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Entre a autoria e a culpa?

No post abaixo eu reproduzi alguns e-mails do grupo de estudos. Eticamente questionáveis, inclusive. A questão ainda é esta, sobre a autoria, ou os autores de papers científicos. E se alguém ainda tinha esperanças de que a cabeça no travesseiro e uma noite mal dormida desse conta do recado e os envolvidos esquecessem a idéia de jirico que tiveram, este alguém se enganou. O máximo que uma noite mal dormida conseguiu fazer com esse bando sem noção foi por outra conta, a de justificar a imbecilidade para os organizadores do congresso. Acompanhe:

E-mail 1: “Olá pessoal! Estou escrevendo o resumo para o Congresso e estou em dúvida e queria a sugestão de vcs. Na introdução escrevi sobre o que se trata o texto, resumidamente, de onde, método, objetivo. Finalizei da seguinte forma: ‘Este estudo faz parte da proposta de dissertação de mestrado em bla bla blá na área de blé blé blé, que está atualmente em fase de finalização, realizada na bló bló bló. Seu conteúdo também é discutido por um grupo de estudos na área blé blé blé e suas relações sociais, mediado pelo professor orientador deste pesquisador e tendo como participantes seus demais orientandos. Desta forma todo texto produzido passa pelo crivo do grupo o que proporciona críticas e sugestões para a sua construção, justificando-se a co-autoria de seus integrantes.’ Vcs acham que é necessário justificar todos os nomes dos co-autores. Achei que sim pq se colocasse apenas como dissertação, caberia na lógica, apenas o meu nome e do orientador, não é? Fico no aguardo de suas sugestões, ok? Fiquem com Deus!”

E-mail 2: Nossa bibi, não sei se é a melhor escolha, mas dentro das razões levantadas concordo com o que você fez para não ficar estranho (mais em cima do muro impossível né?). Eu manteria tal justificativa. Talvez possamos colocar em todos uma menção ao grupo de estudos pelo menos nos painéis (ainda que não estejamos oficializados como um grupo) consulto a opinião de todos também. Abraço.”

Em tempo, o orientador, na leva de e-mails anteriores anunciou por uma porta-voz de que, então, o nome dele deveria constar como último da lista em cada um dos trabalhos. Não no meu, bebé! Estou fora, sacou? Quanta vergonha, quanta vergonha!

Papers de Mel e Pesquisadores de Chocolate

Ah, pois eu então lhe digo porque tanto me incomoda estar onde estou. Para os desavisados, a idéia de montar este blog foi por conta de um processo seletivo para o ingresso ao doutorado, nos idos de 2005. Então eu escrevi A Banca, e questionei a ética da coisa. A história rendeu, um professor, em negociata, tomou as dores, estava certo de que eu deveria passar por cima de todas as desavenças e então fazer doutorado, porque meu lugar era no doutorado e coisa e tal. Em parte eu concordava, eu passei quase três anos tentando encontrar uma vaga de doutorado que fosse a minha cara e não achei. Nem aqui, nem fora do país. É que no doutorado, por mais autonomia que o estudante tenha em relação ao seu orientador, tem muitas coisas entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia. São contratos escusos, e a ética é facilmente confrontada. Seja aqui, seja ali.

Não faço muito segredo de que, então, não estou onde eu gostaria de estar. O primeiro detalhe é que fiz o projeto de doutorado para ser orientada por um professor, e me restou outro. É aí que os problemas surgem, pelo preço que cada um resolve pagar, seja pela endogamia acadêmica, seja pelas relações das quais se espera ganhar com o outro.

Também já falei aqui sobre a engodamia dos livros, criticando as correntes de autores. Já falei dos sustos que levei no grupo de estudos e já passou um bocado de tempo de tudo isso. Mas, então, a coisa se repete, sempre repete (e foi um dos motivos de eu ter encerrado este blog em outra ocasião). A coisa se repete e eu fico com vergonha alheia.

Querendo ou não querendo, quando eu disse sim à orientação de doutorado eu aceitei o jogo. Pelo menos o jogo da instituição que me abrigou. E para ir mais além, sou bolsista do CNPq. Mais institucional do que isso, só pegando mais verbas na reitoria de pós, o que não vai acontecer tão cedo porque estou querendo me manter à distância.

Eu sei que não sou uma pessoa 100% ética, ou apenas já cansei de lutar contra algumas coisas. Mas tem coisa que não dá para não ser ética. O fato é que eu estou passada com a negociação via e-mail que está acontecendo com meu grupo de estudos (do qual faço questão de me ausentar, pela cretinice dos acontecimentos vigentes por lá). Agora resolveram fazer uma lista (exceção feita ao meu nome, ainda bem) de todos participantes. A idéia é simples e não é novidade no meio acadêmico. Para cada resumo que um dos participantes enviar para uns dos congressos de maior prestígio na área – já questionado por mim – acrescenta-se todos os outros nomes do grupo de estudos, criando-se uma rede. Um pesquisador de chocolate acaba fazendo apenas um trabalho e ganhando outros 5, ou 6, ou 7, dependendo do número de integrantes escusos e complacentes do tipo “me add que eu te add”. [Parênteses: esta minha comparação com o mundo internetês é injusta. Na internet, um sistema de redes, há muito mais instrumentos de combater esse tipo de ação para que sites e blogs subam seu page rank do que sonha o mundo acadêmico, uma questão de seriedade].

Meus ombros suportam o mundo, mas não suportam pesquisadores vagabundos. Por isso não carrego nomes sem sentido, apenas de gente competente e que, de fato, contribuiu para o estudo. Mas nessa corrida papers de mel, promovida pelas instituições regulamentadoras (que eu apoio, já disse em outras ocasiões) têm contribuído para o outro lado da moeda deixando a coisa um pouco à deriva. Talvez seja a hora deste sistema acompanhar os esforços das redes sérias que se criam pela internet. Com ela, os jovens aprendem que sozinho não se ganha o mundo, nem com fraudulências. É que na internet os mecanismos de buscas e ranqueamento de sites e blogs já rastream e punem que faz uso de links como uma rede para ganhar acessos, dentre outras coisinhas a mais.

Navegando e aprendendo.

Abaixo a troca de e-mails dos Pesquisadores de Chocolate em busca de Papaers de Mel:

E-mail 1: Olá pessoal, vcs irão mandar resumos para o congresso em Porto Alegre? O que vcs acham de cada um fazer um e colocar os nomes dos outros no trabalho, pois dessa forma (como fazem em outros institutos) todos terão mais publicações e também, não sei se todos poderão ir até o congresso para apresentar ou expor. Abraço.

E-mail 2: Olá pessoal! Eu concordo plenamente. Pretendo fazer um resumo ampliado. Vamos ver se consigo. Fiquem com Deus.

E-mail 3: Concordo!

E-mail 4: Bom, se todos estamos de acordo, faremos o seguinte, cada um envie organize um resumo e coloque o nome de todos. Só para confirmar os nomes completos são esses: Beltrano de Tal [este é o orientador dos alunos, inclusive o meu, que vergonha! Me digas com que andas, professor, que te direi quem és], Fulano de Tal, Cicrano de Tal, Lá lá lá de Tal, Li li li, Ló ló ló. Não sei se alguém mais vai mandar (Lê lê lê de Tal? Lu lu lu? Tan tan tan?) Lembrando que cada autor pode ter até 6 trabalhos, Abraço a todos.

E-mail 5: e cada trabalho pode ter 6 autores.

Rá! Fizeram as contas? Em uma tacada só, o pesquisador de chocolate pode, de 6 trabalhos, ter bem uns 30 papers de mel. Rá! Quanta vergonha! Quanta vergonha!

Orientação Acadêmica

Tudo que o seu orientador quer (a maioria deles) é que você produza um texto, de preferência Qualis A Internacional, porque ele, com muitas outras atividades provenientes do seu cargo acumulativo disso e daquilo outro (que lhe rende uma bela grana extra), está sempre precisando de artigos, capítulos, livros para aumentar sua produção intelectual. Produção de quem mesmo?

E com a desculpa de que ele é muito e você é pouco (eita hipocrisia da porra!), e com a velha questão ética vinda do fato dele ter lhe dado a vaga (do verbo dar mesmo, lembre-se que nunca foi você que a conquistou), o que obriga, de fato, que você coloque o nome dele no seu trabalho pelo nada que ele fez, você nem terá a chance de colocá-lo à prova. É que existe uma regra na pós-graduação que diz que se o orientando publicar mais artigos que o orientador num prazo x qualquer, o orientador está automaticamente excluido do programa de pós.

O interessante é que em todos os casos, sempre, o poder está nas mãos dos alunos. Infelizmente eles não sabem disso. E é por isso que as coisas se mantém gugu-dadá.

Publicar ou Perecer?

Nas listas de discussão do CEV (Centro Esportivo Virutal) o tema publicar ou perecer sempre volta à tona, principalmente em época de credenciamento e descredenciamento de professor doutor, aqueles que estão na universidade pública e que são obrigados a manterem seus currículos lattes atualizados. E muitos o fazem, muitas vezes, às custas de seus alunos, os orientandos de mestrado e doutorado (algumas vezes sobra para os de iniciação científica).

E sempre aparece um alguém para comparar o país de cá com o país de lá. Aqui é assim, lá é de outro jeito e coisa e tal. Nesta última leva eu resolvi argumentar. É que eu estou cansada de ver um bando de professor doutor metendo o pau no sistema. Que o sistema é isso ou é aquilo outro, e vai-e-vem eu fico no meu cantinho pensando se não dá pra trocar o disco, se não daria para se fazer uma ação mais efetiva além destas destinadas à reclamação.

Eu, formada em esportes, entendo de regras. Entendo que o mundo não pode viver de um relativismo tosco de que tudo é permitido, e que depende só disso ou só daquilo. Então eu voto pela ética, pelos costusmes e pela moral. E voto pelo fim do relativismo. Mas sou a favor, notem bem, de ações eficazes que tenham propostas de mudanças efetivas porque eu também cansei do idealismo. Este é quase sempre pouco palpável devido a sua incretude.

Ações, inclusive àquelas das bolsas de valores, é o que me interessam. Eu também não concordo com parte dos critérios acadêmicos definidos pela Capes na sua classificação Qualis isso, Qualis aquilo outro. Mas eu sou capaz de ver o quê de mudanças as novas normas trouxeram aos professores doutores desavisados, aqueles que nos últimos 10 anos se viram obrigados a tirarem suas bundas da cadeira e a fazerem pesquisas para publicarem resultados novos. O que eu acho, no fim das contas, uma coisa mais do que justa: professor doutor pesquisador fazendo pesquisa, finalmente. É, a rapadura é doce, mas não é mole não, jacaré. O que teve de professor doutor rebolando pra se reenquadrar profissionalmente não foi brincadeira. Sorte das universidades públicas, que a cada ano se superam em pesquisas, ganharam laboratórios, ganharam isso e aquilo outro.

Quer sejam as pesquisas boas ou ruins, os artigos sejam festivais de citações ou recorta e cola. Quer seja isso e mais sei lá o quê que fere a qualidade da informação, eu vejo como algo muito positivo professores doutores tendo que arregaçar as mangas e fazer um qualquer algo. E digo mais, num país de não letrados como o nosso, também vejo como muito positivo este controle rígido da Capes em prol do aumento de produções acadêmicas. É que obriga muita gente que nunca esteve nem aí a estarem muito aí, e isso não tem preço. E mesmo que as pesquisas seja um fiasco, ou uma fraude, ler e escrever voltam a ocupar um papel interessante no sistema educacional. Que seja parte do Ensino Superior, então.

Infelizmente tem o lado negro da coisa. Estes mesmos professores doutores, no alto das concepções acadêmicas promovidas por titulações hierárquicas, já arrumaram atalhos. Publicam um mesmo artigo não sei quantas vezes, mas com título diferente. Publicam pesquisas em partes de I, II e III para ganharem na multiplicação das falácias, estas mesmas que até fazem corrente de autoria. Explico. Um pesquisador do grupo de estudos escreve um artigo, os outros 10 assinam, e no fim, haja espaço no currículo lattes desse povo todo com uma produção assim, tão exemplar quando todos os 11 pesquisadores terminarem seus textos e coisa e tal. E haja talento a ser reconhecido destes pesquisadores que em um mês conseguem publicar 10 artigos com assuntos correlatos mas absurdamente diferentes. É, porque há mesmo muita genialidade em fingir que se escreve, que se produz, que isso e que aquilo, quando a Capes finge que aceita, ou as FAPs, ou o CNPq ou qualquer órgão que o valha.

O bom é que todo sistema está aí para ser melhorado. Daí a minha birra: não gosta de como está, vai lá e muda. Só não me venha lotar minha caixa postal se achando o professor doutor rei da cocada preta, que o seu descredenciamento do programa é porque a Capes não te entende por trazer consigo critérios tão injustos. Ô coitado! Um bom analista lhe cairia bem, fique com este conselho que lhe dou de graça. Publicar ou perecer? Publicar o que for publicável e perecer quando se quiser.

Tese de Doutorado: A História

Tese de doutorado: A História

Ele veio sem muita conversa, sem muito esperar
Eu só sei que falava de bolsa e artigos a publicar
Sei que ela tinha perfume no rosto e no peito um brilhante
Trazia seu corpo num vestido branco, meio estonteante

Ele veio assim, como o relatório, apressado em acabar
E com tudo por entender a bolsa continuou a rolar
Ela esperando, na sala, sentada em cima de um banco
Com seu belo vestido novo cada dia mais branco

Como vão seu pai e sua mãe, perguntou o pobre galante
E a orientanda sorriu por dentro, ainda que distante
Mas ela não tinha saco praquilo tudo, preferia um café
E ele ainda achava que dava aulas num cabaré

Já o protocolo não tardou alertar toda a vizinhança
A mostrar que ali estava um nobre doutor pagando fiança
Depois que ele, não sei bem se por nota ou se por conceito
Resolveu chamá-la de “aluna bonita” sem muito respeito

Então a história deste doutorado ela carrega nos braços
Embalando virtudes, não assina quaisquer tratados
E colegas de estudo, famintos por lattes e suas amantes
A conhecem só pelo seu jeito de aluna de diamantes

Laiá Laiá
Laiá Laiá

____________________
Produzido em 4 mãos:
- Fernanda = duas
- Soll = duas

Tempus Fugit


No doutorado voltei aos bancos escolares. Voltei às reproduções de outrem. A impaciência vem daí. No tempo que não acho quando quero me colocar distante do poder das citações.

Nada de Novo

Em 1993 eu fui ao Circo. Mas não foi um circo qualquer, eu fui ver Parlapatões, Patifes e Paspalhões. Fui ver "Nada de Novo" na arena montada no Centro Cultural Vergueiro, aqui em São Paulo.

Certa hora, os palhaços ganharam o picadeiro de uma forma nada nova. Fazendo justiça ao nome do espetáculo, tudo velho outra vez: aqueles abraços que não se encaixam, aquela flor que espirra água em nariz de cheirador, aquelas puxadas de cadeira que faz palhaço cair em vão enquanto o outro ri...

No meio do caminho um texto mais ou menos assim:

- ei
- hum
- você sabe onde a gente está?
- eu sei onde a gente está!
- onde?
- perdido!
- e você, sabe onde a gente está?
- eu sei onde a gente está.
- onde?
- perdido!

Assim mesmo. Uma coisa volta e meia, meia-volta. De um jeito a parecer não quererem ir, de fato, para lugar algum. E se não iam a lugar algum, de fato, estarem perdidos era um lugar de mão e não um lugar de contra-mão.

Ir até a faculdade também não me traz nada de novo. Apenas tudo velho outra vez: os mesmos autores, os mesmos livros, as mesmas pesquisas, os mesmos textos de sempre, agora com outros nomes (excluindo-se o dizer das citações, claro!).

É como se, passados dez anos, o tempo parasse. Mas o tempo não parou e, então, recorro ao cansaço. É apenas cansaço mesmo, de ver o mesmo lugar de sempre, com a mesma idéia de sempre, com os mesmos professores levando suas vidinhas acadêmica de sempre, e que tanto almejo.

Apenas cansaço ou apenas um erro de estratégia. Graduar-me e pós-graduar-me na mesma faculdade realmente pode ser uma faca de dois gumes. E realmente pode me deixar sem opções, apenas com tudo velho outra vez.

e no comércio de trabalhos acadêmicos...

E no comércio de trabalhos acadêmicos o buraco é mais embaixo. Sem exagero, está lá na primeira série do ensino fundamental, quando a criança tem 6 ou 7 anos.

Eu não sei quanto aos outros estudantes, mas eu aprendi a fazer trabalho de escola copiando enciclopédias (é que ainda não existia a facilidade da internete, infelizmente). Eu aprendi a fazer isso em boa escola, aliás. Escola de ensino tradicional, destinada à classe média alta e ao esforço de pais e mães da classe média, como os meus, que se sacrificam para pagar mensalidade tão cara pela educação dos filhos.

Foi nesta escola, na primeira série, que aprendi a copiar palavras que foram ficando mais complexas na medida em que os anos iam passando. Na quinta série existia um mito causado pela troca de professores que iam e vinham com a divisão de matérias. A matemática, por exemplo, deixando de ser um simples exercício de somar, deveria implicar em pensamento e em raciocínio. Um mito que foi logo desfeito, pois passamos a copiar equações e a reproduzir pensamentos. A diferença é que, dependendo do trabalho, principalmente para aqueles distantes das disciplinas exatas (uma fórmula não muda de um livro para outro), os alunos, já adaptados, continuavam a copiar, mas o faziam com um pouco mais de diversidade bibliográfica, faziam cópias de diferentes trechos tirados de dois ou três livros apanhados na biblioteca. Para os alunos menos esforçados um só livro dava conta e garantia-lhe a mediocridade da nota mínima de aprovação no curso. Era assim que chegávamos ao colegial, hoje o Ensino Médio, onde continuávamos copiando, copiando, copiando. Vez ou outra o professor pedia uma análise crítica, além da pesquisa. Folha inteira era mais do que suficiente e meia folha estava bom para a mediocridade. Acho que este era o único momento em que éramos feitos pensar sem ser na morte da bezerra - que era o que geralmente acontecia quando simplesmente realizávamos um esforço braçal de reproduzir algumas letras em próprio punho. Acho que é assim até hoje. O aluno vira uma máquina de reproduzir assim que entra na escola, com a diferença de, hoje, a coisa ser digital. É claro, há exceções.

Óquei, então este aluno que aprendeu a copiar lá na primeira série (que arrisco em dizer ser a maioria), e que nunca foi reprovado por isso (estou desconsiderando o programa de aceleramento e de aprovação automática instituídos pelo governo, e que contribuem para a lacuna do engodo educacional), também vai copiar letras quando chega no ensino superior. Óbvio, ele não sabe fazer de outro jeito. Nunca soube. Repito, há exceções. Daí, considerando as tais das exceções, o carinha vai copiando até o último ano da faculdade. Aliás, durante todos estes anos ele viu seus professores fazerem exatamente a mesma coisa. É aí que eu acho que o buraco está mais embaixo, porque também os professores já não conseguem mais ministrar aulas sem recursos audio-visuais, como o retroprojetor e o data-show. Não vivem sem suas "colas". Aham! O professor lê um livro, acha uma frase bonita, seleciona, copia e projeta sua imagem para seus alunos. Alguns, os mais éticos, têm o bom-senso de dizer o autor da frase, mas nem sempre.

(Nem questiono o plágio aqui, porque é um assunto facilmente resolvido acrescentando-se antes de cada parágrafo a expressão "segundo fulano de tal blá blá blá", "para beltrano blá blá blá", desde que os parágrafos copiados de cada obra não passem de 30% da mesma. Expressões acadêmicas que eu considero serem assassinas do pensamento reflectivo, inclusive).

Cópia por cópia, questiono se há diferença, em termos de aprendizagem, do aluno que copia e do aluno que compra um trabalho acadêmico. Ambos estão dispensados de pensar, e isto, para mim, é um crime que reflete o sistema como um todo: o carinha aprendeu a copiar na primeira série do ensino fundamental, vai ser reprovado no último dia do ensino superior?

Acho uma lógica ilógica e acho ainda mais. Acho que o aluno que compra um trabalho acadêmico já entendeu o engodo que é o sistema educacional. Se assim não o fosse, não haveria margens para ele acreditar que ao comprar um trabalho, ao pedir que um colega lhe faça o favor de acrescentar seu nome num trabalho qualquer, ele terá a mesma recompensa do diploma ao término de suas obrigações de entregar trabalhos para o professor e de fazer provas, seguindo as regras previamente estabelecidas pela instituição.

Ora, se o aluno compreende isso tudo, se ele é capaz de enxergar a falha do ensino, ele apenas está adequando-se ao sistema quando decide aproveitar seu tempo com coisas que ele julga mais interessantes, como a flexibilidade do rabo da lagartixa, por exemplo. Um aluno que compra trabalho sabendo exatamente o que está fazendo, sabendo exatamente qual é a lacuna do sistema e sabendo como ele, aluno, é posicionado dentro deste sistema, para mim, é um aluno inteligente. É um alguém que sabe ler o que está ao seu redor e juntar suas forças para o que julga ser mais adequado ao seu plano de vida. Só que o livre-arbítrio (de decidir qual trabalho se deve ou não fazer) não é algo tão simples e é óbvio que este tipo de aluno é uma raridade, porque é um aluno que está enquadrado criticamente na sociedade e a grande maioria dos alunos decidem comprar um trabalho acadêmico por comodidade mesmo, o que, no fundo, não desmerece tal esperteza de tentar driblar um sistema tão aquém.

Eu mesma lembro de ter decidido quais matérias eu deveria me dedicar ou não na universidade, e lembro de ter analisado quais eram as possibilidades que existiam de eu driblar o sistema para conseguir me formar. Tem coisas que eu, deliberadamente, optei por não aprender. E optei por fazer isso mesmo sabendo dos riscos de um futuro incerto, do qual eu me tornei a única responsável (a escolha foi minha, única e exclusivamente). Não dizem que é o aluno que faz seu curso? Pois bem, decidi ter o livre-arbítrio de fazer o meu, de guiar meu destino. A diferença é que eu fiz isso de uma forma consciente, de uma forma a desafiar um sistema e não de uma forma a ser engolida por ele quando se faz algo sem saber exatamente o que se está fazendo. Aí sim, a compra de trabalhos pode ser cruel, o ctrl-c/ctrl-v passa a vender gato por lebre e o livre-arbítrio se torna uma faca de dois gumes.

Do plural à impluralidade

Nós, el-rei, faço saber que sempre quando leio algo supostamente reflexivo, subjetivo, eu pergunto: e este “nós” do texto? Nós isto, nós aquilo, nós para todo lado. Comprovamos, percebemos, reprovamos, ou: “se for para colaborar com a equipe, nós estamos disposto - no singular, sim! - a tudo, mas eu prefiro a zaga”. Alguém me responde ao fundo: “é plural majestático”, uma estratégia do orador fundir-se em simpatia com seus ouvintes. Para mim soa desagradavelmente pedante: “sermos mulher do rei nos abre muitas portas”.

Mas nós, el-rei, faço saber que o irritante é justamente esta pretensão de se tornar o texto modestamente soberano, só pela desculpa de diminuir a distância entre o rei e o povo, ou apenas para se eximir da responsabilidade do que se escreve quando se brinca de esconder atrás de um plural genérico.

Mas nós, el-rei faço saber que aos céus me reporto, porque como se sabe, no princípio não era o verbo, mas o plural majestático de vosso Deus, vossa Santidade, vossa Autoridade, vossa Senhoria que escreve, e eu, plebéia, quando a vós leio, amém!

Mas nós, el-rei, faço saber que deste cunho me privo e me questiono: há democracia na escrita, ou no retrato da verdade quando esta se encontra direcionada do sabe-tudo (aquele que escreve) para o sabe-nada (aquele que lê)?

E faço saber que, sendo o plural majestático próprio dos reis, imperadores e papas, oradores e políticos dele se aproveitam, para que possam imperar, em supremacia, e para que possam anular o pensamento crítico de um povo. Democracia? Também faço saber que se trata de um plural deselegante, principalmente em textos que se pretendem formadores de opiniões, ao trazerem uma prece marcada por uma entonação de súplica como desculpa para escapar do erro. Senso crítico?

Mas nós, el-rei, faço saber que com o decorrer do tempo este formalismo arcaico assumiu um caráter de algo pomposo e distante. Arrogante mesmo, usar o plural majestático para falar de si mesmo. Faço saber que na idade média até podia surtir em algum efeito, mas hoje não. Hoje faço saber que é muita pretensão utilizar-se de um produto unipessoal para que se possa parecer muitos. Trata-se de uma apelação discursiva ao parecer que o escrevente vira-se, assim que pode, para a pequena história onde se julga mestre. Usa o plural majestático para picar o leitor enquanto fala de sua obra como a última elegante, aquela politicamente correta. No entanto, nós, el-rei, faço saber que, deste modo, textos e letras trazem a sensação de que o escrito não “cola”, pois trazem uma manipulação evidente. Quer dizer: o plural majestático pode até ser interessante, mas, caso não se importe, cada um fala por si, está bem?

Mas nós, el-rei, faço saber que o uso do plural majestático cabe perfeitamente no grau de liberdade de expressão que se atribui a qualquer cidadão e também me permito dizer que esta técnica de se esconder atrás do plural resulta, mas torna-se demasiado óbvia. Faço saber, inclusive, que se trata de um plural que faz sentido apenas às mulheres que estão grávidas, onde o “nós” é o topo de um mundo entre elas e seus rebentos. É que, para elas, a monumentalidade do egoísmo do plural majestático não se confunde com a solidariedade da comunhão com outros. É o que nós, el-rei, faço saber!

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Está escrito no Manual de Redação do Jornal a Folha de São Paulo:
Plural Majestático - uso da primeira pessoal do plural para designar ação ou pensamento realizado por indivíduo ou organização. Não use na Folha.

Leia mais sobre plurais em "Tipo Assim", de Kledir Ramil.

Enquadramento

Tem tempos que órgãos como a CAPES, o CNPq, a FAPESP entre outros vêm enquadrando os professores. Somando-os, diminuindo-os, julgando-os. O CNPq é o mais presente porque é ligado ao governo. E nos últimos anos a coisa esquentou, disseram que 30% dos professores nas universidades deveriam ser, no mínimo, mestre; e deste número também atribuiram um caraga aos doutores. Isso é bom porque as universidades particulares tiveram que se preocupar com seu quadro docente. É ruim porque estas mesmas universidades estão diminuindo o salário dos professores (doutores são mais caros do que graduados) e estão, também, aumentando a carga horária dos que permanecem. Notem que carga horária em universidade particular é carga horária em sala de aula. As leis dizem que um professor deveria trabalhar, no máximo, 30 horas por semana em sala de aula. Tenho muitos amigos que estão muito além disso (dão aulas em mais de uma instituição). Estão sem voz, inclusive. Tem outra lei que diz que as turmas não deveriam passar de 50 alunos, que após isso o professor ganharia um somatório por cabeça. Ou seja, os professores que trabalham com 100 alunos em sala de aula deveriam receber o dobro. Mas andam demitindo os professores para recontratá-los a preços mais baixos. 5 reais a menos na hora aula de um professor faz mesmo muita diferença (é como reajustar as tarifas do transporte público). Faz diferença para o professor e não para a instituição. Esta poderia economizar em águá, investir em reciclagem, montar outras frentes de economia e cuidar um pouquinho mais da qualidade. Quer dizer, são os professores que sustentam uma instituição de ensino. Se não são bons não há aprendizado. Óbvio, os professores passam uma imagem. Por exemplo, o cara da banca que se levantou na minha entrevista de doutorado e foi atender ao telefone como se eu não existisse não teve uma ação ética e feriu a imagem da instituição que representa porque eu passei a não ver vantagens em se estudar lá. Não com um professor imbecil como este. É claro que só estou esperando virar o ano para escrever uma carta aberta, porque pessoas como esta devem responder pelos seus atos. E carta com nome e sobrenome pode vir a ser um problema. O problema que eu vejo é que, academicamente, as pessoas se bajulam (quando deveriam se enfrentar, mas no bom sentido, claro!). Daí que surgem estes abusos de poder. Muita gente da minha área questiona ações do CNPq e cia. Eu acho que estas ações têm mais pontos positivos do que pontos negativos, principalmente no que diz respeito aos programas de pós-graduação. Fez muito professor levantar a bunda da cadeira e fazer coisas. Se estavam acostumados a não fazerem pesquisas ou a publicarem qualquer coisa, agora eles têm que fazer coisas (uma só não basta!), e de qualidade! Têm que publicar internacionalmente e internacionalmente as regras da ciências são mais rígidas. Por certo que mesmo assim aparece muita coisa ruim, mas que esta rigidez eleva o nível das pesquisas nacionais e em muitas ocasiões as transformam em ações sociais, ou deveriam. Olhando a perspectiva mais funcional da coisa, se 70% do país é analfabeto funcional, os centros de pesquisas têm mesmo muito com o que se preocuparem. Ou podemos continuar com a nossa bunda na frente da televisão e achar coisa normal os políticos aumentarem seus próprios salários em quase 100%, de 7 mil para 14 mil.

Fale com a minha mão!



Este post é para meus amigos que querem notícias de lá da ilha. É para os velhinhos do café, meus amigos de coração. É para meus alunos que viveram comigo a expectativa; meu chefe. Para aqueles que eu amo e que também me amam - meus grandes amigos - e, principalmente para quem acompanha este blog.

Começo dizendo que a universidade, endogâmica, é mesmo cruel. Pensei nestes dias, com estes meus botões digitais (porque tudo é, de fato, digital), que a crueldade das bancas acadêmicas existe apenas quando a gente não conhece ninguém e decide enfrentar a situação com a cara e com a coragem (mais com a coragem do que com a cara). Eu fui para a ilha com a coragem, deveria ter levado a cara de pau também, mas sei lá por onde ela anda.

Segunda-feira foi dia de prova classificatória que, até então, considerei que manteria todos os candidatos no mesmo nível. Minutos antes de entrar na sala percebi que a coisa não ia ser tão simples assim. É que o cara da banca cumprimentou todos os candidatos (velhos amigos) e a mim restou apenas um levantar leve de sobrancelhas como quem diz: você não desistiu ainda? Ignorei, tomei acento e esperei entregarem as provas. Fui fazendo, escrevendo, pensando nas próximas linhas. Passadas duas horas e meia de prova, os primeiros candidatos começaram a entregá-la. O cara da banca, muito simpático e solícito, disse para o primeiro que o estaria esparando mais tarde lá na sua sala. Para o segundo fez uma piada, riu, gracejou. Para o terceiro pediu que ligasse para que acertarem alguns detalhes (até deu o número do telefone!). E por ai foi até que me levantei e entreguei minha prova. O homem estava sentado, lendo algumas coisas de quem lhe interessava (os outros candidatos) e me ignorou. Desta vez nem levantou as sobrancelhas. Nada. A postura escrachada que ele assumiu na cadeira o deixava com a barriga saliente (daqueles que se acham poderosos por serem os donos do pedaço), pernas afastadas faltava ele coçar o saco (sinal de poder) e me mostrar o dedo. Eu imaginei a cena e ri por dentro querendo mesmo rir por fora.

Então na terça-feira eu voltei para a tal da entrevista. A menina que estava antes de mim ficou 10 minutos a mais e na saida deixou escapar: "então tá professor, eu fico te esperando para a gente ver o projeto e as coisas que faltam". Disse como quem sabe que já está tudo certo, parte da endogamia. O professor, aquele que você espera ser seu orientador confirma, diz alguma coisa com jeito de quem sabe mesmo que já está tudo certo. Mas comigo o cara foi simpático, caloroso. Fez umas perguntas, estabeleceu um contato quando chegou o outro, o mesmo do dia anterior. Desafiando. Tá, faz sentido, é entrevista para o doutorado, não é a casa da Mãe Joana. E fez umas perguntas que eu não entendi por pura questão de significantes mesmo, já que os meus são diferentes dos dele. Lá pelas tantas ele se vira e diz: "tente nos convencer de que você deveria fazer doutorado aqui com a gente". Eu estava tentando quando chega uma moça, invade a entrevista e diz a este cara que tem um telefonema pra ele. Eu já achei estranho alguém invadir uma entrevista de doutorado. Coisa de respeito. Mas acho que o cara achou normal, levantou-se e disse: "pode continuar falando, tente convencê-lo". E saiu, assim, como se eu não fizesse diferença alguma, como se eu estivesse falando para as paredes. Voltou 5-10 minutos depois com uma cara que lhe é peculiar e sentenciou: "já conseguiu convencê-lo?" Olhei para a calça jeans dele e pensei que esta deveria ser sua melhor roupa. Respondi as outras perguntas apenas por responder porque eu já tinha entendido o "dane-se você, eu não te conheço". Na saida ainda tive tempo de escutar "a gente se vê por ai, vai com Deus", que saiu pelo tropeço do inconsciente (é, Freud explica isso mesmo). E eu voltei pra casa pensando que quando eu for dona do poder, quando eu der a volta por cima sei lá por qual vez, quando tudo isso eu vou me lembrar de não ser assim tão tosca.

Na Era Qualis



Na era Qualis tudo depende do ponto de vista, e da gramática, claro! Tomemos como exemplo a revista digital "Lecturas en Educación Física y Deportes", que nos chega à web via Buenos Aires. Sua classificação no sistema Qualis (triênio 2004-2006) é a seguinte:

A internacional para quem é Multidisciplinar;

C internacional para quem é da Educação;
B nacional para quem é da História;
C nacional para quem é da Educação Física.

Diante disso, cada um se coloca onde quer... eu sou multidisciplinar, com certeza, e é só uma questão de gramática, já que a minha Educação Física não é apenas biológica. E a sua Educação Física, o que é?

Em Tempo:

Criado para atender a necessidades específicas do sistema de avaliação, o Qualis é o resultado do processo de classificação de periódicos, anais, jornais e revistas utilizados pelos programas de pós-graduação para a divulgação da produção intelectual de seus docentes e alunos. As categorias indicam a qualidade e o âmbito de circulação das publicações em local, nacional ou internacional.

E na endogamia dos livros...

Palestrante 1.

Em primeiro lugar eu queria agradecer o convite e, depois, dizer que a concretização deste trabalho foi muito difícil. Porque é muito difícil organizar um livro. Entrar em contato com os autores, e a editora. Cada capítulo. O primeiro é de uma professora que ganhou o prêmio de melhor monografia lá na faculdade. O segundo é meu mesmo. O terceiro é de um profesor que ganhou um prêmio cerca de 10 anos atras. Já o quinto capítulo é meu com uma aluna minha de mestrado. E o sexto é do meu filho. É, a gente tem que dar uma força...

Palestrante 2.

Em primeiro lugar eu queria agradecer o convite e, depois, dizer que a concretização deste trabalho foi muito difícil. Porque é muito difícil organizar um livro. Entrar em contato com os autores, e a editora. Cada capítulo. O primeiro é meu mesmo, com minha esposa. O segundo é de uma professora, muito boa, que estudou nos EUA, e meu também. Já o terceiro é da minha esposa, meu nome está junto porque eu ajudei... A gente tem que dar uma força...

Taí, como já escrevi num post abaixo, roubando de Janer Cristaldo: "A universidade brasileira, particularmente, é visceralmente endogâmica. Professores se acasalam com professoras e geram professorinhos e para estes sempre se encontra um jeito de integrá-los a universidade. "

Apresentação Oral



A COMERCIALIZAÇÃO DA PRODUÇÃO ACADÊMICA

Não sei quando voltarei a apresentar um tema livre/oral em algum Congresso da área. Resquícios da minha última apresentação.

Atualmente não vale a pena apresentar um artigo completo em um evento destes, uma vez que os documentos se perdem eletronicamente. Estão presos comercialmente. É fato: as taxas têm ficado cada vez mais caras e, geram, portanto, maiores lucros. Estes crescem ainda mais, na medida em que há uma redução de gastos com papéis já que a confecção dos anais passou a ser eletrônica. O agravante é que a distribuição deste material em CD permite, inclusive, que se aprovem todo e qualquer trabalho (não há mais problemas de espaço e facilmente pode-se montar 2000 páginas ou mais), desde que o autor esteja inscrito e pago o evento até o dia estipulado. Creio que, no último Congresso que participei, a ciência perdeu valor. Com tantos trabalhos aprovados (os anais contam mais de 1500 páginas), as apresentações orais foram divididas em muitas salas ao mesmo tempo, porque eram poucos os horários disponíveis. Desta forma, na minha sala onde seriam apresentados 5 temas, o público presente restringiu-se à mesa organizadora e aos 5 apresentadores. Sem mais.