpou-se pelo horário, mas ele estava partindo para uma viagem e só voltaria no fim da outra semana, etc e tal [interessante esta estratégia de me deixar uma semana esperando, pensativa]. Esperei que ele retornasse para devolver a ligação e, assim, marcarmos o local do encontro [é claro que eu estava curiosa por saber o que ele gostaria de me dizer]. Olha, eu estou com uma gripe, não vai dar pra gente conversar agora, quando eu puder eu te ligo. Entendi a mensagem e desencanei de novo. Foi rebate falso, ele não tinha nada para me dizer. Um mês depois toca o telefone. A mesma história, que poderíamos almoçar e conversar [então ele tinha mesmo alguma coisa pra dizer, que legal!]. E ficou para a ocasião do Congresso. Eu até tentei adiantar, para tirar esta conversa da agitação, do lobby. Liguei para ele, mas não deu certo.

E no Congresso...

O primeiro dia passou e ele não ligou. É claro que eu já tinha me dado conta de que o almoço teria dançando, que a conversa ficaria para a casualidade do encontro, inevitável quando duas pessoas freqüentam o mesmo ambiente e que têm os mesmos interesses acadêmicos. Sessão de Pôsteres [esta, um detalhe à parte, escreverei em outra ocasião]. Avistei ele de longe, e respirei fundo. Me puxou de canto, e fomos ter a tal conversa para trás do biombo.

- Sabe Fernanda, eu fiquei pensando no que eu tinha para falar pra você, mas eu não tenho nada para dizer. Acho melhor a gente deixar tudo como está, cada um na sua [mas com alguma coisa em comum?].

Eu estava incrédula. Quer dizer, o cara me tirou do meu todo dia por dois meses (é, eu estava quietinha no meu canto, sem mexer em ferida alguma, "de boa", como dizem meu alunos) para dizer que não tinha nada a me dizer? Bom, não faltaram oportunidades dele me dizer isso por telefone, ou por e-mail, ou por um porta-voz, sei lá. E o que eu poderia falar numa hora dessas? Nada, nadinha. Então ele continuou:

- Você me fez muito mal. Você me fez muito mal mesmo, como poucas pessoas fizeram comigo. Eu não sabia que você achava um monte de coisas de mim [de que coisas será que ele estava falando? Para não ser injusta, prometo voltar aqui depois e escrever sobre o que eu penso dele. Registrar, com firma reconhecida em cartório e tudo, para acabar com as dúvidas].

Eu me lembro de ter dito que gostava dele (mas internamente não me senti bem). Eu queria saber que tipo de mal eu fiz para ele, porque até onde eu sei, eu apenas questionei uma decisão que ele tomou e a forma como ele fez isso. Mas de repente eu estava lá, olhando para um homem cansado, envelhecido, se sentindo tão magoado quanto eu me sentia. E eu me senti meio mal por eu estar me sentindo bem, apesar da mágoa. É que de repente eu me dei conta de que minha vida não está tão pesada e eu tenho me sentido forte, dona de mim mesma, viva.

Alguém chegou e nos despedimos, passaríamos uma borracha por cima. Foi uma escolha dele e quando ele me perguntou se eu queria dizer alguma coisa, eu apenas concordei em nos apagarmos, mesmo querendo ter dito um monte de outras coisas, saber exatamente qual foi o mal que provoquei (para esclarecer os desentendimentos) e também saber exatamente o que ele achava que eu achava dele (para esclarecer os equívocos).

Me virei para ir embora e dois segundos depois as lágrimas rolavam pelo meu rosto. Só Deus sabe o quanto este homem foi importante na minha vida, o quanto eu o admirava, o quanto eu gostaria de ter me doutorado ao seu lado. Mas dez anos depois de termos nos conhecido, este cruel "bye bye, so long, farewell". Então é assim mesmo, nós nos descartamos, apertamos a tecla del e passamos a pensar no quanto a vida vai parecer mais fácil daqui para frente. No quanto os nossos valores acadêmicos são diferentes, já que o almoço do meio-termo não existiu. No tamanho de nossas ilusões um com o outro e no jeito estranho deste "adeus, a gente se cruza por ai".

E na endogamia dos livros...

Palestrante 1.

Em primeiro lugar eu queria agradecer o convite e, depois, dizer que a concretização deste trabalho foi muito difícil. Porque é muito difícil organizar um livro. Entrar em contato com os autores, e a editora. Cada capítulo. O primeiro é de uma professora que ganhou o prêmio de melhor monografia lá na faculdade. O segundo é meu mesmo. O terceiro é de um profesor que ganhou um prêmio cerca de 10 anos atras. Já o quinto capítulo é meu com uma aluna minha de mestrado. E o sexto é do meu filho. É, a gente tem que dar uma força...

Palestrante 2.

Em primeiro lugar eu queria agradecer o convite e, depois, dizer que a concretização deste trabalho foi muito difícil. Porque é muito difícil organizar um livro. Entrar em contato com os autores, e a editora. Cada capítulo. O primeiro é meu mesmo, com minha esposa. O segundo é de uma professora, muito boa, que estudou nos EUA, e meu também. Já o terceiro é da minha esposa, meu nome está junto porque eu ajudei... A gente tem que dar uma força...

Taí, como já escrevi num post abaixo, roubando de Janer Cristaldo: "A universidade brasileira, particularmente, é visceralmente endogâmica. Professores se acasalam com professoras e geram professorinhos e para estes sempre se encontra um jeito de integrá-los a universidade. "

Driblando o Currículo Lattes?



Pra quem não sabe, o Currículo Lattes, disponível na Plataforma Lattes no site do CNPq, tornou-se um instrumento importante que vem ganhando força nos últimos anos. Indica (ou mede) a produtividade dos professores do Ensino Superior, em instituições públicas e privadas. De certa forma, esta disponibilidade de dados e a politica do CNPq têm exigido mais dos professores pesquisadores, que passaram a se preocuparem com a quantidade da sua produção acadêmica, tornando o instrumento uma faca de dois gumes. Muito mais a quantidade do que a qualidade do que se publica. Não é difícil encontrar pessoas que fazem pactos e alternam os espaços de autor e co-autor. A conta é simples: se eu tenho 8 amigos, cada um escreve um texto ou artigo científico e, de quebra, coloca como co-autor os outro 7. Ao final do evento e/ou publicação cada um terá em seu currículo lattes 8 textos ou artigos científicos. É simples. É como dizer que 2 e 2 são 4.

Hoje eu estava navegando na plataforma porque é interessante verificar a relação com nossos pares, ou, mais bacana ainda, encontrar pessoas que trabalham com o mesmo assunto que o seu, ter acesso ao que ela publicou, entrar em contato, trocar idéias, enfim. Então, por curiosidade (isso também acontece) entrei no currículo de um professor, meu conhecido, e fui direto verificar como andava a produção acadêmica dele. Vai ver tivesse novidades. E tinha. No ítem capítulo de livros publicados encontrei prefácios, orelhas, apresentações de livros. Professor, vou deixar a dica. Como esse tipo de material não se trata especificamente de capítulos de livros, favor colocá-los no lugar destinado para este fim: "demais tipos de produção bibliográfica"; ou serei capaz de acreditar que o senhor também está mais interessando em quantidade do que qualidade, muito menos em ética. Sejamos honestos!

Ok, que seja na praça então!



Quando eu cheguei para dar aulas na graduação, comecei logo com o basquete. Já achei bastante estranho o coordenador do curso não ter ido dar as boas-vindas aos alunos logo no primeiro dia, uma segunda-feira. Pior! Ainda nem tinha me dado conta de que eu não tinha quadra, não tinha bola, tampouco uma tabela. Com recursos mínimos para dar aulas nem pude contar todos os noventa alunos no primeiro dia. Quando me dei conta, percebi que teria que ser melhor do que eu tinha imaginado que poderia ser:

"Ok, não tem quadra? Dê-me a praça mesmo!"

Foram muitas as estratégias de ensino, e elas deram conta. Comprovei isso quando um aluno me disse:

"Professora, sua aula é ótima, a senhora acredita que o professor de futebol não tem dado aula pra gente porque ele disse que não dá para fazê-lo sem quadra?"

Eu fico pensando: quem não consegue dar aulas de futebol no país do futebol? Eu, com uma tampinha de garrafa, ensinaria até no morro!