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Qualificação do doutorado

A qualificação do doutorado me fez questionar: afinal, quem é que qualifica, hoje em dia? O aluno, o orientador ou o curso? É melhor que se escolha por um dos três, no máximo dois, mas a confuência é impossível.

No corredor das faculdades o laboratório de lá continua brigando com o laboratório de cá? Vamos apresentar o conceito de WEB 2.0 para eles? Porque bem passou da hora. E como! O departamento de cá brigando com o departamento de lá! WEB 2.0 neles!

As pérolas da faculdade em que faço doutoramento escapam pelas portas e escadas. De repente, o pacto: no nosso grupo de estudos só entra quem a gente quiser e pronto. AMÉM! Quem é que se arrisca ao pacote WEB 2.0 para chacoalhar a universidade?

A pérola da qualificação foi a morte do sujeito decretada por uma das pessoas da banca. Ela começou assim:

- seu trabalho incomodou muito. pesquisei seu lattes e vi que você é professora, então eu pensei que você não poderia acreditar nisso que diz, o professor sabe sim, mais que o aluno, tem mais conhecimento e isso não tem como mudar.

Não? Eis então a morte de um sujeito em que uma pudorosa doutora esquece, talvez porque ela própria tenha sido escamoteada enquanto sujeito, em seus desejos e saberes, e vem repetindo o sistema durante muito tempo. É, deve ser isso.

EU NÃO CONCORDO, caríssima professora doutora fulana de tal. Se eu não puder aprender com meus alunos, e eles não puderem me ensinar, eu jamais serei sujeito da pratíca docente. Apenas uma professora de repetir. Aliás, passei pelo seu lattes também, em retribuição à sua visita no meu. Fica a pergunta: a senhora já deu aulas fora da universidade? Por que assim, olha, analisando bem, aquele único ano na escola pública que lá está registrado, muuitos e muitos anos atrás, deve ter assustado, não? Já que você ficou por tantos anos distante da docencia, só voltando na universidade. A-ham. Ai que delícia ler Rubem Alves para dar mais razão a mim e menos a senhora. Acho que a única fala boa de vossa senhoria foi o colocar sua posição de banca à disposição, pois então saiba, EU ACEITEI!

Ah é, eu aceitei, mas meu orientador não. Arbitrariamente manteve a banca com o intuito, segundo ele, de me proteger. MAS quem foi que disse que eu quero ser protegida? E aquele debate linha por linha? Afinal, pra quê serve uma qualificação senão para irritar o orientando? Cadê a porra do debate dissecante parágrafo a parágrafo?

Meu orientador, este que manteve a banca sem estar em comum acordo com o orientando (no caso sou eu), levou um susto com o email que escrevi a posteriori. ESTOU FORA, querido orientador, pois estou morta enquanto sujeito. AMÉM!

Irritado ele me chamou de egoísta, vamos às suposições.

1. o problema dele e da academia toda chama qualis. E, por motivos de ideologia absolutamente pessoais, não publiquei nada com magnânimo doutor e algumas coisas sem ele, bem mais divertidas.

2. acredito que ele, magnânimo doutor, não tenha lido todo o texto de qualificação. Me prove se for o contrário.

3. Obviamente ele, magnânimo doutor, nunca teve interesse pela minha dissertação de mestrado, porque ela une psicanalise e esporte e bah, onde já se viu? A banca toda não leu. Preciso urgentemente copiar uns trechos completos de um trabalho pro outro. Vai que daí surge um esforço mínimo de tentar entender coisas para além do be-a-bá comum da pedagogia do esporte.

Agora vamos aos fatos e tire suas próprias conclusões:

1. Negociamos a banca, muitos meses antes. Todas as minhas sugestões foram ignoradas. Ouvi não, e não, e não. Autoridade magnânima do doutor magnânimo. Quem é egoísta e pensa só em si próprio?

2. Então eu consegui colocar uma professora que tinha tudo a ver com meu trabalho na suplência. Um dos professores desistiu e então apareceu, sei lá de onde, essa mulher acima que não estava na quadrilha. Drummond, me salve, por favor. Lá se foi de escantei a minha única sugestão aceita. Quem é o egoísta e pensa só em si próprio?

3. Daí, como o incosnciente deixa suas brexas, caiu em minhas mãos o documento oficial da escolha inicial da banca e, pala minha surpresa, notem, a professora que eu indiquei não estava mais lá. Sumiu, caro magnânimo doutor? Quem é egoísta e pensa em si próprio?

4. Disso o magnânimo ainda não sabe que eu sei, mas ouvi em alto e bom som: Fernanda, o orientador precisa proteger o aluno, por isso mantive a banca. MAS quem é que disse que eu quero ser protegida? Eu quero estar viva, ser sujeito do meu texto de doutorado, quero ser debatida, confrontada, dissecada. Quem é que...? Hein?

5. Em debate na banca sobre a presença da psicanalise no meu tabalho (ame-a ou odeie - e lá todos odeiam), ele diz, quando algum participante questiona: não dá para pôr ninguém da psicanalise na banca, nao é minha área. Aha! Eis o ponto. Quem é que quer se proteger? E ter menos trabalho? E ser menos confrontado? E ter finalmente um título de orientador de doutorado pra subir no plano de carreira? Quem é que? Hein?

Sem mais comentários, e olha que eu tenho um monte deles. Mas me lembrei de quando iniciei esse blog, 5 anos atrás, indignada com a banca do processo seletivo do doutorado, pela primeira vez, na mesma universidade. ocasião em que um desses doutores, magnânimos, autoridade máxima, eliminou meu processo do doutorado, eliminou a banca e me eliminou. Ninguem ficou sabendo que eu prestei processo seletivo público para tal. Mas então eu sempre tive as palavras, e sei da força delas. MAIS UMA VEZ EU VOLTO AQUI INDIGNADA COM AS BANCAS, COM OS DOUTORADOS, COM A UNIVERSIDADE PÚBLICA E COM OS PROFESSORES DOUTORES MAGNÂNIMOS.

Está na hora de vocês aprenderem um pouco com os jovens e suas novas concepções de mundo. Talvez o aprender seja mais do que isso, de um professor no lugar de mestre, auge do seu poder. Fico cá pensando com meus botões o quão triste deve ser a vida da mestra que se sentiu ofendida (mas aceitou continuar na banca - vai entender). Afinal, o poder deve lhe dar uma falsa sensação de sei lá o quê.

O conceito colaborativo de WEB 2.0 com urgência na universidade! E menos trabalhadores servis em prol de pessoas mais criativas e pensadoras!

Mais um capítulo...

... da mesma novela. O mercantilismo acadêmico. E sempre na mesma tecla. Dinheiro. E todo inicio de semestre é a mesma coisa de sempre. Os alunos se unem para estabelecerem as regras que melhor lhes cabem nesse latifúndio. Digo das bolsas de mestrado e doutorado que, convenhamos, não são grande coisa. Mas todo ano eles estão lá, estabelecendo regras que nunca funcionam, brigam, discutem, se matam. Agora que esse lance está virando coisa de cotista (demanda social, saca?, negros, pobres, etc, etc, etc) a discussão parece não ter mais fim. Claro que eu defendo o meu pão, e o meu pão é sempre pela capacidade de cada um. Cotas? Que tal a sociedade se unir para melhorar o ensino básico e fundamental pra todos chegarem com as mesmas condições? Há quem prefira se matar por conta de certas migalhas. Tá, estou sendo rude, mas vamos lá, o jogo se joga no dentro!

a banca

A BANCA (dos escritos antigos)


Para aqueles que pensam em entrar num mestrado, num doutorado ou prestar um concurso público vai a dica de que nem sempre a competência é a alma do negócio. E se por um acaso você não puder ser o dono da banca (geralmente é ele quem dá as cartas, marcadas?), seja, no mínimo, seu melhor amigo. Prostitua-se academicamente, se assim for necessário. Não é tão cruel se você pensar na perspectiva dos interesses, que sempre são subjetivos e, portanto, inexplicavelmente válidos. Mas, se você não concorda, vire a banca pois, de fato, não se trata de um jogo de azar.

Quando se presta um concurso o que a gente quer (ou deveria) é abafar a banca, ou seja, causar admiração, e pelo talento. E tem muita gente por aí que, ao contrário, vai botar a maior banca: vão tentar vangloriarem-se por suas qualidades ou bens pessoais, por sua posição, seu status. Ou então preferirão causar admiração pela beleza, as mulheres principalmente, e com o sublime intuito sedutor de levar os homens à banca rota. O inverso também existe, mas o golpe da barriga, este ainda é insuperável, dá às mulheres um certo poder estarrecedor e é bom que se esclareça, o lugar do poder é assim mesmo: autocrático e subjetivo.

Mas se estamos falando de concurso, a democracia, de fato, deveria sobrepor-se. E está representada pela própria idéia de se constituir uma banca de avaliação. Uma banca pressupõe que um grupo de pessoas supostamente qualificadas e eticamente comprometidas.

No entanto, sempre que se quer pensar em democracia, criam-se bancas em nome do compromisso ético. Trata-se de um conjunto de pessoas que têm como função avaliar uma situação ou representá-la considerando outros pontos de vista. Mas a banca examinadora, um grupo de pessoas supostamente qualificadas e eticamente comprometidas, está lá para exercer um papel democrático, pois tratam do conjunto das idéias e opiniões daqueles que a compõem, nem que o parecer final tenha sido pelo voto, representando a maioria. Sem exercer este papel a banca perde respeitabilidade, vide o exemplo do Poder Público. Nestes casos a banca não passa de uma mesa, um tampo sobre cavaletes, grande e de qualidade inferior. Quer dizer, neste caso nem a mesa é uma simples mesa, existem aqueles que a compõem e a mesa volta ao seu lugar de banca. ele pode ser diferente. Basta que se construa uma outra banca, um conjunto de poderes a tomar decisões de causas discutidas e avaliadas, para que se torne democrático.

Garantem a participação de todos, Mas tem gente que não bota banca, mas que também não tem opinião formada ou, pior, não compreende o sistema em que está inserido e as decisões passam a ser subjetivas antes de serem democráticas. Eu também já fiz isso por diversas vezes e sei que vou continuar por mais algumas outras tantas. Não tem como fugir porque a banca ela está sempre lá. Está no jornaleiro, no mobiliário e no jogo de cartas. Eu escolhi o caminho mais difícil, preferi quebrar a banca.

Papers de Mel e Pesquisadores de Chocolate

Ah, pois eu então lhe digo porque tanto me incomoda estar onde estou. Para os desavisados, a idéia de montar este blog foi por conta de um processo seletivo para o ingresso ao doutorado, nos idos de 2005. Então eu escrevi A Banca, e questionei a ética da coisa. A história rendeu, um professor, em negociata, tomou as dores, estava certo de que eu deveria passar por cima de todas as desavenças e então fazer doutorado, porque meu lugar era no doutorado e coisa e tal. Em parte eu concordava, eu passei quase três anos tentando encontrar uma vaga de doutorado que fosse a minha cara e não achei. Nem aqui, nem fora do país. É que no doutorado, por mais autonomia que o estudante tenha em relação ao seu orientador, tem muitas coisas entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia. São contratos escusos, e a ética é facilmente confrontada. Seja aqui, seja ali.

Não faço muito segredo de que, então, não estou onde eu gostaria de estar. O primeiro detalhe é que fiz o projeto de doutorado para ser orientada por um professor, e me restou outro. É aí que os problemas surgem, pelo preço que cada um resolve pagar, seja pela endogamia acadêmica, seja pelas relações das quais se espera ganhar com o outro.

Também já falei aqui sobre a engodamia dos livros, criticando as correntes de autores. Já falei dos sustos que levei no grupo de estudos e já passou um bocado de tempo de tudo isso. Mas, então, a coisa se repete, sempre repete (e foi um dos motivos de eu ter encerrado este blog em outra ocasião). A coisa se repete e eu fico com vergonha alheia.

Querendo ou não querendo, quando eu disse sim à orientação de doutorado eu aceitei o jogo. Pelo menos o jogo da instituição que me abrigou. E para ir mais além, sou bolsista do CNPq. Mais institucional do que isso, só pegando mais verbas na reitoria de pós, o que não vai acontecer tão cedo porque estou querendo me manter à distância.

Eu sei que não sou uma pessoa 100% ética, ou apenas já cansei de lutar contra algumas coisas. Mas tem coisa que não dá para não ser ética. O fato é que eu estou passada com a negociação via e-mail que está acontecendo com meu grupo de estudos (do qual faço questão de me ausentar, pela cretinice dos acontecimentos vigentes por lá). Agora resolveram fazer uma lista (exceção feita ao meu nome, ainda bem) de todos participantes. A idéia é simples e não é novidade no meio acadêmico. Para cada resumo que um dos participantes enviar para uns dos congressos de maior prestígio na área – já questionado por mim – acrescenta-se todos os outros nomes do grupo de estudos, criando-se uma rede. Um pesquisador de chocolate acaba fazendo apenas um trabalho e ganhando outros 5, ou 6, ou 7, dependendo do número de integrantes escusos e complacentes do tipo “me add que eu te add”. [Parênteses: esta minha comparação com o mundo internetês é injusta. Na internet, um sistema de redes, há muito mais instrumentos de combater esse tipo de ação para que sites e blogs subam seu page rank do que sonha o mundo acadêmico, uma questão de seriedade].

Meus ombros suportam o mundo, mas não suportam pesquisadores vagabundos. Por isso não carrego nomes sem sentido, apenas de gente competente e que, de fato, contribuiu para o estudo. Mas nessa corrida papers de mel, promovida pelas instituições regulamentadoras (que eu apoio, já disse em outras ocasiões) têm contribuído para o outro lado da moeda deixando a coisa um pouco à deriva. Talvez seja a hora deste sistema acompanhar os esforços das redes sérias que se criam pela internet. Com ela, os jovens aprendem que sozinho não se ganha o mundo, nem com fraudulências. É que na internet os mecanismos de buscas e ranqueamento de sites e blogs já rastream e punem que faz uso de links como uma rede para ganhar acessos, dentre outras coisinhas a mais.

Navegando e aprendendo.

Abaixo a troca de e-mails dos Pesquisadores de Chocolate em busca de Papaers de Mel:

E-mail 1: Olá pessoal, vcs irão mandar resumos para o congresso em Porto Alegre? O que vcs acham de cada um fazer um e colocar os nomes dos outros no trabalho, pois dessa forma (como fazem em outros institutos) todos terão mais publicações e também, não sei se todos poderão ir até o congresso para apresentar ou expor. Abraço.

E-mail 2: Olá pessoal! Eu concordo plenamente. Pretendo fazer um resumo ampliado. Vamos ver se consigo. Fiquem com Deus.

E-mail 3: Concordo!

E-mail 4: Bom, se todos estamos de acordo, faremos o seguinte, cada um envie organize um resumo e coloque o nome de todos. Só para confirmar os nomes completos são esses: Beltrano de Tal [este é o orientador dos alunos, inclusive o meu, que vergonha! Me digas com que andas, professor, que te direi quem és], Fulano de Tal, Cicrano de Tal, Lá lá lá de Tal, Li li li, Ló ló ló. Não sei se alguém mais vai mandar (Lê lê lê de Tal? Lu lu lu? Tan tan tan?) Lembrando que cada autor pode ter até 6 trabalhos, Abraço a todos.

E-mail 5: e cada trabalho pode ter 6 autores.

Rá! Fizeram as contas? Em uma tacada só, o pesquisador de chocolate pode, de 6 trabalhos, ter bem uns 30 papers de mel. Rá! Quanta vergonha! Quanta vergonha!

Orientação Acadêmica

Tudo que o seu orientador quer (a maioria deles) é que você produza um texto, de preferência Qualis A Internacional, porque ele, com muitas outras atividades provenientes do seu cargo acumulativo disso e daquilo outro (que lhe rende uma bela grana extra), está sempre precisando de artigos, capítulos, livros para aumentar sua produção intelectual. Produção de quem mesmo?

E com a desculpa de que ele é muito e você é pouco (eita hipocrisia da porra!), e com a velha questão ética vinda do fato dele ter lhe dado a vaga (do verbo dar mesmo, lembre-se que nunca foi você que a conquistou), o que obriga, de fato, que você coloque o nome dele no seu trabalho pelo nada que ele fez, você nem terá a chance de colocá-lo à prova. É que existe uma regra na pós-graduação que diz que se o orientando publicar mais artigos que o orientador num prazo x qualquer, o orientador está automaticamente excluido do programa de pós.

O interessante é que em todos os casos, sempre, o poder está nas mãos dos alunos. Infelizmente eles não sabem disso. E é por isso que as coisas se mantém gugu-dadá.

Tempo gugu-dadá

Talvez tivesse sido melhor se eu tivesse desistido da pós-graduação antes do tempo. Corrijo: desistido desta pós-graduação gugu-dadá, dá chupeta pro bebê não chorar. Basta eu sair pra qualquer outro instituto ou faculdade dentro da universidade que a coisa muda, embora existam outros centros gugu-dadá. Que o mundo está infantilizado eu não tenho dúvidas, mas me causa dor ver uma pós-graduação assim gugu-dadá do mesmo jeito que me dói saber que existe um programa Super Nanny pra ensinar pais e mães darem um mínimo de atenção aos seus filhos e um mínimo de limites. É coisa só do Brasil? Não, não é. Lá em Portugal 65% da população é analfabeta funcional. E a Africa? A Índia. Os países terminados em ão: Paquistão, Uzbequistão, ão, ão, ão tudo de um jeito inho. Tadinhos. O que sobra do sistema capitalista de um mundo hipotecado. Mas talvez tivesse sido melhor se eu tivesse desistido antes do tempo, para que este tempo gugu-dadá da pós-graduação que está em sobra nem existisse.

Tese de Doutorado: A História

Tese de doutorado: A História

Ele veio sem muita conversa, sem muito esperar
Eu só sei que falava de bolsa e artigos a publicar
Sei que ela tinha perfume no rosto e no peito um brilhante
Trazia seu corpo num vestido branco, meio estonteante

Ele veio assim, como o relatório, apressado em acabar
E com tudo por entender a bolsa continuou a rolar
Ela esperando, na sala, sentada em cima de um banco
Com seu belo vestido novo cada dia mais branco

Como vão seu pai e sua mãe, perguntou o pobre galante
E a orientanda sorriu por dentro, ainda que distante
Mas ela não tinha saco praquilo tudo, preferia um café
E ele ainda achava que dava aulas num cabaré

Já o protocolo não tardou alertar toda a vizinhança
A mostrar que ali estava um nobre doutor pagando fiança
Depois que ele, não sei bem se por nota ou se por conceito
Resolveu chamá-la de “aluna bonita” sem muito respeito

Então a história deste doutorado ela carrega nos braços
Embalando virtudes, não assina quaisquer tratados
E colegas de estudo, famintos por lattes e suas amantes
A conhecem só pelo seu jeito de aluna de diamantes

Laiá Laiá
Laiá Laiá

____________________
Produzido em 4 mãos:
- Fernanda = duas
- Soll = duas

Me dando (a) conta!



Como não estou no Congresso da Faculdade, hoje eu me torno oficialmente uma aluna de doutorado rebelde.

Estou contrariando o e-mail do orientador
(“todo aluno deve enviar trabalho ao congresso da faculdade”),

as normas da coordenação
(“todo aluno com bolsa deve obrigatoriamente participar dos eventos promovidos pela faculdade”)

e as expectativas do ex-amante
(com tanta ausência, só a mulher dele pode respirar em paz).

Primavera Educacional

Toda primavera é igual para o Ensino Superior. É quando chegam as respostas das avaliações institucionais. Tem o Enade, tem o exame da OAB, e por aí vai, sempre rola um exame de consciência. É quando a ruindade do sistema educacional brasileiro só se confirma, como todos os anos e, como todos os anos, nada muda. Nada muda, mas a gente fala sobre ele, sobre o que está ruim nele, sobre nossa indignação, sobre o que poderia ser melhorado. E todo ano, ou as coisas se mantém, ou pioram. Alguns poucos projetos deram resultados, mas nem isso a gente não vê na tv de massas, o que é uma pena, porque com mais gente vendo as coisas boas, mais as coisas boas poderiam ser copiadas. Como só tem notícia ruim nos jornais televisionados (quem lê jornal impresso?), mais a ruindade é copiada. Se um ladrão teve uma idéia inteligente, outro pode copiá-lo. E assim vão se abrindo túneis de ignorância pelo país. É que a televisão também diz, que além da educação, nossa polícia não presta, nossa política não presta, nossa sociedade é mesmo uma pindaíba.

Toda primavera é igual para o Ensino Superior. É quando se iniciam as propagandas de faculdades, universidades e institutos nas mídias digital, impressa e falada. Até hoje chega a minha casa opções de onde eu poderia estudar dentre todas as melhores universidades do país, e quase todas as faculdades, universidades e institutos - que fazem propaganda - estão entre as melhores do país, pelo menos em alguma coisa. São faculdades, universidades e institutos que sabem trabalhar com os números de todas as avaliações que sofrem, até com as estrelinhas do guia do estudante. E como são muitas as avaliações, sempre sobra um número favorável para algum curso em específico, mas que no reclame eles generalizam para todos os outros, que ficam igualmente favorecidos. E quando não é este o caso, eles contratam gente de peso para falar. Eu, sinceramente, estou com raiva da Fernanda Montenegro que anda apoiando uma instituição aí, junto com o Pedro Mariano. Bah! Eles não sabem o que dizem. Só quem está dentro pode dizer.

Toda primavera é igual para o Ensino Superior. É quando o vestibular surge como um bicho de sete cabeças e os jovens são bombardeados de lá pra cá, de cá pra lá, e é quando as faculdades, universidades e institutos começam a somar seus lucros. Se há poucos inscritos, fazem propaganda para aumentar. E todo ano se pensa em bater o recorde. Aumentar o número de alunos por turma, aumentar o número de turmas com o número aumentado de alunos. E somos nós, professores, que cortamos um dobrado. Encaramos 30 horas por semana em salas de aulas com o mínimo de 80 alunos, que é o padrão vigente das universidades, faculdades e institutos.

E toda primavera é a mesma para os professores do Ensino Superior. É quando as instituições reavaliam os seus planos de carreira e diminuem o valor da hora-aula do professor que por lá ingressará no próximo verão.

Um brinde à pindaíba, um brinde aos meus cento e poucos alunos por turma e aos setecentos e poucos alunos que eu vejo por semana, e que eu não sei o nome (o meu, qual é mesmo?). Um brinde!

Propostas Inconscientes

Há um inconsciente coletivo? Será? Deve haver um.

Hoje um amigo me ligou, questionando o tema, querendo saber se isso é algum tipo de doença mental que acontece nas universidades. Mas o assunto é relativo, porque cada caso é um caso. Cada instituição é particular e cada professor se encontra em contextos diferentes, de ideologia e de salário.

Meu amigo está puto porque lhe convidaram a fazer uma palestra. Não ficou assim por conta do convite, claro, mas pelas condições impostas. Ou melhor, pela condição “sem pró-labore” imposta. “Sem pró-labore a puta que lhe pariu”, ouvi em tom de um desabafo contínuo:

“Então, quer dizer que eles me oferecem os ouvintes? Tenho-os às tampas, é só eu sair por aí, agora uma universidade daquelas, com todo aquele dinheiro, convidar palestrantes a título de gratuidade me é ofensivo”.

“Concordo”.

“Quem eles pensam que são, quem lhes dão o direito de me exigir, exigir não, de me solicitar uma viagem de 400 quilômetros em prol de divulgar um conhecimento que me custou e que me custa um tanto? Mercenários! Capitalistas! Sanguessugas!”

“Concordo, concordo, concordo”.

“Foda-se esta droga de inconsciente coletivo que se instaurou nas universidades, de que professor deve ser proletário. Eu sou profissional. Você não acredita, outro dia recebi outro convite indecoroso, de um clube de futebol, destes de ponta e tradição. Me ofereciam os atletas e com isso acharam que eu não cobraria nada.”

“Já sei: mercenários, capitalistas, sanguessugas!”

É, eu concordo com o desespero do meu amigo. E perguntei a uma amiga, que é gente legal, o que ela pensa:

“Uma vez me disseram que o preço que se cobra por uma palestra é o poder de compra do consumidor dela. Para uma ONG pobre, vá de graça. Agora se a ONG for rica, cobre muito!”

É daí que dou razão à putisse e ao profissionalismo de meu amigo, que trocou a palavra ONG por "faculdade" e por "clube de futebol". Em ambos os casos, nadavam em dinheiro.

É! Deve haver um inconsciente coletivo que luta em manter professores estagnados. Uma rede de corrupção, talvez.

Educação Prostituída

>Fecharam o Bahamas, o Café Millenium e eu, professora, me sinto mais prostituída do que nunca. Quem é que vai fechar as universidades de bosta? Se prostituir, por livre e espontânea vontade (se é que alguém se prostitui, de fato, por livre e espontânea vontade) não é crime. O crime, no Brasil, é incitar a prostituição. Quando fecharam o Bahamas, as garotas ficaram sem ter onde trabalhar e, querendo ficar longe das ruas, longe da Augusta, foram para o Café Millenium e para o Café Photo. Fecharam o Café Millenium e eu, professora, me sinto mais prostituída do que nunca. Quem é que vai fechar as universidades de bosta? Alegaram que no Café Millenium as meninas eram escravizadas, por isso foi fechado. Eu chego na sala dos professores e tem um bando de regras que me escravizam, um poder fora do comum sobre quem eu sou e, ainda, a alegação da demissão, que chega com um leve ar de “foda-se você!”. Pois é, e já que a universidade de bosta incita os professores a se prostituírem, a esconderem seus títulos de doutor, só me resta o Café Photo, cujo programa não sai menos que 500 reais. Opa, que belo upgrade no meu salário! É, me sinto mais prostituída do que nunca. E quero saber: quem é que vai dar um pontapé na educação de bosta e arrumar a casa?

Nada de Novo

Em 1993 eu fui ao Circo. Mas não foi um circo qualquer, eu fui ver Parlapatões, Patifes e Paspalhões. Fui ver "Nada de Novo" na arena montada no Centro Cultural Vergueiro, aqui em São Paulo.

Certa hora, os palhaços ganharam o picadeiro de uma forma nada nova. Fazendo justiça ao nome do espetáculo, tudo velho outra vez: aqueles abraços que não se encaixam, aquela flor que espirra água em nariz de cheirador, aquelas puxadas de cadeira que faz palhaço cair em vão enquanto o outro ri...

No meio do caminho um texto mais ou menos assim:

- ei
- hum
- você sabe onde a gente está?
- eu sei onde a gente está!
- onde?
- perdido!
- e você, sabe onde a gente está?
- eu sei onde a gente está.
- onde?
- perdido!

Assim mesmo. Uma coisa volta e meia, meia-volta. De um jeito a parecer não quererem ir, de fato, para lugar algum. E se não iam a lugar algum, de fato, estarem perdidos era um lugar de mão e não um lugar de contra-mão.

Ir até a faculdade também não me traz nada de novo. Apenas tudo velho outra vez: os mesmos autores, os mesmos livros, as mesmas pesquisas, os mesmos textos de sempre, agora com outros nomes (excluindo-se o dizer das citações, claro!).

É como se, passados dez anos, o tempo parasse. Mas o tempo não parou e, então, recorro ao cansaço. É apenas cansaço mesmo, de ver o mesmo lugar de sempre, com a mesma idéia de sempre, com os mesmos professores levando suas vidinhas acadêmica de sempre, e que tanto almejo.

Apenas cansaço ou apenas um erro de estratégia. Graduar-me e pós-graduar-me na mesma faculdade realmente pode ser uma faca de dois gumes. E realmente pode me deixar sem opções, apenas com tudo velho outra vez.

e no comércio de trabalhos acadêmicos...

E no comércio de trabalhos acadêmicos o buraco é mais embaixo. Sem exagero, está lá na primeira série do ensino fundamental, quando a criança tem 6 ou 7 anos.

Eu não sei quanto aos outros estudantes, mas eu aprendi a fazer trabalho de escola copiando enciclopédias (é que ainda não existia a facilidade da internete, infelizmente). Eu aprendi a fazer isso em boa escola, aliás. Escola de ensino tradicional, destinada à classe média alta e ao esforço de pais e mães da classe média, como os meus, que se sacrificam para pagar mensalidade tão cara pela educação dos filhos.

Foi nesta escola, na primeira série, que aprendi a copiar palavras que foram ficando mais complexas na medida em que os anos iam passando. Na quinta série existia um mito causado pela troca de professores que iam e vinham com a divisão de matérias. A matemática, por exemplo, deixando de ser um simples exercício de somar, deveria implicar em pensamento e em raciocínio. Um mito que foi logo desfeito, pois passamos a copiar equações e a reproduzir pensamentos. A diferença é que, dependendo do trabalho, principalmente para aqueles distantes das disciplinas exatas (uma fórmula não muda de um livro para outro), os alunos, já adaptados, continuavam a copiar, mas o faziam com um pouco mais de diversidade bibliográfica, faziam cópias de diferentes trechos tirados de dois ou três livros apanhados na biblioteca. Para os alunos menos esforçados um só livro dava conta e garantia-lhe a mediocridade da nota mínima de aprovação no curso. Era assim que chegávamos ao colegial, hoje o Ensino Médio, onde continuávamos copiando, copiando, copiando. Vez ou outra o professor pedia uma análise crítica, além da pesquisa. Folha inteira era mais do que suficiente e meia folha estava bom para a mediocridade. Acho que este era o único momento em que éramos feitos pensar sem ser na morte da bezerra - que era o que geralmente acontecia quando simplesmente realizávamos um esforço braçal de reproduzir algumas letras em próprio punho. Acho que é assim até hoje. O aluno vira uma máquina de reproduzir assim que entra na escola, com a diferença de, hoje, a coisa ser digital. É claro, há exceções.

Óquei, então este aluno que aprendeu a copiar lá na primeira série (que arrisco em dizer ser a maioria), e que nunca foi reprovado por isso (estou desconsiderando o programa de aceleramento e de aprovação automática instituídos pelo governo, e que contribuem para a lacuna do engodo educacional), também vai copiar letras quando chega no ensino superior. Óbvio, ele não sabe fazer de outro jeito. Nunca soube. Repito, há exceções. Daí, considerando as tais das exceções, o carinha vai copiando até o último ano da faculdade. Aliás, durante todos estes anos ele viu seus professores fazerem exatamente a mesma coisa. É aí que eu acho que o buraco está mais embaixo, porque também os professores já não conseguem mais ministrar aulas sem recursos audio-visuais, como o retroprojetor e o data-show. Não vivem sem suas "colas". Aham! O professor lê um livro, acha uma frase bonita, seleciona, copia e projeta sua imagem para seus alunos. Alguns, os mais éticos, têm o bom-senso de dizer o autor da frase, mas nem sempre.

(Nem questiono o plágio aqui, porque é um assunto facilmente resolvido acrescentando-se antes de cada parágrafo a expressão "segundo fulano de tal blá blá blá", "para beltrano blá blá blá", desde que os parágrafos copiados de cada obra não passem de 30% da mesma. Expressões acadêmicas que eu considero serem assassinas do pensamento reflectivo, inclusive).

Cópia por cópia, questiono se há diferença, em termos de aprendizagem, do aluno que copia e do aluno que compra um trabalho acadêmico. Ambos estão dispensados de pensar, e isto, para mim, é um crime que reflete o sistema como um todo: o carinha aprendeu a copiar na primeira série do ensino fundamental, vai ser reprovado no último dia do ensino superior?

Acho uma lógica ilógica e acho ainda mais. Acho que o aluno que compra um trabalho acadêmico já entendeu o engodo que é o sistema educacional. Se assim não o fosse, não haveria margens para ele acreditar que ao comprar um trabalho, ao pedir que um colega lhe faça o favor de acrescentar seu nome num trabalho qualquer, ele terá a mesma recompensa do diploma ao término de suas obrigações de entregar trabalhos para o professor e de fazer provas, seguindo as regras previamente estabelecidas pela instituição.

Ora, se o aluno compreende isso tudo, se ele é capaz de enxergar a falha do ensino, ele apenas está adequando-se ao sistema quando decide aproveitar seu tempo com coisas que ele julga mais interessantes, como a flexibilidade do rabo da lagartixa, por exemplo. Um aluno que compra trabalho sabendo exatamente o que está fazendo, sabendo exatamente qual é a lacuna do sistema e sabendo como ele, aluno, é posicionado dentro deste sistema, para mim, é um aluno inteligente. É um alguém que sabe ler o que está ao seu redor e juntar suas forças para o que julga ser mais adequado ao seu plano de vida. Só que o livre-arbítrio (de decidir qual trabalho se deve ou não fazer) não é algo tão simples e é óbvio que este tipo de aluno é uma raridade, porque é um aluno que está enquadrado criticamente na sociedade e a grande maioria dos alunos decidem comprar um trabalho acadêmico por comodidade mesmo, o que, no fundo, não desmerece tal esperteza de tentar driblar um sistema tão aquém.

Eu mesma lembro de ter decidido quais matérias eu deveria me dedicar ou não na universidade, e lembro de ter analisado quais eram as possibilidades que existiam de eu driblar o sistema para conseguir me formar. Tem coisas que eu, deliberadamente, optei por não aprender. E optei por fazer isso mesmo sabendo dos riscos de um futuro incerto, do qual eu me tornei a única responsável (a escolha foi minha, única e exclusivamente). Não dizem que é o aluno que faz seu curso? Pois bem, decidi ter o livre-arbítrio de fazer o meu, de guiar meu destino. A diferença é que eu fiz isso de uma forma consciente, de uma forma a desafiar um sistema e não de uma forma a ser engolida por ele quando se faz algo sem saber exatamente o que se está fazendo. Aí sim, a compra de trabalhos pode ser cruel, o ctrl-c/ctrl-v passa a vender gato por lebre e o livre-arbítrio se torna uma faca de dois gumes.

Função Docente

No grupo de estudos eu vejo jovens acadêmicos empolgados, mas só um ou outro querem, de fato, fazer a diferença. "Os outros são os outros e só". Destes, têm os que querem um diploma, e apenas isso! Têm os que querem uma vaga no mestrado, e depois outra vaga no doutorado. E têm os que vão reproduzir o sistema pelo fim da vida. Alguns já dão aulas na universidade, e parte ainda não entendeu a verdadeira função do docente. São muito jovens ainda, falta-lhes mundo. É, são dois mundos muito distantes, o mundo da universidade pública e o mundo da universidade privada. Eu só entendi o que é ser docente na faculdade particular quando eu passei a ensinar compreensão de texto aos alunos (do ensino superior!). Quando eu entendi que o mundo deles é bem diferente do meu. E, sendo mundos diferentes, dane-se a droga de um programa acadêmico (visto e revisto em grupos de estudos) que não lhes servirá para nada, apenas para o MEC. O buraco está muito, mas está muito mesmo, muito mais embaixo. Ensinar a ler, ensinar a refletir, ensinar a pensar, esta é a função do docente. Tudo isso para que os alunos deixem de ser analfabetos funcionais. E digo mais, as aulas ficarão muitos mais saborosas, como ficaram as minhas. Óquei, nem toda universidade particular tem alunos tão aquém assim, têm aquelas que abordam a classe média alta. Mas minha indignação é com o operário, com o operador de telemarketing. Este anda mesmo com poucas chances de mudar, por isso eu acho que os grupos de estudos são utópicos. Consideram que a maioria da população, aquela que atingem em suas pesquisas e interevenções, sabe ler, escrever, pensar criticamente. Não o sabem. Por isso, talvez, alunos não compreendam os programas pedagógicos. Por isso, talvez, os alunos considerem uma total perda de tempo ir até a faculdade. Por isso, talvez, eles queiram mesmo apenas um canudo, para continuarem sua luta como operadores de telemarketing.

O fim - pois a história se repete!

Quando eu montei este blog eu estava inconformada com o que eu vivia na universidade. Tanto a aluna quanto a professora. Quase dois anos depois, a história se repete. Ou melhor, as histórias se repetem. E estão ficando sem graça, batidas, repetitivas. A crítica é sempre contra um sistema mercadológico das instituições particulares, que só querem o dinheiro do aluno, e contra o sistema endogâmico, destinado aos pequenos favores (que custam uma vida!) da universidade pública. São gandes negociatas, todas destinadas ao fracasso no ensino porque não valorizam o sujeito, mas o dinheiro (no caso das particulares) e a vaidade (no caso das universidades públicas). Os professores e os alunos são os mesmos. Ou melhor, perdem em qualidade ano após ano, da mesma maneira. Se acostumam ao sistema, e fazem isso porque não se tem como escapar. A faca é afiada.

Hoje eu estou desativando este blog, por tempo inderteminado. Mas como eu sei que este negócio de pedir um tempo é ilusão, mais provável que este seja o ponto final (só porque eu quero que outras janelas se abram). Não, eu não pretendo desistir de fazer a diferença, de questionar a universidade e de tentar melhorá-la, nem que seja para o bem dos meus filhos (se eu não os tiver, para o bem dos meus sobrinhos, para este monte de criança que ainda nem nasceu e que um dia vai chegar lá para que eu possa aplaudí-las).

Eu coloquei a boca no trombone. Eu denunciei o que me incomodava (e que ainda me incomoda, por isso manterei este blog on-line, para deixar registrada minha indignação com o sistema). Denunciei e vivenciei as diferenças. Sim, algumas coisas mudaram, e mudaram para melhor. Amém!

É sabendo disso, sabendo que qualquer um pode fazer a diferença, mudar o mundo ao seu redor, que mantenho viva minha palavra escrita, minha voz. Tenho certeza de que novos textos surgirão a partir de minhas mãos, pois também tenho certeza que o registro escrito é a minha melhor arma. E a gente luta como pode. Para estes novos textos, também tenho certeza, haverá novos espaços. E novos leitores, que se juntarão aos leitores de sempre. Assim eu irei me constituindo, escrita dia após dia. Sempre!

Enquanto este novo espaço não surge, porque os novos textos hão de requerer novas estruturas lingüísticas e, também, novas ferramentas editoriais, deixo aqui meu desejo de manter o diálogo produzido por este blog vivo.

À minha amiga Soll, que conheci por ocasião do intercâmbio cultural dos blogueiros (nao lembro quem entrou no blog de quem primeiro), deixo aqui registrada minha satisfação de tê-la ao meu lado nestes últimos tempos, e que, de verdade, nosso encontro filosófico, educacional, cultural e científico, regado à cerveja, na Vila Madalena, foi uma benção. Soll, você é insubstituível. E sendo você insubstituível, deixo registrada a vontade que tenho de que você assuma este blog daqui pra frente, caso desejar.
Aos meus alunos e aos meus visitantes constantes, fieis a este espaço, peço que não se desesperem, pois ainda estaremos juntos, em novos lugares, com novos discursos, com outras palavras, mas sempre seguindo em frente. Sem vocês não haveria razões de eu ter mantido este espaço por quase dois anos. Então, um abraço de coração.

Àqueles que aqui aparecerem pela primeira vez, e este post já tiver sido publicado, deixo meu desejo de que algo que aqui foi postado, faça alguma diferença, mesmo que já tenha sido escrito àlgum tempo atrás. A estes novos leitores, também registro o desejo que entrem em contado, enquanto eu estiver indo em busca de novos espaços.

Meus eternos agradecimentos,
Fernanda

Greve

Por certo que a greve é dialética, como muitas outras coisas, a maioria delas. Outro dia me lembrei de uma frase que ouvi ainda menina, quando maldisse alguém. A lição veio de xofre e ficou a moral da história:

- não gosto de fulano, preciso conhecê-lo melhor.

Mas o que isso tem a ver com as greves? Tudo:

- não gosto de greves, preciso conhecê-las melhor.

E só porque estas também são um jeito de marcarmos a diferença, principalmente quando tentam calar a nossa voz.

Negociata

Eu estou me sentindo um peixe fora d´água no doutorado, e por diversos motivos. De repente eu me olho e não me vejo, o que me causa certa angústia. Quer dizer, meu orientador, por exemplo, nunca leu minha dissertação de mestrado, e eu nem posso ficar puta, de jeito nenhum, porque eu nunca li nada do meu orientador. Empatamos, mas saímos perdendo.



Eu me olho, e cada vez que me vejo, quando me encontro, tenho a certeza de que estou pagando o preço do amor. Um preço alto até, para um amor que virou ódio, ou algo que o valha quando as fichas começam a cair e você se sente diminuído em seus próprios sentimentos, ou ainda quando você se surpreende com você mesmo e descobre existir dentro da sua alma um doce exercício de vingança. Algo que te faz bem, que te faz rir e que te devolve ao prumo do mundo de seu próprio corpo.

E por causa disso, eu e meu orientador empatamos, mas saímos perdendo. Quer dizer, como é que eu poderia me sentir sendo o assunto principal de um diálogo como este aqui de baixo?

- Por que você está tão interessado que ela entre no doutorado? Já comeu?
- Já, e sou apaixonado por ela.

Não sei até que ponto eu retrato a realidade desta conversa, pois eu não estava lá. E é ruim para uma mulher saber que sua vida foi negociada neste nível. Então eu me questiono, todos os dias, o que é que eu estou fazendo com a minha vida?

É para parir uma tese, e não um filho!



As pessoas têm me dito que sou radical, que tenho criticado demais as alunas de pós-graduação que geram seus filhotes no meio do processo ou que escolhem fazer um mestrado ou doutorado justamente para aproveitar a bolsa e o "tempo livre" para, enfim, cuidarem dos seus rebentos em paz. Eu sou mulher, tenho 30 anos e, claro, a idéia de ter um filho é uma constante na minha vida. Também é óbvio que esta idéia de aproveitar os benefícios do sistema de pós-graduação, com suas bolsas de estudos, faz presente em minha mente. Está presente mas eu não concordo, embora muitas vezes eu pense seriamente em chutar o pau da barraca porque, já que o sistema é assim, é muito mais interessante eu ter os tais dos filhotes. Mas, contrariando esta linha de raciocínio, eu decidi parir uma tese antes de parir um filho. Eu decidi me dedicar a parir uma tese porque se eu tivesse parindo um filho eu certamente estaria me dedicando a ele de corpo, alma e mamas. Enxoval, fraldas, mamadeiras e chupetas para serem esterelizadas, cólicas e choros que iriam me roubar o dia e que eu iria adorar. E, com tudo isso, dane-se a porra da tese de doutorado (ou de mestrado). E dane-se porque o sistema foi feito para passar mesmo - sim, por conta da endogamia (como eu adorei esta palavra!) -, e não seria na minha vez que me reprovariam.

Acho que há uma grande diferença entre escrever uma tese de doutorado (ou de mestrado) e de querer ter um filho, ops!, um título de doutor (ou de mestre). Politicamente, nesta hora, é claro que eu sou forçada a pensar no país, na podridão do seu sistema educacional e o que depende dele. Quer dizer, alguém tem dúvidas de que uma reforma política no país deveria começar por uma reforma na educação? Que o país deveria investir em uma população pensadora e crítica para que ele cresça? Mas o que acontece é o contrário. Recentemente o governo cortou as verbas para o Ensino Superior. E recentemente o governo votou aumento nos próprios salários. Mesmo que os fatos tenham acontecido em governos diferentes não se tem como negar haver alguma coisa de errada no reino da Brasilândia. Tá, e o que tem as mulheres grávidas que se apossam de vagas públicas da pós-graduação? Tudo! E neste pacote pode-se incluir outros tipos de alunos, homens e mulheres, igualmente sem tempo e com outros interesses. Alunos que fazem cursos de pós-graduação apenas visando a bolsa e esta para lhe servir com outros propósitos não vão, sequer, fazer a pesquisa que eles próprios gostariam de terem feito. Porque com outras prioridades, em vez de se ir fazer a pesquisa nos cafundós do judas, onde, de verdade, poderia ser retratada uma realidade específica, vai-se na biblioteca mais próxima e numa comunidade parecida (bem pertinho de preferência) que lhe possa trazer um indicador aproximado e deduzir logicamente o que acontece lá nos cafundós. E eu poderia citar aqui centenas de estudos com esse tipo de "fatos" não tão precisamente descritos porque a própria metodologia de pesquisa dá margem para que isso aconteça. Então, com outras prioridades, pode-se ir trocando tudo, e esquecendo algumas coisas também pois, de fato, quem é que se importaria que um estudo acadêmico não tenha sido concluído por um projeto piloto e que, portanto, os dados podem apresentar erros? Afinal, eu relatei os dados que eu colhi, e esta foi a minha pesquisa, e pronto.

Então, quando me dizem que sou radical por isto ou por aquilo, em termos de responsabilidades acadêmicas, e porque tem um monte de gente na fila que as têm, assino aqui e para todo mundo ver que, sim, eu sou radical, mas só porque eu tenho uma pequena esperança de que, num futuro próximo, as coisas possam ser diferentes e as pessoas que fazem (ou farão) seus estudos de pós-graduação possam ser reconhecidas por fazerem a diferença.

Corre Cotia - Doutorado com sua Tia

Às vezes eu fico pensando porque as pessoas saem correndo desembestadas atrás de títulos acadêmicos, se a área acadêmica não tem a ver com elas. Isso significa que, obviamente, o trabalho de dissertação ou tese não será necessariamente um trabalho de dissertação ou tese, porque faltará seriedade. A pressa é inimiga da perfeição. É um ditado que persiste e persistirá. Eu fico boba de ver teses de doutorados tão fracas e uma consensualidade da banca acadêmica montada para aprovar porque, veja bem, reprovar compromete mais a instituição do que o aluno.

Outro dia eu estava esperando um amigo, um destes professores doutores de médio-grande porte, terminar uma banca de qualificação de doutorado, que deveria durar umas duas horas mas que levou bem umas cinco. Ele saiu sozinho da sala e eu estranhei. Perguntei porque estava demorando tanto e a resposta: "ah, Fê, o trabalho está muito ruim. Eu disse que por mim reprovaria, mas prazo do cara está estourando e se a gente reprova a faculdade perde pontos na avaliação da Capes.". E é claro que não se pode perder pontos tão preciosos porque é mesmo uma corrida maluca.

No dia seguinte encontrei o cara que fora submetido a esta banca e, curiosa, quis saber a versão dele para a demora na sua qualificação: "ah, Fê, é assim mesmo, eles encanam com umas coisinhas bobas, mas no final eles sempre passam a gente!". Noooossssaaaaa, muito sábio este ser, jesuis! Só de pensar que este fulano é doutor me irrita. O problema é que isso não é um caso isolado. Um dia, alguém disse que é possível se fazer um doutorado em apenas dois anos e este ficou estabelecido como tempo mínimo. Tá, eu concordo que um aluno genial faz uma tese de doutorado em seis meses se ele quiser. Um aluno genial, Albert Einstein talvez. Não um Zé Mané atrás de um título. Este, em dois anos, dando aulas na faculdade, fazendo um bico aqui outro ali para sobreviver, fará mesmo um trabalho meia-boca.

Outra banca (de um conhecido) com este meu amigo professor: "Fê, minha vontade era de reprovar, muito fraco o trabalho dele para um doutorado. O cara nem fez estudo piloto.". É, academicamente a universidade está um lixo. Eu já suspeitava disso na graduação. Quando eu fiz minha monografia, disseram que era uma dissertação de mestrado. Eu levei um susto. Quando eu fiz minha dissertação de mestrado, disseram que era uma tese de doutorado. Eu levei um susto ainda maior. Eu demorei dois anos para entrar no doutorado porque eu tive que deixar meu projeto mais fácil para que alguém topasse me orientar. É cruel ouvir em ocasião de entrevista que "seu projeto é muito bom, mas é tão difícil como sua dissertação". Afinal, não era de doutorado de que tratávamos?

Mas o mundo acadêmico é endogâmico. Lembram? Professores se acasalam com professoras e geram professorinhos. É claro que meu amigo professor doutor não pode reprovar alunos porque ele se encontra numa sinuca de bico, como diria meu avô. O mundo acadêmico é uma grande família e os professores têm que ajudar e não complicar. Tenho uma colega que é surpreendente. Se formou na graduação, casou no ano seguinte, entrou no mestrado, pariu e ficou com a bolsa pra cuidar do bebê. Terminou o mestrado, entrou no doutorado, pariu e ficou com a bolsa para cuidar do bebê. Mas também, tudo tão fácil quando você escolhe a banca certa. É a vida...

Meu falido português!

Ontem chegaram os livros da editora. Escrevi um capítulo sobre esporte na escola para o livro de uma colega e desde o princípio tive problemas com o editor, que queria mudar meu estilo lingüístico. Eu briguei porque o meu estilo é o meu estilo e ninguém além de mim pode alterá-lo. É simples!

Mas ontem chegaram os livros da editora. Eu, orgulhosamente, fui ler meu texto, mostrar para minha mãe. Meu Deus! No segundo parágrafo eu não me reconheci. Pensava com meus botões: "não é possível, eu não escrevi isso! Não desse jeito!". E um pouquinho mais adiante: "será que meu português piorou tanto assim?". Claro que hoje eu liguei o computador para pegar meu original e comparar com o texto editado. O resultado disso?

Texto da Editora
Retomando os PCNs, consideram-se esporte as "práticas em que são...."

Texto da Fernanda
E, retomando os PCNs (Parâmetros Curriculares Nacionais), tratar-se-ia das "práticas em que são..."

A editora tirou meu E porque alguém um dia disse que é feio usar E no início de frases. Só que eu gosto, acho que quebra um pouco o ritmo do texto e dá um certo volume. É feio para alguns, mas não é errado. Então eu pergunto: por que a editora apenas não tirou o E e deixou o resto da frase como estava? "Retomando os PCNs, tratar-se-ia blá blá blá blá". Tá, vamos ao sujeito, ao predicado e à pontuação:

1. Quem considera(m) o esporte práticas? Os PCNs? Sim, os PCNs! E estes representam o sujeito da frase.

2. Se o sujeito da frase são os PCNs, eles "consideram-se" a si próprios? Ou eles consideram que o esporte são práticas que blá blá blá blá?

3. Se os PCNs são o sujeito da frase, por que há uma vírgula antes do verbo? Todos sabem que, numa oração simples, não se separa o sujeito do predicado por vírgulas. Afinal, ficaria estranho uma frase do tipo "o gato, subiu no telhado". Sem a vírgula fica muito melhor, não tenho dúvidas!

O que eu acho mais engraçado nesta coisa toda é que, além de tudo isso, alteraram o meu tempo verbal. É! "Tratar-se-ia" é muito diferente de "consideram-se". Outra frase, outro sentido. Que pena! Quando tiraram o meu E da frase, tiraram meu aposto. Só que era ele que me permitia colocar vírgula antes do verbo. Permitia isso porque os apostos sempre são colocados entre vírgulas.

Quem lê meus textos acadêmicos reclama do fato dos meus parágrafos serem longos e com poucas vírgulas. São longos mas, na maioria das vezes, estão corretos. Inclusive em relação à pontuação. Eu já estava chocada com as mudanças da editora logo no segundo parágrafo, quando cheguei ao terceiro (com uma certa esperança de que seria diferente). A partir daí pipocaram meu texto em vírgulas (acho que tentaram simplificar frases compridas, e erraram muito). Agora ele parece mais um carro andando em primeira marcha (a editora colocaria uma vírgula aqui, por exemplo) do que algo fluente. Alteraram verbos, palavras, setenças que, agora, envergonham. Certamente eu própria não indicarei meu texto (que não é mais meu) para alunos, amigos e professores. Também não indico esta editora. Infelizmente!

Eu fico emputecida com esta linguagem acadêmica empobrecida em que as frases são construções simples e se resumem ao sujeito, verbo, predicado, ponto, sujeito, verbo, predicado, ponto, sujeito, verbo, predicado, ponto. Frases curtas e superficiais revelam um texto primário, de escola mesmo, não um texto universitário.

O gato subiu no telhado. Em cima do telhado ele abanou o rabo. O rabo do gato era malhado. O gato não era malhado, só o rabo é que era. O gato subiu no telhado.