A aula eterna

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Eu queria escrever uma narrativa aqui. Eu queria escrever uma mônada beijaminiana, um fragmento que se tornasse completo, mesmo que para adiante continuasse apenas sendo um pedaço de coisa.

Um pedaço de aula, para sempre. É sobre isso que eu quero dizer. Sobre a diferença, sobre o professor que faz cada minuto de sua aula parecer a hora do cafezinho. Aquela hora que passa e ninguém vê, que gera susto quando chega ao fim.

Ontem a frustração foi evidente. Ficou estampada no rosto de todos os alunos quando a professora sentenciou: já são cinco horas. Naquele momento eu quis gritar a tamanha saudade que se instalava em mim, e eu sabia que seria para sempre. Talvez a saudade tenha se instalado nos meus colegas também, porque ninguém fez aquilo que aluno sempre faz quando toca o sinal, que é jogar-se em sua bolsa, mala ou mochila e ir-se embora em busca de um tempo perdido.

E aluno é mesmo assim, quando percebe que o horário de ir está chegando, começa logo a guardar o caderno, a caneta, o bloco de anotações, as folhas, os livros, os textos xerocados, e faz tudo isso bem na cara do professor, de preferência, como se para ele dissesse: se liga, cara, tenho coisa melhor para fazer!

Mas ontem nenhum aluno se lançou fora da aula, após seu término. Coisas da pós-graduação? Pode ser. Ninguém se levantou, nem acreditávamos. Em nós, apenas uma sensação de vazio e a vontade de que, enfim, o tempo pudesse parar. Alguém quebrou o silêncio provocado pelo choque. Foi um alívio saber que a aula continuaria mesmo depois do seu fim. Quarenta minutos a mais, até chegar o ponto final.

Enquanto guardávamos nossas coisas, falávamos, falávamos e falávamos. Como se pudéssemos fazer daquele um momento para sempre, como se tivéssemos acabado de nos encontrar na hora do cafezinho, convite extendido também para a professora. Que delícia de professora (no bom sentido, claro!), viva no meio das rodinhas, das conversas paralelas, diminuindo a sensação da perda do tempo que estava se indo.

Conseguimos nos despedir quase uma hora depois. Indo para casa, apenas a certeza de que uma aula pode fazer a diferença, pode ser para sempre.

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