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A crônica acadêmica

Para minha amiga Solange, diretamente da aula dela na universidade.

Local: laboratório de informática.
Aula: Jornalismo de Revista.
No quadro: Diferença entre a crônica e o artigo de opinião.



A fotografia.

Atrás do monitor, uma donzela.

Talvez não nos termos de séculos atrás, de virgindade, pureza e coisa e tal. E, no auge dos seus vinte e poucos anos, ela saca da bolsa- enquanto a professora diz que artigo de opinião é um texto que defende uma idéia - seu kit de beleza, espelhinho, base, pincel, blush e pó.

Depois de uma análise criteriosa na porosidade aparente, ela ainda nem percebeu que o assunto mudou do artigo para a crônica, um algo escrito que permeia uma visão de mundo através de dados factuais. E ela era o fato, o tema cotidiano, a ironia e, muito provavelmente a vergonha alheia. A minha vergonha.

De olho no espelho, passou a base com o dedo como se preparasse o rosto para a maquiagem. Preparou. Em seguida pegou o lápis, passou ao redor dos olhos, para dar cor à tela ainda embranquecida. Um rosa nas bochechas. Um tempo para os retoques. E o batom só pulou da necessaire quando a aula dizia do escrever.

Assuntos interessantes para os futuros jornalistas. Aquela coisa de laboratório mesmo, de prática, a vida na lida e no lide: como fazer um perfil, como fazer uma entrevista, onde se pode ou não pode usar adjetivos no texto jornalístico. Mas ela ali, ausente disso tudo, levantou os lábios narcísios, piscou suas pestanas tingidas de preto, analisou o rosto de um lado e de outro e imagem e tal.

Por certo que a professora até se sentiria lisongeada se toda essa dedicação tivesse sido em prol da prática do jornalismo em revista, cujos detalhes em tons, cores, coisas, pestanas etc e tal sobre a pele se tornasse literatura. E em pauta caísse como uma luva o jornalismo literário. Mas ela ali, ausente de tudo, nenhuma atenção para como se constrói uma linha de tempo, a importância da narração dos fatos para os meios jornalísticos e blá blá blá.

Coisa e tal ela tira da mesma necessaire de couro preto um fio dental. Seu olhar se volta novamente para o espelhinho, lábios esticados de modo a mostrar tanto os dentes de cima, quanto os de baixo, de modo a poder contar os 32, exceção feita ao siso. Corta um pedaço do fio e com movimentos ritmados para frente e para trás, um dente ao lado do outro, algumas babas caem sobre o monitor, tela em descanso, "professora, é muito difícil".

De volta à diferença entre os artigos de opinião e a crônica, o primeiro com argumentos abstratos, o outro mais preso ao cenário, a aluna verifica, confere o rosto, tudo em ordem, ajeita os cachos dos cabelos. Um depois do outro e na conferida final, e nos finalmentes, e no último minuto do segundo tempo faz funcionar o computador para ver as novidades do dia. Hotmail.

Do lado de lá, propõe-se um exercício de escrita. Curso de jornalismo. Brasília. Arruda? Então ela, inocente no tema, balança a cabeça, não sabe direito o que está acontecendo. Nega. Diz não. Começa o exercício, ela se levanta, arruma a blusinha, verifica a calça jeans, dá uma última olhada no espelhinho, verifica o bico do sapato do tipo chinelas havainas e pede para ir ao banheiro. Vai e não volta.

(...) E no retrato do Ensino Superior Brasileiro, em que alunos não ambicionam nada além de continuar nos seus centros de telemarketing e desfilando suas roupinhas de grifes, resta, como na maioria das vezes, as imitações (...)

Isso me lembra outra vez, em que uma colega dava uma aula empolgadíssima, quando uma das alunas levanta a mão. A professora toda contente com o interesse:

"Sim, sim, em que posso ajudar?"

Mas a resposta veio como um tiro certeiro:

"Professora, onde você comprou seu tênis?"

Bléim, bléim, bléim. Os sinos tocam. A aluna imaculada em jornalismo de revista volta para a sala de aula. Parece que não vai ser hoje que ela vai tirar o cabaço, no bom português. Sobre a mesa uma lixa de unhas, um vidrinho de esmalte cintilante, acetona e um palitinho com algodão.

a banca

A BANCA (dos escritos antigos)


Para aqueles que pensam em entrar num mestrado, num doutorado ou prestar um concurso público vai a dica de que nem sempre a competência é a alma do negócio. E se por um acaso você não puder ser o dono da banca (geralmente é ele quem dá as cartas, marcadas?), seja, no mínimo, seu melhor amigo. Prostitua-se academicamente, se assim for necessário. Não é tão cruel se você pensar na perspectiva dos interesses, que sempre são subjetivos e, portanto, inexplicavelmente válidos. Mas, se você não concorda, vire a banca pois, de fato, não se trata de um jogo de azar.

Quando se presta um concurso o que a gente quer (ou deveria) é abafar a banca, ou seja, causar admiração, e pelo talento. E tem muita gente por aí que, ao contrário, vai botar a maior banca: vão tentar vangloriarem-se por suas qualidades ou bens pessoais, por sua posição, seu status. Ou então preferirão causar admiração pela beleza, as mulheres principalmente, e com o sublime intuito sedutor de levar os homens à banca rota. O inverso também existe, mas o golpe da barriga, este ainda é insuperável, dá às mulheres um certo poder estarrecedor e é bom que se esclareça, o lugar do poder é assim mesmo: autocrático e subjetivo.

Mas se estamos falando de concurso, a democracia, de fato, deveria sobrepor-se. E está representada pela própria idéia de se constituir uma banca de avaliação. Uma banca pressupõe que um grupo de pessoas supostamente qualificadas e eticamente comprometidas.

No entanto, sempre que se quer pensar em democracia, criam-se bancas em nome do compromisso ético. Trata-se de um conjunto de pessoas que têm como função avaliar uma situação ou representá-la considerando outros pontos de vista. Mas a banca examinadora, um grupo de pessoas supostamente qualificadas e eticamente comprometidas, está lá para exercer um papel democrático, pois tratam do conjunto das idéias e opiniões daqueles que a compõem, nem que o parecer final tenha sido pelo voto, representando a maioria. Sem exercer este papel a banca perde respeitabilidade, vide o exemplo do Poder Público. Nestes casos a banca não passa de uma mesa, um tampo sobre cavaletes, grande e de qualidade inferior. Quer dizer, neste caso nem a mesa é uma simples mesa, existem aqueles que a compõem e a mesa volta ao seu lugar de banca. ele pode ser diferente. Basta que se construa uma outra banca, um conjunto de poderes a tomar decisões de causas discutidas e avaliadas, para que se torne democrático.

Garantem a participação de todos, Mas tem gente que não bota banca, mas que também não tem opinião formada ou, pior, não compreende o sistema em que está inserido e as decisões passam a ser subjetivas antes de serem democráticas. Eu também já fiz isso por diversas vezes e sei que vou continuar por mais algumas outras tantas. Não tem como fugir porque a banca ela está sempre lá. Está no jornaleiro, no mobiliário e no jogo de cartas. Eu escolhi o caminho mais difícil, preferi quebrar a banca.

Cairá o Rei? Pró-reitor diz que não está nem aí, hein?

Pró-reitor da unigranrio disse não se importar com o vestibular. E se pra ele, e outros como ele, tanto faz, quem é responsável pela qualidade do Ensino Superior Particular num sistema onde o MEC dá autonomia para que estas instituições cuidem de si?

Pra que serve um reitor? E um pró-reitor?

O reitor é aquele que rege, governa, administra ou dirige alguma coisa, no caso do Ensino Superior, uma universidade ou certas corporações escolares. Já o pró-reitor é o homem que está antes do reitor e assume algumas legalidades em termos de distribuição de algumas funções. Pode-se dizer que se trata de um filtro ante a reitoria, mas não diminui a legitimidade do cargo.

Em "Cai o Rei de Ouros, Cai o Rei de Paus: os estudantes chacoalham o sistema", alertei para o fato de que, nos últimos tempos, alguns estudantes têm derrubado alguns grandes personagens do Ensino Superior atual, geralmente envolvidos em escândalos, corrupção ou por terem dito algo que lhe fugia à competência, fatos caracterizados por menosprezo, preconceito e irresponsabilidade.

Nesta matéria do Fantástico, o pró-reitor admite: “Mesmo não estudando para o vestibular, você pode fazer esta prova até no chute. Eu, por exemplo, que estou defasado, posso fazer 25 pontos”, e completa quando o repórter pergunta qual é a nota mínima de corte, por exemplo, num curso como administração: “Eu não me preocupo com isso. Olhando nos seus olhos: eu não me preocupo com isso. Eu não preciso disso. Eu não valorizo isso”.

Ao se pensar nas denúncias da matéria exibida:

- 5 milhões de candidatos para o Ensino Superior;
- 2, 5 milhões de vagas disponíveis, sendo 300 mil em Universidades Públicas;
- 80% dos universitários estão na rede particular de ensino;
- 100 faculdades, em média, surgem por ano na rede particular, o que aumenta a concorrência;

fica claro, como diz o educador Zacarias Gama, que “esse sistema particular se inchou e precisa de alunos como condição de sobrevivência. Ele começa a usar estratégias de mercado no sentido de ter o aluno que ele precisa com o potencial de pagar a mensalidade, com potencial de comprar as coisas que existem dentro dos seus shoppings, menos interessado talvez no seu mérito acadêmico, na reflexão que o aluno é capaz de fazer. Então, é um grande mercado de diplomas”.

Desta feita, há uma banalização dos vestibulares o que implica em levar para o Ensino Superior alunos despreparados e descontextualizados. Então eu pergunto: também haverá mobilização destes estudantes, quer dizer, dos estudantes que são alunos da unigranrio e, portanto, submetidos à fala do pró-reitor, para derrubá-lo? Cairá o rei? Tomarão a reitoria? Fica a dúvida...


Cai o Rei de Ouros, Cai o Rei de Paus: os estudantes chacoalham o sistema!

Cai o Rei de Ouros, Cai o Rei de Paus: os estudantes chacoalham o sistema!
por Fernanda Ramirez

Cai, não fica nada.

Nos últimos tempos tem-se visto uma movimentação dos Estudantes do Ensino Superior em franca manifestação país adentro. Primeiro foram os estudantes da USP, em maio do ano passado, que tomaram conta do prédio da reitoria. Estavam contra os decretos do Governador José Serra anunciados em janeiro de 2007 (dentre outras coisas, os decretos proibiam por tempo indeterminado a contratação de professores e funcionários para a instituição; impediam que as universidades usassem a verba sem autorização do secretário da Educação Superior e tiravam a autonomia universitária). Cai, não fica nada!

Depois foi a vez dos brasilienses da UnB que tomaram sua reitoria. Queriam a saída imediata do reitor Thimothy Mulholland, do vice Edgar Mamiya e de todas as fundações envolvidas em processos de corrupção. O estopim, em abril de 2008, foram os gastos superfaturados do reitor e sua lixeira de 1000 reais. Em janeiro deste ano, surgiram diversas denúncias de corrupção envolvendo a atual gestão da reitoria da UnB, envolvendo desvio de verbas por meio da FINATEC para uso privado do reitor. O Ministério Publico abriu inquérito e nas investigações descobriu mais irregularidades envolvendo a FUB e a FUNSAUDE. O grupo que estava à frente da reitoria desde 1998 já esteve envolvido também em outros escândalos como o do Centro de Seleção e de Promoção de Eventos (CESPE), o da Casa do Estudante (CEU) e o da própria eleição da atual gestão. Vale lembrar que desde 1996 após o decreto do Governo FHC, a UnB não tinha eleições paritárias para reitor, outra exigência dos estudantes. Cai, não fica nada!

Nesta semana, os donos da bola foram os estudantes e os professores da Universidade Federal da Bahia. É que o infeliz do coordenador do curso de Medicina, Antônio Dantas, declarou que a baixa no rendimento dos alunos no ENADE (Exame Nacional de Desempenho, do MEC) se deu devido ao fato dos baianos terem QI inferior ao restante do país. Hein? Nos dias de hoje é bom que se proteja ou cai, não fica nada!

É claro que a imprensa distorce fatos e é capaz de dizer grandes mentiras contando apenas verdades e não se sabe ao certo em que contexto o coordenador do curso disse tal blasfêmia. A pesquisa acadêmica e os papers também permitem esta falácia, na medida em que o pesquisador manipula os dados e publica apenas aqueles que lhe interessam. Para os acadêmicos há revisão por pares e coisa e tal dentre os inúmeros indexadores de pesquisa mundo afora. Para os cursos superiores há o ENADE e o fato histórico de que os alunos das universidades públicas têm uma tendência a boicotar o exame, porque não estão de acordo. Esta poderia ser uma das explicações para o baixo desempenho dos alunos da Bahia, segundo Arquimedes Ciloni, presidente da Andifes (associação que representa os reitores das universidades federais).

Independente do acontecido, este fato traz à baila novamente a legalidade de exames como o ENADE e outros instrumentos que regulam os cursos superiores. Há uma tendência da população em rejeitar números e índices, principalmente no tocante à educação. É que então, os números não seriam capazes de dizer como, de fato, a coisa funciona. Números são números, não provariam a qualidade do ensino. Mas trazem deduções lógicas. São indicadores essenciais de repasse financeiro e, convenhamos, deixar a educação ao-deus-dará não faz sentido. Pode ser pouco, pode ser insuficiente, pode ser inadequado, pode um monte de coisas, mas não se pode negar que é necessário haver agentes reguladores, principalmente em se tratando de universidade pública, que deve explicações à nação.

Desta forma, eu concordo com Naomar de Almeida, reitor da Universidade Federal da Bahia, que declarou em entrevista para a televisão que, de certa forma, o boicote dos estudantes ao exame nacional é um erro. No entanto, de outro lado há algo de positivo. O boicote é uma das formas dos estudantes se declararem insatisfeitos com o sistema e é o jeito que eles encontraram para “pedir” melhorias, coisa que também é muito válida, como a invasão nas reitorias ou esta última manifestação pública que resultou na renuncia do coordenador do curso de medicina do cargo.

Em conjunto, o que estes acontecimentos mostram é que os estudantes sempre estiveram com a faca e o queijo na mão. Basta que façam uso deles, pelas razões certas ou pelas razões erradas, para que o sistema chacoalhe. Então, que caiam os reis e que se questione a canção: “nos dias de hoje, não lhes dê motivo, porque na verdade, eu te quero vivo”.

Caiu na orientação, é peixe!


Tá, eu não sou a melhor aluna, nem a melhor pesquisadora, nem a melhor acadêmica, nem a melhor articulista, nem a melhor professora do mundo. Eu sou uma mulher que se multiplica em várias outras, como tantas que existem. Mas também não sou daquelas que só pensam nos seus esmaltes, nos seus lábios gloss e em alisar os cabelos. Então, tem coisa na endogamia (leia-se putaria) acadêmica que só termina de me descabelar:


(na reunião de orientação)

- Ei, você não imprimiu?
- Não, vamos ver na tela.
- Você leu? Porque eu prefiro discutir direto.
- Não, quero ler com você.
- Bom, deixa eu por uma cadeira para me sentar mais perto da tela...
- Se quiser sentar no colo do orientador, não tem problema.

Tem, tem problema sim senhor. Aliás, isso tá ficando com problemas demais. Ora!

Nota de Chamada

Só para constar: a tal da lista de chamadas gugu-dadá que a pós-graduação insiste em manter ativa, não é tão fácil de ser encontrada. É que o professor responsável por ela nunca se encontra na universidade, que é pública. Sendo ela uma universidade pública, obviamente que nem todos os professores doutores, principalmente os livre-docentes cumprem suas 40 horas em dedicação exclusiva. Vai ver que é por isso que a pós-graduação colocou uma lista de chamadas gugu-dadá para alunos de pós-graduação. Alguém tem que fazer a universidade ir pra frente. Que sejam os alunos já que os professores, estes estão indo de mal a pior.

Tempo gugu-dadá

Talvez tivesse sido melhor se eu tivesse desistido da pós-graduação antes do tempo. Corrijo: desistido desta pós-graduação gugu-dadá, dá chupeta pro bebê não chorar. Basta eu sair pra qualquer outro instituto ou faculdade dentro da universidade que a coisa muda, embora existam outros centros gugu-dadá. Que o mundo está infantilizado eu não tenho dúvidas, mas me causa dor ver uma pós-graduação assim gugu-dadá do mesmo jeito que me dói saber que existe um programa Super Nanny pra ensinar pais e mães darem um mínimo de atenção aos seus filhos e um mínimo de limites. É coisa só do Brasil? Não, não é. Lá em Portugal 65% da população é analfabeta funcional. E a Africa? A Índia. Os países terminados em ão: Paquistão, Uzbequistão, ão, ão, ão tudo de um jeito inho. Tadinhos. O que sobra do sistema capitalista de um mundo hipotecado. Mas talvez tivesse sido melhor se eu tivesse desistido antes do tempo, para que este tempo gugu-dadá da pós-graduação que está em sobra nem existisse.

porque nós só queremos cuidar da gente mesmo...

Na crise das orientações acadêmicas, as lamentações me chegam por todos os poros. É ex-aluno que invade meu msn num apelo “professora, a senhora faz falta naquela universidade, posso ter fazer uma perguntinha?”. Como eu dava aulas de Metodologia de Pesquisa não era difícil imaginar o que estava por vir: como fazer busca, onde encontrar material, como fazer citação, como isso, como aquilo ou, então: “professora, o meu orientador não consegue entender que meu tema não tem referências bilbiográficas...”. Bom, isso eu também não entendo. Em última instância sempre se pode recorrer aos socráticos, aos pós-socráticos e aos pré-socráticos. E que vontade de gritar: contextualize-se fulano, contextualize-se! Ah, sim, foi essa turma que reclamou, um dia, que minha prova estava difícil: “professora, o que a senhora quer dizer com contextualize?”. Hein? Tá.

Mas como eu ia dizendo, as lamentações me chegam por todos os poros. Minha amiga que está no doutorado está indignada. É que o orientador dela não quer aceitar um co-orientador. Eita vaidade socrática, pré-socrática e pós-socrática. Então ela desabafa: “o que ele entende deste assunto? Acha que entende, mas não entende. Nós precisamos de ajuda, pow!”. Nós eu não sei, ela com certeza. E muita. Bom é que se legalmente não se pode contar com um co-orientador, pode-se perfeitamente pagar um supervisor (vou juntar ao cargo de palestrante: supervisora). Sem contar pro orientador? Ó deus, haverá alguma ética acadêmica neste jogo de esconde-esconde?

E por aí caminha a vida acadêmica. Hoje o ex-amante ligou (foda-se se a mulher dele ler este post, e tomara que sim). Perguntou da minha vida e coisa e tal. E a minha vida acadêmica está ótima. O bom de estar no doutorado é que você já sacou o esquema e deixa os orientados de mestrado lamberem o seu orientador. Eles mostram serviço enquanto os doutorandos cuidam de suas próprias vidas. Isso é bom porque dá para desestressar um pouco da política gugu-dadá da pós.

Mas na lista de lamentações, outra amiga disse que emburrou com a orientadora e desistiu do mestrado. Ainda tem aquela amiga que diz que não quer pagar preço tão alto no doutorado. E por aí vai. Mas os homens? Eles são orientandos tão mais práticos, como o ex-amante professor doutor que veio numa frase dolorida: "pega o que você já tem do seu livro e termina o doutorado, daí você entra num concurso público, e vai dar aula!". E neste pega=pega socrático, pré-socrático, pós-socrático eu esqueci de avisá-lo que já deixei de ser professora para ser palestrante... que não me atrai a idéia de ter 60 anos (a idade dele) contando os dias de licença prêmio ou os dias para a aposentadoria, nem viver um casamento acomodado. É, eu não contei nada disso. E que tristeza saber que ele não entendeu nada. Que eu aceitei fazer este doutorado maluco, pagando o preço do amor (do amor passado), numa tentativa louca de virar a mesa. A palestrante... A escritora... A supervisora... A editora ... Aquela coisa meio socrática, pré-socrática e pós-socrática de felicidade...

Trabalho, Amor e Diversão

Trabalho, Amor e Diversão
Por Fernanda Ramirez


Só um ano depois eu entendi que aquela frase poderia me ter sido um tapa na cara:
- Professora, a senhora se diverte mais que a gente!

Na época eu não dei por conta, mas era uma crítica capital. E das grandes. Daquelas que chegam de mansinho e se instalam bem no meio do nosso peito, onde se grudam, e se grudam, e se grudam, e cuja mais-valia esbarra-se no não ser. Eu era. Sempre fui uma qualquer coisa que sorri. Uma qualquer coisa que sente prazer. Uma qualquer coisa viva que exige da vida a vida.

Anos antes, e porque eu sorri demais, me deram as contas. Embraveci. Então eu briguei, questionei, berrei e lutei por ser quem eu era: uma professora, e das boas. O chefe do campus (não o do curso), que tinha enviado meu nome para a reitoria com o doce propósito de se esbanjar no alto do seu poder para me demitir, voltou atrás com a ressalva de que eu, naquele campus (e só naquele em que ele era chefe), não poria mais meus pés, finalizando sua fala com um tiro certeiro: quem ela pensa que é?

Uma qualquer coisa que sorri quando chega na sala dos professores e, contrariando o mundo amargo do trabalho, diz bom dia. Uma qualquer coisa que sente prazer e, contrariando a ordem natural do trabalho, se diverte mais que alunos desesperados em busca de um diploma e aumento nos seus salários de operadores de telemarketing, onde seguirão carreira, algo bem comum em se tratando de universidade particular. Uma qualquer coisa viva que exige da vida a vida traçada pelas próprias mãos.

Só muito tempo depois eu entendi que aquela frase poderia me ter sido um tapa na cara:
- Professora, além de dar aulas, a senhora também trabalha?

E porque eu sempre fiz arte da docência e da docência, arte, o tom da censura, que me dou conta apenas agora, chega ao apelo da surdina: “arte? Ora pois, minha querida, o trabalho gera é sofrimento. Entende? E na roleta-russa da nova ordem capital das coisas, todo sofrimento gera um mercado. De empregos, de diplomas, de eu finjo que ensino enquanto você finge que aprende”.

A censura que no passado não vi, hoje me desvela uma verdade que me incomoda há muito tempo. Que a diversão não é dada ao trabalho. Alguém, um dia, profetizou esta combinação de impossível, e a regra se fez: trabalho é trabalho, lazer é lazer. E no fio que aí se tece, não pode a professora rir mais que o aluno, ou ela ter mais prazer que diretor, porque ambiente de trabalho é ambiente árduo, com tarefas pesadas e desgostosas, onde a alegria não põe banca. Tem só um tal de bater o ponto, seguir ordens, dar ordens, cumprir metas e um filetinho de cartilagem para facilitar a respiração apenas por um segundo, e dentro do banheiro, quando não tem ninguém olhando.

Na fila dos desempregados, qualquer primeiro emprego serve. Isso me parece bizarro, não parece para você? E chora-se de alívio por uma vaga de ascensorista, de gari ou qualquer coisa destinada à sobrevida. Parece mesmo é que a sociedade está mal organizada porque bem diz um amigo meu, que está prestando prova para ser diplomata (e será), este tipo de trabalho deveria ser feito por esta gente que anda por estes presídios, e de justa causa. Ele continua: “matou? Vai limpar bosta nos esgotos, durante a madrugada, e levar descarga na cara”. Taí, a idéia é boa e eu to assinando embaixo.

Mas no fim das contas, a coisa me vem na veia:
- Você sorri demais, quem é que vai levar você a sério?

E quando a frase vem do amigo mais amigo que a gente tem, é de bom tom parar um pouco pra pensar. No susto, a constatação de que uma vida alegre não é séria. Respeito? Meu amigo tem dúvidas, os alunos questionam e os homens me avaliam pela minha juventude com uma navalha na minha carne quando me dizem “eu não tenho mais trinta anos” (e logo em seguida saem desfilando mulheres ainda mais jovens e mais menininhas – acho que é pra juntar com o menininho que muitos deles são). E se no mundo do trabalho não se pode mais sorrir, no mundo do amor a diversão pode ser sinal de falta de compromisso. “Por isso os homens não te levam à serio, minha querida!” Mas que explicação mais chinfrim esta, viu.

Foi só muitos meses depois eu me dei conta de que aquela frase poderia me ter sido um tapa na cara:
- Você se diverte com isso, não é?

Isso era eu e ele. Eu tinha achado mesmo muito bizarro a tietagem das outras mulheres. Então fiz o fato virar crônica, virar humor, virar vida. Achei graça dele. Sorri. Eu queria dizer que eu ria do prazer da vida, da alegria daquele dia, da sensação boa da amizade que entre nós ameaçava existir, da felicidade que me levou até ele. Eu queria dizer que eu rio à beça quando faço sexo e que quando eu tenho um orgasmo eu rio por dentro. E que isso poderia ter sido eu e ele.

Eu ainda queria dizer que eu rio de novo só de lembrar. Que eu me divirto. Que eu sou assim, um riso sincero, verdadeiro e pau-pra-toda-obra. Que sou muito mal-humorada quando não estou rindo, que minha cara fica feia e parece um buldogue abandonado. E por parecer um buldogue abandonado eu rio da minha cara e do meu mal-humor. E que eu me divirto da minha incoerência, das minhas dúvidas, do meu desejo. Que eu rio porque eu levo a vida muito a sério e não há melhor maneira de amar, nem de trabalhar, que não seja rindo.

Desse jeito, quando eu voltasse pra nossa casa depois de um dia, eu não precisaria soltar aquela: em casa não se discute trabalho.

Professor x Palestrante

Então tá. A partir desta data, anote, eu não serei mais professora. Desde já, quando alguém for me apresentar por aí, diga que sou palestrante. E escritora. Diga que eu, ex-professora universitária, ainda estarei lutando pelo Ensino Superior, ainda estarei acreditando que é com EDUCAÇÃO que se constrói um país de letrados, e que esta luta pelo analfabetismo funcional não é solução adequada. Precisamos de uma cultura de letramento. Precisamos que a grande massa populacional tenha gosto pela leitura, e saia de casa para comprar um bom jornal de notícias não tão massificante como a Folha, nem como o Estadão. Precisamos de uma cultura de letramento alternativa. Caros Amigos, Revista Piauí, Revista OCAS e tantas outras publicações inteligentes e não vendidas ao sistema que existem por aí e lutam para sobreviverem. É por isso que, a partir de hoje, eu não sou mais professora universitária. Eu sou palestrante, e escritora. Palestrante não por ideologismo, mas por necessidade. É que palestrante profissional recebe muito mais do que professor que se atreve a fazer palestra. E eu quero ter algumas regalias consumistas. Eu quero poder ter uma casa num bairro bacana, ter dinheiro para colocar meus filhos na melhor escola que eu acreditar existir e fazer depilação definitiva. E ser escritora não vai me dar isso. Vai me dar palestras. É que num pais de não letrados, escrever um livro é status. E mesmo que poucos se darão o trabalho de ler linhas que demoraram 1 ou dois anos para serem escritas, as tiragens de 500, 1000 ou 2000 exemplares me renderão palavras para serem ditas nos eventos de cá e acolá. Por isso que eu digo, a partir desta data, palestrante. E escritora. Artista plástica nas horas vagas.

Doutor é quem tem doutorado?

Tem coisas que me cansam. Em se tratando da universidade, algumas me cansam mais ainda. Então umas pessoas resolveram pautar que doutor é quem tem doutorado. E apenas quem tem doutorado. E o doutor como sinal de respeito, já era? O doutor advogado, o doutor psicólogo, o doutor patrão, o doutor vereador (tem aquele que o valha), o doutor prefeito (tem aquele que o valha), o doutor padeiro e o doutor motorista de carro diante de alguém pedindo esmola, ajuda ou coisa que o valha? Este doutor aí já morreu só porque, para alguns que não teêm mais o que pensar em termos sociais (como se o país não precisasse de boas idéias para problemas mais emergenciais, como o básico saneamento básico), doutor é quem tem doutorado? Não morreu não, e nem vai porque se trata de um doutor de respeito.

Então eu fico meio puta, ou escandalizada, quando eu vejo pesquisadores doutores, cujo título lhe veio por mérito acadêmico - o que impõe um certo respeito, concordo - brigando por causa pouco nobre ao gritarem pelos quatro cantos do mundo que doutor é quem tem doutorado (acadêmico, insitucional, escravizador) como se isso fosse a briga mais importante do mundo, que vai mudar os padrões sociais e coisa e tal. Só que no paradoxo da coisa, doutor que é doutor assim não merece lá tanto respeito porque isso parece revelar apenas uma vaidade e uma insegurança de mercado. Em último caso eu considero que, talvez, possa ser uma luta para que a sociedade respeite a educação, e coisa e tal, mas isso seria muito ingênuo de minha parte, deixando tudo uma coisa meio tosca mesmo, fadada ao "eu é que sou mais e coisa e tal".

Neste foda-se você sem título, sem estar digno de sapiência sobre qualquer tema, esta briga de classes me parece mais uma heresia. Então eu quero deixar bem claro: cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é. Com ou sem título. E nem preciso lembrar aqui os ínumeros títulos de doutor comprados, a falta de responsabilidade e critérios acadêmicos pouco adequados e coisa e tal, né? É, acho que não preciso.

Igreja Intelectual

Acho que esta é a primeira vez que eu apoio a igreja. Igreja enquanto instituição. Que ela anda falindo mundo afora eu não tenho dúvidas, então, o que se fazer com isso? Quero dizer, com o espaço ocioso destes templos destinados à oração? Boekhandel Selexyz Dominicanen em Maastricht, Holanda, montou uma livraria. Que legal isso de transformar uma igreja em livraria. E não se trata de uma livraria para temas religiosos, de maneira alguma. Livraria tipo Cultura, Fnac, Saraiva e outras. Destas megas, que você pode sentar e ler o livro, e tomar um cafezinho. Um centro de entretenimento intelectual. Isso. Brilhante. Fazer das igrejas centro de entretenimento intelectual. E dos cinemas pornôs. Não seria preciso deixar de passar filme, só encher o espaço ocioso de livros. É que no cinema pornô, menos de 1/3 das cadeiras são ocupadas por visitação. Sobra muito espaço. Bom para livros. E sobram espaços em vários lugares: no estacionamento do supermercado, nos parques, canteiros, cemitérios. É, nos cemitérios, porque até os coveiros têm direito a leitura. E todo o resto, e tudo e todos em todos os lugares, fazer deste país um lugar mais crítico, mais lido, mais pensado e menos enganador. É, falta-nos leitura. E para isso, nada mais justo trocar deus por um bom livro. Tá, vou aliviar, e refazer: nada mais justo tocar deus com um bom livro (para os que ainda acreditam). Minha amiga Solange acha que isso só não vai funcionar se os padres resolverem tirar phd. Daí danou-se.





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Amiga Solange responde:

Sim. Seria sensacional transformar os templos religiosos em livrarias. Transformar Deus em livro. Ir à igreja "rezar" com os clássicos, com os contemporâneos, com a vanguarda.

Ir ao altar reverenciar Platão, Aristóteles, Cervantes, Machado de Assis, Rubem Alves... Trocar estatuetas de santos milagreiros por obras escritas de fato milagrosas. Trocar a hóstia pelos contos das mil e uma noites. Fazer do confessionário um laboratório de escrita. Trocar cada bolinha do terço pela leitura de um livro inteiro. Redimir os pecados lendo Italo Calvino. Ouvir os sermões de Nietzche, Sartre, Bourdieu... Ajoelhar aos pés de Fernando Pessoa para inspirar o valor do amor. Sim. Seria sensacional transformar os templos religiosos em livrarias. Bibliotecas. Salas de aula.

Mas quando padre começasse a virar mestre, bispo doutor e o papa PHD, as igrejas seriam como as escolas hoje são. Então, danou-se!

A Educação Vai-Vai

A Educação Vai-Vai de mal a pior. Mainha, tome um patuá porque a coisa tá preta. E branca também, lá na avenida do Anhembi. E as manchetes dos jornais anunciam: Vai-Vai leva o tema educação para o sambódromo, e vence o desfile. Vai-vai explorar falta de leitura alheia lá na China, por favor. Ou que os comentaristas, jurados, críticos e jornalistas usem palavras mais adequadas, porque, convenhamos, o enredo da Vai-Vai foi o projeto de Sílvio Bacarelli, que tem um projeto de educação musical na favela de Heliópolis. Projeto bem bacana por sinal. Daí sim, eu concordo, Vai-Vai fez um desfile impecável, com suas alegorias musicais. Agora dizer que a escola explorou o tema Educação na avenida, pra mim já é demais. Eu estava lá e não vi alegorias com livros. Por certo que o incentivo à leitura não faz parte da educação. Apenas uma ala de universitários com seus canudos nas mãos. Uma alusão à sociedade de diplomas. E nós, professores que trabalhamos nas instituições particulares espalhadas país afora bem sabemos que o cara consegue ficar quatro anos dentro de uma sala de aula sem ler um livro. Vai-vai ver foi por isso que ele não foi pra avenida. No lugar deles, partituras. Tá bom, é legal esse negócio de usar a música para educar. Só não me venham fazer engolir que o enredo da escola foi um “acorda educação”, porque não foi. Não levantou os problemas reais do setor. Apenas fez aquele comum aos governantes despreocupados. Não se preocupou em jogar na cara do povo a aprovação automática e o analfabetismo funcional dela decorrente. Não falou da má formação dos professores de Ensino Fundamental, principalmente nas áreas rurais. Não falou dos baixos salários dos professores e que sobram vagas no Ensino Superior para quem quiser fazer licenciatura, e que há campanhas para isso, já que os jovens universitários fazem de um tudo, menos licenciatura. Não falou da falta das bibliotecas, dos laboratórios de ciência e de informática em grande parte das escolas da rede pública, nem que um a cada cinco jovens do ensino fundamental abandona o curso. Nem disse qualquer coisa sobre os míseros 25% dos jovens em idade universitária que freqüentam um curso superior, ou melhor, qualquer curso superior. E os outros 75%? Sabe-se Deus. Isso e uma lista infindável de abordagens mais significativas de uma educação que vai-vai mesmo de mal a pior. E vai-vai assim porque todo mundo achou que o que foi pra avenida já foi suficiente em termos de crítica à educação. E o apelo funcionou, pelo menos para a escola de samba, porque as outras escolas vão-vão continuar de mal a pior.

Me dando (a) conta!



Como não estou no Congresso da Faculdade, hoje eu me torno oficialmente uma aluna de doutorado rebelde.

Estou contrariando o e-mail do orientador
(“todo aluno deve enviar trabalho ao congresso da faculdade”),

as normas da coordenação
(“todo aluno com bolsa deve obrigatoriamente participar dos eventos promovidos pela faculdade”)

e as expectativas do ex-amante
(com tanta ausência, só a mulher dele pode respirar em paz).

Lição de Casa

Diz a história que a República andava muito relapsa com os seus deveres. Então a professora Dona Sociedade, indignada, colocou ela de castigo, pediu para que escrevesse no caderno (PAC?) por 508 vezes (referência à sua idade) a seguinte frase:

Uma Educação de Qualidade é dever do Estado.

tetas da pós-graduação

Sob pena de “multa”, todos os alunos de pós-graduação deverão responder um questionário de Avaliação Interna. Gugu-Dadá.

Sob pena de “multa”, todos os alunos deverão enviar um resumo para o Congresso da Faculdade. Gugu-Dadá.

Sob pena de “multa”, todos os alunos deverão participar de todos os eventos organizados pela pós-graduação. Gugu-Dadá.

Cansei, cansei, cansei. Existe um eu nesta coisa toda "me dá chupeta que eu quero mamar"?.

tempo temporário

Rá! Eu quero rir. Ainda me lembro da frase que ouvi de um professor no dia da entrevista de doutorado:

- Fernanda, você me trouxe um grade problema.

E o problema deveria ser grande mesmo, já que para contorná-lo o cara, ingenuamente (?), optou por excluir a banca do processo, restando um bate-pronto entre eu e ele, apenas. Nada muito inteligente, nada muito ético. Eu já cheguei lá sabendo das coisas, mesmo assim o golpe da ilegitimidade, o golpe do “por baixo dos panos”, o golpe tipo “eu adianto uma semana sua entrevista, não componho uma banca para você (que jeito bom de manter o poder) e não preciso me justificar com meus pares” é um golpe duro de engolir. Já tem quase três anos isso e eu ainda não engoli. Acho que só estou dando tempo ao tempo.

Boa. Quanto tempo dura uma entrevista de doutorado? Rá. Temporário demais. E neste vai-vem, as frases continuam fazendo eco entre meus neurônios.

- Você não conhece o projeto da fulana. Ela tem muito mais a ver comigo do que você.
(Aí ele desconsiderou os anos que trabalhei no projeto dele na faculdade, claro!). E eu achei suspeito, afinal, a fulana estuda Borboletas Azuis (projeto de outra professora) e o cara Crateras de Vulcões (meu projeto). Rá, rá! O que eu poderia dizer naquele dia em relação a isso? Nada! Eu, de fato, não conhecia o projeto da fulana.

Mas, salve o big brother do currículo lattes. Tema do projeto dela: Borboletas Azuis. Salve o tempo temporário demais e do qual eu sou amiga. No meio da semana uma amiga me perguntou: eles têm um caso? (Uma dúvida pertinente para uma história assim, meio sem pé nem cabeça).

Só por comparação resolvi pesquisar o currículo do professor que estuda as tais das Crateras de Vulcões e o currículo da aluna que estuda as tais das Borboletas Azuis. Só de curiosidade mesmo, para ver aumento de currículo, dedicação à pesquisa, desenvolvimento docente, saber o tamanho do meu engano. De repente ela teria mesmo mais a ver com ele do que eu.

Produção dela: Borboletas Azuis, Borboletas Azuis, Borboletas Azuis.
Produção dele: Cratera de Vulcões, Cratera de Vulcões, Cratera de Vulcões.

Rá, eles não tem mesmo grande coisa a ver um com o outro, do mesmo jeito que eu não tenho a ver com o meu atual orientador de doutorado. Rá. O preço que se paga pelas negociatas escusas e obscuras que envolvem o processo de vagas e de pertencimento ao mestrado e ao doutorado.

E você, que preço quer pagar?

de cima pra baixo

Enquanto eu vejo alguns colegas achando injusto a nota do programa de pós-graduação no qual estou inserida cair de 5 para 4 (num máximo de 7), eu vou somando negativamente os fatos. Acho que a minha conta até bate com a conta da Capes, do CNPq, do MEC, do Guia do Estudante e do que mais for contabilizador, medidor, avaliador, classificador, istaurador de um parâmetro comparativo com o que for. É preciso comparar sim, saber dos nossos pares e das relações políticas aí envolvidas. É preciso contextualizar, saber onde estamos inseridos e para onde pretendemos ir. E é preciso tudo isso porque é preciso fazer parte. É preciso pertencer e eu quero existir academicamente. Fazer sentido. Fazer diferença.

Tem 11 anos que eu estudo na mesma instituição. Graduação, Mestrado e, agora, Doutorado. Só que eu não estudei apenas nesta instituição. Perambulei por outras, em diversas áreas, cursos, institutos, faculdades. Fome de conhecimento. Necessidade de ir além, de contextualizar. Experimentar e poder comparar. Enriquecer os pensamentos com pensamentos contrários, distantes, próximos, diferentes, a contra-gosto. Compreender que viver academicamente num lugar só não é suficiente, é arreio de burro. Compreender que tudo aquilo que gira em torno do próprio eixo amargura a impossibilidade de se parir outra coisa, qualquer coisa que faça ir por onde não se foi. Compreender, enfim, o que fez a nota cair de 5 para 4, inclusive.

Cai a nota e lá vem aquele que está em cima cobrar quem está embaixo, fugindo das cagadas administradas. Foram anos sacrificando os mais fracos: corte de bolsa, compensações idiotas do tipo "ou você publica ou você está fora do programa" e por ai vai, a corda sempre explode em quem é menos. Explodiu comigo no mestrado. Para darem uma "guinada" no programa, fizeram uma limpa e todo mundo perdeu a bolsa quando virou o ano. Perdemos a bolsa mas o programa se enquadrou e teve sua nota aumentada de 4 para 5. Brilhante! Mas foda-se quem está embaixo. É quem está embaixo que se vê obrigado a escrever artigos de nível internacional para salvar a pele de quem está em cima. É quem está embaixo que, no Programa de Estágio Docente, dá a aula de quem está em cima. O de cima (orientador) manda e o de baixo (orientando) obedece numa negociata sem fim. É! Quem está embaixo tem mesmo é que dar pra quem está em cima. Por isso faz tanto sucesso uma rede endogâmica no Ensino Superior.

Agora a corda explodiu. A nota caiu de 5 para 4. E eu fico cá pensando com meus botões na obviedade da coisa. Quem está embaixo cansou de se foder, será? Ou foi mesmo esta política infantilizada do tipo gugu-dadá que ferrou de vez a coisa? Quer dizer, até quanto tempo os caras lá de cima acharam que a coisa "olha, eu sou o dono da bola" e eu tiro o doce da criança quando eu quiser iria funcionar num sistema um pouco mais amadurecido? E, convenhamos, a Pedagogia da Opressão já foi contestada tem tempos. Não cola mais. Quem está embaixo cresceu. Alôooo! Num sistema falido, onde o valor negociado é apenas um diploma, o exemplo daquele que está em cima é seguido à risca. Afinal, se o de cima não faz, porque é que eu, que estou embaixo, haveria de fazer? Então, aquele que está embaixo (e que só quer mesmo o diploma) liga o foda-se, descobriu que não é muito bom para este tanto de contabilidade ter, num programa de pós-graduação, alunos que se vão antes de terminar a dissertação ou tese. A nota cai. Rá! Viva a corda-bamba. E não é que o de baixo acaba tendo mais poder do que o de cima?

Eu sinceramente não me assusto com a contabilidade suicida do sistema acadêmico. Poderia enumerar uma série de situações sem sentido, e algumas delas não éticas, que fui submetida à contra-regra. E quando a coisa vai à contra-regra o bicho pega mesmo. Na veia da ética, da moral, da credibilidade etc e tal. É quando a coisa vira estupro e aquele que está embaixo acaba dando mesmo sem querer. Com o tempo se acostuma e se prostitui. Ou se prostitui mesmo sem se acostumar. O preço que se paga. E de cima pra baixo a nota cai. É o be-a-bá da coisa.

A Entrevista no Mestrado e Doutorado

Recebi um e-mail com a pergunta: QUAL O SEU CONSELHO PARA SE DAR BEM NA ENTREVISTA? Entevista aqui, refere-se à etapa final da candidatura para o mestrado e/ou doutorado.

De imediato, a minha tendência é responder em letras bem garrafais: É SÓ DIZER AQUILO QUE A BANCA, PRINCIPALMENTE O ORIENTADOR EM POTENCIAL, QUER OUVIR. E mantenho. A coisa vai mesmo por aí. Resta então saber o que é que a banca quer que você responda. Uma matemática bem simples, por sinal.

Vamos as conjecturas: o que, afinal, uma banca espera de um aluno de mestrado e doutorado?

1. Publicação. E com o nome do orientador a tira-colo, mesmo que ele não tenha participado do "paper" (artigo em revista especializada e indexada pelo Qualis-CNPq como "A Internacional", de preferência), do livro, do capítulo de livro etc e tal. Afinal, crê-se que o mundo acadêmico seja medido pelo número destas coisas que o programa têm (isso inclui produção acadêmica tanto de professores quanto de alunos). Muito mais o número do que a qualidade, embora já existam movimentos indo na direção inversa e que eu, particularmente, acho muito mais interessante. De qualquer forma, para a entrevista, como não você não dá murro em ponta de faca (eu, pelo menos, não recomendo), e independente de suas próprias crenças, é óbvio que você terá que ser categórico e deixar bastante claro que HAVERÁ DEDICAÇÃO EXCLUSIVA de sua parte ao programa. Entende-se por dedicação exclusiva aquele 100% de sua vida destinado ao programa. Se você trabalha, é como se você pudesse dizer que o seu sonho é a pós-graduação e que você não vê a hora de se livrar do emprego que tem para virar a mesa, escrever textos, pesquisar e produzir integralmente.

2. Subordinação Ideológica. Também é comum haverem questionamentos ideológicos, em termos de conhecimentos específicos e cientificos relacionados ao tema do seu projeto. É claro que seu projeto de Borboletas Azuis deve ser enviado à um professor que estuda Borboletas Azuis e não àquele professor que você acha que teria mais chances de debater Borboletas Azuis com você, mas que tem como alvo Cratera de Vulcões. Tentar convencer a banca de que Borboletas Azuis e Cratera de Vulcões são diferentes, mas têm mesma base cientifica é correr um risco desnecessário. Afinal, é o seu projeto que deve se adequar ao estudo do professor e não o contrário. E embora você ache que o encontro entre Borboletas Azuis e Crateras de Vulcões seja o melhor encontro do século em termos de ciência, revolucionário, inclusive, você pode sutilmente se esbarrar na insegurança do professor orientador. É que estes, na maioria das vezes, optam por fazerem o bom e velho feijão com arroz e, caso você não tenha encontrado o professor fora da regra (e onde vale o risco), vai esta dica que dou de graça: se o professor questionar sua lealdade acadêmica em relação à linha de pesquisa dele, certamente ele não estará querendo questionar o quanto revolucionário você é, mas o quanto de problema você vai levar para ele. É aí que um bom projeto (adequado ao que o cara pensa, inclusive inédito já que uma coisa não tem a ver com outra) com o mínimo de problemas é a melhor pedida para a futura relação orientador-orientando. Veja bem, não é porque você quer mudar o mundo que aquele cara, o único que pode ter um tema a ver com o seu, vai querer mudar o mundo também. Por isso que eu digo: é muito importante saber quem é o possível orientador, o que ele pensa sobre o mundo acadêmico e qual é a posição dele frente ao tema que você está querendo abordar no seu projeto. Neste sentido, é fácil deduzir que um candidato que, no ano anterior, teve conversas de cantina habituais com o possível orientador está bem mais à frente do que aquele que está encontrando o cara pela primeira vez no dia da entrevista.

3. Confiança e Autonomia. É de bom tom você deixar claro que você é o candidato ideal para aquela vaga, e nos moldes exatos que eles estão oferecendo. Se o sistema funciona desde sempre do mesmo jeito não é você quem vai declarar, no dia da entrevista, sua inadequação a ele ou à periferia que o envolve. Isso é suicídio e só vale caso o professor orientador também seja um suicida em potencial, o que eu duvido. E como nem você e nem o professor em potencial são declaradamente suicidas, faz o maior sentindo você se mostrar confiável, que não vai deixá-lo na mão em nenhum momento do curso. Isso inclui sua capacidade de autonomia na resolução de problemas, caso o professor orientador tenha que se ausentar durante um tempo. Independente de qualquer coisa é importante deixar claro (caso você seja questionado) que você vai entregar as coisas no prazo estabelecido no cronograma do seu projeto, e se possível antes (e você espera que seja antes, que o prazo que você colocou já conta com estes possíveis imprevistos etc e tal). Geralmente a questão tempo é levantada nas entrevistas. A banca vai bater nesta tecla porque há uma pressão institucional em relação a isso. O programa de pós-graduação ganha mais recursos financeiros quanto menos tempo ele gastar com cada aluno inscrito.

4. Argumentação. Seu projeto será questionado no dia da entrevista. É preciso que você saiba dominá-lo integralmente, juntamente com assuntos paralelos ou antagônicos. Quer dizer, se você quer fazer mestrado e doutorado, obviamente você perderá pontos caso não saiba contextualizar seu projeto de acordo com diversas linhas de pesquisa, posicionando-o contra ou a favor etc e tal. O detalhe, aqui, é que os seus argumentos devem bater com os argumentos da banca. Repito, querer mudar o mundo logo no dia da entrevista não é uma boa idéia. E neste ponto é de bom tom reler as dicas acima porque fatalmente uma coisa tem a ver com outra.

A última observação que faço, em termos de entrevista, é básica: diga o essencial. Ou seja, responda consistentemente apenas aquilo que lhe foi perguntado. Não é necessário correr o risco de vender lebre por gato, você pode se embananar todo e se queimar sem necessidade. Tenha bom senso e encare o processo como um jogo cheio de regras. Lembre-se de que algumas destas regras estão escritas e outras são subjetivas. E lembre-se também que a entrada no mestrado e no doutorado envolve relações afetivas e subjetividade. Nada é tão frio assim quanto parece, afinal é nesta suposta relação orientador-orientando que o processo se desenvolverá.

Desta feita, não basta você ser o melhor acadêmico do mundo, mas a melhor opção para o orientador em questão.

Curso Fantasma

Tem professor dedicado que faz apostilas. Cada curso uma apostila. E depois arquiva no seu escritório, paredes forradas com estantes, livros e papéis. Tudo devidamente organizado, etiquetado. Trabalho de alunos em caixas, divididos por turma. Arquivos mortos, arquivos vivos, e arquivos para serem ressucitados um dia. Tem professor que é assim, dedicado. Nasceu para ser professor. Mas até este professor, pra lá de idealista, às vezes não se conforma. Não se conforma mas se vê obrigado a encarar algumas coisas nada bacanas.

Nesta semana foi a vez de encarar um curso fantasma, na cidade onde tudo pode ser fantasma, inclusive funcionários. Naquela coisa do "Quem Indica", sobrou para uma amiga minha dar aulas na pós-graduação. Aquilo de sempre: nunca é exatamente a matéria que a gente compreende, mas que os professores encaram por necessidade, para enriquecer o curriculo e sobreviver neste mar de gente esbanjando seus títulos de doutor disso, doutor daquilo. E já que não aceitar um convite num caso desses é matar a tal da rede de contatos, o networking, lá vai professor estudar de última hora o que vai dar no dia seguinte. É assim porque, evidentemente, este tipo de oportunidade aparece pra ontem e pega todo mundo de surpresa. Professor que é bom disfarça e aluno nem se dá conta. Eu mesma cansei de estudar no carro, a caminho da faculdade, no único tempo de sobra. E também é por isso que pedi demissão. Tem hora que a gente não aguenta dar tantas disciplinas que a gente não gosta e fez questão de esquecer nos tempos idos.

Mesmo com tudo isso minha amiga resolve encarar esta aula na pós graduação. Corre na casa de um amigo e pede material sobre o tema. Cinco livros para ler e compreender em dois dias. A apostila por fazer, filha pequena para cuidar, namorado e uma amiga passando a semana na casa dela, além dos afazeres cotidianos. Dois dias sem dormir e lá vai ela viajar 40km para ganhar pouco, muito pouco. Ela pensou em desistir, por conta da grana, que quase não pagaria a gasolina. Então um outro amigo lembrou a ela que seria bom para o currículo. E nesta, de currículo lattes, lá vai ela buscar um argumento e melhorar um pouco o valor da hora aula. Consegue, mas continua pouco, muito pouco. Em se tratando de um curso fantasma, uma merreca. E lembrar que a coordenadora pediu para que ela não colocasse o nome da empresa em lugar algum, não divulgasse no material que ela andava preparando, deixava tudo entranho, muito estranho!

Tão estranho que, chegando em casa, ela foi pesquisar. Bendita a internet com informações de tudo quanto é tipo. A surpresa veio de xofre, pedindo licença. E quando minha amiga se dá conta, são as contas que estão erradas. Diz o MEC que um curso de especialização deve ter 360 horas-aula em sala de aula, não contadas as horas para a monografia de final de curso, também obrigatória. Minha amiga fora contratada para dar um disciplina toda. Já tinha voltado para casa achando ridiculo uma disciplina toda, em termos de pós-graduação durar apenas 4 (quatro) horas. É ridiculo mesmo, além de parecer suspeito. Mas então o que é suspeito passa a fazer um sentido sem sentido quando a grade horária lhe salta aos olhos na tela do computador. Está lá, bem escritinho para o MEC ler, 40 (quarenta) horas. Em vez de quatro, quarenta. Ela me diz incrédula: "amiga, tudo multiplicado por dez! Tudo aleatório". Eu concluo: "um curso fantasma".

Um receptáculo de dinheiro. Uma compra de certificado, e não de conhecimento. E lá se vai mais de cinco anos de sucesso. A empresa aumentando o número de alunos, ano após ano. A empresa diminuindo o salário dos professores (minha amiga vai receber 50% a menos que o professor que lhe passou a disciplina, motivo do abandono). E depois querem que eu ache que o ensino superior está indo bem, muito bem. Querem que eu diga mais das alegrias e que eu eu dê menos porrada no sistema. Fala sério, quem consegue? Quem consegue calar a boca numa hora como essas? Dizer todas aquelas coisas bonitas entre alunos e professores é saudosismo. Eu tenho disso também, só acho que as coisas deveriam mudar. Afinal, não é por isso que nós, professores, acreditamos no amanhã e buscamos (ou buscávamos - para aqueles que desistiram) a diferença? Que vontade de denunciar o curso fantasma às autoridades, mas e minha amiga, vai trabalhar onde?