Trabalho e Tédio - em "A gaia ciência"

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Eu brinco com as pessoas dizendo a elas: "Nunca ninguém me perguntou se eu queria trabalhar!". E elas me respondem: "A vida é assim mesmo!". É quando eu tenho a certeza de que alguns conceitos devem ser desconstruídos, ao passo que, para mim, o trabalho tem outro conceito, associado ao prazer, obviamente, para que saia dele a característica de penoso, de doloroso. Outro dia um cara me devolveu a pergunta: "Mas você quer trabalhar?", e eu respondi: "Assim, do jeito que a sociedade capitalista impõe, não!" Daí, como eu esperava, o óbvio apareceu: "Mas como você vai sustentar sua casa então? Os filhos ...". Sim, eu estou cansada dos pensamentos comuns. E, na minha busca por pensamentos diferentes, para novas reflexões, encontrei esta passagem no livro "A gaia ciência" de Nietzsche:

"TRABALHO E TÉDIO - Buscar salário pelo trabalho - nisso quase todos os homens dos países civilizados são iguais; para eles o trabalho é um meio, não um fim em si; e por isso são pouco refinados na escolha do trabalho, desde que proporcione boa renda. Mas existem seres raros, que preferem morrer a trabalhar sem ter prazer no trabalho: são aqueles seletivos, difíceis de satisfazer, aos quais não serve uma boa renda, se o rabalho mesmo não for a maior de todas as rendas. A esta rara espécie de homens pertencem os artistas e contemplativos de todo gênero, mas também os ociosos que passam a vida a caçar, em viagens, em atividades amorosas e aventuras. Todos estes querem o trabalho e a necessidade, enquanto estejam associados ao prazer, e até o mais duro e difícil trabalho, se tiver de ser. De outro modo são de uma resoluta indolência, ainda que ela traga miséria, desonra, perigo para a saúde e a vida. Não é o tédio que eles tanto receiam, mas o trabalho sem prazer; necessitam mesmo de muito tédio para serem bem sucedidos no seu trabalho. Para o pensador e para todos os espíritos inventivos, o tédio é aquela desagradável 'calmaria' da alma, que precede a viagem venturosa e os ventos joviais; ele tem de suportá-la, tem de aguardar em si seu efeito: - é justamente isso o que as naturezas menores não cnseguem obter de si! Afastar o tédio a todo custo é vulgar: assim como é vulgar trabalhar sem prazer. Algo que talvez defina os asiáticos, em relação aos europeus, é fato de serem capazes de uma mais prolongada e mais profunda calma do que estes; mesmo seus narcóticos agem lentamente e exigem paciência, ao contrário da repulsiva rapidez do veneno europeu, o álcool."

Quer dizer, não adianta eu chegar na faculdade e responder ao sistema, pois não sou civilizada. Sou selvagem e não pretendo me domesticar, não academicamente, não por enquanto (o que dói admitir!). Quando eu for obrigada a me prostituir, e o caminho não tiver volta, nunca mais, vocês saberão.

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Anônimo disse...

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