Na crise das orientações acadêmicas, as lamentações me chegam por todos os poros. É ex-aluno que invade meu msn num apelo “professora, a senhora faz falta naquela universidade, posso ter fazer uma perguntinha?”. Como eu dava aulas de Metodologia de Pesquisa não era difícil imaginar o que estava por vir: como fazer busca, onde encontrar material, como fazer citação, como isso, como aquilo ou, então: “professora, o meu orientador não consegue entender que meu tema não tem referências bilbiográficas...”. Bom, isso eu também não entendo. Em última instância sempre se pode recorrer aos socráticos, aos pós-socráticos e aos pré-socráticos. E que vontade de gritar: contextualize-se fulano, contextualize-se! Ah, sim, foi essa turma que reclamou, um dia, que minha prova estava difícil: “professora, o que a senhora quer dizer com contextualize?”. Hein? Tá.
Mas como eu ia dizendo, as lamentações me chegam por todos os poros. Minha amiga que está no doutorado está indignada. É que o orientador dela não quer aceitar um co-orientador. Eita vaidade socrática, pré-socrática e pós-socrática. Então ela desabafa: “o que ele entende deste assunto? Acha que entende, mas não entende. Nós precisamos de ajuda, pow!”. Nós eu não sei, ela com certeza. E muita. Bom é que se legalmente não se pode contar com um co-orientador, pode-se perfeitamente pagar um supervisor (vou juntar ao cargo de palestrante: supervisora). Sem contar pro orientador? Ó deus, haverá alguma ética acadêmica neste jogo de esconde-esconde?
E por aí caminha a vida acadêmica. Hoje o ex-amante ligou (foda-se se a mulher dele ler este post, e tomara que sim). Perguntou da minha vida e coisa e tal. E a minha vida acadêmica está ótima. O bom de estar no doutorado é que você já sacou o esquema e deixa os orientados de mestrado lamberem o seu orientador. Eles mostram serviço enquanto os doutorandos cuidam de suas próprias vidas. Isso é bom porque dá para desestressar um pouco da política gugu-dadá da pós.
Mas na lista de lamentações, outra amiga disse que emburrou com a orientadora e desistiu do mestrado. Ainda tem aquela amiga que diz que não quer pagar preço tão alto no doutorado. E por aí vai. Mas os homens? Eles são orientandos tão mais práticos, como o ex-amante professor doutor que veio numa frase dolorida: "pega o que você já tem do seu livro e termina o doutorado, daí você entra num concurso público, e vai dar aula!". E neste pega=pega socrático, pré-socrático, pós-socrático eu esqueci de avisá-lo que já deixei de ser professora para ser palestrante... que não me atrai a idéia de ter 60 anos (a idade dele) contando os dias de licença prêmio ou os dias para a aposentadoria, nem viver um casamento acomodado. É, eu não contei nada disso. E que tristeza saber que ele não entendeu nada. Que eu aceitei fazer este doutorado maluco, pagando o preço do amor (do amor passado), numa tentativa louca de virar a mesa. A palestrante... A escritora... A supervisora... A editora ... Aquela coisa meio socrática, pré-socrática e pós-socrática de felicidade...
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Trabalho, Amor e Diversão
Trabalho, Amor e Diversão
Por Fernanda Ramirez
Só um ano depois eu entendi que aquela frase poderia me ter sido um tapa na cara:
- Professora, a senhora se diverte mais que a gente!
Na época eu não dei por conta, mas era uma crítica capital. E das grandes. Daquelas que chegam de mansinho e se instalam bem no meio do nosso peito, onde se grudam, e se grudam, e se grudam, e cuja mais-valia esbarra-se no não ser. Eu era. Sempre fui uma qualquer coisa que sorri. Uma qualquer coisa que sente prazer. Uma qualquer coisa viva que exige da vida a vida.
Anos antes, e porque eu sorri demais, me deram as contas. Embraveci. Então eu briguei, questionei, berrei e lutei por ser quem eu era: uma professora, e das boas. O chefe do campus (não o do curso), que tinha enviado meu nome para a reitoria com o doce propósito de se esbanjar no alto do seu poder para me demitir, voltou atrás com a ressalva de que eu, naquele campus (e só naquele em que ele era chefe), não poria mais meus pés, finalizando sua fala com um tiro certeiro: quem ela pensa que é?
Uma qualquer coisa que sorri quando chega na sala dos professores e, contrariando o mundo amargo do trabalho, diz bom dia. Uma qualquer coisa que sente prazer e, contrariando a ordem natural do trabalho, se diverte mais que alunos desesperados em busca de um diploma e aumento nos seus salários de operadores de telemarketing, onde seguirão carreira, algo bem comum em se tratando de universidade particular. Uma qualquer coisa viva que exige da vida a vida traçada pelas próprias mãos.
Só muito tempo depois eu entendi que aquela frase poderia me ter sido um tapa na cara:
- Professora, além de dar aulas, a senhora também trabalha?
E porque eu sempre fiz arte da docência e da docência, arte, o tom da censura, que me dou conta apenas agora, chega ao apelo da surdina: “arte? Ora pois, minha querida, o trabalho gera é sofrimento. Entende? E na roleta-russa da nova ordem capital das coisas, todo sofrimento gera um mercado. De empregos, de diplomas, de eu finjo que ensino enquanto você finge que aprende”.
A censura que no passado não vi, hoje me desvela uma verdade que me incomoda há muito tempo. Que a diversão não é dada ao trabalho. Alguém, um dia, profetizou esta combinação de impossível, e a regra se fez: trabalho é trabalho, lazer é lazer. E no fio que aí se tece, não pode a professora rir mais que o aluno, ou ela ter mais prazer que diretor, porque ambiente de trabalho é ambiente árduo, com tarefas pesadas e desgostosas, onde a alegria não põe banca. Tem só um tal de bater o ponto, seguir ordens, dar ordens, cumprir metas e um filetinho de cartilagem para facilitar a respiração apenas por um segundo, e dentro do banheiro, quando não tem ninguém olhando.
Na fila dos desempregados, qualquer primeiro emprego serve. Isso me parece bizarro, não parece para você? E chora-se de alívio por uma vaga de ascensorista, de gari ou qualquer coisa destinada à sobrevida. Parece mesmo é que a sociedade está mal organizada porque bem diz um amigo meu, que está prestando prova para ser diplomata (e será), este tipo de trabalho deveria ser feito por esta gente que anda por estes presídios, e de justa causa. Ele continua: “matou? Vai limpar bosta nos esgotos, durante a madrugada, e levar descarga na cara”. Taí, a idéia é boa e eu to assinando embaixo.
Mas no fim das contas, a coisa me vem na veia:
- Você sorri demais, quem é que vai levar você a sério?
E quando a frase vem do amigo mais amigo que a gente tem, é de bom tom parar um pouco pra pensar. No susto, a constatação de que uma vida alegre não é séria. Respeito? Meu amigo tem dúvidas, os alunos questionam e os homens me avaliam pela minha juventude com uma navalha na minha carne quando me dizem “eu não tenho mais trinta anos” (e logo em seguida saem desfilando mulheres ainda mais jovens e mais menininhas – acho que é pra juntar com o menininho que muitos deles são). E se no mundo do trabalho não se pode mais sorrir, no mundo do amor a diversão pode ser sinal de falta de compromisso. “Por isso os homens não te levam à serio, minha querida!” Mas que explicação mais chinfrim esta, viu.
Foi só muitos meses depois eu me dei conta de que aquela frase poderia me ter sido um tapa na cara:
- Você se diverte com isso, não é?
Isso era eu e ele. Eu tinha achado mesmo muito bizarro a tietagem das outras mulheres. Então fiz o fato virar crônica, virar humor, virar vida. Achei graça dele. Sorri. Eu queria dizer que eu ria do prazer da vida, da alegria daquele dia, da sensação boa da amizade que entre nós ameaçava existir, da felicidade que me levou até ele. Eu queria dizer que eu rio à beça quando faço sexo e que quando eu tenho um orgasmo eu rio por dentro. E que isso poderia ter sido eu e ele.
Eu ainda queria dizer que eu rio de novo só de lembrar. Que eu me divirto. Que eu sou assim, um riso sincero, verdadeiro e pau-pra-toda-obra. Que sou muito mal-humorada quando não estou rindo, que minha cara fica feia e parece um buldogue abandonado. E por parecer um buldogue abandonado eu rio da minha cara e do meu mal-humor. E que eu me divirto da minha incoerência, das minhas dúvidas, do meu desejo. Que eu rio porque eu levo a vida muito a sério e não há melhor maneira de amar, nem de trabalhar, que não seja rindo.
Desse jeito, quando eu voltasse pra nossa casa depois de um dia, eu não precisaria soltar aquela: em casa não se discute trabalho.
Por Fernanda Ramirez
Só um ano depois eu entendi que aquela frase poderia me ter sido um tapa na cara:
- Professora, a senhora se diverte mais que a gente!
Na época eu não dei por conta, mas era uma crítica capital. E das grandes. Daquelas que chegam de mansinho e se instalam bem no meio do nosso peito, onde se grudam, e se grudam, e se grudam, e cuja mais-valia esbarra-se no não ser. Eu era. Sempre fui uma qualquer coisa que sorri. Uma qualquer coisa que sente prazer. Uma qualquer coisa viva que exige da vida a vida.
Anos antes, e porque eu sorri demais, me deram as contas. Embraveci. Então eu briguei, questionei, berrei e lutei por ser quem eu era: uma professora, e das boas. O chefe do campus (não o do curso), que tinha enviado meu nome para a reitoria com o doce propósito de se esbanjar no alto do seu poder para me demitir, voltou atrás com a ressalva de que eu, naquele campus (e só naquele em que ele era chefe), não poria mais meus pés, finalizando sua fala com um tiro certeiro: quem ela pensa que é?
Uma qualquer coisa que sorri quando chega na sala dos professores e, contrariando o mundo amargo do trabalho, diz bom dia. Uma qualquer coisa que sente prazer e, contrariando a ordem natural do trabalho, se diverte mais que alunos desesperados em busca de um diploma e aumento nos seus salários de operadores de telemarketing, onde seguirão carreira, algo bem comum em se tratando de universidade particular. Uma qualquer coisa viva que exige da vida a vida traçada pelas próprias mãos.
Só muito tempo depois eu entendi que aquela frase poderia me ter sido um tapa na cara:
- Professora, além de dar aulas, a senhora também trabalha?
E porque eu sempre fiz arte da docência e da docência, arte, o tom da censura, que me dou conta apenas agora, chega ao apelo da surdina: “arte? Ora pois, minha querida, o trabalho gera é sofrimento. Entende? E na roleta-russa da nova ordem capital das coisas, todo sofrimento gera um mercado. De empregos, de diplomas, de eu finjo que ensino enquanto você finge que aprende”.
A censura que no passado não vi, hoje me desvela uma verdade que me incomoda há muito tempo. Que a diversão não é dada ao trabalho. Alguém, um dia, profetizou esta combinação de impossível, e a regra se fez: trabalho é trabalho, lazer é lazer. E no fio que aí se tece, não pode a professora rir mais que o aluno, ou ela ter mais prazer que diretor, porque ambiente de trabalho é ambiente árduo, com tarefas pesadas e desgostosas, onde a alegria não põe banca. Tem só um tal de bater o ponto, seguir ordens, dar ordens, cumprir metas e um filetinho de cartilagem para facilitar a respiração apenas por um segundo, e dentro do banheiro, quando não tem ninguém olhando.
Na fila dos desempregados, qualquer primeiro emprego serve. Isso me parece bizarro, não parece para você? E chora-se de alívio por uma vaga de ascensorista, de gari ou qualquer coisa destinada à sobrevida. Parece mesmo é que a sociedade está mal organizada porque bem diz um amigo meu, que está prestando prova para ser diplomata (e será), este tipo de trabalho deveria ser feito por esta gente que anda por estes presídios, e de justa causa. Ele continua: “matou? Vai limpar bosta nos esgotos, durante a madrugada, e levar descarga na cara”. Taí, a idéia é boa e eu to assinando embaixo.
Mas no fim das contas, a coisa me vem na veia:
- Você sorri demais, quem é que vai levar você a sério?
E quando a frase vem do amigo mais amigo que a gente tem, é de bom tom parar um pouco pra pensar. No susto, a constatação de que uma vida alegre não é séria. Respeito? Meu amigo tem dúvidas, os alunos questionam e os homens me avaliam pela minha juventude com uma navalha na minha carne quando me dizem “eu não tenho mais trinta anos” (e logo em seguida saem desfilando mulheres ainda mais jovens e mais menininhas – acho que é pra juntar com o menininho que muitos deles são). E se no mundo do trabalho não se pode mais sorrir, no mundo do amor a diversão pode ser sinal de falta de compromisso. “Por isso os homens não te levam à serio, minha querida!” Mas que explicação mais chinfrim esta, viu.
Foi só muitos meses depois eu me dei conta de que aquela frase poderia me ter sido um tapa na cara:
- Você se diverte com isso, não é?
Isso era eu e ele. Eu tinha achado mesmo muito bizarro a tietagem das outras mulheres. Então fiz o fato virar crônica, virar humor, virar vida. Achei graça dele. Sorri. Eu queria dizer que eu ria do prazer da vida, da alegria daquele dia, da sensação boa da amizade que entre nós ameaçava existir, da felicidade que me levou até ele. Eu queria dizer que eu rio à beça quando faço sexo e que quando eu tenho um orgasmo eu rio por dentro. E que isso poderia ter sido eu e ele.
Eu ainda queria dizer que eu rio de novo só de lembrar. Que eu me divirto. Que eu sou assim, um riso sincero, verdadeiro e pau-pra-toda-obra. Que sou muito mal-humorada quando não estou rindo, que minha cara fica feia e parece um buldogue abandonado. E por parecer um buldogue abandonado eu rio da minha cara e do meu mal-humor. E que eu me divirto da minha incoerência, das minhas dúvidas, do meu desejo. Que eu rio porque eu levo a vida muito a sério e não há melhor maneira de amar, nem de trabalhar, que não seja rindo.
Desse jeito, quando eu voltasse pra nossa casa depois de um dia, eu não precisaria soltar aquela: em casa não se discute trabalho.
Formaturas, Colações e Becas
E a semana veio tinindo. Por msn: “Professora, hoje é a nossa colação, a senhora vai, né?” Não, não é. Quer dizer, seria, se eu tivesse sido convidada. Mas não fui. Não foi? É, não fui. E agora é meio tarde pra chorar o leite derramado. Mas professora...
E o meio da semana veio tinindo. Outro msn, outro aluno, outra turma. “Professora, hoje é a nossa colação, a senhora vai, né?” Não, não é. Quer dizer, seria. Já disse isso, não disse? É que na cópia da vida, não fui convidada. Não foi? É, não fui. E agora é meio tarde, você sabe, o leite.
E o fim de semana veio tinindo num repeteco que mais pareceu ser uma piada. Mais um msn. “Professora, posso te fazer uma pergunta, a senhora não foi convidada para nossa formatura?” Não, não fui. Lembra do leite? Pois é, é, pois é. “Culpa minha professora... eu deveria...”
Não, não se culpe. É assim, de vai-vem que a coisa desatina.
E eu não saberia administrar três bailes no mesmo dia, mais o aniversário da minha prima. Coisas da vida. É, coisas da vida.
De qualquer forma é bom saber que a gente não passou a largo na vida de alguns alunos. E, considerando que eu não dou aulas nestas instituições tem mais de ano, a semana foi boa. Gostei.
Alunos queridos e amados, a gente se vê nas becas que o mundo dá.
Parabéns a vocês pela conquista, pelo título e pela maturidade.
E um beijo especial.
E o meio da semana veio tinindo. Outro msn, outro aluno, outra turma. “Professora, hoje é a nossa colação, a senhora vai, né?” Não, não é. Quer dizer, seria. Já disse isso, não disse? É que na cópia da vida, não fui convidada. Não foi? É, não fui. E agora é meio tarde, você sabe, o leite.
E o fim de semana veio tinindo num repeteco que mais pareceu ser uma piada. Mais um msn. “Professora, posso te fazer uma pergunta, a senhora não foi convidada para nossa formatura?” Não, não fui. Lembra do leite? Pois é, é, pois é. “Culpa minha professora... eu deveria...”
Não, não se culpe. É assim, de vai-vem que a coisa desatina.
E eu não saberia administrar três bailes no mesmo dia, mais o aniversário da minha prima. Coisas da vida. É, coisas da vida.
De qualquer forma é bom saber que a gente não passou a largo na vida de alguns alunos. E, considerando que eu não dou aulas nestas instituições tem mais de ano, a semana foi boa. Gostei.
Alunos queridos e amados, a gente se vê nas becas que o mundo dá.
Parabéns a vocês pela conquista, pelo título e pela maturidade.
E um beijo especial.
Aula 01: O Adeus Docente
Atenção! Silêncio! Rodando!
Primeiro dia de aula, o professor se apresenta. E em muitos casos (na maioria deles?) é como se ele se despedisse. É que a constatação acontece neste dia: "a cada ano que passa vejo que os alunos chegam piores no Ensino Superior", frase de um professor doutor, amigo meu, e que certamente está na boca de outros tantos professores doutores, mestres, especialistas, graduados, normalistas. Meu primo faz estágio, e pegou uma turma de EJA (Educação de Jovens Adultos). Quer largar, diz que se desiludiu, e não é pra menos.
Aula número um: O Adeus Docente.
Ano número um: O Adeus Docente.
E em homenagem à esta educação que já começa falida, fiz este selinho comemorativo:
Pegue e use à vontade!
Primeiro dia de aula, o professor se apresenta. E em muitos casos (na maioria deles?) é como se ele se despedisse. É que a constatação acontece neste dia: "a cada ano que passa vejo que os alunos chegam piores no Ensino Superior", frase de um professor doutor, amigo meu, e que certamente está na boca de outros tantos professores doutores, mestres, especialistas, graduados, normalistas. Meu primo faz estágio, e pegou uma turma de EJA (Educação de Jovens Adultos). Quer largar, diz que se desiludiu, e não é pra menos.
Aula número um: O Adeus Docente.
Ano número um: O Adeus Docente.
E em homenagem à esta educação que já começa falida, fiz este selinho comemorativo:
Pegue e use à vontade!
Mais um semestre
Está chegando o fim de ano, mais um semestre se passou. Notas que vão sendo entregues, provas finalizadas. Alunos de exame ou DP. Coisas do dia-a-dia mesmo. Professores sendo demitidos antes do natal e pelos correios. Motivo: custam caro para a instituição, então vão contratar mão-de-obra mais barata. Meus alunos acham que professores universitários ganham bem, mas eu tenho muitos alunos que ganham muito mais do que eu. Eu fico pensando se algum dia o país vai melhorar o salário dos professores e investir, de fato, em educação. Paliativos como as cotas, sinceramente, me irritam. Não as cotas, os paliativos mesmo, como a tal da aprovação automática. Um crime! Estão brincando com minha vida, estão me transformando na piada do dia e eu estou mesmo é querendo chegar logo com os dois pés no peito. Na porrada!
Fale com a minha mão!

Este post é para meus amigos que querem notícias de lá da ilha. É para os velhinhos do café, meus amigos de coração. É para meus alunos que viveram comigo a expectativa; meu chefe. Para aqueles que eu amo e que também me amam - meus grandes amigos - e, principalmente para quem acompanha este blog.
Começo dizendo que a universidade, endogâmica, é mesmo cruel. Pensei nestes dias, com estes meus botões digitais (porque tudo é, de fato, digital), que a crueldade das bancas acadêmicas existe apenas quando a gente não conhece ninguém e decide enfrentar a situação com a cara e com a coragem (mais com a coragem do que com a cara). Eu fui para a ilha com a coragem, deveria ter levado a cara de pau também, mas sei lá por onde ela anda.
Segunda-feira foi dia de prova classificatória que, até então, considerei que manteria todos os candidatos no mesmo nível. Minutos antes de entrar na sala percebi que a coisa não ia ser tão simples assim. É que o cara da banca cumprimentou todos os candidatos (velhos amigos) e a mim restou apenas um levantar leve de sobrancelhas como quem diz: você não desistiu ainda? Ignorei, tomei acento e esperei entregarem as provas. Fui fazendo, escrevendo, pensando nas próximas linhas. Passadas duas horas e meia de prova, os primeiros candidatos começaram a entregá-la. O cara da banca, muito simpático e solícito, disse para o primeiro que o estaria esparando mais tarde lá na sua sala. Para o segundo fez uma piada, riu, gracejou. Para o terceiro pediu que ligasse para que acertarem alguns detalhes (até deu o número do telefone!). E por ai foi até que me levantei e entreguei minha prova. O homem estava sentado, lendo algumas coisas de quem lhe interessava (os outros candidatos) e me ignorou. Desta vez nem levantou as sobrancelhas. Nada. A postura escrachada que ele assumiu na cadeira o deixava com a barriga saliente (daqueles que se acham poderosos por serem os donos do pedaço), pernas afastadas faltava ele coçar o saco (sinal de poder) e me mostrar o dedo. Eu imaginei a cena e ri por dentro querendo mesmo rir por fora.
Então na terça-feira eu voltei para a tal da entrevista. A menina que estava antes de mim ficou 10 minutos a mais e na saida deixou escapar: "então tá professor, eu fico te esperando para a gente ver o projeto e as coisas que faltam". Disse como quem sabe que já está tudo certo, parte da endogamia. O professor, aquele que você espera ser seu orientador confirma, diz alguma coisa com jeito de quem sabe mesmo que já está tudo certo. Mas comigo o cara foi simpático, caloroso. Fez umas perguntas, estabeleceu um contato quando chegou o outro, o mesmo do dia anterior. Desafiando. Tá, faz sentido, é entrevista para o doutorado, não é a casa da Mãe Joana. E fez umas perguntas que eu não entendi por pura questão de significantes mesmo, já que os meus são diferentes dos dele. Lá pelas tantas ele se vira e diz: "tente nos convencer de que você deveria fazer doutorado aqui com a gente". Eu estava tentando quando chega uma moça, invade a entrevista e diz a este cara que tem um telefonema pra ele. Eu já achei estranho alguém invadir uma entrevista de doutorado. Coisa de respeito. Mas acho que o cara achou normal, levantou-se e disse: "pode continuar falando, tente convencê-lo". E saiu, assim, como se eu não fizesse diferença alguma, como se eu estivesse falando para as paredes. Voltou 5-10 minutos depois com uma cara que lhe é peculiar e sentenciou: "já conseguiu convencê-lo?" Olhei para a calça jeans dele e pensei que esta deveria ser sua melhor roupa. Respondi as outras perguntas apenas por responder porque eu já tinha entendido o "dane-se você, eu não te conheço". Na saida ainda tive tempo de escutar "a gente se vê por ai, vai com Deus", que saiu pelo tropeço do inconsciente (é, Freud explica isso mesmo). E eu voltei pra casa pensando que quando eu for dona do poder, quando eu der a volta por cima sei lá por qual vez, quando tudo isso eu vou me lembrar de não ser assim tão tosca.
(Entre Perênteses)
Eu recebi um e-mail triste de um amigo muito querido. Um dos meus melhores amigos. Dizia-se abandonado. Que ele se abandonou quando escolheu a carreira docente. Mais ou menos isso. De qualquer forma, foi muito triste ouvir isso dele, porque eu sempre achei que ele tivesse tesão pela docência. Ou o tanto que se pode ter em um sistema tão falido. <
Estas Memórias...
No último ano em que eu cursava graduação, não me lembro se no 1º ou 2º semestre, um professor pediu para que escrevessemos nossas memórias acadêmicas. Hoje, por conta de eu estar escrevendo um outro memorial, retomei o antigo. Não penso mais exatamente desta forma, mas achei interessante:
"Os últimos semestres vêm se tornando cada vez mais insuportáveis, não só pela divisão da grade horária que nos limita enquanto futuros profissionais, mas pela espera da qualidade nos serviços que nos são oferecidos. Se eu fosse relatar o que achei de cada disciplina, retornaria ao final de cada semestre e reescreveria minhas críticas, o que causaria uma grande sensação de tempo perdido. Todas as matérias foram aproveitas de acordo com as potencialidades oferecidas. Algumas foram boas e outras não tão eficientes assim, como alguns professores foram merecedores de atenção e outros não. De um modo geral, enquanto algumas disciplinas acrescentavam conhecimentos, outras só aumentavam o desejo de aproveitar melhor o tempo perdido. Como adquirir conhecimento não é estar sentado em uma sala de aula ouvindo um professor falar a mesma coisa para pessoas com velocidades e interesses diferentes, e sabendo que alguns alunos podem melhorar seus conhecimentos aproveitando o tempo de outra forma, ruim é passar anos acordando mais cedo em busca de um tempo perdido. "
Andando pra trás?
De cara eu caí na pós-graduação. Antes eu só havia ministrado um curso de extensão. Com um ano de formada, eu não era nada, eu não tinha título, nem especialização nem mestrado, apenas muita coragem. Foi com esta coragem que eu segui em frente. Outros cursos vieram, mas eu sentia que me faltava traquejo, que era hora de eu ser mais pé no chão e ir lecionar na graduação.
Isso já tem 3 anos. Tem 3 anos que o capitalismo do ensino superior me tem feito andar para trás. E foi uma opção minha, que eu não lamento mas que penso em abandonar, seriamente. Se já tem um ano que não dou mais aulas na pós, estou andando para trás.
Estou andando para trás porque - em uma das faculdades que leciono - o professor é um número. Se ele tem mestrado, é um número alto. Se tem doutorado, é um número absurdo. A coordenação não quer saber, nem dos professores, nem dos alunos. Neste semestre me assassinaram, acabaram com a seqüência do meu projeto educacional quando me tiraram de uma turma, da minha turma. Mas me precisavam para tapar buracos, que não estou a fim. Tem 3 anos que eu estou tapando buracos e tem 3 anos que eu estou andando para trás.
Mas eu cansei de ser palhaço neste mundo acadêmico. Cansei de andar para trás. Então eu liguei pro coordenador e lhe disse que ficaria muito agradecida se ele me mandasse embora no fim do ano. Eu quero andar para frente, fazer doutorado (e estou apostando nele!). Então me disseram que era bobagem, que as universidades não contratam doutores, por causa dos números. Bah! Tudo bem, que fechem as cortinas porque eu não quero mais ser um número, eu não quero mais andar para trás!
Mais um semestre...

É, o veranico acabou. E com ele, as férias. Um pouco frustrante passar as férias de inverno longe do vinho, do fondue, da sopa na casca do pão italiano, do chocolate quente no alto da Serra da Cantareira ou do filminho debaixo das cobertas.
Na segunda-feira o inverno bateu, chegou com tudo, com chuva inclusive. Bom pro filminho! Mas que nada, sai da frente que as aulas também chegaram, e com tudo. É uma tal de grade horária, dividir turma, quadra, aluno e uma vontade louca de clonar professor porque a instituição, coitada, anda sem verba para contratar gente nova. Telefone, telefone, telefone! No meio da tarde desliguei o celular e no começo da noite lá estava eu no trânsito maluco da av. Ibirapuera, questionando-me se seria melhor eu estar a caminho da Serra, pro chocolate quente e um bom papo de inverno. Encontro programado pro sábado e estão todos convidados!
Antes, porém, eu queria dizer a todos, Benvindos! E vamos em frente, com textos novos, gente nova, gente velha, gente boa de mais! Todos vocês que participam, que escrevem, que comentam, que passam rapidinho só para dar uma olhadinha, todos vocês, gente boa de mais! Só tenho a agradecer e dizer sorrindo, junto a minha taça de vinho, um até breve!
Por e-mail...
"Oi Fernanda estou no terceiro semestre de Educação Física, período noturno, e queria tirar uma dúvida já que não conversei com você... Eu não fiz o trabalho de metodologia do primeiro semestre (p1) e nem o do segundo (p2)... no caso estou direto de exame... Gostaria de saber se tem possibilidade de alcançar a média e como faço para isso acontecer. Levo todos os trabalhos , inclusive o do primeiro bimestre, faço alguma prova ... Por favor me mande uma resposta ... Você percebeu que é caso de vida ou morte né... rs..."Eu não dei, mas toma lá a resposta que eu gostaria de ter enviado: por mim você pode encomendar o caixão!
Mas não depende de mim...
Memorial
Lembram daquela coisa que eu sempre digo, dos alunos deixarem de ser a piada do dia? Ou então quando eu prefiro que eles sejam sujeitos e não objetos? Na matéria de Metodologia de Pesquisa eu solicitei que eles escrevessem seus memoriais acadêmicos, para se tornarem sujeitos. E não era tarefa obrigatória. Transcrevo abaixo uma frase de cada memorial que recebi, na certeza de que estes alunos deixarão de serem a piada do dia.
"A profissão de marceneiro exerço até hoje em uma escola de menores carentes. Chegando nesta escola a diretora pediu para eu ficar com as crianças na entrada e na saída dos alunos e recreação. Percebi que tenho muito jeito para lidar com crianças, mas jamais me passou pela cabeça entrar em uma universidade (...)."
"Como minha irmã também havia decidido fazer Educação Física, então iniciamos juntos o curso."
"Alguns dias antes do começo das aulas me ligaram da faculdade dizendo que não haviam aberto o curso de turismo por alguns motivos, e perguntaram se eu queria mudar de unidade ou de curso. Sem pensar duas vezes eu mudei para Educação Física para ver no que ia dar, e deu que hoje, em 2006, eu trabalho na área. sou professor de natação, adoro meu curso, não me vejo fazendo outra coisa (...), acho que desde o começo tudo me levava à Educação Física, mas foi preciso algo maior para me fazer enxergar isso."
"No meu primeiro dia de aula quando entrei pela primeira vez em uma faculdade fiquei maravilhado com o tamanho da instalação do lugar, me sentia a menor pessoa do mundo e o relógio neste dia passou muito rápido."
"Quando começou o curso eu não estava muito animado porque fiquei um bom tempo sem estudar, mas hoje posso dizer que estou muito satisfeito com o curso e não me arrependo nada de ter entrado na faculdade."
"Hoje a única coisa que eu lamento é não ter começado mais cedo a fazer o curso, e assim adiquirir experiência profissional, e ter vivenciado mais (...). Vendo professores com minha idade, hj tenho muita vontade de trabalhar na área."
"Estou gostando do curso, podendo utilizá-lo futuramente dentro da minha profissão e podendo me trazer melhores benefícios na carreira."
"Agora em um futuro próximo, assim eu espero, eu pretendo ser um profissional bem conceituado no mercado, não sendo que nem meu professor de natação [ou] que nem o técnico de futebol que tive, mas sim, sendo que nem meu professor de Educação Física na escola, que me incentivava e me colocava de exemplo para os outros alunos. Hoje eu entendo o porque disso: era uma forma de me mostrar que era capaz de ensinar outros sem saber que estava fazendo isso."
"Os professores que tive no colegial não eram muito interessados em dar aula não. No meu ponto de vista só queriam ganhar seu dinheiro no final do mês, mas agora na faculdade tive a convicção que seria e vou ser profissional porque comecei a estudar mais sobre a área e a me interessar mais."
"Diante destes fatos estou (...) levando o estudo mais à sério, realizando meu desejo profissional e o da minha mãe, que é ver o filho dela formado em uma universidade."
"Como faço dança há quase 10 anos, todos falavam que eu deveria fazer algo ligado à essa atividade que tanto amo."
"Gosto muito da faculdade, tirando que ainda tem alunos que acham que estão na 8ª série, que só sabem atrapalhar os outros, que não se comportam como pessoas normais."
"Vinda de uma família simples tive uma boa educação e acredito que isso foi primordial para minha formação e para ser o que sou hoje."
"Na escola em que trabalho fui reconhecida e aumentaram meu salário, tudo que eu precisava para ficar tranquila, pois sabia que com o salário que ganhava não iria resistir por muito tempo e ia chegar o momento de desistir (...)."
"(...) quando estou dando aula me sinto bem, pois vejo a alegria dos alunos e como faz bem para saúde e pro psicológico das pessoas a atividade física."
"O meu futuro profissional será muito promissor, pois tudo que me proponho a realizar faço com todo carinho e dedicação e quando já não estou mais satisfeita com algo procuro não atrapalhar a quem tenta se empenhar para mostrar seu melhor."
"Enfim, minhas expectativas futuras é de me tornar um bom profissional e com isso fazer valer todos esses anos de estudos, lembrando sempre que o tempo não pára e devemos aproveitar todas as oportunidades que nos são concebidas, por isso faço sempre o que gosto."
"E quando se completarem 10 anos eu quero estar completamente satisfeita com minha vida profissional, para assim poder fazer mestrado e ter a oportunidade de ensinar outras pessoas que tenham a mesma vontade que eu, de poder ajudar o desenvolvimeto de quem precisa e poder capacitá-los no seu início de carreira como eu estou hoje."
"A profissão de marceneiro exerço até hoje em uma escola de menores carentes. Chegando nesta escola a diretora pediu para eu ficar com as crianças na entrada e na saída dos alunos e recreação. Percebi que tenho muito jeito para lidar com crianças, mas jamais me passou pela cabeça entrar em uma universidade (...)."
"Como minha irmã também havia decidido fazer Educação Física, então iniciamos juntos o curso."
"Alguns dias antes do começo das aulas me ligaram da faculdade dizendo que não haviam aberto o curso de turismo por alguns motivos, e perguntaram se eu queria mudar de unidade ou de curso. Sem pensar duas vezes eu mudei para Educação Física para ver no que ia dar, e deu que hoje, em 2006, eu trabalho na área. sou professor de natação, adoro meu curso, não me vejo fazendo outra coisa (...), acho que desde o começo tudo me levava à Educação Física, mas foi preciso algo maior para me fazer enxergar isso."
"No meu primeiro dia de aula quando entrei pela primeira vez em uma faculdade fiquei maravilhado com o tamanho da instalação do lugar, me sentia a menor pessoa do mundo e o relógio neste dia passou muito rápido."
"Quando começou o curso eu não estava muito animado porque fiquei um bom tempo sem estudar, mas hoje posso dizer que estou muito satisfeito com o curso e não me arrependo nada de ter entrado na faculdade."
"Hoje a única coisa que eu lamento é não ter começado mais cedo a fazer o curso, e assim adiquirir experiência profissional, e ter vivenciado mais (...). Vendo professores com minha idade, hj tenho muita vontade de trabalhar na área."
"Estou gostando do curso, podendo utilizá-lo futuramente dentro da minha profissão e podendo me trazer melhores benefícios na carreira."
"Agora em um futuro próximo, assim eu espero, eu pretendo ser um profissional bem conceituado no mercado, não sendo que nem meu professor de natação [ou] que nem o técnico de futebol que tive, mas sim, sendo que nem meu professor de Educação Física na escola, que me incentivava e me colocava de exemplo para os outros alunos. Hoje eu entendo o porque disso: era uma forma de me mostrar que era capaz de ensinar outros sem saber que estava fazendo isso."
"Os professores que tive no colegial não eram muito interessados em dar aula não. No meu ponto de vista só queriam ganhar seu dinheiro no final do mês, mas agora na faculdade tive a convicção que seria e vou ser profissional porque comecei a estudar mais sobre a área e a me interessar mais."
"Diante destes fatos estou (...) levando o estudo mais à sério, realizando meu desejo profissional e o da minha mãe, que é ver o filho dela formado em uma universidade."
"Como faço dança há quase 10 anos, todos falavam que eu deveria fazer algo ligado à essa atividade que tanto amo."
"Gosto muito da faculdade, tirando que ainda tem alunos que acham que estão na 8ª série, que só sabem atrapalhar os outros, que não se comportam como pessoas normais."
"Vinda de uma família simples tive uma boa educação e acredito que isso foi primordial para minha formação e para ser o que sou hoje."
"Na escola em que trabalho fui reconhecida e aumentaram meu salário, tudo que eu precisava para ficar tranquila, pois sabia que com o salário que ganhava não iria resistir por muito tempo e ia chegar o momento de desistir (...)."
"(...) quando estou dando aula me sinto bem, pois vejo a alegria dos alunos e como faz bem para saúde e pro psicológico das pessoas a atividade física."
"O meu futuro profissional será muito promissor, pois tudo que me proponho a realizar faço com todo carinho e dedicação e quando já não estou mais satisfeita com algo procuro não atrapalhar a quem tenta se empenhar para mostrar seu melhor."
"Enfim, minhas expectativas futuras é de me tornar um bom profissional e com isso fazer valer todos esses anos de estudos, lembrando sempre que o tempo não pára e devemos aproveitar todas as oportunidades que nos são concebidas, por isso faço sempre o que gosto."
"E quando se completarem 10 anos eu quero estar completamente satisfeita com minha vida profissional, para assim poder fazer mestrado e ter a oportunidade de ensinar outras pessoas que tenham a mesma vontade que eu, de poder ajudar o desenvolvimeto de quem precisa e poder capacitá-los no seu início de carreira como eu estou hoje."
2º dia - o naufrágio
É, a chuva do primeiro dia continuou até a manhã do meu segundo dia na instituição. Tempestade mesmo. Claro, saí super cedo de casa, não tinha alagamento nem nada. Cheguei na faculdade parecendo um zumbi, quase 50 minutos antes do inicio das aulas. Eu, que odeio acordar cedo, um zumbi num campus deserto. Meia hora depois fui até a sala dos professores, ninguém. Acendi a luz e por lá fiquei. Dez minutos depois encontrei com o coordenador, que também é o responsável pela disciplina que lecionaremos. Às 7:30, inicio da aula ele me disse: "espere a outra professora chegar e vocês juntam os alunos que estiverem por aí e falam alguma coisa". Cumpro ordens. Oito horas e a professora não apareceu. Uns alunos foram me procurar, queriam pintar os bichos. Conversamos um pouco. Oito e meia e nada. Os alunos voltam dizendo que um professor resolveu dar aula pro primeiro ano. Conversamos mais um pouco, como se eu estivesse apenas fazendo sala. Nove horas e nada. O professor do primeiro ano libera os alunos. Nove e meia decido ir até o Recursos Humanos. Na volta, quase dez horas vejo a professora estacionando o carro. Ela me pergunta: "tinha aluno aí?". Dez e pouco vamos todos ao Centro de Convivência tomar um café. Quase uma hora depois estou voltando pra casa me sentindo uma inútil ou como se eu não precisasse acordar tão cedo para um dia como esses. Naufrago em meus próprios pensamentos, aqueles, os éticos.
1º dia - porque o professor também bóia
Ontem foi meu primeiro dia na instituição. O primeiro dia como professora, ou quase. Antes, no sábado passado, eles fizeram algo interessante. Elaboraram uma recepção aos professores ingressantes. Falaram coisas. Fizeram coisas. Eu gostei. Fez me sentir em casa. Mesmo assim, quando é tudo novo, a gente tem e quer fazer bonito no primeiro dia. Pensei: vou chegar às 19 para a aula das 19:30. Fiz todas as contas: da minha casa até a faculdade são 30 minutos, mais 10 para estacionar e chegar na sala dos professores, aqueles 15 de lambuja porque o trânsito sempre surpreende, saí às 18 porque sempre é melhor chegar cedo do que tarde. Às 18:20 eu cheguei na confusão do alagamento que já nem existia mais. Às 18:40 eu tinha andado cerca de 200m. Às 19 horas e 500m depois a coisa melhorou e eu respirei aliviada. Às 19:10 parei no trevo e por lá fui ficando, ficando, ficando. 10 minutos depois e no mesmo lugar liguei pro chefe, desesperada. Ele: "não se preocupe, não precisa ficar nervosa". Tarde demais. Eu já contava com um parafuso a menos quando cruzei o portão da faculdade, às 19:45. Respirei fundo e tentei me encontrar de vez. Ou encontrar alguém, um aluno ou professor, qualquer um que me desse uma pista do que fazer. Falei com a turma só depois das 20, e nem me lembro sobre o quê. Fiz aquela coisa meio boba de "diga-me seu nome e o que está fazendo aqui" e no final da roda, quando o último falou eu já nem me lembrava do antepenúltimo. No fim escuto "professora, pega a bola, vamos pra quadra". Boa idéia, pensei. Só não sabia como é que se fazia isso e nem onde ficava a quadra. O coordenador estava me esperando sei lá onde, mas só consegui achá-lo indo pro estacionamento, tempos depois. E a bola? E a quadra? Não dá. Então alguns alunos nos levaram (eu e outro professor) pelo campus. No Centro de Convivência, na porta da biblioteca, atrás do muro da piscina e por ai foi. A loirinha que faz aniversário na próxima sexta, o japonês e o cara que tem a bolsa do prouni. Gente bacana. Claro que eu não me lembro o nome deles. Prometo decorar até o fim do semestre. Enquanto isso: bola pra frente que atrás vem gente.
Lembrança
Então um dia eu percebi que meu português falado em sala de aula não era mais o mesmo. Não concordava como antes, muitas gírias e com um plural oculto. Enfureci, fui para a sala de aula e usei o português correto, sem gírias, articulando sonoramente o "s" do plural e todas as concordâncias. Estava me sentindo vitoriosa até que um aluno vira-se para mim e diz: "professora, não entendi, a senhora está falando muito difícil hoje, dá pra explicar diferente?".
E você?
É claro que o mundo me consome mais do que à maioria.
Embora eu ainda seja, não quero permanecer um número, uma nota.
Avaliação Final IIb
Eu só sei de uma coisa, quer seja no bar ou na sala de aula, quero fazer a diferença. E quero que meus alunos façam a diferença (porque a minha depende da deles!). É por isso que hoje eu choro. Lágrimas, por favor, escorram com esta última mensagem: quero que eles se incomodem por serem a piada do dia.
Avaliação Final IIa

É claro que perante a situação descrita no post abaixo, tive que me defender. Afinal é minha imagem que está em jogo. Aquilo que sai da boca de aluno, chega na boca de sabe-se lá mais quem. E eu prezo muito meu lugar profissional, um lugar que me consome, um lugar que muitas vezes me agride sem motivos, mas um lugar que, por enquanto, me sujeito. Se é minha opção estar neste lugar, ocupar esta cadeira, também opto por fazer a minha parte dignamente.
Isso significa dizer que eu optei fazer a diferença. Optei, inclusive, em montar um blog para escrever minha indignação sobre o sistema. E tento fazer isso de uma maneira ética e o mais justa possível. É claro que, aqui, eu vou defender minha honra, minha ética. É claro que vou fazer de tudo para que minha imagem continue sólida. Tem professor que tem blog na internet e que se refere à instituição na qual trabalha de "pocilga". Tem também aquele tipo que chega na sala dos professores e ri dos alunos. São uns piadistas, e levam muitos outros na onda. Daí, pra se opor a eles, tem a turma do "é assim mesmo", "você não pode fazer nada", "é o sistema". O melhor remédio é rir? Mas, o que me irrita mesmo é quando aquelas pérolas que os alunos escrevem nas provas viram piada em vez de se tornarem notícia. Tem programa de auditório que adora esse tipo de coisa. E todos riem: o apresentador carismático, a platéia com seus estudantes dignos, os profissionais formados e os não formados, os telespectadores. Todos rindo. Acham graça. Eu me entristeço porque eles fazem chacota de si mesmos, e gostam. Penso que eles acreditam, de fato, que "é assim mesmo", o sistema.
Hoje eu posso afirmar, categoricamente, que estou no lugar de aprender. Que este momento, que me entristece, que me continua fazer chorar, está me fazendo repensar algumas coisas e está me fazendo amadurer, olhar a vida de um outro prumo e continuar batendo os pés, se eu escolher fazê-lo. Obviamente eu estou descobrindo, a contra-gosto, que aluno é aluno e professor é professor. Eu não concordo, prefiro estabelecer outro tipo de relação, mais humana, mas adulta, mais madura. Queria poder levar os alunos no bar, sentar e dicutir a matéria (e não beber até cair, falando só bobagem, matéria mesmo), contar umas piadas vez ou outra, falar de sexo, porque ninguém precisa ser o tempo todo rígido. Mas aí eu seria uma professora no olho da rua, certamente.
Avaliação Final II

Eu estou chorando. De verdade, não é uma metáfora. Uma tristeza invadiu meu coração porque é mesmo muito triste ser professor neste país. É muito mais triste ver o que os próprios professores dizem do ensino do país. Reclamam, e com razão, de muitas coisas, da maioria delas. Reclamam do sistema e é justificável, eles têm que se acostumarem para sobreviver. Honestamente, eu prefiro morrer toda vez que vejo um professor falando mal de aluno, que são uns retardados, que são analfabetos, que isso, que aquilo. Eu não acho justo falar mal de aluno porque eles são as vítimas. Nossos governantes, bem letrados, que são um escândalo, deveriam desaparecer do mapa. São as malditas relações de poder. Já disse antes, a estas não me acostumo. Até hoje eu fazia um esforço para entender o lado dos alunos. Não farei mais, porque eles não estão nem aí. Este semestre eu tentei inovar, tentei dar uma disciplina de Psicologia do Esporte "prática". Quer dizer, tentei fazer coisas simples, mas úteis. Ensinar os alunos a trabalharem com dinâmica de grupo, e de verdade. A fazerem Sociograma, e de verdade. A trabalharem com Treinamento Mental, e de verdade. Não levaram a sério, aproveitaram o fato de eu não fazer chamada e "dane-se, esta professora é legal". Eu tenho pena destes alunos que, hoje, me fazem chorar. Pior, me fazem falar mal deles, como todos os professores. Estou puta, chateada, e não sei muito bem em qual ordem. Quero passar no Departamento Pessoal e pegar minhas contas, mas já passou da meia-noite, está fechado e, talvez, amanhã eu mude de idéia. Minha mãe tenta me consolar porque ela sabe que eu levo este negócio de ser professora muito à serio. Eu acho que faço um bom trabalho porque de 500 alunos que tenho no semestre, apenas alguns me causam desgosto, me fazem chorar. Se estes alunos, que não fizeram sua parte, que não apresentaram os seminários, que não entregaram os trabalhos ou não se esforçaram, que não entregaram relatórios (e que valiam pontos extras, portanto, sem comentários); se estes alunos estão se sentido injustiçados por estarem de exame, como é que você acha que eu estou me sentindo tendo que ir pra cama dizendo que eles, de fato, não têm mais jeito?
Avaliação Final
Está terminando o ano, e o semestre. Tá, eu não gosto de reprovar aluno, principalmente porque depois ele vai fazer uma DP que não tem lá muita graça. É on-line e eu acho que o aluno aprende pouco. Eu ajudo antes (ou ajudava, semestre que vem não vai ter nada disso). Dou (dava) uma margem de 4 pontos a mais por semestre, são trabalhos extras ou formas extras de participação. Ou deveriam ser, porque os alunos não aproveitaram. Deveriam substituir a DP porque eu faria o cara trabalhar mais, aumentaria sua nota e daria tudo certo. Mas os alunos não estão nem aí. Acham que faço isso porque sou boazinha, apenas. Então não vou fazer mais. Não quero nem saber. Fico chateada, mas hoje eu reprovei um aluno (nunca foi na aula), e por aí vai.
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