de cima pra baixo

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Enquanto eu vejo alguns colegas achando injusto a nota do programa de pós-graduação no qual estou inserida cair de 5 para 4 (num máximo de 7), eu vou somando negativamente os fatos. Acho que a minha conta até bate com a conta da Capes, do CNPq, do MEC, do Guia do Estudante e do que mais for contabilizador, medidor, avaliador, classificador, istaurador de um parâmetro comparativo com o que for. É preciso comparar sim, saber dos nossos pares e das relações políticas aí envolvidas. É preciso contextualizar, saber onde estamos inseridos e para onde pretendemos ir. E é preciso tudo isso porque é preciso fazer parte. É preciso pertencer e eu quero existir academicamente. Fazer sentido. Fazer diferença.

Tem 11 anos que eu estudo na mesma instituição. Graduação, Mestrado e, agora, Doutorado. Só que eu não estudei apenas nesta instituição. Perambulei por outras, em diversas áreas, cursos, institutos, faculdades. Fome de conhecimento. Necessidade de ir além, de contextualizar. Experimentar e poder comparar. Enriquecer os pensamentos com pensamentos contrários, distantes, próximos, diferentes, a contra-gosto. Compreender que viver academicamente num lugar só não é suficiente, é arreio de burro. Compreender que tudo aquilo que gira em torno do próprio eixo amargura a impossibilidade de se parir outra coisa, qualquer coisa que faça ir por onde não se foi. Compreender, enfim, o que fez a nota cair de 5 para 4, inclusive.

Cai a nota e lá vem aquele que está em cima cobrar quem está embaixo, fugindo das cagadas administradas. Foram anos sacrificando os mais fracos: corte de bolsa, compensações idiotas do tipo "ou você publica ou você está fora do programa" e por ai vai, a corda sempre explode em quem é menos. Explodiu comigo no mestrado. Para darem uma "guinada" no programa, fizeram uma limpa e todo mundo perdeu a bolsa quando virou o ano. Perdemos a bolsa mas o programa se enquadrou e teve sua nota aumentada de 4 para 5. Brilhante! Mas foda-se quem está embaixo. É quem está embaixo que se vê obrigado a escrever artigos de nível internacional para salvar a pele de quem está em cima. É quem está embaixo que, no Programa de Estágio Docente, dá a aula de quem está em cima. O de cima (orientador) manda e o de baixo (orientando) obedece numa negociata sem fim. É! Quem está embaixo tem mesmo é que dar pra quem está em cima. Por isso faz tanto sucesso uma rede endogâmica no Ensino Superior.

Agora a corda explodiu. A nota caiu de 5 para 4. E eu fico cá pensando com meus botões na obviedade da coisa. Quem está embaixo cansou de se foder, será? Ou foi mesmo esta política infantilizada do tipo gugu-dadá que ferrou de vez a coisa? Quer dizer, até quanto tempo os caras lá de cima acharam que a coisa "olha, eu sou o dono da bola" e eu tiro o doce da criança quando eu quiser iria funcionar num sistema um pouco mais amadurecido? E, convenhamos, a Pedagogia da Opressão já foi contestada tem tempos. Não cola mais. Quem está embaixo cresceu. Alôooo! Num sistema falido, onde o valor negociado é apenas um diploma, o exemplo daquele que está em cima é seguido à risca. Afinal, se o de cima não faz, porque é que eu, que estou embaixo, haveria de fazer? Então, aquele que está embaixo (e que só quer mesmo o diploma) liga o foda-se, descobriu que não é muito bom para este tanto de contabilidade ter, num programa de pós-graduação, alunos que se vão antes de terminar a dissertação ou tese. A nota cai. Rá! Viva a corda-bamba. E não é que o de baixo acaba tendo mais poder do que o de cima?

Eu sinceramente não me assusto com a contabilidade suicida do sistema acadêmico. Poderia enumerar uma série de situações sem sentido, e algumas delas não éticas, que fui submetida à contra-regra. E quando a coisa vai à contra-regra o bicho pega mesmo. Na veia da ética, da moral, da credibilidade etc e tal. É quando a coisa vira estupro e aquele que está embaixo acaba dando mesmo sem querer. Com o tempo se acostuma e se prostitui. Ou se prostitui mesmo sem se acostumar. O preço que se paga. E de cima pra baixo a nota cai. É o be-a-bá da coisa.

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