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Carta à Prefeitura

Prezadas Marias





Ontem tivemos um encontro muito acolhedor, agradecemos o carinho (se bem que faltou um cafezinho, biscoitos e água ou um suco, mas tudo bem, a gente se virou sem essa porque entendemos que se trata de uma prefeitura. Não, não entendemos não. Não entendemos nada, isso não tem nada a ver, foi falta de tino mesmo, e mesmo para encontro de última hora. Por hora compreendemos a urgência, mas para uma próxima...).

Agradecemos e colocamo-nos à disposição para o que for possível (e como é claro que isso também se trata de um embuste, corrijo: para o que for possível de se fazer naquilo que a gente tiver vontade, e só). Já estamos nos organizando (eu sei, eu sei. Porque tudo ainda está só em pensamento, o mais honesto seria dizer que estamos nos concentrando, mas vocês sabem bem como as coisas são, a gente não pode, aqui, usar verbos contra a nossa pró-atividade porque não nos cairia bem em se tratando de uma mensagem como essa para fino trato, ops, tratado, ops, parceria, ops, negócio, ops, sei lá o quê).

Já estamos nos concentrando para realizarmos as nossas propostas e coisa e tal (para que não haja dúvidas, vou desenhar um pouco este coisa e tal: estamos usando nossos esforços com o foco para o nosso próprio lucro, a nossa marca e coisa e tal. E por falar nisso, lembram-se da atividade que oferecemos em troca? Pois então, este é o verdadeiro motivo de estarmos vos escrevendo, mas como não podemos ser, assim, tão diretas, não encontrei meios mais adequados para terminar este escrito senão o que está por vir). Para as outras (entenda-se nossas) atividades, projetos e idéias, esperamos as coordenadas. (Sinceramente, espero que as senhoras captem este “entre-linhas” que está gritando bem na frente de vossos olhos, e em letras garrafais: ATIVIDADE! ATIVIDADE! NOSSA! NOSSA!)

Atenciosamente (que aqui vai no lugar de “aguardamos um retorno imediatamente, principalmente naquilo que diz respeito à NOSSA ATIVIDADE”),
R&R Sociedade Anônima.

(Ps: também não podemos deixar de registrar que é uma heresia pedir que façamos isso ou aquilo outro com um “mas infelizmente não temos verbas”. Nós sabemos que quando uma prefeitura quer alguma coisa, ela consegue e também sabemos que o mundo não é tão insano tanto quanto parece. E que a política é para os dois lados. Só para esclarecer, nós não temos nada a ver com esse contrato de cavalheiros que diz que prefeitura, e professor, e coisa e tal devam trabalhar em troca de projeção e currículo, apenas. Nós trabalhamos para comer, beber, dormir e trepar num motel de luxo sempre quando quisermos. Por isso, providenciem nossas atividades com máxima urgência, caso queiram que, na próxima, vos agradecemos de maneira mais cordial, e verdadeira).

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Texto produzido para o Letra Corrida. Laboratório de Escrita Criativa.

Prezadas Tu e Ti
Ontem tivemos um encontro muito acolhedor, agradecemos e colocamo-nos à disposição para o que for possível. Já estamos nos concentrando para realizarmos as propostas conversadas. Para outras atividades, projetos e idéias, esperamos as coordenadas.

Atenciosamente
Eu e Ela

Doutor é quem tem doutorado?

Tem coisas que me cansam. Em se tratando da universidade, algumas me cansam mais ainda. Então umas pessoas resolveram pautar que doutor é quem tem doutorado. E apenas quem tem doutorado. E o doutor como sinal de respeito, já era? O doutor advogado, o doutor psicólogo, o doutor patrão, o doutor vereador (tem aquele que o valha), o doutor prefeito (tem aquele que o valha), o doutor padeiro e o doutor motorista de carro diante de alguém pedindo esmola, ajuda ou coisa que o valha? Este doutor aí já morreu só porque, para alguns que não teêm mais o que pensar em termos sociais (como se o país não precisasse de boas idéias para problemas mais emergenciais, como o básico saneamento básico), doutor é quem tem doutorado? Não morreu não, e nem vai porque se trata de um doutor de respeito.

Então eu fico meio puta, ou escandalizada, quando eu vejo pesquisadores doutores, cujo título lhe veio por mérito acadêmico - o que impõe um certo respeito, concordo - brigando por causa pouco nobre ao gritarem pelos quatro cantos do mundo que doutor é quem tem doutorado (acadêmico, insitucional, escravizador) como se isso fosse a briga mais importante do mundo, que vai mudar os padrões sociais e coisa e tal. Só que no paradoxo da coisa, doutor que é doutor assim não merece lá tanto respeito porque isso parece revelar apenas uma vaidade e uma insegurança de mercado. Em último caso eu considero que, talvez, possa ser uma luta para que a sociedade respeite a educação, e coisa e tal, mas isso seria muito ingênuo de minha parte, deixando tudo uma coisa meio tosca mesmo, fadada ao "eu é que sou mais e coisa e tal".

Neste foda-se você sem título, sem estar digno de sapiência sobre qualquer tema, esta briga de classes me parece mais uma heresia. Então eu quero deixar bem claro: cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é. Com ou sem título. E nem preciso lembrar aqui os ínumeros títulos de doutor comprados, a falta de responsabilidade e critérios acadêmicos pouco adequados e coisa e tal, né? É, acho que não preciso.

Formaturas, Colações e Becas

E a semana veio tinindo. Por msn: “Professora, hoje é a nossa colação, a senhora vai, né?” Não, não é. Quer dizer, seria, se eu tivesse sido convidada. Mas não fui. Não foi? É, não fui. E agora é meio tarde pra chorar o leite derramado. Mas professora...

E o meio da semana veio tinindo. Outro msn, outro aluno, outra turma. “Professora, hoje é a nossa colação, a senhora vai, né?” Não, não é. Quer dizer, seria. Já disse isso, não disse? É que na cópia da vida, não fui convidada. Não foi? É, não fui. E agora é meio tarde, você sabe, o leite.

E o fim de semana veio tinindo num repeteco que mais pareceu ser uma piada. Mais um msn. “Professora, posso te fazer uma pergunta, a senhora não foi convidada para nossa formatura?” Não, não fui. Lembra do leite? Pois é, é, pois é. “Culpa minha professora... eu deveria...”

Não, não se culpe. É assim, de vai-vem que a coisa desatina.

E eu não saberia administrar três bailes no mesmo dia, mais o aniversário da minha prima. Coisas da vida. É, coisas da vida.

De qualquer forma é bom saber que a gente não passou a largo na vida de alguns alunos. E, considerando que eu não dou aulas nestas instituições tem mais de ano, a semana foi boa. Gostei.

Alunos queridos e amados, a gente se vê nas becas que o mundo dá.
Parabéns a vocês pela conquista, pelo título e pela maturidade.
E um beijo especial.

Aula 01: O Adeus Docente

Atenção! Silêncio! Rodando!

Primeiro dia de aula, o professor se apresenta. E em muitos casos (na maioria deles?) é como se ele se despedisse. É que a constatação acontece neste dia: "a cada ano que passa vejo que os alunos chegam piores no Ensino Superior", frase de um professor doutor, amigo meu, e que certamente está na boca de outros tantos professores doutores, mestres, especialistas, graduados, normalistas. Meu primo faz estágio, e pegou uma turma de EJA (Educação de Jovens Adultos). Quer largar, diz que se desiludiu, e não é pra menos.

Aula número um: O Adeus Docente.
Ano número um: O Adeus Docente.


E em homenagem à esta educação que já começa falida, fiz este selinho comemorativo:

Pegue e use à vontade!

Nada de Novo

Em 1993 eu fui ao Circo. Mas não foi um circo qualquer, eu fui ver Parlapatões, Patifes e Paspalhões. Fui ver "Nada de Novo" na arena montada no Centro Cultural Vergueiro, aqui em São Paulo.

Certa hora, os palhaços ganharam o picadeiro de uma forma nada nova. Fazendo justiça ao nome do espetáculo, tudo velho outra vez: aqueles abraços que não se encaixam, aquela flor que espirra água em nariz de cheirador, aquelas puxadas de cadeira que faz palhaço cair em vão enquanto o outro ri...

No meio do caminho um texto mais ou menos assim:

- ei
- hum
- você sabe onde a gente está?
- eu sei onde a gente está!
- onde?
- perdido!
- e você, sabe onde a gente está?
- eu sei onde a gente está.
- onde?
- perdido!

Assim mesmo. Uma coisa volta e meia, meia-volta. De um jeito a parecer não quererem ir, de fato, para lugar algum. E se não iam a lugar algum, de fato, estarem perdidos era um lugar de mão e não um lugar de contra-mão.

Ir até a faculdade também não me traz nada de novo. Apenas tudo velho outra vez: os mesmos autores, os mesmos livros, as mesmas pesquisas, os mesmos textos de sempre, agora com outros nomes (excluindo-se o dizer das citações, claro!).

É como se, passados dez anos, o tempo parasse. Mas o tempo não parou e, então, recorro ao cansaço. É apenas cansaço mesmo, de ver o mesmo lugar de sempre, com a mesma idéia de sempre, com os mesmos professores levando suas vidinhas acadêmica de sempre, e que tanto almejo.

Apenas cansaço ou apenas um erro de estratégia. Graduar-me e pós-graduar-me na mesma faculdade realmente pode ser uma faca de dois gumes. E realmente pode me deixar sem opções, apenas com tudo velho outra vez.

Do plural à impluralidade

Nós, el-rei, faço saber que sempre quando leio algo supostamente reflexivo, subjetivo, eu pergunto: e este “nós” do texto? Nós isto, nós aquilo, nós para todo lado. Comprovamos, percebemos, reprovamos, ou: “se for para colaborar com a equipe, nós estamos disposto - no singular, sim! - a tudo, mas eu prefiro a zaga”. Alguém me responde ao fundo: “é plural majestático”, uma estratégia do orador fundir-se em simpatia com seus ouvintes. Para mim soa desagradavelmente pedante: “sermos mulher do rei nos abre muitas portas”.

Mas nós, el-rei, faço saber que o irritante é justamente esta pretensão de se tornar o texto modestamente soberano, só pela desculpa de diminuir a distância entre o rei e o povo, ou apenas para se eximir da responsabilidade do que se escreve quando se brinca de esconder atrás de um plural genérico.

Mas nós, el-rei faço saber que aos céus me reporto, porque como se sabe, no princípio não era o verbo, mas o plural majestático de vosso Deus, vossa Santidade, vossa Autoridade, vossa Senhoria que escreve, e eu, plebéia, quando a vós leio, amém!

Mas nós, el-rei, faço saber que deste cunho me privo e me questiono: há democracia na escrita, ou no retrato da verdade quando esta se encontra direcionada do sabe-tudo (aquele que escreve) para o sabe-nada (aquele que lê)?

E faço saber que, sendo o plural majestático próprio dos reis, imperadores e papas, oradores e políticos dele se aproveitam, para que possam imperar, em supremacia, e para que possam anular o pensamento crítico de um povo. Democracia? Também faço saber que se trata de um plural deselegante, principalmente em textos que se pretendem formadores de opiniões, ao trazerem uma prece marcada por uma entonação de súplica como desculpa para escapar do erro. Senso crítico?

Mas nós, el-rei, faço saber que com o decorrer do tempo este formalismo arcaico assumiu um caráter de algo pomposo e distante. Arrogante mesmo, usar o plural majestático para falar de si mesmo. Faço saber que na idade média até podia surtir em algum efeito, mas hoje não. Hoje faço saber que é muita pretensão utilizar-se de um produto unipessoal para que se possa parecer muitos. Trata-se de uma apelação discursiva ao parecer que o escrevente vira-se, assim que pode, para a pequena história onde se julga mestre. Usa o plural majestático para picar o leitor enquanto fala de sua obra como a última elegante, aquela politicamente correta. No entanto, nós, el-rei, faço saber que, deste modo, textos e letras trazem a sensação de que o escrito não “cola”, pois trazem uma manipulação evidente. Quer dizer: o plural majestático pode até ser interessante, mas, caso não se importe, cada um fala por si, está bem?

Mas nós, el-rei, faço saber que o uso do plural majestático cabe perfeitamente no grau de liberdade de expressão que se atribui a qualquer cidadão e também me permito dizer que esta técnica de se esconder atrás do plural resulta, mas torna-se demasiado óbvia. Faço saber, inclusive, que se trata de um plural que faz sentido apenas às mulheres que estão grávidas, onde o “nós” é o topo de um mundo entre elas e seus rebentos. É que, para elas, a monumentalidade do egoísmo do plural majestático não se confunde com a solidariedade da comunhão com outros. É o que nós, el-rei, faço saber!

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Está escrito no Manual de Redação do Jornal a Folha de São Paulo:
Plural Majestático - uso da primeira pessoal do plural para designar ação ou pensamento realizado por indivíduo ou organização. Não use na Folha.

Leia mais sobre plurais em "Tipo Assim", de Kledir Ramil.

Negociata

Eu estou me sentindo um peixe fora d´água no doutorado, e por diversos motivos. De repente eu me olho e não me vejo, o que me causa certa angústia. Quer dizer, meu orientador, por exemplo, nunca leu minha dissertação de mestrado, e eu nem posso ficar puta, de jeito nenhum, porque eu nunca li nada do meu orientador. Empatamos, mas saímos perdendo.



Eu me olho, e cada vez que me vejo, quando me encontro, tenho a certeza de que estou pagando o preço do amor. Um preço alto até, para um amor que virou ódio, ou algo que o valha quando as fichas começam a cair e você se sente diminuído em seus próprios sentimentos, ou ainda quando você se surpreende com você mesmo e descobre existir dentro da sua alma um doce exercício de vingança. Algo que te faz bem, que te faz rir e que te devolve ao prumo do mundo de seu próprio corpo.

E por causa disso, eu e meu orientador empatamos, mas saímos perdendo. Quer dizer, como é que eu poderia me sentir sendo o assunto principal de um diálogo como este aqui de baixo?

- Por que você está tão interessado que ela entre no doutorado? Já comeu?
- Já, e sou apaixonado por ela.

Não sei até que ponto eu retrato a realidade desta conversa, pois eu não estava lá. E é ruim para uma mulher saber que sua vida foi negociada neste nível. Então eu me questiono, todos os dias, o que é que eu estou fazendo com a minha vida?

Conversas de Botequins?

Quando eu passo pela cantina da faculdade, vejo que as pessoas se cutucam, entreolham-se e dizem: é ela. Depois de três anos, retornar tem um gostinho de volta por cima. Pelos corredores vou em passos maduros e com um leve sorriso matreiro. Vou incongruente ou, pelo menos, vou diferente de como eu ia em tempo de graduação ou mestrado. Sorrio para todos, converso com quem está disponível e nesse interesse desinteressado aproveito para ser um texto e criar um enigma. Conversas de botequim, como as que vejo ou as que escuto quando me dizem da minha vida acadêmica. Eu fico espantada com o tanto de gente que a acompanha:

"Eu soube que você entrou no doutorado, parabéns! Ah, e que você conseguiu bolsa do CNPq, que legal, em primeiro, né? Jóia. Seu currículo lattes, eu vi, muito bom mesmo, você merece a bolsa. Alguém me disse que você estava dando aula na universidade, de basquete, nossa, como você consegue dar aulas para 100 alunos ao mesmo tempo? Tem que ser muito competente. Que pena que você não conseguiu fazer doutorado lá em Santa Catarina, eu estava torcendo por você. Aquela que escreveu um texto com o prof. dr. Fulano de Tal era você, né? Você deve ter adorado participar do laboratório dele. Me conta, é mesmo tudo o que dizem? Você saiu mesmo com aquele professor? Pelo tempo que andam dizendo? Você está tão bonita! Nossa, fiquei sabendo da sua história da banca, eu também teria emputecido..."

E que vontade de olhar para uma pessoa desta e dizer: "seu moço, uma cachacinha por favor".

Consciência Parda



Ah, eu vou lá na universidade onde estou prestando concurso para o ingresso no doutorado dizer que eu sou afro-descendente. Vou resolver logo o meu problema, vou lá dizer que minha bisavó era preta, meu avô mulato e que esta minha cor parda (que é esta cor sem cor) vem misturada com a branquelisse do meu pai, mas que o pai dele era carvoeiro e que, então, veja bem, combina com os critérios socieconômicos e étnicos-raciais determinados por algumas instituições para critério de seleção de vagas em cotas. É, eu vou lá. Eu vou lá dizer que pra mim assim está bom e que eu prometo tomar mais sol para que não reste dúvidas!

E na distração...



No final a gente descobre que as coisas são bem simples (e como!). É como aquela cervejinha que a gente toma fim de tarde com os amigos, de papo pro ar. Lá pelas tantas, uma piadinha para aliviar, distrair, tirar o peso. Desta vez o assunto foi meu ingresso no doutorado, ou a tentativa de.

(amigo) - Um cara de lá disse que o processo seletivo é honesto e muito bem feito.
(eu) - Hum, você não é o primeiro que me diz isso.
(amigo) - Tem análise de currículo e de projeto antes, não tem?
(eu) - Sim, tem uma pontuação de currículo etc e tal. E também sei que tem um cara que estará concorrendo e que tem um currículo melhor que o meu. O projeto eu não sei.
(amigo) - A sua foto deve ser melhor que a do concorrente.
(eu) - É uma baita diferença. Vou de vestido para a entrevista?
(amigo) - Humm, acho que sim!
(eu) - Então amanhã vou sair para comprar um.

Impacto!

PROFESOR, aqui quem fala é seu aluno mudo!

E da série "produção em massa"...

Tá, hoje foi um bom dia, embora eu tenha madrugado ao acordar às 8 horas. O que é quase um disparate, levando em consideração que, comumente, levanto às 13. Não, eu não durmo tanto quanto se possa imaginar, embora eu não me importasse em durmir o dia todo caso o corpo não latejasse. De repente é só uma questão de costume, sei lá.

Mesmo assim, sonolenta, hoje foi um bom dia porque eu fui dar uma paletra sobre Psicanálise e Esporte. E foi ótimo. Quer dizer, não fosse pelo desejo, teria havido mesmo um disparate porque eu repeti a mesma pelestra três vezes: pra turma da manhã, pra turma da tarde, pra turma da noite. É a famosa produção em série do Ensino Superior. Então, na última palestra (ou repetição), vem o coordenador falando:

- olha, no mínimo eu garanto seu certificado, não sei se te serve pra alguma coisa.
- três, respondi eu: um pra turma da manhã, um com nome diferente pra turma da tarde e outro pra turma da noite.

Quer dizer, eu também acho que não serve pra lá grande coisa, mas se o CNPq anda contabilizando os professores eu é que não vou estar de fora. Nesta corrida maluca lá se vai pouco mais de uma centena de certificados, fora aqueles que eu deveria ter e não peguei. É que depois do décimo, ou do vigésimo, ou sei lá em qual número, a gente releva uma ou outra participação em congresso, até mesmo uma palestra meio nada a ver que a gente dá meio por acaso e por conta dos amigos.

Mas nada disso! Hoje eu quero mesmo é ser contabilizada. Quero colecionar certificados! E eu já sei o que fazer com eles quando eu for dona do meu nariz. Eu vou pegá-los, um por um, e vou grudá-los de modo a fazer um grande mosaico na parede do meu escritório (naquele escritório que um dia eu vou ter naquela casa que um dia eu vou construir quando eu começar a ganhar mais do que 25 reais a hora-aula). Tipo découpage (é que recorta e cola agora tem nome francês). Sim! Vou passar cola, um por um, e vou grudá-los aleatoriamente na parede. Uma galeria, de libertação talvez. Uma instalação artística ou um protesto silencioso, talvez.

Depois eu vou passar um verniz por cima para envelhecer o papel (amarelá-los) e para contrapor ao tom do verde que vai estar na parede. Vai ser legal porque vai dar jogo com os móveis (madeira nobre, ecologicamente extraída da natureza) e com as estantes onde estarão alojados meus livros. E também vai combinar com o painel em macramé (trabalho feito com nós, fios, barbante e cordas) que eu estou imaginando fazer para cobrir a janela e tapar um pouco a luminosidade do sol. Até com a tapeçaria vai combinar, e com a poltrona de leitura, esta feita de couro envelhecido, tingido de vermelho.

Então eu deixarei de ser mais um número, de ser contabilizada.

A parte chata



Talvez eu devesse ter escrito este post ontem, com as emoções à flor-da-pele. É que agora eu pareço mais seca do que emotiva. O olhar paralisado, distante. E já esqueci parte do conteúdo da conversa que vou relatar, restando apenas aquilo que me marcou, que pegou forte no meu peito e que me fez chorar. Por conta disso posso ser injusta ao mostrar apenas um lado da moeda, o meu. Mas este blog é público. Está aberto para que esta outra pessoa se coloque do outro lado, o que iria ser legal demais. Maduro. Interessante.

E na velha história sobre a banca (ver post clicando aqui) ...

Toca o celular. 8:30. Manhã de sexta-feira, uns dois meses atrás. É o tal do professor dizendo que havia chegado a hora de conversarmos. Sim, assim que possível. Desculpou-se pelo horário, mas ele estava partindo para uma viagem e só voltaria no fim da outra semana, etc e tal [interessante esta estratégia de me deixar uma semana esperando, pensativa]. Esperei que ele retornasse para devolver a ligação e, assim, marcarmos o local do encontro [é claro que eu estava curiosa por saber o que ele gostaria de me dizer]. Olha, eu estou com uma gripe, não vai dar pra gente conversar agora, quando eu puder eu te ligo. Entendi a mensagem e desencanei de novo. Foi rebate falso, ele não tinha nada para me dizer. Um mês depois toca o telefone. A mesma história, que poderíamos almoçar e conversar [então ele tinha mesmo alguma coisa pra dizer, que legal!]. E ficou para a ocasião do Congresso. Eu até tentei adiantar, para tirar esta conversa da agitação, do lobby. Liguei para ele, mas não deu certo.

E no Congresso...

O primeiro dia passou e ele não ligou. É claro que eu já tinha me dado conta de que o almoço teria dançando, que a conversa ficaria para a casualidade do encontro, inevitável quando duas pessoas freqüentam o mesmo ambiente e que têm os mesmos interesses acadêmicos. Sessão de Pôsteres [esta, um detalhe à parte, escreverei em outra ocasião]. Avistei ele de longe, e respirei fundo. Me puxou de canto, e fomos ter a tal conversa para trás do biombo.

- Sabe Fernanda, eu fiquei pensando no que eu tinha para falar pra você, mas eu não tenho nada para dizer. Acho melhor a gente deixar tudo como está, cada um na sua [mas com alguma coisa em comum?].

Eu estava incrédula. Quer dizer, o cara me tirou do meu todo dia por dois meses (é, eu estava quietinha no meu canto, sem mexer em ferida alguma, "de boa", como dizem meu alunos) para dizer que não tinha nada a me dizer? Bom, não faltaram oportunidades dele me dizer isso por telefone, ou por e-mail, ou por um porta-voz, sei lá. E o que eu poderia falar numa hora dessas? Nada, nadinha. Então ele continuou:

- Você me fez muito mal. Você me fez muito mal mesmo, como poucas pessoas fizeram comigo. Eu não sabia que você achava um monte de coisas de mim [de que coisas será que ele estava falando? Para não ser injusta, prometo voltar aqui depois e escrever sobre o que eu penso dele. Registrar, com firma reconhecida em cartório e tudo, para acabar com as dúvidas].

Eu me lembro de ter dito que gostava dele (mas internamente não me senti bem). Eu queria saber que tipo de mal eu fiz para ele, porque até onde eu sei, eu apenas questionei uma decisão que ele tomou e a forma como ele fez isso. Mas de repente eu estava lá, olhando para um homem cansado, envelhecido, se sentindo tão magoado quanto eu me sentia. E eu me senti meio mal por eu estar me sentindo bem, apesar da mágoa. É que de repente eu me dei conta de que minha vida não está tão pesada e eu tenho me sentido forte, dona de mim mesma, viva.

Alguém chegou e nos despedimos, passaríamos uma borracha por cima. Foi uma escolha dele e quando ele me perguntou se eu queria dizer alguma coisa, eu apenas concordei em nos apagarmos, mesmo querendo ter dito um monte de outras coisas, saber exatamente qual foi o mal que provoquei (para esclarecer os desentendimentos) e também saber exatamente o que ele achava que eu achava dele (para esclarecer os equívocos).

Me virei para ir embora e dois segundos depois as lágrimas rolavam pelo meu rosto. Só Deus sabe o quanto este homem foi importante na minha vida, o quanto eu o admirava, o quanto eu gostaria de ter me doutorado ao seu lado. Mas dez anos depois de termos nos conhecido, este cruel "bye bye, so long, farewell". Então é assim mesmo, nós nos descartamos, apertamos a tecla del e passamos a pensar no quanto a vida vai parecer mais fácil daqui para frente. No quanto os nossos valores acadêmicos são diferentes, já que o almoço do meio-termo não existiu. No tamanho de nossas ilusões um com o outro e no jeito estranho deste "adeus, a gente se cruza por ai".

A parte legal

Todo Congresso tem a parte chata, e a parte legal.




Que bons ventos, estes que me deixaram cara a cara com o Prof. Laércio. Que prazer em conhecê-lo e que excelente oportunidade ele está me dando (sim, eu vou correr atrás!). No primeiro dia fomos juntos ao Congresso, depois de uma breve reunião aqui em casa. E lá foi ele me apresentando - aqui e acolá - para uma gente boa demais.

Eu até cheguei a gozar (no sentido psicanalítico do termo) quando o Prof. Antonio, uma simpatia, disse que a psicanálise é diferente da psicologia. E outro cara prazeroso de se conhecer, foi o Puga. O Prof. Puga, um lobista tão pé-de-chinelo quanto eu. Tá, vai. Ele é bem melhor do que eu, devo admitir. E foi gostoso demais andarmos de lá pra cá, de cá pra lá. De vento em popa. Daí apareceu o Guilherme, carioca. Divertido. E fomos para o SESC Pinheiros assistir o Antonio Nobrega. Puxa, que dia maravilhoso este de ontem, obrigada! E ainda teve a Melina, com seu toque especial, com sua vontade de fazer as coisas sairem do lugar. Empolgante!

Teve também meu orientador de mestrado, que delícia reencontrá-lo, que abraço gostoso. De repente eu percebi o quanto eu teria aproveitado melhor o mestrado se o estivesse fazendo hoje, que estou mais madura e um dedinho menos selvagem. Um dedinho só, mas já é um bruta diferença. Daí eu achei que o cara deveria saber disso, então contei. E sei que ele entendeu o tamanho deste agradecimento. Um cara bom demais, que tem uma filhinha linda. E que me ensinou muito com sua paciência e generosidade. Do tamanho de um bonde, a generosidade. Eu fiquei extremamente feliz, primeiro por ele levar ao Congresso o tema da psicanálise e, depois, por ter me citado em sua palestra. Que honra! Pedro, você está no meu coração e eu estou sem palavras. Obrigada por fazer parte da minha vida, por acreditar em mim academicamente (e na importância que isso traz).

Laércio, obrigada por ter dito meu nome no microfone, durante sua fala. Duas vezes num mesmo Congresso? Eba!!! Eu tô ficando famosa, seja lá o que isso represente (meus 5 minutos de fama). Mas que faz um bem danado pro ego, ah, isso faz!

Hierarquia Cômica

Estes e-mails que recebo da coordenação me faz pensar que, de fato, o que vem debaixo não me atinge. Mas o que vem de cima, em compensação, deveria cair feito tonela em cima da minha cabeça. No começo caia mesmo, mas depois eu fiquei esperta (será?) e passei a desviar. E neste jogo de cintura, não é que a coisa toda começou a cair na cabeça dos alunos?

Então eu proponho que se inverta. Quer dizer, o que sobraria de tudo isso, se os alunos também passassem a desviar? Porque quando a coisa bate no dinheiro, reflete. Sobe em vez de descer e o que viria debaixo passaria a incomodar. O aluno aqueceria a bunda do professor (nos casos em que o professor é relapso, claro!). O professor, então, faria esquetar a bunda do coordenador; e este do diretor; e este do reitor. E tudo ia ficar tão quente, mas tão quente, que todos seriam obrigados a tirar a bunda da cadeira, para sobreviverem. Todos mesmo, inclusive os alunos. Tá, e os professores. Os coordenadores, os diretores, os reitores.

Sei que incluo neste pacote de bundões alguns bons alunos, excelentes até. Alguns bons professores, bons coordenadores, bons diretores, bons reitores. Excelentes, inclusive. Sempre tem gente, uma minoria, que pensa diferente do é "assim mesmo" e fazem mais, muito mais do que ficar com sua bunda grudada na cadeira. A estes eu sugiro que andem com uns espetos bem afiados para estarem sempre aptos a darem agulhadas em quem for preciso: nos colegas alunos, nos colegas professores, nos colegas diretores, nos colegas reitores. Em quem está em cima, em quem está embaixo.

Mas estes, que não são bobos nem nada, não querem queimar o filme, e seguem no limite. Ficam, como eu, entristecidos por não conseguirem fazer mais. Ou por não saberem como poderiam fazer mais. E tudo volta para as mãos dos alunos. A idéia de criar um Centro Acadêmico, a idéia de serem reconhecidos, de se tornarem líderes é mesmo muito bacana. Daí os professores teriam que fazer mais do que fazem, e os coordenadores também. Os diretores e os reitores.

Então a gente descobriria que o povo também poderia fazer mais, porque eles são a grande maioria. O que vem debaixo poderia subir tanto e espetar tanto que seria uma loucura maravilhosa. E tudo isso só porque não seria mais preciso acreditar que "é assim mesmo, o país".

Mais um semestre...



É, o veranico acabou. E com ele, as férias. Um pouco frustrante passar as férias de inverno longe do vinho, do fondue, da sopa na casca do pão italiano, do chocolate quente no alto da Serra da Cantareira ou do filminho debaixo das cobertas.

Na segunda-feira o inverno bateu, chegou com tudo, com chuva inclusive. Bom pro filminho! Mas que nada, sai da frente que as aulas também chegaram, e com tudo. É uma tal de grade horária, dividir turma, quadra, aluno e uma vontade louca de clonar professor porque a instituição, coitada, anda sem verba para contratar gente nova. Telefone, telefone, telefone! No meio da tarde desliguei o celular e no começo da noite lá estava eu no trânsito maluco da av. Ibirapuera, questionando-me se seria melhor eu estar a caminho da Serra, pro chocolate quente e um bom papo de inverno. Encontro programado pro sábado e estão todos convidados!

Antes, porém, eu queria dizer a todos, Benvindos! E vamos em frente, com textos novos, gente nova, gente velha, gente boa de mais! Todos vocês que participam, que escrevem, que comentam, que passam rapidinho só para dar uma olhadinha, todos vocês, gente boa de mais! Só tenho a agradecer e dizer sorrindo, junto a minha taça de vinho, um até breve!

Minha doce vida de estudante...

Ontem eu estava arrumando meu armário e encontrei meus boletins escolares. Antes de começar, quero dizer que sempre fui uma aluna exemplar, ou seja, nunca repeti de ano o que foi muito bom. Na verdade eu desisti no segundo colegial com a desculpa de que não estava dando para conciliar os estudos com as atividades esportivas. Acabei completando a série no ano seguinte, em outra escola. Foi meio chato imaginar que eu já poderia estar no terceiro ano, e no terceiro ano foi mais chato ainda ver meus amigos indo para a faculdade.

Eu nunca tinha imaginado que algumas características poderiam seguir comigo por tanto tempo. Lá no jardim da infância (1981) a professora anotou um pouco de desatenção e um pouco de displicência (meu Deus, que palavra feia!). Tá, não é nada fácil manter a atenção na escola, sei que vocês vão concordar comigo, mas displicente, eu?, é quase uma injúria. Pelo menos eu gostaria que fosse. Então lá fui eu para pré-escola, acho que só para a professora anotar no meu histórico: "às vezes brinca isolada". Até hoje sou assim, me deixem quieta no meu canto quando eu suplicar por isso, depois passa e tudo bem.

Cheguei no 1º grau (1983) e eu passei a ser medida em valores, não mais em conceitos. Minha nota mais baixa: 8.0, em matemática. A mais alta: 9.8, em Educação Artística. No ano seguinte as notas caíram cerca de meio ponto, um pouquinho mais: 7.4 em Integração Social (talvez eu já quisesse que parte do mundo explodisse) e 9.0 em Educação Artística. Depois mantive os 9.0, mas dei uma escorregadinha no português: 7.0. Daí eu entendi o sistema e no outro ano estudei o suficiente para passar, com todas as notas beirando o 6.5, excessão feita aos 9.0 pontos em Educação Artística, sempre a nota mais alta e sempre me acompanhando com o passar dos anos. Por que eu fui fazer Educação Física? Taí, esta é mesmo uma boa pergunta!

Na média fui indo até a 7ª série, quando peguei meu primeiro exame. História. Passei, mas só depois de decorar (literalmente) o livro didático. No ano seguinte foram cinco matérias de exame: história e as novatas português, inglês, matemática e OSPB (que nem existe mais). Passei em todas! (Eu disse lá no começo que eu sempre fui uma ótima aluna - risos).

Enfim 1990, o primeiro ano do segundo grau e cinco matérias de exame: história (que eu ainda odeio), inglês (que eu ainda tento e não consigo), matemática (que eu adoro), física e biologia (que não fazem nenhuma diferença na minha vida). Passei em história e física, nas outras três fui aprovada pelo conselho de classe (ainda bem que existia um!), o que vem confirmar que, de verdade, eu sempre fui uma ótima aluna, ou, no mínimo não enchia a cabeça dos professores, o que foi perfeito.

Larguei o segundo ano (1991) para fazê-lo por inteiro no ano seguinte, numa escola mais fácil e onde minhas notas ganharam peso. Eu consegui fechar com A de matemática em todos os bimestres e meus novos amigos começaram a me pedir cola. Acho que foi aí que comecei a gostar de estudar, quando comecei a perceber que eu poderia dar certo também fora do esporte ou das aulas de desenho. Nem todo mundo tem a oportunidade de começar de novo. E eu tive mais um ano de barzinho (ops, cursinho) para entender isso. Lembram daquele exame de português? Se tranformou em uma excelente nota no vestibular da UNESP: 9,0.

Tá, eu sempre gostei de escrever, e sempre escrevi do meu jeito. Se as notas servem pra alguma coisa, sinceramente eu não sei. Sei que eu me dediquei na faculdade, e mesmo com muitas dificuldades em biologia, fisiologia, anatomia, cinesiologia, bioquímica consegui terminar o curso com média superior a 7.0, que era o fator que eles levavam em conta para Iniciação Científica e pedido de bolsas de estudo, na famosa análise do histórico escolar.

Esse é o jogo, e nesse jogo a gente pode jogar o suficiente para passar ou a gente se esforça para ser diferente, enfrentando todas as dificuldades latentes, tentando ser melhor do que a gente foi antes e fazendo de novo quando for preciso. Tudo isso só para a gente mostrar nosso valor, mostrar que estamos no jogo sim, e que estamos para vencer e não apenas para cumprir tabela.

Entre um e outro, entre professor e aluno...

Aprendi com a psicanálise que o jogo se joga no entre, e não do professor para o aluno. Entre eles. É a tal da transferência, uma coisa maluca que pega direto no inconsciente, tanto do professor quanto do aluno. Em uma época em que a informação está em todos os lugares e que chovem trabalhos "ctrl/c -ctrl/v", resolvi apostar minhas fichas no entre mesmo, apoiando, mostrando novas possibilidades, falando da vida. Daí um aluno veio de mansinho, queria que eu indicasse caminhos para a carreira acadêmica etc e tal. Vai lá, pouco tempo depois, estou aqui para brindar seu primeiro pôster em congresso científico.

Parabéns Renato!

Memorial

Lembram daquela coisa que eu sempre digo, dos alunos deixarem de ser a piada do dia? Ou então quando eu prefiro que eles sejam sujeitos e não objetos? Na matéria de Metodologia de Pesquisa eu solicitei que eles escrevessem seus memoriais acadêmicos, para se tornarem sujeitos. E não era tarefa obrigatória. Transcrevo abaixo uma frase de cada memorial que recebi, na certeza de que estes alunos deixarão de serem a piada do dia.

"A profissão de marceneiro exerço até hoje em uma escola de menores carentes. Chegando nesta escola a diretora pediu para eu ficar com as crianças na entrada e na saída dos alunos e recreação. Percebi que tenho muito jeito para lidar com crianças, mas jamais me passou pela cabeça entrar em uma universidade (...)."

"Como minha irmã também havia decidido fazer Educação Física, então iniciamos juntos o curso."

"Alguns dias antes do começo das aulas me ligaram da faculdade dizendo que não haviam aberto o curso de turismo por alguns motivos, e perguntaram se eu queria mudar de unidade ou de curso. Sem pensar duas vezes eu mudei para Educação Física para ver no que ia dar, e deu que hoje, em 2006, eu trabalho na área. sou professor de natação, adoro meu curso, não me vejo fazendo outra coisa (...), acho que desde o começo tudo me levava à Educação Física, mas foi preciso algo maior para me fazer enxergar isso."

"No meu primeiro dia de aula quando entrei pela primeira vez em uma faculdade fiquei maravilhado com o tamanho da instalação do lugar, me sentia a menor pessoa do mundo e o relógio neste dia passou muito rápido."

"Quando começou o curso eu não estava muito animado porque fiquei um bom tempo sem estudar, mas hoje posso dizer que estou muito satisfeito com o curso e não me arrependo nada de ter entrado na faculdade."

"Hoje a única coisa que eu lamento é não ter começado mais cedo a fazer o curso, e assim adiquirir experiência profissional, e ter vivenciado mais (...). Vendo professores com minha idade, hj tenho muita vontade de trabalhar na área."

"Estou gostando do curso, podendo utilizá-lo futuramente dentro da minha profissão e podendo me trazer melhores benefícios na carreira."

"Agora em um futuro próximo, assim eu espero, eu pretendo ser um profissional bem conceituado no mercado, não sendo que nem meu professor de natação [ou] que nem o técnico de futebol que tive, mas sim, sendo que nem meu professor de Educação Física na escola, que me incentivava e me colocava de exemplo para os outros alunos. Hoje eu entendo o porque disso: era uma forma de me mostrar que era capaz de ensinar outros sem saber que estava fazendo isso."

"Os professores que tive no colegial não eram muito interessados em dar aula não. No meu ponto de vista só queriam ganhar seu dinheiro no final do mês, mas agora na faculdade tive a convicção que seria e vou ser profissional porque comecei a estudar mais sobre a área e a me interessar mais."

"Diante destes fatos estou (...) levando o estudo mais à sério, realizando meu desejo profissional e o da minha mãe, que é ver o filho dela formado em uma universidade."

"Como faço dança há quase 10 anos, todos falavam que eu deveria fazer algo ligado à essa atividade que tanto amo."

"Gosto muito da faculdade, tirando que ainda tem alunos que acham que estão na 8ª série, que só sabem atrapalhar os outros, que não se comportam como pessoas normais."

"Vinda de uma família simples tive uma boa educação e acredito que isso foi primordial para minha formação e para ser o que sou hoje."

"Na escola em que trabalho fui reconhecida e aumentaram meu salário, tudo que eu precisava para ficar tranquila, pois sabia que com o salário que ganhava não iria resistir por muito tempo e ia chegar o momento de desistir (...)."

"(...) quando estou dando aula me sinto bem, pois vejo a alegria dos alunos e como faz bem para saúde e pro psicológico das pessoas a atividade física."

"O meu futuro profissional será muito promissor, pois tudo que me proponho a realizar faço com todo carinho e dedicação e quando já não estou mais satisfeita com algo procuro não atrapalhar a quem tenta se empenhar para mostrar seu melhor."

"Enfim, minhas expectativas futuras é de me tornar um bom profissional e com isso fazer valer todos esses anos de estudos, lembrando sempre que o tempo não pára e devemos aproveitar todas as oportunidades que nos são concebidas, por isso faço sempre o que gosto."

"E quando se completarem 10 anos eu quero estar completamente satisfeita com minha vida profissional, para assim poder fazer mestrado e ter a oportunidade de ensinar outras pessoas que tenham a mesma vontade que eu, de poder ajudar o desenvolvimeto de quem precisa e poder capacitá-los no seu início de carreira como eu estou hoje."

2º dia - o naufrágio



É, a chuva do primeiro dia continuou até a manhã do meu segundo dia na instituição. Tempestade mesmo. Claro, saí super cedo de casa, não tinha alagamento nem nada. Cheguei na faculdade parecendo um zumbi, quase 50 minutos antes do inicio das aulas. Eu, que odeio acordar cedo, um zumbi num campus deserto. Meia hora depois fui até a sala dos professores, ninguém. Acendi a luz e por lá fiquei. Dez minutos depois encontrei com o coordenador, que também é o responsável pela disciplina que lecionaremos. Às 7:30, inicio da aula ele me disse: "espere a outra professora chegar e vocês juntam os alunos que estiverem por aí e falam alguma coisa". Cumpro ordens. Oito horas e a professora não apareceu. Uns alunos foram me procurar, queriam pintar os bichos. Conversamos um pouco. Oito e meia e nada. Os alunos voltam dizendo que um professor resolveu dar aula pro primeiro ano. Conversamos mais um pouco, como se eu estivesse apenas fazendo sala. Nove horas e nada. O professor do primeiro ano libera os alunos. Nove e meia decido ir até o Recursos Humanos. Na volta, quase dez horas vejo a professora estacionando o carro. Ela me pergunta: "tinha aluno aí?". Dez e pouco vamos todos ao Centro de Convivência tomar um café. Quase uma hora depois estou voltando pra casa me sentindo uma inútil ou como se eu não precisasse acordar tão cedo para um dia como esses. Naufrago em meus próprios pensamentos, aqueles, os éticos.